Pupilo
5 Capítulo 05: O Julgamento
O Julgamento. Capítulo 05.
....................................................................20/12/1989.........................................................................
Musicas natalinas e crianças que choram nas portas das lojas de brinquedos.
É disso que é feito esta época do ano. Ou pelo menos era como deveria ser, era como estavam acostumados que fosse.
As faixas coloridas, amarelas, verdes, vermelhas, enfeitavam as ruas, escondiam o medo e ilustravam o cenário perfeito para o circo.
Quase não se notava toda a merda que escoava pelos esgotos em direção ás próprias casas.
O balançar dos sinos nas mãos dos velhos, que ganhavam empregos extras nesta época do ano, animavam aqueles de bom coração e torturava os bêbados, mendigos e na verdade, qualquer um que não estivesse vivendo o típico sonho natalino de paz, fraternidade, dinheiro, vendas, superávit e choro, mentiras, reuniões de familiares falsos, mesquinhos e olhares capitalistas para as roupas, presentes, mulheres e doces alheios.
O que mais se podia esperar?
Afinal.
Era natal.
E todos os malditos cretinos merecem uma folga, não é mesmo.
Os jornais enfatizavam as festividades, as comidas para os moradores de rua, a união de várias comunidades em prol de um bem maior, a queda dos assassinatos e latrocínios, o crescimento da felicidade, da harmonia, a mudança geral da nação estampava nossa grande cidadezinha.
O motivo era e é bem simples. Cidadãos felizes, animados, empolgados, cegos, não dão tanta importância para coisas como a falta de grana no fim do mês, assim, gastando o que não tem já que os jornais e folhetos de loja gritam que você pode comprar o que quiser sem se preocupar em pagar.
Por que se importar com o sangue que escoa nos bairros pobres quando existe um robô com onze falas gravas e luzes giratórias? Um barbeador elétrico pelo dobro do preço que valeria em uma data comum ou as prostitutas usando lingeries vermelhas e gorros?
Nada importa quando é natal.
Mas se você já se pergunta como o Papai Noel consegue entregar todos os presentes em todas as casas, bom, tenho que dizer que ou você é uma criança educada por uma família muito gentil que gosta de criar ilusões para lhe dar empolgações falsas ou é um retardado.
Nem todos têm casa ou muito menos chaminés, mas mesmo assim recebem visitas de algum anjo cheio de compaixão para que suas noites não passem em branco e sim vermelho.
Para alguns moradores de rua, sejam os que receberam sopas feitas com produtos vencidos ou murchos do mercado, seus presentes vinham das mãos de amigos bêbados que largavam bebidas por ali ou derrubavam cédulas de cinquenta buscando pelas de dois, mas nós não estamos falando desses casos tão cheios de acaso e sorte, não é mesmo?
Muitas vezes certos riquinhos embriagados gostam de xingar, chutar, cuspir e espancar alguns mendigos. Esse tipo de brinquedo não vende em lojas.
No natal do ano passado encontraram três mendigos carbonizados numa lixeira, eles eram negros e sobre os cadáveres havia uma bandeira nazista.
Em certas ocasiões o velho de barba branca vem como um cobrador de pagamentos ilegais não efetuados para matar os pais de alguma criança na mesa de jantar, ou mesmo para matar alguma criança viciada pelos becos.
Esta cidade sempre foi suja, crua, fedida, cheia de viados, viciados, prostitutas e armas por cada rua, beco, viela onde as luzes ou barulho não os afastasse.
Como as baratas.
Sinceramente, esses eram os anos dourados.
Casos isolados de violência, estupro, assaltos e outros crimes são tratados como o que são, casos isolados.
Mas como diferenciá-los? Como saber que um assalto é um assalto e não um ato premeditado por uma mente secundária ao caso? A polícia tenta passar a imagem de proteção, cuidado e zelo pelos cidadãos desta cidade mas aqueles que estão na margem disso, que veem as coisas como são e não como são na caixa de leite desnatado, sabem que não é um jogo de gato e rato mas sim um tiro no escuro. Estão todos sozinhos e desamparados, ninguém irá servir de consolo ou apoio.
Se você não mantem um padrão.
Se toma cuidado com o que faz, mesmo fazendo algo terrível.
Você não deixa rastros.
Você não existe.
Aproveitando isso, um câncer cresceu na cidade. Por dentro das veias sujas onde dormes os vagabundos ao coração dos prostíbulos e casas de shows para pedófilos. Eram dois mundos diferentes crescendo no mesmo corpo esperando o dia para colidir.
Assassinatos aconteciam todos os dias e sempre aconteceram.
Um dia seguido do outro a contagem de corpos, vítimas, casos isolados apenas aumentavam.
Nada que pudesse ligar qualquer crime banal á tal doença letal que se impregnava por toda parte.
Simplesmente porque esse não era o plano.
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ATAQUE TERRORISTA DESTRÓI ORFANATO E DEIXA MAIS DE 10 VÍTIMAS MORTAIS.
VIATURAS SÃO DESTRUÍDAS E POSTAS COMO BARRICADAS INCENDIADAS AO REDOR DA PREFIETURA.
CAOS REPENTINO: O NATAL SANGRENTO DE DEZENAS DE DESABRIGADOS ENCONTRADOS ENFORCADOS ABAIXO DA PONTE DE AÇO NO CENTRO.
Um escritor genial costumava dizer que é o medo o sentimento mais forte e antigo da humanidade.
Eu concordo. Ele pode transformar sua mente, pensamentos, escolhas, sentimentos de uma maneira inacreditável. Sucumbir o homem ao estado de animal ferido em meio á um mundo de armadilhas.
Era exatamente assim que durante aquela semana todos se sentiram enquanto engoliam as matérias vomitadas pelos jornais e televisão, rádio e revistas faziam questão de expor o quão brutal e sanguinário era o maldito grupo terrorista que eles tanto conheciam sem nada saber sobre.
Mas por que assustar o povo numa época onde se deveria sentir-se bem e livre para gastar tudo o que não tem?
Ora, é simples.
Dinheiro. Audiência. Manipulação. Alguns dos pecados graves da informação controlada.
Os corpos dos mendigos pendurados na madrugada pelo pescoço foi um trabalho árduo, mas previsível já que queriam assustar. Boa parte daqueles que tinham onde morar e achavam que aqueles ratos humanos infestavam a cidade até gostaram de ver.
Porém, a chuva para quem não tem um teto não traz um som agradável nem a brisa macia que os toca.
Crianças foram mortas esmagadas por escombros no orfanato enquanto almoçavam. Tudo desabou em pleno a luz do dia, crânios quebrados, entranhas temperando a massa cinzenta, mórbido.
Baseado nos resquícios de explosivos a policia constatou que fora intencional. Que ótimo trabalho não é mesmo?
As viaturas, sim, as viaturas foram um jogo complicado. Queimá-las e virá-las na frente da prefeitura sem que nenhum oficial os visse deve ter sido complicado, certo?
Nem tanto, bastou alguns tiros para que todos entrassem em suas casas e naquele dia de cão a polícia não fazia ideia de onde deveria ir.
Menos de meia hora depois tudo já havia sido feito.
A cidade amanheceu com as sobras do enforcamento marcando o chão.
O fogo iluminando os corruptos.
E o túmulo de concreto selando a vida daquelas crianças.
Terroristas. Foram como eles foram tachados.
Mas quem eram eles? O que eles realmente queriam?
Talvez nunca ninguém fosse capaz de realmente saber os interesses verdadeiros por trás daqueles atos. Poderiam ser um grupo organizado tendo como arma o terrorismo, assim como estavam forçando com base no medo antes construído sobre o mediterrâneo ou talvez um grupo de adolescentes revoltados com a sociedade e seus padrões de tortura tão aceitos pelos nossos velhos pilares da família tentando desestruturar toda essa lata de lixo, ou apenas um grupo de neonazistas brutos e entupidos até a garganta com álcool e cocaína o bastante para não se importar com todas as outras razões.
Bom, não importa as razões, lados políticos, dores amargas ou o objetivo principal.
Todos nós vestimos a camisa da morte com o lado que gostamos mais.
—
Não demorou até que a supremacia branca se manifestasse guiada pela ignorância de achar que o que havia acontecido fora uma iniciativa por parte dos simpatizantes de suas ideologias, alguns punks sujos e seus pedaços de cano procurando por diversão, uma multidão de sem-teto tomando conta das ruas principais que ligavam ao centro, grupos com máscaras de gás, blusas vermelhas, imigrantes, ativistas contra violência e policiais tentando manter todo esse povo em controle. Só precisou uma fagulha para o incêndio começar.
— Vocês mataram crianças inocentes seus monstros!
Uma mulher em prantos chora pela morte dos pequeninos que talvez ela não tenha noção de quem realmente tenham sido, mas isso não a impediu de sentir a dor pelo medo de perder seus filhos.
Talvez por isso os deixou sozinhos em casa quando ganhou as ruas para gritar.
— Cale a merda dessa sua boca sua negrinha de merda!
O careca branquelo com suástica na testa joga uma sacola plástica cheia de unia na multidão enquanto ri levantando os braços para o alto como se tivesse feito um gol.
Seja lá o que estivesse havendo naquele maldito dia, o que levou a todo o alvoroço, medo e confusão, a anarquia contorcida naquele povo, tudo estava certo.
Pois tudo estava no plano.
E eles viram que era bom.
O falso senso de estar fazendo algo fora do comum em prol de uma causa, por mais imbecil que fosse, se acabou rapidamente após algumas horas de algazarra desmedida pelas ruas e calçadas sujas de panfletos de militâncias e vômitos ideológicos.
Um silêncio surgiu como uma heresia á antiga zoada infernal de explodir os tímpanos como se estoura plástico bolha. Silêncio esse causado por um espanto, um susto, uma revelação da própria burrice que nem mesmo o mais inteligente no meio do povo, se é que isto é possível, poderia pensar para si.
Na esquina da Quinta com a Terceira na Avenida John Stanford que cruza a cidade, havia uma igreja.
Quase que completamente branca, se não fosse pelos encardidos na pintura, as janelas negras e o vermelho do passado que persegue quem a frequenta. Se não estivessem ocupados naquele barulho e retruco infinitos, teriam notado as pessoas singulares que circularam entre todos, que seguiram com mochilas até a igreja católica quase a frente e todos e implantado os C4.
Foram necessários apenas alguns minutos até que o chão tremesse de forma gradual de forma que, ao alcançar seu pico, fizesse com que as vidraças e a madeira escura das janelas se espalhassem como flocos de neve sobre as ruas. Que conveniente num época natalina.
A grande cruz de aço que anos atrás já fora dourada, caiu negra sobre alguns automóveis e pessoas.
Algumas barrigas abertas, pais gritando pelos filhos e crianças ensanguentadas sem amparo.
Alguns segundos e os olhos arregalados ganharam o acompanhamento dos gritos de horror.
Outra explosão fez com que os tijolos fossem jogados com a força de uma doze em direção a todos.
Uma mãe carrega aos prantos o corpo da filha ainda criança com alguns estilhaços na garganta sem saber que levava apenas um fantoche sem vida, cérebros expostos e ossos quebrados eram o ápice daquela peça, num enorme e triste crescendo de medo e lágrimas enquanto todos pintavam a avenida com seus pedidos de ajuda, as putas, os viados, os bandidos, os punks sujos, os brancos racistas, os negros, os religiosos, os mendigos, assim como os vermes, não há diferença quando todos fogem pela sua casa sabendo da morte certeira, não se distinguem as baratas das lesmas, ratos das moscas quando fogem e não se distinguem quando se quer mata-los.
Isso era exatamente o que queriam, unir todos juntos e assustá-los levando-os para suas tocas e buracos.
A resposta já estava entregue e a polícia agora sabia o que deveria temer. Algum grupo, sim, mas não esses bandidinhos furrecas que costumam prender e com certeza nem os mais complicados ratos, pois, até mesmo o tráfico e assaltos se reduziram drasticamente pelo mais belo e simples medo.
— Nós precisamos de uma ação imediata, uma força que imobilize esses cretinos.
Disse o chefe de polícia enquanto batia na mesa com uma régua, quase a quebrando e derrubando os copos descartáveis com café sobre a mesa. Todos focavam os olhos no quadro de cor esverdeado onde fotos, anotações e horários estavam presos por alfinetes junto a ligas avermelhadas que criavam a teia de fatos que precisam levar em consideração.
Tanta atenção, tanto foco e nada.
Era como correr por um quarto desconhecido de olhos fechados.
E as canelas e dedos mindinhos dos oficiais já não aguentavam mais pancadas.
O Chefe de polícia coça os olhos secos de olhar mesma imagem, de forma que ao tornar a vista escura ainda poderia ver o maldito quadro esverdeado contrastando contra mesa e paredes brancas da sala em que estavam sentados ao redor. “Senhor...?”. Os olhos de todos se viram de forma quase ensaiada para o garoto, visivelmente novato, que abrira a porta de supetão segurando uma caderneta.
”Nós pegamos, Senhor... O líder deles...”.
DEPARTAMENTO DE POLÍCIA CAPTURA LÍDER DE GRUPO TERRORIS EM GALPÃO
A Coluna Na Hora recebeu a confirmação de que nesta madrugada de sexta(24) o líder do grupo terrorista que havia realizado diversos atentados ao povo desta pacífica cidade foi levado detido junto á três dos seus capangas ao sair de um galpão onde fora encontrado mais dezenas de quilos de explosivos.
A polícia chegou ao lugar graças á uma denúncia anônima.
”MAL ALGUM FEITO Á MINHA CIDADE E ACABARÁ SEM PUNIÇÃO.”- Disse o prefeito nesta tarde deste dia 24.
Na véspera das festividades o prefeito decidiu fazer um discurso em frente a prefeitura para certificar o apoio aos eu sofreram ataques nos dias passados por meio do grupo terrorista agora retido.
Bom, parece que a felicidade, a alegria fajuta e a mesquinharia natalina voltou á todo os lares.
A prefeitura, a polícia, todos os que podiam mover seus ” pauzinhos” além das secretárias fizeram o que puderam para conseguir fazer com que o tal Líder, que fora capturado tão facilmente após uma ligação anônima, fosse enfurnado o mais rápido possível nas grades prisionais.
Um julgamento raso e rápido, um anúncio via rádio e televisão.
Talvez os jornais não tenham tido um dedo naquilo...mas não foi o caso.
A noticia do julgamento transmitido fora anunciada algumas horas mesmo antes da tal confirmação.
Eram quase Sete horas da noite.
Desde o anunciado praticamente todos os cidadãos com televisor acompanhava o que haveria de acontecer, a luta do povo contra os bandidos, da paz contra o mal, da justiça á favor...de alguns.
Até aqueles que não tinham TV estavam encostados nas janelas das casas, amontoados em bares ou lugares abertos, em cima de caixotes de madeira. Esperava-se mais uma sentença de morte do que a virada para o nascimento de Cristo.
As ruas estavam silenciosas, todos atentos dentro de suas casas, com olhos vidrados nos vidros televisores. Na frente do tribunal haviam cercas de aço para impedir que uma pequena parcela de pessoas com cartazes escritos MORTE AO CEIFADOR entrassem no local e tentasse algo enquanto uma quantidade mais que necessária de policiais com coletes e armamento pesado, pistolas e escopetas em mãos para impedir que qualquer resistente daquele grupo ”terrorista” tentasse coisa pior.
Outros policiais mantinham os três prisioneiros em uma delegacia em segredo, tomaram cuidado para não mencionar por nenhuma frequência de radio onde estavam.
Agrupados dentro e fora do tribunal os oficiais mantinham a segurança de todos ali, dispersados pela cidade eles tentavam manter seguros os principais hospitais e locais públicos temendo por um ataque na tentativa de vingança ou mesmo para libertar o seu Líder.
A euforia era tremenda habitando os corações dos agora justos e vingados moradores.
Talvez por inocência, despreparo, estupidez ou simplesmente por estarem realmente felizes por terem conseguido capturar o tal mandante dos crimes, ninguém do departamento de policia se perguntou ou mesmo intuitivamente duvidou da veracidade do ocorrido.
Você não se perguntaria?
Uma ligação anônima faz a policia achar o galpão utilizado pelos criminosos.
Quatro homens altos, possivelmente treinados em alguma forma de combate e com conhecimentos sobre explosivos, usando roupas básicas como calças sociais e camisas sem estampa, rostos sérios e apáticos, sem barba e com cabelo aparado, nenhuma palavra foi dita dentro ou fora do furgão policial, selas ou tribunal.
A polícia os pegou, não há duvidas.
Assim como não há duvidas que os homens misteriosos queriam assim.
— Você realmente tem que ir, Ana?
— Sim, amor. Marc está muito pior que antes com toda essa loucura que tem acontecido.
— E eu que pensava que o pior que você teria de enfrentar hoje era a companhia daquela múmia.
O sorridente rapaz vestido como quem está disposto a não fazer nada durante o resto da noite suspira, enquanto estica a mão direita para sua esposa.
— Thomas não é de todo mal quando tem alguém pra manter ele na linha.
A moça sorridente segura sua mão e senta com cuidado no colo de seu esposo para não amassar o uniforme azulado.
— E quem vai me pôr na linha, meu bem? Vou ter que ficar aqui vendo os canais de leilão e propagandas mentirosas sobre óculos de raios-x.
— Certamente é mais seguro para você aqui, certo? Agora me deixe ir antes que eu receba outra advertência por atraso.
Eles beijam, de uma forma singela. Quando seus lábios se soltam quase se dá para ouvir um ”adeus” ecoar por dentre as bocas.
Pablo poderia estar em casa mas ver seu lar passando pela porta era como estar sendo jogado ás ruas junto aos mendigos, ratos e outras espécies de cidadãos que habitam as ruas durante a noite.
Algo em seu peito dizia que aquela arma em seu coldre não a protegeria naquela noite assim como aquele distintivo dourado não lhe serviria de escudo assim como sonhara todas noites em que, em seus sonhos, Ana era acertada por uma bala.
Mas o que poderia fazer? Afinal não se sentira assim todas as outras noites?
O tal grupo que ocasionou os atentados não eram apenas os quatro aprisionados.
Haviam mais, muitos mais. ”Ei, alguém ajuda esse maluco, ele tá vomitando sangue.” Em toda parte.
”Dr. Armound, o Senhor está bem? Meu deus, chamem os paramédicos.”
Assim como para se construir um prédio, se faz para destruí-lo...
”Já que o senhor se recusa a dizer algo, assim como se recusa a ter um defensor dos seus direitos mesmo sendo esse um dos seus direitos não me resta muito a fazer a não ser...”
Foca-se nos alicerces.
Bip bip bip.
”Senhores, eu insisto que desliguem seus eletrônicos. Estamos em processo de...”
Sem fogos.
Sem comemorações.
A única contagem regressiva naquela noite de natal ocorreu dentro dos estômagos e tripas dos únicos que sabiam o que Jesus ganharia de presente em 89.
Foram pegos, sim.
Uma mínima parte.
E estavam onde queriam estar.
Junto aos porcos da sociedade.
Os quilos de explosivos dentro dos seus corpos os transformaram na verdadeira arma da causa.
Uma causa desconhecida para qualquer um que lá estivesse ou mesmo que acompanhasse das suas casas.
A delegacia foi abaixo.
Escrivão algum conseguiria detalhar a bagunça de entranhas e membros esfolados no tribunal.
Eles estavam em toda parte, como baratas, em todos os cantos mesmo sem os ver.
Nos hospitais, deitados em becos, dentro de pousadas de ”Pague por uma noite” ou Hotéis caros, dentro de ônibus e abrigos para moradores de rua, dentro dos próprios lares, bares, pubs, restaurantes e lanchonetes noturnas com suas televisões exibindo filmes de comédia natalina para os de coração mole, esquinas sujas, praças movimentadas pelos jovens bêbados, cinemas, lojas ainda abertas, padarias, vendas de automóveis usados e clínicas veterinárias.
Animais, bêbados, zé-ninguém, médicos, advogados, jornalistas, motoristas, vendedores, recepcionistas, empregadas, prostitutas, garis, serventes, entregadores de pizza, cirurgiões, escritores, poetas, traficantes, crianças, velhos, pedintes, órfãos, casais de idosos e amantes recentes, corredores, músicos, vagabundos, estudantes,... Ana.
Não houve o final daquele Julgamento, mas sim o de toda uma cidade.
Havia tanto sangue pelas ruas, dor, medo, desamparo, tripas...
Que ao bater da meia noite Cristo fechou os olhos e perguntou por que havia nos abandonado.
Não havia tijolo sobre tijolo.
Apenas o caos.
Destroços.
E Ana.
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