Notas iniciais
Hey! Tudo bem?? Me desculpo, como sempre, pela demora. Hoje mesmo eu entrei de férias e decidi postar, mesmo que, na verdade, esse capítulo esteja incompleto...iria incluir muito mais, mas decidi que deveria dividir e postar rápido. Ou seja, sem revisão nem nada! -Agora espero que tenha tempo para escrever (mesmo que eu tenha coisas para fazer nas férias...¬¬) -Motivo de minha demora? Espero que entendam, foram motivos escolares, familiares, emocionais... Escola por causa da Copa, que encurtou nossos prazos e me entalaram de pesquisas e trabalhos para fazer, vocês não tem ideia! Nunca na minha vida me vi tão estressada, o que nos leva ao outro motivo:emocional. Esse está sempre aí, mas com o estresse e palavras de outros, piorou completamente... E os motivos familiares...bem, foi de repente e foi um tranco terrível na família, mas meu avô morreu e desestabilizou muitas pessoas. Eu tive que tentar restaurar o ânimo, mas no velório foi quase impossível e vieram coisas à tona e mais problemas e ficou insuportável aguentar esse momento. E, como vocês podem perceber, a primeira parte do capítulo foi escrito nisso. -Bem, sem revisões nem nada (nem mesmo está completo), mas aí está o capítulo :) Sorry, não queria deixá-los esperando, por isso postei assim... -Boa leitura o/

Eu tinha doze anos quando vi meu primeiro velório.

Não foi de um parente e muito menos o meu próprio. Eu só tinha decidido matar aula por algumas horas e calhou de o cemitério ser um lugar próximo no qual ninguém (muito menos professores ou diretores) gostaria de entrar.

É. A morte me atrai de uma forma que eu mal consigo rastrear.

Tinha uma bolsa pendurada no ombro que pesava de livros grossos e fazia um frio terrível que congelava meus dedos, mesmo cobertos por duas luvas de lã grossa.

Eu usava tantos casacos e tecidos no meu corpo que eu andava como um pinguim manco, mas ainda assim quando o vento batia eu começava a tremer e tentava esconder o rosto na touca que tinha na cabeça.

Eu ia àquele cemitério com certa frequência. A escola em que eu estava era insuportável (não que as outras não fossem, mas eu já estava de saco cheio dos colegas que me ignoravam e daquela menina que adorava implicar com o meu cabelo), tanto que o cemitério me parecia mais convidativo.

Pelo menos eu encontrava pessoas lá que eram iguais a mim. Pessoas que não tem o mínimo resquício de vida.

Eu costumava sentar para os fundos, onde havia um túmulo que ninguém (nunca) ia visitar. Eu me identificava com esse em especial. Era um homem sepultado a palmos debaixo da terra de quem ninguém se lembrava e ninguém visitava, e o único conhecimento que eu tinha dele era o nome e os tantos anos que viveu. Ele viveu mais do que eu com certeza vivi.

É. Acho que poderia dizer que éramos amigos. Só que ele não sabia disso.

Sentava na pedra que havia ao lado dele, às vezes dando um cumprimento qualquer (afinal, estou invadindo um pouco de seu espaço)e lia ou jogava qualquer coisa que tivesse na bolsa.

Eu havia decidido fazer a lição de casa, apenas para não ficar com jeito de vagabundo. Encolhi-me ao lado da pedra e esfreguei as mãos cobertas, vendo como a minha respiração esbranquiçava o ar e como era inútil tentar me esquentar no frio que fazia.

Coloquei a mão dentro da bolsa. Meus dedos congelados conseguiram pegar um livro didático qualquer e meu caderno de anotações. Agora equipado com um lápis e caneta também, ajeitei-me com as coisas cuidadosamente apoiadas para começar a trabalhar.

Se bem que eu sabia que no fim eu acabaria cedendo aos livros ficcionais que estava carregando... Mas é bom pelo menos me enganar um pouco.

–Droga- resmunguei para mim e para o homem do túmulo-Peguei justo matemática... É muito ruim pensar em números quando se está tremendo de frio... Ah, você por um acaso lembra como se faz quando não se tem essa parte aqui no logaritmo? Está nas propriedades? Melhor olhar, né? Será que eu trouxe a outra parte do caderno? Não. Não trouxe. Ah, deixa para lá.

Não recebi resposta, mas muito menos a esperava.

A pedra desconhecida marcada pelo nome desconhecido fazia-me uma companhia boa, mesmo que apenas na visão. Mesmo que não me ajudasse a responder nenhuma das questões que eu dirigia a ele e mesmo que deixasse minhas falas ecoarem vazias e sem volta. Era uma boa companhia. E talvez a melhor que eu tivesse fora de casa.

Estava para calcular um logaritmo quando ouvi passos afundando na parte de grama do lugar. Sim, nesse lugar podíamos sepultar pessoas em outro lugar, plantar a pedra aqui, ou sepultá-las em túmulos de pedra e logo adiante eu via o crematório e o lugar onde os velórios podiam acontecer. Moramos em uma cidade um tanto compacta e até o cemitério é multi-funcional.

Mas eu não. Eu sou compacto, mas nem um pouco funcional.

Apesar de tudo, em todas as vezes em que eu vim para cá nunca haviam muitas pessoas além de mim, o velho coveiro que gosta de fumar embaixo do carvalho próximo como se não soubesse pelo seu próprio trabalho que fim isso o levará e a velhinha que vem visitar seu parceiro que há muito deixou de ser presente, carregando um buquê de flores coloridas. Mas naquele dia não. Muitas pessoas passaram pelo local e seguiram para a casa de velório lá atrás, uma com o rosto pior que a outra.

Esqueci totalmente da lição de casa. Fiquei observando as pessoas passarem.

Não vou dizer que todos vestiam preto e que todos estavam chorando, porque não estavam. Mas a energia que fluiu dali e derramou-se em mim foi terrível e foi por isso mesmo que resmunguei ao homem do túmulo para “guardar meu lugar e minhas coisas” e segui as pessoas como se tivesse outros assuntos a tratar dentro daquele lugar.

O lugar tinha várias salas separadas. Eu sabia qual era a sala certa porque o grupo seguia para ela e os bancos que estava em frente estavam ocupados por parentes e amigos consolando uns aos outros em palavras baixas e cautelosas. Era um lugar pequeno e nem tão depressivo quanto imaginava, de parede bicolor branca e verde clara e um balcão de administração com um buquê laranja mergulhado em um pequeno vaso transparente.

Se você me perguntasse, eu nunca diria que era lá que aconteciam velórios. Mas era a verdade. Porque se você se esgueirasse mais para dentro, como eu fiz, e espiasse pela sala, veria o caixão decorado em flores brancas e coberto por um véu claro que encaixava uma pessoa. Veria guirlandas enormes de flores coloridas presas na parede e ouviria o choro dos que já sentem falta.

E se eu soubesse disso, nunca o teria feito. Deve ter sido uma das piores coisas que eu poderia descobrir: a fragilidade de um ser humano e o poder da morte. São coisas que todos sabemos, mas sempre ignoramos.

Sem saber de nada, passei de fininho pelas pessoas enquanto a curiosidade ditava-me o que fazer. Trombei em um homem de uns quarenta anos, ele usava um lenço encharcado para limpar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto inchado e vermelho. Um outro, para o qual pedi licença, carregava uma criança em prantos no colo que não parava de chorar nem para respirar. Uma mulher mordia o lábio, mas os olhos fitos na parede estavam à beira de uma inundação. Engoli em seco, sentindo algo pesar nos pés.

Estava ao lado da sala, mas demorei a criar coragem para observar lá dentro. Ouvi um choro longo e sofrido e foi quando eu andei mais dois passos para olhar lá dentro, pensando que poderia passar rapidamente na frente apenas para saciar a curiosidade e voltar aos estudos com o meu camarada no túmulo.

Todos estavam ocupados demais para notar o garoto intruso parado a observar a cena. Mas naquele momento até eu congelei e parei de andar. Várias pessoas sentadas em cadeiras encostadas nas paredes do cômodo quadrado, guirlandas de flores coloridas com mensagens da esposa e dos filhos, uma mulher de idade que soluçava tentando conter-se ao máximo ao olhar para frente. E o caixão. Deuses, o caixão. Aquele caixão.

A tampa estava encostada na parede, incrustada de um detalhe dourado na madeira brilhante e marrom. E separada desta, no centro do quarto, entre velas brancas e grossas, o caixão. Estava aberto, preenchido de flores brancas e cheirosas, coberto por um véu fino e o homem de cabelos grisalhos fora enterrado de moletom, com as mãos cruzadas no peito e o rosto sereno como se estivesse apenas tirando uma soneca de tarde em um campo de flores claras e relaxantes. Talvez estivesse, que se sabe sobre a morte, afinal?

E eu sabia que o que predominava ao redor dele não era a serenidade, era a tormenta da dúvida. Da saudade.

A idosa mordeu o lábio e pude ver o filete lacrimoso escorrer brilhante na luz. Ela esticou os dedos trêmulos e enrugados para o homem, com calma, com tal ternura que eu nunca havia presenciado. Quem imaginei ser a filha, usando um lenço para enxugar as lágrimas que escorriam sem fim, agarrava-se ao braço dela, mas nem conseguia contemplar a cena que prendia meus olhos. E a mulher mais velha era forte, eu sei, era como se apenas ela estivesse lá com ele. Como se os dois estivessem apenas se preparando para uma noite de sono. Uma como as outras que eles já tiveram. Como se quisesse conhecer o campo de flores ao lado dele. Mas não pudesse. E tocou-lhe os dedos, o braço, o ombro, o pescoço e por fim o rosto, deixando que o choro tivesse vez.

Eu não aguentei. Fiquei enjoado. Meu estômago se revirou e senti a sensação de enjoo subir pela garganta. Deixei aquilo, corri para onde achava que era o banheiro e coloquei tudo para fora.

E só depois percebi que eu chorava. Nauseado pelo cheiro de vômito com lágrimas e pela cena, sentei na pia tentando me desviar daquilo tudo. A cena de modo algum era forte demais. Quem visse, pensaria que era triste ou fofa, mas para mim aquilo foi como uma pancada nos órgãos internos.

É. Ótima expressão. Uma pancada nos órgãos internos, porque era como meu interior estava o tempo inteiro: podre e machucado.

Limpei as lágrimas e passei as mãos pela cabeça. Não funcionou, elas voltaram e me fizeram esconder o rosto raivosamente entre as mãos.

–Argh...-resmunguei, entre um soluço e outro enquanto as limpava brutalmente com a manga do casaco.

E se fosse eu? E se fosse eu coberto de flores, deitado imóvel e encaixotado? E se fosse eu que tivesse as mãos juntas no peito e um caixão decorado? E se fosse eu sendo queimado até a última cinza? E se fosse eu centralizado em um quarto cercado de enfeites? E se fosse eu aquele nome no túmulo?

E se fosse eu fazendo as pessoas chorarem?

Se fosse eu, não haveria uma multidão para velar por mim. Haveria Mana. E haveria Dr. Lee. Mas ninguém mais. Seriam lágrimas demais, mas não tantas quanto vejo aqui.

E, no entanto, seriam dez mil vezes mais importantes. Tão importantes que nunca deveriam ser derramadas. Mas serão e já estão sendo há tempos. Por minha causa e apenas isso.

Então por que eu choro por lágrimas desconhecidas?

Não é “e se fosse eu”, é “quando for eu”. E esse “quando” está próximo. Está muito próximo. Está tão perto que me dá enjoo.

Vomitei mais uma vez. E dessa vez chorando em conjunto.

A morte me atrai? Não. Eu a atraio.

Limpei rapidamente a boca antes que, sem querer, visse meu reflexo pobre no espelho. Eu teria que vomitar de novo se o visse e não acho que tenho suficiente ácido clorídrico ou qualquer outra coisa no meu estômago suficiente para tanta ânsia.

Passei rápido pelo lugar, segurando a boca com a luva molhada e tomando cuidado para não demorar em frente à sala. O cuidado foi pouco, pois acabei por congelar em frente à cena e prender a respiração mais uma vez. Só de passar os olhos pela imagem fúnebre e sentir o cheiro doce das flores, derramei mais lágrimas despercebidas que me obrigaram a cerrar os olhos com força. E a ver o escuro.

Eu vou estar “lá” a qualquer momento. Um fim de uma vida.

Um novo começo? Eu nunca tive começo algum, não será “lá” que eu o teria.

Cortarão o fio do destino que nunca se traçou por completo. Às vezes imagino se as forças sobrenaturais que por acaso podem estar fazendo nossas vidas ficaram com preguiça de criar a minha e decidiram simplesmente ignorá-la e terminá-la sem um fim digno de ser descrito.

“Ei, termina a vida desse menino aqui? Ele precisa de um final, mas eu não consigo encontrar um...”.“Ah, corta logo esse pedaço e deixa para lá! Esse aqui, Brad Pitt, é muito mais importante”. Algo do tipo.

Abri os olhos para evitar tropeçar enquanto saía daquele lugar, trombando sem querer em um homem que secava as lágrimas abundantes do filho. Não me serviu de nada, o choro embaçou minha vista e me vi cambaleando no frio desgraçado.

Sabe o que dói mais do que deixar para trás? Ser deixado para trás.

Eu ouvi Mana dizendo isso ao Dr.Lee quando tinha oito anos. Espreitava na porta da cozinha, fingindo que ainda estava tentando dormir no meu quarto, mas eu não conseguia ficar lá por muito tempo, o barulho dos aparelhos eram muito altos e a luz do corredor não chegava até minha cama. Não vi seu rosto, mas o médico havia franzido as sobrancelhas concentradamente depois da fala. É, talvez seja verdade.

Mas é por esse motivo que, para mim, deixar para trás é igualmente ruim. Porque não dá para deixar para trás. Para mim, não dará tempo. Um risco rápido e eu estarei a perder os sentidos para sempre.

Eu não sinto pela minha vida tanto quanto outros sentem. Que tenho a estimar em minha vida que não seja meu pai e os livros? Mas é por isso que dói ir embora: eu não quero ser aquele que deixa para trás.

Eu não quero deixar para trás...

...e não quero ser deixado para trás...

Doerá mais do que já me dói. Sumirei do mundo e duas pessoas sentirão isso. Sumirei do mundo tão rápido. E será que Mana faria como aquela mulher? O homem viveu por um longo tempo e seria por isso que nos olhos transbordados da idosa eu identifiquei a aceitação e consolo? Talvez ele já tivesse aceitado o fato de ter um fim. Talvez ela aceitasse.

Mas eu nunca aceitei nem um pouco do que os médicos falavam. Eu nunca aceitei o que eu mesmo pensava à noite quando estava para dormir. Eu nunca aceitei o fato de que estou em uma corda bamba da morte. Nunca aceitei que vou morrer sem conseguir viver metade de uma vida normal.

Então não haverá paz para mim. Nem para Mana. Por minha causa e apenas isso.

Passei correndo pela bancada de administração, pegando entre os dedos uma flor aleatória do pequeno vaso que deixavam ali e depois correndo para fora, ainda que temendo congelar meu rosto inchado, vermelho e úmido.

Andei rápido, sem ligar para o frio, e logo encontrei a pedra onde sempre ficava. Deixei ao meu camarada uma flor para fazer companhia , murmurando uma despedida qualquer que perdeu-se entre o vento e a voz embargada. Peguei minha bolsa com uma pressa anormal. Será que ele sentiu falta? Será que ele deixou para trás como eu deixarei? Ele experimentou ser deixado para trás? Ele aceitou tudo isso? Ele sabia que ia morrer? Deram-lhe tempo suficiente?

Pela milionésima vez, desejei profundamente que a pedra pudesse responder, mas ele nada disse. E eu nada perguntei.

Mudei de escola uma semana depois.

E nunca mais me atrevi a chegar perto de um cemitério novamente. E , pior, nunca mais olhei para mim mesmo da mesma forma.

Eu desisti. Superficialmente.

–X-

Lembrando que nós fomos para essa missão sem quase nenhuma informação porque os finders que cuidavam do caso estavam desaparecidos há dias, Kanda limpava muito bem sua espada. Verificava se estava afiada e em bom uso, se a lâmina estava brilhante e sem nenhum risco. E os finders estavam sentados em um banco à nossa frente, todos suando frio e tentando ao máximo evitar olhar para a espada ameaçadora que parecia estar sendo afiada para eles.

Na verdade, para a morte deles.

Eu havia perdido grande parte das despedidas que os moradores daquela vila estavam nos dando quase uma hora atrás. Meu corpo estava fraco, eu estava quase caindo na inconsciência. Mal consegui abraçá-los enquanto diziam adeus, o que também não foi uma tarefa para Kanda, sobrando para os finders que tínhamos acabado de encontrar.

Eu só não caía desmaiado porque meus instintos não muito desenvolvidos me diziam que talvez aquela espada na verdade fosse para entrar na minha garganta.

Eu nunca quis morrer dormindo. Por isso eu passava grande parte da noite acordado observando as sombras lá em casa.

Consegui fazer com que nós evitássemos pular em cima de um trem e assim entramos como pessoas normais. Quer dizer, normais é um termo bem relativo nessa situação. Um albino de outro Universo paralelo, um samurai treinado com sede de sangue, cinco homens que estavam presos em ilusões até um tempo atrás, entrando na cabine sob os olhares de todos dentro do trem e pânico dos funcionários.

Parece até uma piada.

“O que um albino, um japonês e uma katana foram fazer em uma vila abandonada?”

A resposta vocês mesmos sabem.

A cabine era a mais confortável do trem inteiro, de paredes amarelas de detalhes dourado brilhante e bancos almofadados. Apesar de eu ter firmemente recusado, os finders insistiram para que eu pegasse um banco apenas para minha pessoa, para que pudesse deitar e descansar os ferimentos e mal-estar. Claro que não cabem seis pessoas confortavelmente no outro, então Kanda ocupava-se ao meu lado, cuidando da espada enquanto eu apoiava meus pés em seu colo e a cabeça na outra extremidade perto da janela que mostrava a escuridão da noite.

Não olhava para fora, porque sabia que se me visse imergido em toda aquela treva que passava rapidamente pela janela, meus pensamentos afundariam. Mais especificamente na terra. À sete palmos. Dentro de um caixão.

Droga.

Estava escuro, mas eu podia ver o prefeito Aaron...quero dizer, finder líder Fernandes Rodriguez (como não notei os traços espanhóis, agora tão evidentes?), apertava a barra do seu uniforme imundo.

–Então...- Kanda disse com a voz mais afiada que sua lâmina -quer dizer que cinco finders são mandados para uma missão, desaparecem, trocam de identidade, enganam nós dois, nos obrigam a sair da prontidão da Ordem para dar uma de babá?

O tom continuou o mesmo a fala inteira, mas quando ele finalizou a pergunta com o barulho da espada sendo manuseada, os cinco ficaram brancos e azuis de medo.

Que bonitinho. Parece um arco-íris.

–Então, o que têm a dizer sobre isso, inúteis?- uma veia sua saltou na testa- Como foi, hein? Nós tivemos que vir até aqui buscar vocês.

–D-desculpa...- o prefeito disse, tentando olhar para o chão e não para a cena na sua frente.

Outro finder, que era um “morador” que só reconhecia por olho, encarava a espada com uma expressão dura, mas desesperada. Se eu esticasse um pouco mais o pescoço para cima, poderia contemplar o pânico dos outros três, mas se eu esticasse um pouco mais o pescoço, eu veria o mundo girar e tudo ficaria escuro.

É uma questão de peso. Nunca que eu perderia a cena.

–Ei, ei- surpreendi-me quando minha voz soou ainda mais cansada que imaginei- Kanda não vai machucar vocês aqui. A missão inclui levar vocês até lá. Não é, Kanda?

Só conseguia olhar para o teto da cabine, então não fui capaz de analisar sua expressão. Tudo que fiz foi ouvir a espada sendo guardada na bainha e um “Tsc” solto com raiva no ar. E, claro, o suspiro coletivo de alívio por parte dos finders.

Eu não via grande motivo para estarem aliviados. Salvei-os até a chegada à Ordem com essa fala. Nesse estado em que estou, não posso garantir nada depois que estivermos todos lá dentro. Que eles fiquem em suas próprias mãos para fugir de Kanda.

Mudei de posição com muito esforço. Tudo doía.

–Então, Kanda- disse, para evitar que o silêncio me fizesse dormir e nunca mais acordar- vai contar o que aconteceu na floresta? Temos horas de viagem e eu temo que eu durma de tédio, então será que dá para me entreter um pouco?

Cobri meu rosto com uma mão para tentar aliviar a dor na cabeça que persistia. Não podia vê-lo, mas podia ouvi-lo.

–Tsc. Virou criança agora?

–Eu sempre fui criança- respirei fundo tentando espantar a dor. Não funcionou- e eu gosto de histórias.

Tentei manejar um sorriso, mas esse não funcionou direito.

–Tsc. Pirralho...

–Sou. Agora será que dá para começar a falar? Meu peito está ardendo. Ah, e tem que contar com detalhes!

Mesmo sem olhar, eu sabia que ele estava revirando os olhos. Essa sensação causava um rearranjo dentro de mim e me dava um espaço confortável mesmo que quisesse dormir.

Ajeitei-me para a hora da história.

–Tsc. Depois que você correu, eu continuei a trilha como se nada tivesse acontecido.

Ouvi os finders tirando canetas e papéis das bolsas para escrever o tal relatório de que Komui uma vez havia me alertado. Um simples documento relatando os acontecimentos da missão, que podia ser redigido por finders observadores ou pelo próprio exorcista.

Meu corpo inteiro estava dolorido e Kanda era um preguiçoso, portanto a tarefa foi jogada para eles automaticamente. Melhor, porque eu não saberia como começar um relatório.

“É... er...eu meio que cheguei e minha bota estava cheia de lama. Era nojento. Eu quase fui decapitado com machados e devo ter gritado que nem uma garotinha e descobri que tinha uma trilha de sêmen colorido nas árvores. É, o sêmen brilhava e cheirava bem. Quer dizer, era cuspe. Mas como eu achei, eu nomeio, então para mim era sêmen...Então eu quase desmaiei e meu companheiro queria me matar, ele me chutou e eu quebrei uma costela e eu viro um palhaço branco com garras legais. As garras cortam. Elas são legais. Eu estou com fome e quero dormir... Eu falei que as garras eram legais. Porque elas eram. E cortavam. Eu quase morri. Eu tenho uma máscara de carnaval e toda vez que eu mexia a capa as coisas faziam ‘BUM’.Porque eu tenho que escrever isso, mesmo? Sabia que em um livro que eu li um cara tinha armadura de ouro? Não é um detalhe importante, mas eu quero muito terminar aquele livro, eu devo ter esquecido na outra vida... Escrever sobre isso é chato, posso escrever sobre reflexões espirituais? Ah, eu matei uns monstros também enquanto isso. Eles explodiam coisas e pessoas. Eles quase me explodiram. Eu ainda estou com fome e sono... é. Foi isso aí. Aqui estamos.”

É. Acho que ninguém gostaria que eu escrevesse um documento importante.

Nunca.

–E eu percebi que as roupas que você procurava faziam sentido. Tsc. Eu sabia que pessoas tinham morrido, sempre morrem. Aquelas desgraças inúteis. Só precisava saber quem.

–Anotou aí a frase?- um finder sussurrou para o outro como se Kanda estivesse dando uma entrevista para uma revista adolescente.

–Não, eu perdi, depois você me passa- sussurrou de volta apressadamente.

–E depois de andar por mais alguns metros bem devagar o akuma apareceu e murmurou algumas coisas sem sentido que eu não prestei atenção, porque ele é um desgraçado.

–....um...desgra...ça...do...- um finder murmurou enquanto riscava o lápis apressadamente.

–Eu ativei a innocence e cortei ele ao meio enquanto ele só falava idiotice de “vou te matar” e “eu cago no seu tapete”. Coisa do tipo, sei lá. Quem se importa? Tsc.

–Kanda- eu falei-você tem que imitar a voz em falsete.

–Cala a boca, pirralho-mandou- E é isso. Feliz, moyashi?- ele rosnou.

Eu tentei meu melhor sorriso, mas não consegui.

–Pensei que iria contar uma história maior, mas estou feliz, sim. Creio que vá detalhar mais depois, né?

Os finders causavam um rebuliço no outro lado, tentando pegar as falas um com o outro. Contentei-me em respirar. Só isso já estava difícil demais.

Ouvi o ranger do nosso banco e tão rápido senti a respiração quente bater no meu rosto. Estava certo de que Kanda havia se inclinado na minha direção, e eu estava fraco demais para reagir de qualquer modo que não fosse fingir de estátua insensível.

–Você que vai detalhar a sua história, alienígena.

Engoli em seco. Não estava física e mentalmente bem para discutir agora, mas se ele pedia...

–Não sei do que fala. Eu já falei, meu olho não ativava por causa da innocence e todos aqueles tro-lo-lós da vila. Pare de suspeitar de mim, não há sentido.

Ouvi-o bufar, mas rezava para que não percebesse que eu suava frio.

Pelo menos a voz cansada e machucada que eu tinha disfarçava a ansiedade, porque não havia outro tom que eu pudesse usar nela que não fosse cansado e machucado.

–Eu sei que você não é “ele”- rosnou baixo e o ranger do banco macio me dizia que ele voltava a se endireitar- eu sei disso. Você é diferente.

Fingi que não podia ouvir. Fingi que tinha caído no sono ou que o estardalhaço entre os finders não me permitia escutá-lo de longe.

Em que enrascada eu fui me meter?

Uma missão. Algumas semanas, apenas. E ele já sabe que tem algo de errado comigo.

Tudo que eu quero é chegar à Ordem, falar com Komui e arranjar uma boa desculpa para isso tudo.

Pior. Tudo que eu quero é chegar à Ordem e falar com Komui sobre o ataque surpresa que meu corpo resolveu dar em mim enquanto estava por lá. Eu, sinceramente, creio que seja apenas um efeito colateral da innocence ilusionista sobre mim, mas, por via das dúvidas e sabendo mais que ninguém que nem toda surpresa é boa, creio que seja de bom-senso pelo menos comentar algo com ele.

O melhor a fazer no momento é esquecer. Dormir. Fingir que nada aconteceu e ignorar Kanda o máximo possível.

Ou eu vou vomitar.

–O que te faz pensar que eu não sou eu?- perguntei, não sabendo se torcia para que ele me ouvisse ou para que ele não me ouvisse.

Riu pelo nariz.

–O que faz pensar que você não é você?

Esperto, Sr. Espertinho. Espiei entre os meus dedos e ele estava me observando daquele jeito de sempre. Analítico, de olhos firmes, apoiando seu cotovelo na espada que estava em pé bem a sua frente. Pego de surpresa, fechei as frestas rapidamente, deixando que o escuro ocupasse minha visão e escondesse a ameaça.

–Vou dormir. Me acorde quando chegarmos na Ordem.

Mesmo com ele ameaçador como sempre, sentado ao meu lado e próximo a uma espada, pude dormir sem imaginar que poderia morrer dormindo.

Tento imaginar o porquê...

–X-

Acordei bruscamente. O coração batia a mil enquanto abri os olhos, arregalando-os no mesmo segundo em que notei a ponta perigosa do banco apontando direto para o meu nariz. Poucos milímetros de distância da morte mais uma vez.

–Ugh...- foi tudo que consegui dizer.

O trem havia freado em um tranco perigoso e se não fosse pelos dedos que se fechavam com força no meu pulso, teria perdido um nariz e talvez um olho. Mas nem ao menos me deu tempo para agradecer, meu pulso e minhas costas doeram quando Kanda me puxou de volta para o banco violentamente.

–Ai...-nem para a dor eu tinha ânimo.

–Tome cuidado, moyashi.

“Isso não é hora para se preocupar comigo”, queria dizer, naquele jeito descolado que os protagonistas falam, naquele olhar frio e bravo e voz de repreensão com os companheiros. Mas, ao sentir a dor densa nas minhas partes inteiras, concluí que talvez fosse de bom senso de preocupar comigo um pouco.

–Chegamos?- perguntei, percebendo que os finders já não se encontravam no banco da frente. Ajeitei meu cabelo e rosto amassados ao máximo de decência que conseguiria no momento. O que não era muita, mas mesmo normalmente não era tanta quanto gostaria então deixei que ficasse como estava.

–Está babando.

Passei a mão pelo queixo e não encontrei nada. Nem no canto da boca. Kanda pareceu ficar bem irritado com isso.

–Aqui, aqui!- rosnou, pegando o pano de seu uniforme e esfregando do lado da minha boca- droga, seu imprestável!

Passei a mão por onde ele havia limpado. Tinha ralado um pouco com a força que ele usou contra minha pele e agora irritava.

–Machucou...

–Foda-se.

–Desculpa- revirei os olhos- Sr. Irritadinho.

–Como é?

–Sr. Irritadinho. E agora tem mania de limpeza? Pensei que não gostasse de me tocar.

–Seu moyas-

–Com licença!- a porta da cabine rolou, mostrando um de nossos finders. Carregava um bloco e uma mala consigo- estamos liberados para ir, mestres exorcistas.

Kanda levantou com pressa e disparou em passos fortes pelo corredor, os equipamentos que ele mantinha pendurado no uniforme tilintavam enquanto andava e ecoaram pelo trem conforme se afastava. Nem precisei pedir, o finder me ajudou a levantar assim que me apoiei.

–Obrigado-resmunguei.

Foi uma caminhada complicada até a Ordem. Os finders se desculparam, pois estavam a procurar táxis ou qualquer automóvel confiável para carona, mas voltavam sem boas notícias. Tive que revezar as costas de cada um e me fazia sentir impotente diante de tudo.

Era uma sensação familiar, mas nem por isso boa.

“Kanda vai andando normalmente”, pensava, “Kanda parece até mesmo entediado e nem um pouco cansado”. E eu, bem , eu ia de cavalinho. Ótimo.

Imerso na dor que meus quadris tinham toda vez que o finder dava um passo, só percebi que chegávamos à Ordem quando paramos para andar na canoa do canal subterrâneo. Foi um alívio imediato quando pude ficar parado quieto em algum lugar.

Kanda sentava logo a minha frente. Naquele olhar compenetrado que vestia com tanta certeza.

“Ele sabe de algo”, pensei, “ele sabe de algo a mais, mas como?”

Abrindo caminho pela água suja e antiga, limitei-me a observar as tochas na parede. Queimando. Dançando com línguas de fogo fracas e sem entusiasmo que buscavam iluminar qualquer parte de trevas que encontrassem. Mas falhavam, estavam cercadas e sem saída. Não tinham poder o bastante.

Imagino se essas tochas capturaram o meu jeito de ser.

Foi quando pensei, vendo como Kanda franzia as sobrancelhas para mim. Parecia que tentava solucionar um quebra cabeça difícil.

“Ah, alguém pode ter contado para ele”.

–X-

Komui gritou no meu ouvido quando me abraçou. Aquela voz estridente combinada com a de Lenalee e Lavi era capaz de estourar os vidrais do prédio, mas estava entrando pelo meu ouvido e ricocheteando dentro da minha cabeça.

–Allen!!- ele gritou, assim que pisei no solo conhecido, no salão de entrada- você está bem?

Lena e Lavi estavam ao lado, acariciando minhas costas doloridas e sorrindo como se eu estivesse acordado com o rosto do Leonardo Di Caprio, então apenas balancei a cabeça.

–Estou vivo- disse- então creio que esteja.

Seus olhos esquadrinhavam meu rosto e seus dedos apertavam meus ombros. Afirmou com a cabeça, tirando do rosto o olhar manhoso e substituindo pela rara expressão compenetrada, e eu lancei meu olhar mais significativo para Kanda.

O moreno estava do outro lado, fugindo dos cumprimentos e tratando de desviar de qualquer um que chegasse perto. Ameaçadora e agilmente, ele fazia seu caminho no salão, apertando o passo para sair logo daquele lugar e fez com sucesso.

–Sua sala?-perguntei baixo, mas desesperado para sentar- rápido?

Ele lançou o olhar duro de Dr. Lee. Confirmou, já me conduzindo com maestria até o corredor e as escadas. Passamos sem sermos seguidos, parados ou percebidos.

–Devo chamar Kanda?

Meus olhos estavam pesados, mas antes de dormir eu tinha que esclarecer tudo. Ou fazer algo de bom, pelo menos.

–Deve chamar Kanda.

Notas finais
Gostaram? Não? Me avisem se tiver algo errado... Espero que as férias me tragam ânimo e tempo para escrever!!! Estava pensando em revezar mais, tipo escrever um de Bad Boy, um desse e às vezes dois de cada, sei lá... vou tentar adiantar tudo isso. OBS: eu tinha. Eu tinha que fazer isso ou eu não conseguiria escrever mais nada enquanto minha cabeça viajasse na inspiração dessa história...sim...eu decidi escrever uma Jasico (de PJO/HDO), uma one que pode ser dividida em alguns capítulos. Foi necessário, ok? Talvez quando eu postar o próximo desse, eu já tenha postado haha -Talvez eu me concentre em BB essa semana, para postar um capítulo...