Punição divina
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Bokuto parou no lugar a alguns passos de distância, analisando ambas as figuras com atenção. Eram idênticos: os mesmos cabelos escuros, a túnica branca agora rasgada e suja em vários pontos, os pés descalços e com vários cortes.
— Por essa nem eu esperava! – Tendou comentou divertido, observando os dois padres – Ótima hora pra ganhar um irmão gêmeo!
— Oikawa não pode mudar a voz! – Kuroo gritou em alerta ao se lembrar do encontro que teve com o demônio horas atrás. Ele ficou resmungando e acenando para que não percebesse aquele detalhe.
Equipado com a nova informação, Bokuto apontou a espada para o homem que se levantou primeiro, recebendo um olhar assustado. Precisava fazer os dois falarem e o que se negasse, entregaria sua identidade falsa.
— Fale alguma coisa! Diga seu nome! – Bokuto exigiu, ignorando as risadas de Tendou ao fundo. O demônio ruivo simplesmente parou de atacar, contornando o grupo e esperando que eles se decidissem.
Kuroo ficou atento ao movimento dos três, esperando que Tendou desse algum sinal e algum dos padres respondesse, mas nada aconteceu. Os padres não se moviam, ambos pareciam assustados e se encolhendo com toda aquela atenção.
— Akaashi… Keiji. – respondeu enfim a pergunta, em expectativa.
— Esse é o verdadeiro! – Kuroo apontou para o outro padre, dando uma ordem – Acabe com aquele, Bokuto!
— Espere! Ele falava como você quando me atacou! – o outro Akaashi se encolheu diante do ataque em sua direção, arrancando um palavrão de Kuroo, que gritou novamente para Bokuto esperar.
— As vozes são iguais! – Bokuto comentou em resposta, afastando-se de ambos.
— Droga! – Kuroo praguejou socando o ar, olhando de relance para Kenma, mas recebeu apenas um aceno negativo.
— Eu sinto o mesmo tipo de energia vinda dos dois. – Kenma explicou, se desculpando.
— Tem que ter alguma diferença! Ele não podia mudar a voz antes. – uma ideia absurda passou pela mente de Kuroo. Precisava colocá-los em contradição – Akaashi, o que ele não conseguiu mudar quando o encontrou?
— As asas. – ambos responderam ao mesmo tempo, no mesmo timbre de voz.
— Bokuto, pergunte algo que só um deles sabe responder!
A sugestão de Kuroo deixou o anjo estático. Algo que só o verdadeiro podia responder? Quando ele mesmo não conhecia muito a respeito do padre?
— Por qual nome eu me apresentei a você?
— Koutarou.
Mais uma resposta em uníssono. Ambos pareciam inseguros e nenhum olhou para Tendou. Oikawa deve tê-los vigiado em algum momento e sabia o que falar. Bokuto veio a descobrir que a maior parte do tempo que passou na igreja, quem o seguia de perto era Kuroo, mas não o tempo todo.
Houve um único momento que Bokuto tinha certeza que ficaram sozinhos: quando pediu para confessar. Demônios não podiam entrar em igrejas e Kuroo não estava por perto naquele dia.
— Um de cada vez… – Bokuto murmurou em tom sério, apontando primeiro a espada para um deles. Não podia errar. Não podia ter dúvidas. Só teria uma chance – Na igreja, quando fomos para o confessionário, estávamos só nós dois. Só nós dois sabemos o teor daquela conversa. Só o verdadeiro sabe o que aconteceu. Vamos, me conte sua versão.
— Você foi em busca de perdão. Falou comigo a respeito do que o trouxe para a cidade e eu o culpei por trazer tantos problemas junto.
— Certo… muito bom. – Bokuto acenou em aprovação, sentindo-se extasiado – Afaste-se com cuidado. – instruiu com calma, se virando na direção do segundo Akaashi, apontando-lhe a espada. Agora que estava perto, pode notar a diferença. Kuroo tinha razão. Oikawa não podia se transformar por completo e, só agora que estava tão próximo dos dois é que pode distinguir a diferença – Quer contar sua versão?
Como se fosse necessário.
Tendou ainda parecia inseguro de atacar, rondando-os à distância. Nenhum de seus golpes iria machucar o colega gravemente, mas ia entregar quem era quem. Kuroo, por sua vez, estava de prontidão. Ele ia atacar sem pensar duas vezes, assim que Bokuto desse algum sinal. Para a surpresa de todos, Kenma também parecia pronto para agir. A capa havia sido dispensada e as longas asas foram estendidas, formando sombras escuras na clareira. Se a sua presença não causasse arrepios em quem o avistava, notar que o cajado havia se transformado numa foice cumpria o objetivo.
Bokuto acenou com a cabeça, estando de costas para os três, apenas Kuroo e Kenma viram para quem ele direcionou o olhar. Aquele era o falso.
— E então? – Bokuto segurou a arma com força, ajustando o escudo no outro braço – Algo a dizer?
— Você me trancou lá dentro… – Akaashi respondeu num fio de voz, sentindo-se tremer. Por que o estavam encarando daquela forma? Ele era o verdadeiro – Eu pedi uma prova de sua boa vontade…
Bokuto arremessou o escudo de seu braço, girando meia volta antes de soltá-lo, atingindo o padre que anteriormente estava às suas costas. Akaashi fechou os olhos e levou os braços à frente do corpo, não vendo o momento que Oikawa foi lançado, Kuroo interceptando-o no meio do caminho e atingindo-o pelas costas com a espada. Tendou sumiu nas sombras ao notar a desvantagem, deixando os restos do colega para trás.
— Você tem belos olhos azuis, sabia? – Bokuto deu um tapinha em seu ombro, deixando a mão pousada ali, num aperto gentil.
— Obrigado… por quase me matar do coração, quero dizer. – Keiji abriu um pequeno sorriso, mas a expressão cansada venceu, a seriedade voltando com um suspiro longo. Havia mesmo acabado? – Achei que iria me atacar. De verdade.
— Sinto muito. Demorei a notar a diferença e te coloquei em perigo. Eu exigi bem mais do que você podia aguentar.
— Tenho sua palavra que isso não vai acontecer de novo? Não tenho certeza se aguento outra dessa…
Akaashi esperava sinceramente que não acontecesse mais nada estranho em sua vida. Já se envolveu o suficiente com anjos, demônios e outras criaturas estranhas. Queria voltar para uma existência tranquila e sem riscos…
— Bokuto!
O alerta de Kuroo não foi necessário, visto que o anjo não havia tirado os olhos de cima do padre, estendendo os braços para amparar sua queda.
— Ele está ferido? – Kuroo questionou enquanto se aproximava com Kenma ao seu lado.
— Eu pensei que tivesse curado a maior parte…
— Vocês o arrastaram pra cima e pra baixo o dia todo. – Kenma explicou, se ajoelhando na frente da dupla para analisar o padre, o cajado pousado em seu ombro enquanto pegava o cantil e despejava o líquido nos lábios entreabertos – Ele está cansado. Vai ficar bem.
— O que vamos fazer com ele? – Kuroo questionou curioso, esperando que Kenma também tivesse uma solução para isso, mas recebeu um olhar afiado.
— Bokuto pode cuidar disso sozinho. A questão é o que eu vou fazer com você agora.
— Hei… vamos com calma, ok? Eu concordei em ajudar, então você pode pegar leve…
— Pegar leve? Tem noção da situação que me colocou?! A burocracia que enfrentei com os superiores para que pudesse te oferecer um acordo!? E você ainda teve a capacidade de pensar na oferta do outro lado!
— Eu estava entediado…
Kenma voltou a se erguer, parecendo assustador mesmo que Kuroo o estivesse encarando de cima. O pequeno anjo sabia se impor quando queria.
— Vou levá-lo para a aldeia depois da bifurcação. – Bokuto interrompeu a briga, erguendo-se com o rapaz desacordado no colo – É um lugar pequeno, vão acolhê-lo bem. Depois ele decide o que quer fazer.
— Quer compan-
Kuroo não terminou a sentença, visto que Kenma estendeu o cajado em sua direção, numa clara ameaça.
— Quer dizer… encontro vocês depois, pra uma visita. – Kuroo se corrigiu com um sorriso sem graça, olhando para o outro rapaz em busca de autorização – Isso eu posso, não é?
Kenma pensou bem antes de acenar em afirmação. Ele também ia precisar visitá-los; para esclarecer algumas coisas com o padre.
— Logo vai amanhecer… é melhor se apressar, Bokuto. Vai parecer melhor se acharem que ele foi assaltado durante uma viagem à noite.
A sugestão soou como uma ordem, mas Bokuto sabia que Kenma estava certo. Não podia entrar na aldeia com o rapaz no colo, implorando para alguém cuidar dele. Ia levantar suspeitas e desconfianças. Lugares pequenos podiam ser muito supersticiosos. Era melhor que alguém o encontrasse e cuidasse por vontade própria.
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