Pure

1 Home Sweet Home


Notas iniciais
Espero que gostem do capítulo :)

Gina havia visto muito do mundo durante a sua curta vida. Havia visto do melhor e do pior. A ruiva colocou um pouco o rosto sobre as mãos. Havia perdido tanto da vida e ainda tinha tanto mais a perder. Estava envergonhada daquilo que se tornara, das decisões que havia tomado. Tinha passado tanto tempo se destruindo e teria de passar o resto dos seus dias tendo de reconstruir tudo aquilo que destruiu.

Havia se passado tanto tempo, mas a Aberdeen que um dia conheceu permanecia a mesma. Tratou de focar os seus olhos azuis no rosto de seu pai, que estava atento ao trânsito. Enquanto passava, reconhecia alguns rostos de seu passado. Estavam mais velhos, mas eram as mesmas pessoas. O mesmo acontecia com as ruas, os prédios e tudo o mais que um dia foi parte do seu passado, daquilo que queria tanto fugir e que, agora, queria tanto ficar.

—Sua mãe fez a torta que você gosta. – Seu pai falou enquanto deu uma rápida olhada para a ruiva, que colocava seus braços entre as pernas, em sinal de frio ou de ansiedade.

Gina não voltava para casa há muito tempo. A última vez que havia aparecido na casa de seus pais, estava tão alta que mal podia andar direito. Havia vomitado e por pouco não morrera. Acordou em um hospital, sua mãe chorava muito. Desde então, havia passado quase um ano em reabilitação. Tinha ganho algum peso, deixando sua face menos esquelética, e seu cabelo havia ganhado uma coloração mais viva, ressaltando o vermelho fogo que era característica de sua família e realçando os olhos azuis, mas as marcas de sua destruição pessoal ainda estavam lá, sempre estariam.

A ruiva pensou em dizer que gostaria de comer a torta de sua mãe novamente, que amaria sentir o gosto de comida caseira novamente, que era o que mais queria na vida, mas não conseguia dizer. Estava envergonhada demais de tudo o que fizera. De quanto sofrimento havia causado para todos ao seu redor.

O carro de seu pai parou perto de uma cerca de ferro negro que resguardava a casa dos Weasley. O jardim, com grama bem verde, precedia a casa da família. Não era a mais luxuosa, mas era grande, bastante alta e conseguia acomodar toda a numerosa família quando ela vinha se reunir. Gina pensou em quantas reuniões familiares havia perdido nesse tempo todo, quantas vezes seus irmãos não haviam ficado com um gosto ruim na boca ao lembrarem dela ou sua mãe chorou escondida por não poder ter a filha mais nova ali, celebrando com todos os outros.

Depois, pensou em quanto estava com saudades de lá, de sua mãe, de seus irmãos. Vestia uma camisa branca com um moletom azul de mangas longas por cima. Uma saia preta até um pouco acima do joelho e uma meia-calça. Ainda não estava preparada para mostrar as marcas que haviam no seu corpo. Seu pai desceu do carro, fechou a porta e seguiu até a filha para acompanhá-la até a entrada. Sua mãe estava na porta, com um semblante choroso e um sorriso no rosto. Do lado dela estava Ron, seu irmão, que estava ainda mais alto do que se lembrava. Todos seguiram para um abraço familiar. No entanto, nem todos os seus irmãos puderam estar lá. George e Fred, por exemplo, estavam ocupados com a sua loja, em Londres. Gui vivia na França com a esposa, Carlinhos era biólogo na Romênia e Percy tinha virado político, era membro do Parlamento da Escócia. Ron tinha um trabalho burocrático na prefeitura de Aberdeen e por isso era o que estava mais perto.

—Minha bebê está de volta ao lar. – Disse Molly, apertando um pouco as bochechas da filha. – Vamos, vamos, precisa comer um pouco da torta que fiz para você. – Gina não pôde deixar de sorrir. Era reconfortante estar de volta.

Os quatro estavam reunidos na mesa da cozinha, cada um com o seu pedaço de torta. Ron, para falar a verdade, já estava no segundo, pronto para ir ao terceiro.

—Deixe um pouco para nós, Ron. – O patriarca falou, soltando uma leve risada e ligando a TV. O noticiário dava conta dos cortes de impostos nos EUA.

—Não tenho culpa se vocês comem devagar. – Rebateu Ron, colocando um pedaço enorme na boca e fazendo Gina sorrir.

—Onde está a Hermione, Ron? – O ruivo tomou um pouco de suco para ajudar o pedaço de torta a descer e voltou os olhos para a irmã.

—Ah, ela está no trabalho. Um imigrante ilegal do Paquistão, ao que parece. – Começou Ron, cortando mais um pedaço da torta. – E as crianças estão com a babá.

—Ron vai ficar responsável por te acompanhar nos encontros. – O pai da ruiva começou a falar sobre os encontros que ela teria de frequentar na cidade.

—Vocês já decidiram onde eu vou fazer? – Gina perguntou. O seu estômago revirou um pouco. Tinha participado de vários encontros durante o seu tempo como adicta e, desde que estava limpa, só tinha passado por um grupo de ajuda. Não sabia se iria se adaptar tão bem a esse grupo de ajuda quanto se adaptou ao outro que frequentava.

—A igreja local tem um grupo próprio. O padre Harry supervisiona as reuniões. Você ainda não o conhece, é o substituto do padre Slughorn, mas é muito ativo na comunidade. – Gina acenou com a cabeça positivamente, buscando na memória as imagens de padre Slughorn. Era um senhor barrigudo, sempre tentando passar uma impressão de jovialidade, sem muito sucesso. Quando seus pais descobriram pela primeira vez que ela estava envolvida com drogas, havia sido pega com um cigarro de maconha, eles mandaram-na falar com o padre, que havia tentado o possível para ajudá-la, mas sem sucesso. Nada podia pará-la naquele momento da sua vida, ela estava destinada a fazer o que fez, ou era o que a ruiva preferia acreditar.

Com o fim da torta, Ron acenou para os pais, deu um forte abraço em Gina e foi para o lado de fora acompanhado de seu pai. Enquanto isso, Molly chamou Gina para acompanhá-la ao seu antigo quarto.

—O seu quarto, é... – Molly parecia um pouco sem palavras. No geral, o quarto de Gina estava do mesmo jeito de quando havia deixado a sua casa pela primeira vez, com a diferença que, agora, estava sem nenhuma porta.

—Eu entendo, mãe. – Gina falou, lançando um pequeno sorriso para a matriarca. – Eles mandam fazer isso mesmo. – Gina entrou no quarto e colocou a sua mala sobre a cama.

A ruiva sabia que o seu quarto ainda tinha os esconderijos de drogas que havia feito quando ainda morava ali. Sabia, também, que algumas drogas ainda deveriam estar lá. O seu sangue começou a fervilhar e teve de segurar o braço esquerdo com a mão direita. Estava claro que, uma vez que a sua mãe descesse, nada a impediria de pegar alguma droga nesses esconderijos e utilizar.

—Que bom que entende, minha filha. Descanse um pouco, quando for mais tarde eu venho te chamar para... – Molly não conseguiu terminar o que estava para dizer.

Enquanto a mãe falava, em um grande debate interno, Gina se perguntava se deveria falar sobre as drogas escondidas ou não. Seu corpo inteiro fervilhava para que ficasse calada, era uma vontade absurda de provar novamente aquilo. Sua mente ia para as aulas sobre drogas que tivera no Ensino Médio, como a droga criava dependência e fazia você querer mais ela do que qualquer outra coisa. Utilizou todos os truques de ajuda que havia aprendido nas reuniões, na reabilitação e, ainda assim, o seu corpo pedia por mais. Ela não queria, mas ela não controlava mais o próprio corpo, a heroína controlava. Sentia suas pernas ficarem fracas, suas mãos coçarem, todo o seu corpo pedia por aquilo. Ela sabia que não queria. Não queria mais essa vida há algum tempo, mas parecia que ela não poderia fazer nada sobre isso, estava destinada a falhar, falhar com seus pais, com seus irmãos, ser uma decepção. A vontade apenas aumentou. Começou a pensar que algumas daquelas drogas, por mais que escondidas há anos, talvez ainda pudessem funcionar. Ela nem ligava, só queria provar. Um milhão de coisas passavam pela sua mente, mas, como em um milagre, ela chamou por sua mãe.

—Mãe....

Um suspiro forte saiu da boca da ruiva. Não entendia o porquê de ter chamado sua mãe, como havia feito aquilo, mas havia chamado a atenção da matriarca. Mais do que isso, havia chamado a atenção dela mesmo. Ela havia conseguido. Bastava ficar calada, era isso que o corpo dela queria, era isso que a droga queria, mas, ao invés disso, ela falou. Ela falou. Tinha certeza que em qualquer outro momento a droga ganharia, ela voltaria a ser a mesma Gina de sempre. A Gina que decepciona. A Gina que não resiste. Não havia resistido muitas vezes, não era a primeira vez que tentava voltar para o mundo normal. Já havia tentado parar por conta própria, tentado parar com um namorado, com outro namorado, com um grupo de amigos, com a ajuda dos pais e, quando esteve por um período nos EUA, com a ajuda de membros de uma igreja, mas nunca havia dado certo. Era para ser mais um fracasso, mas ela falou.

—Esconderijos. – Falar aquilo foi demais para ela. Não sabia de onde havia tirado forças para fazer aquilo, mas o importante é que havia feito. Sentiu seu corpo todo se remoer, um revirado no seu corpo, misturado com uma forte ansiedade. Talvez sua mãe não tenha ouvido direito, era o que pensava, ou melhor, o que a droga pensava por ela.

Ginevra. Ginevra. Ginevra. Ginevra. A ruiva começou a repetir o seu nome, como se não houvesse amanhã. O seu nome lembrava sua mãe, lembrava sua infância, lembrava as cerimônias de entrega das medalhas estudantis de quando era mais nova. Aquilo ajudava a lembrar quem era ela de verdade, não aquilo que a droga queria que ela fosse, o fantasma de quem ela foi.

—Arthur! Arthur! Chame o Ron! – Molly gritou, ela havia entendido o que a filha havia dito. Gina suspirou e se jogou de vez sobre a cama. Havia sido esforço demais para ela, estava suando. Era um pequeno passo, porém, para ela, era como se fosse uma caminhada inteira. Ouviu os passos de seu pai e seu irmão subindo as escadas e, enfim, permitiu-se fechar os olhos um pouco. Precisava descansar.

Notas finais
Espero que tenham gostado :)

O Harry aparece no próximo capítulo.