Pulsos Atados
9 Capítulo 8 - O grande salão - Keyla
Elas pisaram sobre o carpete aveludado vermelho-sangue à luz dos cristais reluzentes acima de suas cabeças. Keyla admirou o restaurante luxuoso por alguns minutos antes de seguir Mariana em direção a um balcão coberto por tecidos vermelhos, com uma placa escrita RECEPÇÃO.
– Posso ajudar?
A voz aguda e delicada de uma mulher ressoou em seus ouvidos.
– Somos convidadas de um cliente chamado Richard, creio que ele a avisou não? – Mariana respondeu em um tom educado.
– Huum deixe-me ver... – A secretária de cabelos ruivos folheou uma pilha de papéis e com um baixo dialeto de “Arrá!”, ela tirou uma folha de papel. – Me perdoem por isso, se fosse um dia qualquer eu me lembraria com certeza, mas é que hoje tivemos tantos clientes que minha cabeça está péssima.
– Sem problemas! – Keyla sorriu encorajando a mulher.
– É, não estamos com pressa nenhuma. – Mariana sorriu também.
A mulher deu um sorriso de desculpas e voltou seus olhos para a lista e depois de alguns minutos, seus olhos se arregalaram um pouco antes de olhar para as duas novamente.
– Achei! Richard Twesley... Ele reservou dois lugares, só preciso de seus nomes.
– Mariana Motta Bittencout e Keyla Stephanie Wakisowa. – Mariana respondeu sem hesitação.
A mulher abriu largamente seu sorriso e estendeu sua mão direita cumprimentando-as.
– Sejam bem vindas, ele e sua família as esperam na mesa 7. – A mulher encostou sua mão perto da orelha. — Preciso de alguém para guiar duas clientes para a mesa 7.
– Um fone de ouvido com microfone embutido, maneiro! Eu nunca tinha visto um desses pessoalmente, só naqueles filmes de espionagem. – Mariana comentou em voz alta.
Keyla soltou um pequeno “BSH” segurando uma bela gargalhada.
– Você é louca isso aqui é um restaurante chique lembra? Temos que agir como se todo esse luxo fosse normal, mesmo que não seja. – Keyla cochichou no ouvido da amiga rindo entre as palavras cortadas.
– Num to nem aí!
As duas riram alto ignorando os olhares de desaprovação tanto da secretária quanto dos outros clientes ao redor até a chegada de um homem de terno.
– Senhoritas. – Ele se curvou formalmente e beijou a mão das duas. – Eu as conduzirei para seus assentos, por favor sigam-me.
– Não muito obrigado, acho que as placas nas mesas podem nos guiar ao invés de... – Keyla pisou no pé da amiga antes que ela pudesse terminar a frase.
– Sim, nós ficamos agradecidas. – Keyla sorriu forçadamente.
Mariana não discutiu e as duas saíram caminhando pelo tapete vermelho atrás do homem.
– Ei... – Mariana cochichou por trás de Keyla. – Essa calça levantada até o umbigo dele deve machucar você não acha? Olha só a bunda dele, fica mega desproporcional.
Keyla não pôde evitar e deixou seus olhos irem até a...
– OMG, é verdade. — Ela começou a rir baixinho.
Como se quisesse piorar a situação, Mariana acrescentou:
– Essa malha no rego dele tá bastante sexy, não acha?
Keyla soltou uma gargalhada alta o bastante para até mesmo a orquestra que tocava no salão parar a música imediatamente.
Era esquisito Mariana estar agindo de forma tão humorada, mas pessoas mudavam, foi isso o que Keyla firmou em mente. Ela pôde sentir suas bochechas esquentarem ao encontrar olhares curiosos vindos em sua direção, mas mesmo assim, ela não podia controlar a risada.
O homem que as conduzia para a mesa, virou para trás apenas por instantes antes de voltar a olhar para frente.
– Pronto senhoritas. — O homem "com a malha no rego" pronunciou de maneira formal, mas soava forçado.
Keyla e Mariana ainda estavam rindo até se depararem com os pais e alguns colegas de Richard assentados em uma mesa à luz de velas.
– Muito obrigada, senhor. — Mariana agradeceu o garçom, guia ou seja lá o que aquele cara fosse, ainda rindo.
– Por favor sentem-se. — A mãe de Richard, Sra Gray convidou. — Richard está um pouco atrasado, vocês devem ser Mariana e Keyla estou certa?
Ambas assentiram com a cabeça e agradeceram em voz baixa antes de se sentarem nas poltronas de estofado vermelho. Keyla observou silenciosa as louças de porcelana que provavelmente custavam uma fortuna e as taças de vidro cheias de vinho tinto. Desejava poder sair correndo dali para algum lugar deserto e vomitar todo o aperto de seu estômago.
– Bom, creio que todos se conhecem não? — Um homem que Keyla deduziu ser o pai de Richard pronunciou as palavras formalmente.
Não.
Ao contemplar as expressões óbvias de negação, ele se levantou da cadeira e saldou.
– Pois bem eu sou Willian, o pai de Richard, essa é minha esposa Clara — Ele apontou para a mesma mulher que as convidaram para se sentar. -e esses são Annabel, Christian, Pablo e John.
Todos os outros convidados levantaram-se de seus assentos a cada vez que seus nomes eram citados.
As duas amigas apenas assentiram brevemente com um aceno e um sorriso hospitaleiro. Keyla ainda não podia reprimir a vontade de sair daquele lugar, de fugir daquele pesar nos ombros que parecia não ir embora.
Os próximos quinze minutos foram seguidos de conversas pacíficas e vazias. Keyla em um dia qualquer teria se enturmado também e Mariana seria a reclusa, mas por algum motivo, era o contrário.
Mariana conversava e ria extrovertida e exuberante como se não percebesse a energia negativa que a contornava, a energia que Keyla desejava exterminar. Ela odiava estar tão mal da maneira que estava.
Ela observou Mariana atentamente, reparando nos meros detalhes de sua aparência. Em seu sorriso, no balançar de seus cachos, nas covinhas de suas bochechas, no realçar do delineador preto com o mel-dourado de seus olhos...
Foi quando tudo parou.
De princípio todos pareceram notar uma tensão maior naquele lugar também, pois todos se viraram em perfeita sincronia para a imagem de um garoto de topete parado bem a mesa deles. Um homem alto de cabelos negros e olhos azuis, com um característico topete espetado com gel.
Richard.
O coração de Keyla acelerou e não foi pela beleza irradiante dele, mas sim pela expressão no rosto de Mariana. Soava quase cruel e impiedosa, como o rosto de um assassino, como a face de um monstro. Naquele instante, todas as dúvidas de Keyla se esvaíram, e ela tinha apenas uma absoluta certeza: Aquela não era sua amiga de infância.
Aquela não era quem todos costumavam chamar de Mariana.
Fale com o autor