Punk

1 único


Já fazia 20 minutos que o professor responsável falava sentado na cadeira da sala quente e abafada, onde só tinha um aluno, de cabelos loiros e sobrancelhas enroladas, como plateia. De princípio, Sanji veio até a sala dos professores para ser avisado de que suas notas não estavam boas o suficiente com o fim de se ingressar numa universidade. Mas agora o professor danou a tagarelar, e no pior tom possível. Quem dera se tivesse lhe dando um esporro, mas era só um cara falando manso, querendo mostrar que não era como os outros adultos, porque conseguia compreender suas ações erradas. E Sanji pensava que não havia de compreender ações nenhuma por não fazer nada de errado, quando estava sendo ele mesmo, era só um besta querendo pagar de legal. Ademais, encarava o rosto do professor, apenas parando para mexer no cabelo suado ou na gola da camisa, pois estava quente demais e o professor nem ao menos cuspia na sua cara, já que falava num tom tão polido.

“É verão, breve chegará as férias de verão.” — Repetia na mente como se fosse um mantra.

Retornou para a sala de aula e os alunos passaram a observá-lo, deviam estar curiosos do castigo que arrumou dessa vez. A coisa era tão ruim quando até mesmo o professor parava de explicar para ficar olhando, como se estivesse todo cagado ou de pau duro. “Que caralhos!”

Enfim, sentou na sua carteira e a aula prosseguiu. Porém, um aluno de cabelo esverdeado, sentado na carteira ao lado, perguntou o que aconteceu.

— Você será chamado também. — Deu um suspiro, se sentia esgotado e a última coisa que queria era ver um Zoro fofoqueiro.

— Por quê? — Piscou os olhos em desespero. Não era possível que Sanji o dedurou por pichar no banheiro dos garotos.

— Porque é burro!!

E, realmente, o nome de Zoro fora anunciado pelo rádio da escola.

As atividades escolares terminaram, Sanji retornava pra casa com Zoro, o amigo que se sentava ao lado, e que, por sinal, era o seu melhor amigo, mesmo sentindo uma vergonha danada por andar com um carinha de cabelo tão feio. Tanto que gostava de chamar Zoro de marimo e, claro que Zoro não deixava passar barato, chamava Sanji de sobrancelhas só para provocá-lo também. E o rapaz tão vaidoso ficava desesperado quando se lembrava que tinha um par de sobrancelhas assimétricas, coisa genética da família. Contudo, o insulto de Zoro parecia ter mais peso quando Sanji tampava um dos olhos com a franja e o marimo não tingia suas madeixas de outra cor.

Sanji estava louco para fumar, ainda mais quando se lembrava da sala quente e do monólogo do professor que “falava” a língua dos alunos... por mais idiota que era, aquele professor lhe deu uma pilha danada. Zoro andava ao lado e observava que seu amigo não estava muito bem, será que queria cagar?

— O que é, sobrancelhas?

— Estou fudidamente fudido, sinto que estão dissecando meu corpo enquanto fico ao lado do suporte frio em que ele estará, olhando como alma penada.

— Quê?!

Sanji soltou um suspiro depois de ver a cara confusa que seu amigo fez. — Você não entende! Você não tem nada pesado em seus ombros!

Zoro detestava quando Sanji começava a balançar aquelas mãos sem parar, às vezes levando-as para os bolsos da calça, doido pra apanhar o cigarro. — E a princesa pode me dizer que peso é esse?

Resolveu parar o passo e subiu na amurada da ladeira, do outro lado tinha o mar. Zoro se exasperou, pensou que o amigo ia se matar.

— Idiota! Solta o meu braço! Não vou me matar!

— A culpa não é minha, é que você falou coisas estranhas sobre alma penada e depois se pendurou aí, achei que tinha finalmente se enlouquecido de vez!

Sanji finalmente se desprendeu da mão do marimo e se sentou na amurada, depois resolveu acender o cigarro e não se importava mais com os adultos imbecis. Era verão, ele voltou a se lembrar disso. O mar, o odor do ar quente, o burburinho das crianças jogando bola logo abaixo da ladeira e o sol se pondo no horizonte... tudo isso lhe parecia agradável.

Já o outro se manteve escorado na amurada, sempre observando o amigo com medo de fazer alguma coisa doida. No entanto, acabou se distraindo com os cabelos loiros se esvoaçando pelo vento.

— Seu cabelo tá muito grande.

— Quê?!

Se sentou também na amurada. — Daqui a pouco vai cobrir a cara toda e não vou poder ver seus olhos.

Sanji riu, às vezes aquele punk era sensível e nem notava. — É? Tomara que cubra tudo então e paro de olhar a sua cara feia.

Zoro deu um empurrão leve no amigo, que não parava de rir, até resolver retomar o assunto. — O que está pesado nos seus ombros?

O sobrancelhas, então, ficou sério e limpou a garganta para falar. — Quando você crescer... você vai cuidar do dojô, né?

— Sim.

Era por isso que não estava desesperado, Zoro era burro também, mas já tinha um futuro garantido. Agora Sanji não, não fazia ideia do que fazer.

— Eu não sei o que fazer.

— Achei que faria gastronomia, não?

— Ah, nem sei... — Havia um desânimo na sua voz. — Hoje qualquer um pode ser cozinheiro por causa daquela porra de youtube.

Zoro riu e envolveu os ombros dele com o seu braço. — A gente zoou muito até agora, né? — Se referia as incontáveis encrencas que os dois já arrumaram. — E você estar preocupado com isso é bom. Mostra que está crescendo, não?

Sanji meneou a cabeça com o cigarro ainda pendido nos lábios. — Você é péssimo nisso, marimo. — Disse e Zoro acenou admitindo que o conselho não podia ser mais genérico. — Mas não tem muito o que fazer mesmo, porque ninguém sabe qual será o seu futuro.

O marimo tirou o braço de Sanji e passou a fitar o mar pela primeira vez desde que se sentara ali na amurada.

— Mas posso garantir que estarei do seu lado.

Sanji deu um sorriso com o que disse. — O que faremos nas férias de verão?

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