Pupilo

1 Capítulo 01: Amarelo


Amarelo. Capítulo 01

Chuva.

Parece mais comum nesses dias.

Era como se ela simplesmente aumentasse.

E de repente, sem aviso prévio ou contagem regressiva.

Cessava.

O tom azulado se misturava ao cinza dos prédios, ao preto do chão, ao amarelo das lâmpadas das ruas.

O céu parecia se adaptar, como uma simbionte, ao povo da cidade.

Ficava escuro, ás vezes nublado, claro e vez ou outra vermelho como o próprio inferno.

Era o que se podia esperar, afinal, esta cidade é um caos.

— Como ele se parecia? Você lembra? O rosto ou as roupas, o jeito que andava ou seus olhos?

Minha mão arrodeia meu rosto numa tentativa de estimular a mente de quem me olhava tão atentamente quase chegando a me desconcertar.

— Você reparou se havia alguma falha na barba ou... se havia alguma barba? Qualquer pinta? Qualquer coisa é muito importante, você entende?

Agora pareço estar a desconcertando. Às vezes é complicado manter a calma quando se está tentando resolver um problema em meio outras centenas mas acho que é tudo que posso fazer, manter a calma.

— Eu não lembro...

E aí estava o grande prêmio. A única testemunha não lembra as características de quem ela própria gritava agora a pouco ter entrado em sua casa.

Eu estou suando mas, é provável que seja pela impaciência e essa dor infernal que lateja minha cabeça como um broca buscando os mais profundos minerais do meu cérebro.

Na verdade faz frio.

Meu casaco marrom, que pesa uns cinco quilos, certamente está servindo de algo agora além de guardar meus remédios.

—Se lembrar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me procure na delegacia. Certo?

As vezes eu esqueço de dizer meu nome mesmo estando óbvio que disse para me procurar, é culpa destes dias de cão que tenho enfrentado, as filas de denúncias e pedidos de socorro parecem filas de padaria de tão grandes mesmo tão cedo.

Aliás, já são quase três da manhã.

— Aliás, meu nome é Pablo. Detetive Pablo. Consegue repetir?

Minhas mãos fazem gestos circulares quase como se estivesse conduzindo uma orquestra.

Uma delas pelo menos.

Busco incessantemente meus comprimidos para enxaqueca como o governo busca meus impostos.

— Ensinando palavras novas para os do jardim de infância? Não pensei que era tão frustrado assim.

Maldito cheiro de amarela com perfume falsificado, típico cheiro de velhos aposentados que passam os dias bebendo em frente ao micro-ondas por que pensam ser a televisão.

Faria sentido se Thomas já tivesse largado o osso da delegacia.

Aos 56 anos, essa múmia maldita ainda me persegue.

Ele é o comissário e poderia ir embora mas, prefere manter seu cargo e me impedir de tomá-lo.

Bom, ele tem ao menos o privilégio de escolher o que fazer, já que todos sabem que o pobre velho pode morrer a qualquer instante mesmo que ele seja o único filho da puta a permanecer vivo nessa chuva sem uma gripe ou pneumonia.

—Muito tempo convivendo com você, Thomas.

Tiro meu bloco de notas do bolso lateral direito do meu casaco, preciso anotar o endereço e algumas informações sobre para onde aquela garota vai.

— Sabe o que dizem, é contagioso. Falando em tempo, o que pensa que está fazendo?

Poderia parecer uma pergunta meio estúpida mas, Thomas era como um avó para todos, você o odeio mas não pode trata-lo mal. Ele sabia o que eu estava fazendo mas insistia em franzir a testa e mexer aquele bigode de fox terrier branco como se estivesse tentando me ler.

— Como assim: O que eu estou fazendo?

Rua Almirante Bernar...

— Exatamente isso. O que você está fazendo?

Com a Terceira, número 1098...

— É... Meu trabalho, Thomas.

Uma fungada que provavelmente havia limpado aqueles pulmões semimortos seguida de um cuspe perdido em meio à água que escoava pelas escadarias de no máximo cinco degraus da portaria da casa daquela garota.

Deve ser uma noite bem difícil para alguém nesta situação.

— Então é esse o seu trabalho, Detetive? Anotar no seu bloco de notas qualquer caso que apareça? É isso que você está fazendo?

— É o meu trabalho, Comissário. E o seu, o que está fazendo?

Olhei-lhe como se estivesse cercado de luz, e estava.

Afinal eu estou sentado ao lado da garota, e dessa altura, visto de baixo talvez esteja realmente agradando Thomas.

Maldito poste amarelo que não me deixa olhar naqueles olhos de peixe morto.

— O meu trabalho é garantir que você faça seu trabalho, estou fazendo o que tenho que fazer e não perdendo tempo com ex-namorados que aparecem no meio da madrugada. Por favor, abra os olhos. É óbvio que não há nada demais acontecendo aqui, já vi isso centenas de vezes. — Pela idade daquele esqueleto ambulante poderia ser verdade.- A mãe está chata, careta e precisa de algum combustível pra passar a noite, liga pra alguém que está passando e nem se preocupa com a filha ter uma mente criativa demais para ocupar a polícia no meio da noite.

Ele mal respirou para dizer aquilo tudo e olhar fundo nos olhos molhados, mas não de chuva, daquela pobre garota. Os passos da bota de Tom seguiram abrindo espaço entre as poças que iam se formando nos buracos e amassados do asfalto até voltar para a viatura.

— Não liga pra ele, certo? Eu prometo que... merda...- O comprimido, eu não o tomei, a dor está voltando.

— Isso é uma palavra suja... — Ela me apontou o dedo quase do tamanho do meu nariz. Ela não deve ter onze anos de idade.

—Esse é um mundo sujo.

Minha mão direita afaga seus cabelos pretos presos por uma presilha.

A chuva continua, a garota está rodeada de vizinhos curiosos atraídos pelos gritos da própria.

Atrás de mim vejo cacos de vidro que parecem ser da janela, mas minha dor é forte o bastante para que eu perca o interesse.

O comprimido serve para mim certas vezes como um cigarro apagado para um fumante.

Apenas o ato de estar fazendo aquilo, o ingerindo, o pondo nos lábios sem acender, me faz bem.

Meu cabelo loiro está quase marrom de tão molhado, ou talvez o reflexo destas vidraças escuras esteja mesmo uma merda.

Sinto-me melhor.

Dois, três passos á frente e sei que não estarei.

— Dez anos, Tom. Dez anos e agora sem a mãe. Como saberemos que ela vai voltar? Você deveria ser mais sensível.

— Olhe, eu já contatei o serviço social. Não há mais nada pra fazer, ok? Quer um cigarro?

Não, não quero.

— Me dá um.

Afasto-me da viatura e tento acender aquele cigarro amassado.

Marca cara, filtro vermelho.

Tem até comercial na TV.

Mas não faz dele o melhor, muito menos o melhor para esta hora.

Sento no capô enquanto olho para aqueles apartamentos, prédios residenciais.

Parece um amontoado de vidas que á qualquer momento pode sumir.

O cigarro acendeu.

Odeio tragar errado.

Tudo como um cão engasgado com um osso grande demais.

Mas não tusso alto o bastante para não ouvir o rádio da viatura chamando.

— Comissário Thomas na escuta, Câmbio.

Continuo tossindo.

Inconvenientemente tentando ouvir a voz chiada em meio às gotas de chuva e o estalar da minha garganta.

Cigana...

Trinta e poucos anos...

Cabelos escu...

A tosse passou finalmente.

— Entendido, Câmbio.

Inconvenientemente a conversa se encerra.

Terei de puxar assunto com o vovô agora.

Ao me virar quase instantaneamente me dou de cara com Thomas que acaba de guardar o rádio e senta no banco de passageiro na frente da viatura, com a porta ainda aberta.

— E aí? O que era?

Jogo metade do cigarro na água, eu sabia que não o fumaria todo.

O barulho dele se apagando é bom, porém efêmero.

Continuo com passos curtos.

Tom tira o chapéu velho e molhado e o encosta na perna.

— A mãe, a encontraram.

Como se eu pudesse sentir que a garota ouvia aquilo mesmo que soubesse que não.

Viro-me em sua direção.

Ela ainda está lá, sentada nas escadas olhando para o final da rua como se esperasse a mãe voltar.

Ela vai gostar de saber que a encontraram, certo?

— Onde? Onde ela estava?

— É melhor ensaiar mais uma das suas conversas paternais. Você vai ter que dizer á garota que a mãe dela estava no fundo de um rio.