Puros Sangue
4 Capitulo 3
Damian fitava a escuridão do quarto, enquanto pensava sobre todos os acontecimentos de hoje. Tudo estava tão confuso para ele, para a irmã. E nada tirava de sua cabeça que Luna sabia de tudo, por falar nela, ele lembrava-se da tia conversando com o homem das sombras — como ele decidiu chamá-lo — e como ela parecia má.
Logo em seguida, uma luz dominou seu quarto, fazendo-o piscar várias vezes, ele finalmente conseguiu abrir os olhos, e deparou-se com Alicia parada em sua frente, vestindo a mesma camisola branca dos outros sonhos, ele agora sabia que era ela, mesmo que seu rosto ainda estivesse envolto de uma luz branca que só se deixava transparecer os olhos cinzas.
" Oi Damian." — Ela falou.
" Como entrou aqui?" — Damian perguntou, sentando-se na cama.
" Sinceramente, não foi difícil!" — Ela sorriu.
" O que você quer?" — Ele perguntou.
" Quero te ajudar." — Alicia respondeu.
" Por que?" — Damian perguntou, o semblante dela, de descontraído, mudou-se para tristonho.
"Damian, você e sua irmã estão correndo perigo!" — Ela dissera.
" Perigo? Que tipo de perigo?" — Damian perguntou confuso.
" Um grande. Um planejado a muito tempo atrás, planejado antes de vocês nascerem..." — Ela dissera.
" Quem planejou?" — Ele perguntou, decidido a entender o que estava acontecendo.
" Isso é uma longa história, uma que não vou explicar essa noite por que não temos tempo." — Ela retrucou. -" Preciso ir..."
" Não, não ainda..." — Ele levantou, segurando-a pelo braço. Ela olhou para as mãos de Damian segurando-a pelo braço. -" Você não é Alicia de verdade, não é?!" — Ela sorriu negando com a cabeça. -" Então quem é você? Isso é impossível!"
" Coisas impossíveis estão acontecendo com você e sua irmã agora. E elas não vão parar!" — Ela retrucou.
" Não, isso é um sonho... Tudo isso. Na verdade, está mais para pesadelo. Mas não é real." — Ele levou as mãos a cabeça, confuso e exasperado.
" Tem certeza disso?" — Ela lhe ergueu a flor da outra noite que estava sob a cômoda, escondida atrás de livros. A mesma flor branca que ele havia encontrado no meio da floresta. Ele fitou-a. -" Preciso ir. Não se esqueça, cuide de sua irmã." — Ela sorriu, sumindo como fumaça.
Damian observou a flor branca em suas mãos, e perguntou, dessa vez, não sobre sua sanidade, mas sobre se o que estava acontecendo era mesmo real.
De manhã, Damian já se questionava sobre tudo que havia visto e ouvido nos últimos três dias. Ele bateu no quarto da irmã, quase desesperado.
Willa esfregava os olhos quando abriu a porta para o irmão, ele parecia surtado.
" O que houve?" — Willa perguntou, Damian encostou a porta.
" Alicia. Ela apareceu no meu quarto." — Damian falou.
" O que?" — Willa sorriu.
" Mas ela, não era ela de verdade. Era só o corpo dela." — Ele retrucou.
" Tá bêbado?" — Willa sorriu.
" Eu tenho sonhado com ela... Há pelo menos um mês." — Damian declarou, Willa agora sorriu sem humor, um sorriso assustado. Algo dentro dela, lá no fundo, acreditava no irmão, mesmo que seu consciente lhe dissesse que era mentira.
" Isso é impossível!" — Ela dissera.
" Ela me deixou isso." — Damian entregou a flor para a irmã. Willa observou-a. -" É uma anêmona terrestre, cresce na Irlanda. Ela é venenosa."
" Como que Alicia lhe trouxe uma flor venenosa da Irlanda?" — Willa falou.
" Por que não era Alicia. Era... Outra pessoa. Na verdade, parecida com você." — Damian falou.
" Damian, você está maluco!" — Willa falou vestindo a camiseta que deixou sob a cama.
" Engraçado ouvir isso de uma pessoa que fez um raio descer o céu com um grito." — Damian falou.
" Não pode provar isso." — Ela revirou os olhos.
" Ou alguém que fez alguém cuspir pregos. Enferrujados." — Damian sorriu.
" Não pode provar isso também." — Ela dissera frustrada.
" Qual é Willa?! Você sabe a verdade." — Damian falou.
" A verdade é impossível!" — Ela respondera sentando-se na cama.
" Ela me disse pra cuidar de você. Que estamos correndo perigo." — Damian dissera.
" Que perigo?" — Perguntou Willa aflita.
" Vou descobrir." — Ele dissera.
Hoje, os olhares não dominavam os gêmeos O'Hare, pela primeira vez, a atração principal era outra pessoa. Alicia.
Todos os olhares observavam a morena da cabeça aos pés, uma atenção que ela nunca tivera na Califórnia. Claro, conhecia umas pessoas, tinha uns amigos, mas nunca foi de chamar tanta atenção.
Em um dia de aula, ela já tinha o telefone de todos os jogadores do time, e ela nem sequer havia pedido. Mesmo com todos os gatos — a propósito, os mais gatos — do colégio tentando ter uma chance com ela, ela não conseguia tirar o olhar de cristal do ruivo de ontem. A timidez dele a conquistou, ela sempre tinha queda pelos tímidos esquisitos do colégio, ela achava que eles tinham potencial, por isso, namorou dois anos com Tobby Rodriguez, o mais nerd de sua turma de calculo, e ela estava certa sobre o potencial, fora sua relação mais duradoura. Depois dele, nunca mais se envolveu com ninguém. E Tobby já fazia muito tempo, mesmo assim ela parou de procurar, sua cabeça estava cheia de marombados imbecis da Califórnia.
Mas quando colocou os olhos em Damian, sentiu seu coração acelerar, é ele, pensou, meu próximo candidato. Mas gostar de caras tímidos as vezes tem seu preço, e ela sabia. Aparentemente com Damian não seria diferente.
Ela caminhava pelos corredores o procurando, buscando os olhos azuis mais lindos que já havia visto na vida.
" Oh, desculpa..." — Ele pediu quando sentiu alguém trombar em seu ombro. Ela olhou para cima para fitar seu ' agressor'.
" Tudo bem, foi minha culpa." — Ele respondeu com um sorriso torto nos lábios. -" Te machuquei?"
" N-Não." — Alicia sorriu. -" Não consegui falar com você ontem... Você..."
" Fugiu? Sim, eu tive um problema. Me desculpe por isso também, sou Damian." — Ele sorriu para ela.
" Alicia." — Ela piscou.
" Eu sei..." — Ele assentiu.
" Srt. Cooper?" — Alicia fitou a professora, com a mão em seu ombro enquanto toda a classe a fitava. — " Você está bem?" — Ela esfregou os olhos ainda sonolenta. Droga!
" Tudo, eu só... Bom..." — Ela dissera, então a sala sorriu. Ela fez o mesmo.
" Não sei como funcionava suas aulas de Matemática na Califórnia Srt. Cooper, mas aqui, preciso da senhorita acordada. Pode ser?" — A professora dissera, Alicia assentiu envergonhada. Do outro lado da classe, Damian a fitava com um sorriso meio condescendente nos lábios. Ela fez o mesmo, e ele desviou o olhar. Qual era o problema dele?
Já havia acabado quase todo o período quando o sinal do intervalo soou, ela caminhava pelo corredor seguindo para o refeitório.
" Ei, novata." — Holly Summers, a tal do colégio gritou para ela do outro lado. Ela se perguntou se era ela mesma, e Holly assentiu. Ela caminhou até a mesa que muitos ali cobiçavam sentar, talvez, desde o quinto ano.
" Oi." — Ela sentou-se entre os dois caras mais gatos que ela provavelmente já havia visto na vida, e ela já havia visto muitos caras gatos na vida. Na Califórnia, eles caminhavam livremente pela orla da praia. Mas não eram como esses aqui, eles nem sequer deviam andar soltos por aí. É quase um crime.
" Oi novata." — Holly sorriu. — " Eu sou Holly, já deve saber..." — Alicia assentiu. Conhecia pessoas exatamente como Holly, que se satisfaziam subindo em cima de outras pessoas, pessoas menos favorecidas de beleza como ela. Eram as piores vadias que existiam.
" Sei quem são todos vocês." — Alicia dissera sem jeito.
" Claro que sabe. Então, o que está achando da nossa humilde cidadezinha?" — Holly perguntou. Para Alicia, nada se comparava a Califórnia, amava o sol torrando sua pele clara, as ondas batendo nos rochedos, e barulho de chuva no mar que ouvia pela sua janela.
" É legal!" — Alicia sorriu.
" Pode ser sincera. Nossa cidade é uma merda. Não se compara a Califórnia, já fui lá umas vezes com meu pai. É maravilhoso!" — Holly dissera.
" É sim." — Alicia respondeu.
" É verdade que se mudou para cá por que sua mãe traiu seu pai?" — A mulata ao lado de Holly perguntou. Sua beleza era de algum país ligado a Costa Rica ou Caribe.
" Tracy!" — Holly falou." — Não pode sair perguntando se as mães de outras pessoas traíram seus pais. Mas é verdade?" — Holly perguntou. Alicia corou.
" Holly" — Dessa vez, Bryan quem repreendeu Holly. Que o fitou frustrada. -" Escuta, não precisa dizer nada se não quiser..." — Bryan dissera, olhando para Alicia.
" Deixa as meninas se divertirem cara." — Logan Brown, o outro cobiçado do colégio dissera.
" Isso aí Bryan, você está um chato depois que aquilo aconteceu." — Holly dissera.
" O que aconteceu?" — Alicia perguntou, não queria intrometer-se, mas adorava histórias.
" Os irmãos O'Hare." — Tracy murmurou. -" Eles tem pacto com diabo."
" O que?" — Alicia perguntou surpresa com a revelação.
" Cala a boca, Tracy." — Bryan murmurou.
" Qual é Bryan, você viu!" — Tracy retrucou.
" Viu o que?" — Alicia perguntou.
" Os esquisitos agindo..." — Holly dissera. -" Você os viu na sala ontem, eles são completos estranhos no colégio. Não falam com ninguém."
" Eles são bem legais, na verdade." — Alicia declarou, todos na mesa a fitaram em silencio. Como se ela acabasse de comer uma porção de baratas cruas.
" Falou com eles?" — Holly perguntou.
" Falei com ela, ele é meio... Tímido." — Ela fitou os irmãos sentados numa mesa mais reservada, do outro lado do refeitório. Eles conversavam algo importante, e aparentemente, ninguém podia ouvir.
" Pacto com diabo causa isso. Falta de interação social." — Tracy falou. -" É verdade, eu li no Google."
" Não pode acreditar em tudo que lê no Google." — Alicia retrucou, Bryan sorriu vitorioso, como se Alicia fosse sua mais nova aliada do Green Peace.
" Willa é a pior. Eu a odeio!" — Holly dissera.
" Ela é bem legal. Acho ela bonita." — Alicia retrucou, sabendo o quanto aquilo irritaria Holly. Willa O'Hare não poderia ser bonita no universo mesquinho de Holly, e Alicia notara isso.
" Bonita?" — Holly gargalhou sem humor, e cutucou Tracy para fazer o mesmo.
" Olhando bem para ela... Tem potencial!" — Logan retrucou. -" Ela é bem gostosa!" — Holly fez cara feia. -" O que? Ela é!"
" Willa O'Hare não é gostosa. Eu sou!" — Holly apertou os seios, num gesto provocativo, que em Bryan só causou vertigem.
" Ela não é só bonita... Ou gostosa. Ou qualquer outra coisa. Ela é inteligente, divertida." — Bryan observou Willa de longe, então Alicia entendeu, aparentemente só ela entendeu. Ele tinha uma queda por ela, e alimentava por muito tempo.
" Olha só, a vadia usou o pacto para fazer a cabeça de vocês..." — Holly falou irritada, Bryan levantou irritado da mesa, caminhando pelo corredor.
" Estou te falando Willa, tem algo errado conosco. E tia Luna sabe exatamente o que é." — Damian falou.
" Se ela soubesse, não acha que nos contaria?" — Willa perguntou.
" A menos que ela não pudesse contar." — Damian disse, como se um alerta dominasse sua mente. -" Olha só, quando eu estava na floresta e Alicia..."
" A Alicia, que na verdade não era ela, era outra pessoa 'vestida de Alicia'." — Willa sorriu.
" Não brinca, é sério. Enfim, quando ela me entregou a flor, eu desmaiei. E não é por conta do veneno, a flor significa algo. E eu quero saber o que é." — Damian dissera.
" Isso é loucura demais para minha cabeça." — Willa levantou-se, seguindo pelo corredor vazio.
Alicia ainda fitava Damian do outro lado do refeitório, que socou a mesa depois que a irmã saiu, e seguiu para a biblioteca.
" Licença um instante." — Alicia levantou-se da mesa, estava cansada dos assuntos futeis da mesa, o ponto mais auto dali, foi o surto de Bryan King, o resto resumia-se em futilidades, como festas, e a nova eleita para o baile.
Alicia sentia-se mais confortável perante livros, e uma boa musica. Foi o que fez. Guiou-se para biblioteca.
Bryan estava cansado de Holly, cansado de como ela queria controlar sua vida, como ela queria tudo nos padrões dela. Estava cansado de fingir, mentir e esconder o que realmente sentia.
Ele não gostava de Holly, nunca gostou. Sua relação com a loira baseou-se só no sexo gratuito, mas isso conseguia em qualquer lugar, em qualquer bar em Portland. Mas ultimamente, nem o sexo lhe servia como motivo para continuar nesse comodismo.
Seu coração palpitava por outra pessoa. Sempre palpitou.
Ele escondia um sentimento avassalador pela ruivinha sardenta, um sentimento que a popularidade cegou-o, fazendo esquecer. Mas não passava de uma desculpa. Ele queria estar perto dela, sempre quis, por isso usava seus artifícios para provocá-la. Irritava-a, humilhava-a, perturbava-a e fazia do colégio para ela um saco. Mas era uma coisa boba de criança. Com o tempo, seus modos de provocar a ruivinha irritada melhoraram.
Com quatorze anos começou a namorar com Holly, mas apenas por que ela era bonita, não era virgem, e irritava sua ruiva tanto quanto ele. O casal se tornou o mais popular do colégio, e ele logo assumiu o time de basquete, e teve que se preocupar com coisas mais importantes do que sua ruiva nervosinha. Mas Holly, sempre conseguia um modo de provocá-la, no principio, ele achava graça, mas agora, era um adulto. Não iria mais esconder seus sentimentos por Willa de ninguém, nem mesmo dela.
Ele não acreditava em destino, mas passou a crer quando a ruivinha apareceu em seu campo de visão, ela viu Bryan, e deu meia volta.
" Willa." — Bryan gritou, e correu atrás dela. Ela não virou-se para olhá-lo, mas ele continuou correndo, alcançando-a e segurando-a pelo braço.
" O que você quer?" — Willa puxou o braço.
" Quero conversar." — Ele retrucou.
" A gente não conversa. Além do mais, você tem uma namorada para isso." — Willa respondeu ríspida.
" Ex-namorada." — Bryan falou.
" O que?" — Willa perguntou.
" Que tal um suco mais tarde?" — Bryan perguntou.
" Não bebo suco." — Willa retrucou puxando o braço, mas Bryan a segurou com mais força.
" E um café?" — Ele sorriu cínico. Ela fitou-o.
" O que você quer? E por favor, não vem com essas babaquices de ' quero só conversar', ou ' preciso de um amigo' não funciona comigo." — Willa retrucou. Bryan sorriu, e soltou seu braço.
" Essa do amigo ia ser minha próxima abordagem." — Bryan dissera, Willa sorriu vitoriosa. -" Você tem um sorriso lindo, deveria sorrir mais." — Willa corou quase que instantaneamente. Ele fitou a ruiva corar, e naquele instante, quis empurrá-la contra aqueles armários e beijá-la até tirar seu ar. Ele aproximou-se dela, fazendo-a dar um passo para trás.
" Bryan." — A voz de Holly ecoou pelo corredor vazio.
" Ex?" — Willa desviou de Bryan e caminhou pelo corredor.
Damian estava decidido. Decidido a enquadrar sua tia Luna em busca de respostas, decidido a crer que tudo aquilo era real, decidido a abandonar as razões lógicas e mergulhar de cabeça naquela loucura que fazia sua cabeça.
" Uma anêmona terrestre." — Alicia sentou-se na mesa em que Damian estava sentado, analisando a flor. Ele a fitou e arrependeu-se no mesmo instante, os olhos cinzentos da garota sorriram para ele. -" Como conseguiu?" — Ela perguntou. Ele engoliu um seco. -" Posso ver?" — Damian assentiu, e passou a flor para as mãos da morena que fazia seu coração palpitar.
" S-Sou Damian." — Ele dissera, ela levantou os olhos e sorriu.
" Eu sei!" — Ela continuou a sorrir. -" Sou Alicia."
" Eu sei." — Dessa vez, Damian quem sorriu. E então, um silencio se instalou entre eles.- " Você... Conhece flores?"
" Um pouco. Meu pai é antropólogo. Então, aprendi um pouco com ele." — Alicia falou. -" Sabe, na mitologia romana diz que Adônis foi ferido pelo seu ciúme do deus Marte com Vênus, sua amante. Adônis morreu, então Vênus que o amava muito, pediu a Zeus que perpetuasse seu amor. Sua súplica foi atendida. O sangue de Adônis foi feita a anêmona. É uma flor de consolo." — Alicia falara, enquanto Damian a observava atentamente, cada palavra que saia de sua boca parecia uma melodia para seus ouvidos.
" Do consolo? O que isso quer dizer?" — Damian perguntou.
" Bom, quando o ciúme e a inveja destroem um amor não só carnal, mas espiritual, os antigos acreditavam que era dever colocar anêmonas terrestres no tumulo dos amantes." — Ela sorriu.-" Elas crescem principalmente na Irlanda. Estou surpresa por ela sobreviver a viagem, elas florescem e morrem bem rápido."
" Irlanda?" — Damian perguntou.
" Sim. Não estou tão surpresa por ter uma. Quem é seu descendente irlandês?" — Alicia perguntou.
" Meu descendente?" — Damian perguntou confuso.
" Sim, você deve ter algum. Os cabelos, os seus... Olhos. São características do ocidente." — Alicia falou. -" Quem era irlandês? Sua mãe ou seu pai?"
" Não conheci meus pais. Eles morreram quando eu e Willa nascemos." — Damian dissera cabisbaixo.
" Oh, sinto muito." — Alicia apoiou sua mão sob a de Damian, e ele a fitou, sentindo o calor de suas mãos pequenas. Alicia fitou os olhos azuis de Damian, engolindo-o por completo, enquanto Damian a analisava desejando que não tivesse uma mesa ali.
" Damian?" — Willa fitou o irmão e a troca de olhares dele com Alicia. Quase instantaneamente ela tirou a mão dela. -" Desculpa, eu não queria... Atrapalhar." — Willa sorriu sarcástica, enquanto o irmão a fitava com raiva.
" Tudo bem... Você não estava... Eu... É melhor eu ir!" — Alicia levantou-se desesperada, trombando nas cadeiras, derrubando a bolsa no chão. Willa sorriu, e abaixou-se para pegar.
" Ei, calma." — Willa sorriu. Alicia fez o mesmo.
" Não eu... Tenho mesmo que ir." — Alicia capturou a bolsa das mãos de Willa e sorriu de volta.
" Obrigado por... Me explicar sobre a flor." — Damian conseguiu dizer.
" Disponha." — Ela sorriu e saiu da biblioteca corrida. Willa gargalhou irônica fitando os olhos irritados do irmão.
" Olha só... Essa cena, vai ficar para sempre na minha mente. Parece que Damian O'Hare está afim da garota nova!" — Willa gargalhou sentando-se no lugar onde estava Alicia.
" Cala boca." — Damian disse envergonhado.
" Não, isso é épico." — Willa falou.
" Cala a boca e me ouve. Vai querer ouvir isso." — Damian retrucou sério, fazendo a irmã silenciar-se e olhá-lo atentamente.
Luna preparava o jantar para os sobrinhos, mesmo que não fosse a maga da cozinha, fazia seu melhor.
Um vento forte entrou pela janela, derrubando tudo que estava sobre os olhos de Luna, fazendo-a capturar uma faca grande que estava em seu campo de visão. Ela capturou a faca, segurando-a com força numa das mãos, caminhando para sala.
" Estou enferrujada, mas ainda sou uma O'Hare. Saia!" — Ela ordenou, então uma luz brilhou pela sala, fazendo-a piscar.
" Oi irmã."— Aquela voz fez o corpo de Luna arrepiar-se por completo, tudo nela, tudo que estava morto, surgiu como uma bomba atômica. Reluzindo, crescendo.
" Eu senti tanto sua falta." — A lágrimas nos olhos de Luna ameaçaram cair, ela caminhou até a irmã apertando-a num abraço carinhoso.
" Eu também. Mas estou num bom lugar agora. E Orion está comigo." — Lena retrucou. Por um breve instante, Luna sentiu um ódio latente crescer dela, como se ainda tivessem dezenove anos e disputassem pelo mesmo amor proibido. -" Não temos tempo irmã. Ele está de volta."
" O que?" — Luna perguntou perplexa, e assustada. Era possível que o passado viesse lhe assombrar como estava fazendo agora?
" Ele quer as crianças. Fora o que ele sempre quis." — Lena retrucou fitando os olhos tristes da irmã, que sentou-se no sofá desolada.
" Isso é tudo culpa minha! Culpa minha por ter feito o pacto. Logo com alguém como ele." — Luna dissera, abraçando as pernas.
" Não se lamente irmã. Lamentação atrai má sorte, e agora, não temos mais tempo para lamentações. O que está feito, está feito." — Lena sentou-se ao lado da irmã, abraçando-a. -" Agora, temos que proteger as crianças."
" Como?" — Luna fitou-a.
" Ensinando-os." — Lena retrucou. A irmã fitou-a, agora pasma, sem cor.
" O que?" — Luna falou.
" Luna, eles estão correndo perigo." — Lena esclareceu.
" Mas... Eu prometi pra você que nunca ia ensinar magia a eles." — Luna dissera.
" Esquece essa promessa, Luna. Você precisa guiá-los." — Lena retrucou, Luna engoliu um seco. Não estava preparada para aquilo, para contar toda a verdade para os sobrinhos.
" Além do mais, aprendemos magia desde pequenas, eles estão muito velhos para magia entrar na cabeça deles." — Luna retrucou.
" Você conseguiu implantar na cabeça deles a ideia de chás e ervas, sei que consegue ensinar magia a eles. Além disso, acredito inteiramente que não precisará de esforço para convencer Damian." — Lena sorriu divertida.
" Você tem aparecido para ele?" — Luna perguntou atenta, Lena sorriu.
" Ele é um garoto especial." — Lena dissera.
" Ele é sim!" — Luna sorriu.
" Você o ensinou bem, irmã." — Lena sorriu. -" Muito melhor do que eu imaginei."
" Senti sua falta todos os dias." — Luna dissera.
" Eu sei. Eu também." — Lena dissera. -" Não posso mais ficar. Me prometa irmã. Prometa que vai ensiná-los guiá-los e protege-los contra o mal que caminha em nossa direção." — Lena pedira. Luna hesitou.
" Irei." — Ela dissera, Lena sorriu e desapareceu.
Alicia dirigia em silêncio, apenas o som que tocava uma música pop na rádio. Ela o desligou, estava sem cabeça nem sequer para ouvir música.
Sua cabeça estava longe.
Estava em Damian. O sorriso tímido, os olhos meigos e selvagens, as mãos quentes, o jeito
como seus lábios se moviam quando ele falava. Tudo nele era atrativo e delicado, tudo nele a chamava para perto, e ela nem sequer sabia o porque.
" Foi um avanço." — Ela falou consigo enquanto lembrava do toque do ruivo, de sua mão sob a dele, do calor das mãos juntas.
Na garagem de sua casa, estacionou o Jeta e desceu do carro. Odiava sedãs, eles lembravam sua mãe, e era uma parte de sua vida que queria esquecer.
Adentrou sua casa, as caixas da mudança ainda estavam espalhadas pela sala, mas seu pai, dava um jeito de organiza-las num tempo recorde.
Só tinha a ele agora, vivia por ele, e faria qualquer coisa por ele.
" Como foi a escola, querida?" — Peter perguntou, a filha despejou-se sob o sofá.
" O mesmo de sempre. Pensei que me livraria das cretinas vadias quando saísse da Califórnia, mas parece que elas brotam em todo lugar." — Alicia retrucou, o pai sorriu e sentou-se ao lado dela.
" Bom, elas realmente brotam. Terá que lidar com essa cretina vadia, por que aparentemente, essa é a única escola se ensino médio nos arredores." — Peter retrucou.
" Droga!" — Sorriram. -" Então, como vai a busca por um emprego?"
" O campo de empregos não é tão vasto para antropólogos. Mas eu ainda não perdi a esperança." — Peter sorriu tristonho, não queria que fosse aquilo que pudesse proporcionar para filha. Ele amava-a , claro que amava os outros dois filhos, mas Alicia era sua eleita. Ela fora a única que decidira ficar com ele quando tudo aconteceu.
" Nem eu." — Ela sorriu, beijando a bochecha do pai e levantando-se seguindo rumo as escadas.
" Sua mãe ligou." — Peter falara baixo, sempre conseguia uma confusão quando falava da ex-mulher com a filha. Alicia silenciou-se e continuou subindo as escadas. -" Ela sente sua falta, Ally."
" Eu não sinto a dela." — Ela subiu mais um degrau.
" Ela é sua mãe, Ally. Independente do que houve, ela ainda é sua mãe." — Peter continuou.
" Infelizmente não se pode mudar isso." — Alicia retrucou.
" Escuta, ela está diferente. Ela mudou por você!" — Peter caminhou até a filha, que fitou-o irritada.
" A mudança é subjetiva pai. E bem, ela me ligar não é mudança, é hábito. Assim como o hábito que ela teve de trair você. O que, no caso, é um péssimo hábito. Maus hábitos não mudam pai, se renovam. A pessoas não mudam, elas envelhecem, ou se adaptam." — Alicia gritou frustrada. -" Então da próxima vez que ela me ligar, diz que eu mandei ela enfiar a tal da mudança dela no rabo." — Alicia subiu as escadas batendo o pé.
Ela odiava a mãe. Sabia que era o pior sentimento que alguém podia ter, mas não era fingimento ou drama. Ela definitivamente odiava a mãe, até a imagem dela lhe trazia vertigem.
Seu pai, sempre fora um homem bom, que batalhava para dar tudo que ela, os irmãos e a mãe queriam. Até que conseguiu abrir uma sociedade com seu melhor amigo, Fred, para melhor ainda mais nossa situação financeira.
Ela lembrou-se do sorriso sarcástico e malicioso que Fred tinha. Lembrou dos olhos, os olhos repletos de sombras e perigos que Fred tinha. Ela nunca gostou muito de Fred, ela sentia que ele os espionava, invejava a família, por isso estava sempre por perto, rondando, sondando qualquer brecha, para entrar.
Então, ele conseguiu.
Peter precisou viajar para Austrália, e Fred precisava cuidar dos negócios na Califórnia. Alicia havia ido para um acampamento de verão, o irmão mais velho — Max — se alistou para o exército e Clark, o mais novo, passaria as férias na casa dos avós em Nova Jersey.
Fred passou a visitar a casa dos Cooper com mais frequência, decidindo sempre ir quando Kathy Cooper estava sozinha. Ou então, ela saia sempre sem avisar, e voltava tarde da noite.
A traição durou mais ou menos três anos, quando, depois de um alerta de Alicia, Peter decidiu seguir Kathy até um motel. Então os viu, Fred e sua esposa, a qual jurou em votos, a vinte anos atrás, que o amaria até que a morte os separasse.
Então, Kathy lhe tirou tudo, a casa, o negócio, os filhos, o melhor amigo e só lhe sobrara sua filha. Por isso, decidiram mudar-se para bem longe da Califórnia, bem longe do passado, bem longe dela. Mas ela não parecia notar o quanto a queriam longe.
Com os piores pensamentos em mente, Alicia adormeceu, desejando nunca mais acordar.
" Alicia... Alicia..." — Um sussurro ecoou dentro de sua mente, fazendo-a despertar quase como numa queda. Ela abriu os olhos, ofegando e olhando pela janela. O som da chuva caindo no mar lhe deu um breve gosto de casa. Espera... Minha casa em Port Clyde não fica perto da praia. Ela sentou-se na cama, piscando diversas vezes, desejando despertar daquele sonho maluco. Estava na Califórnia, em casa. A prateleira de livros, os discos pregados na parede dos Bee Gee's, The Doors e dos The Smiths. Ela sorriu, lembrando o quanto amava seu quarto, o cheiro de cigarros e baseado nele ainda eram evidentes. Ela levantou-se da cama e caminhou até a janela, o mar, a sua frente, com toda sua imensidão a despertara de um passado, não tão ruim. Ela lembrou que adorava sentar-se no parapeito da janela, tomar uma xícara de chá e fumar. Ela sorriu, lembrando-se da vaga lembrança.
Um barulho lá embaixo assustou-a, ela caminhou para fora do quarto, andando descalça pelo corredor de portas até avistar a escada um pouco á frente.
Ela desceu as escadas em silêncio, visando a luz da cozinha acesa. Ela apertou os olhos, caminhando até lá.
A mãe estava ajoelhada no chão, dentro de um pentagrama desenhado no chão.
" O que está fazendo?" — Alicia perguntou, enquanto a mãe colocava copos d'água em cada extremidade.
" Venha querida." — Kathy sorriu, esticando a mão para a filha, que hesitando, pegou. Kathy guiou a filha para dentro do pentagrama, então Alicia sentou no centro de pernas cruzadas, como a mãe. Kathy logo em seguida, acendeu as velas que estavam postas nos extremos junto com os copos d'água.
" O que estamos fazendo?" — Alicia perguntou.
" Ficarmos aqui dentro nos protegera do mal lá fora." — Kathy retrucou.
" Que mal?" — Alicia perguntou atenta.
" Escuta Ally, pessoas ao seu redor estão correndo perigo. E preciso que você as proteja." — Sua mãe retrucou.
" Que pessoas?" — Alicia perguntou.
" Damian e Willa." — Sua mãe retrucou.
" Como os conhece? Você não é minha mãe, é?" — Alicia perguntou, a mulher negou com a cabeça. Alicia levantou-se assustada.
" Não se preocupe, não vou te machucar. Estou aqui para proteger você." — Ela dissera.
" Não preciso de proteção." — Alicia retrucou.
" Precisa sim! Ele vira atrás de você quando notar o que está tentando fazer com Damian e Willa." — Ela respondeu.
" Não quero fazer nada com eles." — Alicia respondeu sentando-se novamente.
" Você quer ajudá-los, e vai!" — Ela retrucou.
" Como?" — Alicia perguntou.
" Na hora, irá sentir. Sentira com isso." — Ela lhe passou um medalhão com um pingente de anêmona terrestre. Alicia sentiu uma força irradiar dele. -" Ele lhe protegera do mal, mas precisa ter cautela."
" Que mal?" — Alicia perguntou, então um arrepio surgiu em seu pescoço, fazendo-a tremer. Então um som, um som metálico o som que ela definiu como o som da morte ecoou na cozinha, destruindo tudo que nela tinha. Sombras banharam todo o ambiente, tudo escureceu-se deixando apenas o cheiro de podre no ar. Era algo do mal, ela sabia.
Então, todas as sombras chocaram-se contra elas, mas não a atingiram, o pentagrama surgiu como se fosse um campo de força.
" Não se preocupe, ele não pode nos machucar enquanto estivermos aqui dentro." — A pessoa dentro do corpo de sua mãe retrucou. -" Precisa voltar Alicia. Mas prometa-me que os protegera." — Alicia assentiu, então, despertou.
Dessa vez, estava em seu quarto, o quarto em Port Clyde. O suor escorria de sua testa, e sua garganta estava seca. Ela olhou para os lados, e viu as coisas ainda empilhadas. Ela caminhou até a janela, avistando no horizonte, as ondas formarem-se e chocarem-se nos rochedos.
Ela levantou, saindo do quarto em busca de um copo d'água na cozinha.
Lá embaixo, após beber agua sentiu o mesmo sentimento que teve no sonho. O cheiro de morte dominou sua cozinha, e os arrepios percorreram seu pescoço. Então, no lugar do copo, o medalhão com a anêmona surgiu em sua mão.
Seu grito ecoou pelo quarteirão.
Sentiu seu corpo formigar enquanto algo dentro dela a pedia para colocar o medalhão no pescoço, então apagou.
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