Pulsos Atados
5 Capítulo 4 - Reencontros - Mariana
Quinta Feira
O frescor e a preguiça típico de todas as manhãs me inundou no dia seguinte. Acordei com uma vontade enorme de comer meu cereal favorito e ler livros ao banho das luzes solares o dia inteiro.
O único problema era a parte de "ler livros", pois eu já havia terminado de ler o livro que eu tinha pego na biblioteca fazia tempo. E lógico, infelizmente a escola ia me distrair por um tempo. Me espreguicei e tratei logo de pentear meus cabelos anelados e correr para a escola antes que eu mudasse de ideia.
Mamãe é lógico que não deixou barato para Thammy. Antes de eu sair, ouvi-a se esgoelando atrás da porta rosa-shoking do quarto de Thammy.
Pedalei com minha bicicleta a rua da Jackson Wesh até a divisa da Ponsey com a Tauwis e rapidamente os prédios da minha tão “querida” escola apareceram em meu campo de visão.
Keyla não estava perto do poste de luz me esperando como sempre fazia. Aquilo era estranho, porque ela sempre me avisava quando ia faltar por sms ou ligação mesmo. Apanhei meu celular depois de prender minha bicicleta com o cadeado e liguei pra ela.
Ela não me atendeu.
Talvez ela não tenha chego ainda. — Pensei.
Esperei por alguns minutos e ao estalar do sinal da escola, entrei com um frio na barriga.
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Lógico que Key deu notícias de seu paradeiro logo após a escola.
Eu estava indo em direção a minha bicicleta quando ela de repente resolveu virar o Kurt do X-Men e me dar um susto daqueles de parar o coração. Minha hipótese sobre ela ter incorporado o Kurt era a única explicação que eu conseguia pensar pela maneira rápida que ela me segurou nos ombros e me abraçou antes que eu sequer notasse. Ela havia faltado por ter perdido a hora.
Foi cansativo obviamente, um dia inteiro com professores chatos, mas ver Keyla bem fez toda a exaustão que eu sentia dissipar-se.
– Ei eu tenho que te perguntar uma coisa. — Ela disse enquanto eu soltava o cano da bicicleta do poste.
– Desembucha logo.
O silêncio que se propagou no ar por alguns instantes me fez encará-la com desdém.
Ela estava me fitando com olhos arregalados e curiosos, uma expressão que eu conhecia muito bem.
– Qual é o seu caso com esse Ariel?
Eu sabia...– Pestanejei mentalmente.
– Não tenho nenhum caso com ele. — Eu a respondi sem olhar em seus olhos.
– Ah mas é claro que tem! Eu percebi o clima quando eu tava falando com você e vocês se encaravam sem cansar. O que mais levaria ele a perguntar coisas intermináveis sobre você e nada de mim?
– Talvez ele olhe mais que aparência e corpo, Key. — Eu deixei escapar.
Keyla me vencia nesse aspecto de aparência exterior. Suas curvas montanhosas, os lábios carnudos e avermelhados, olhos amendoados, seios médios e sempre à mostra faziam qualquer garoto pirar. Eu com meus cabelos cor-de-mel, olhos também cor-de-mel, nariz anguloso, boca curvilínea e corpo magro era um monstrinho perto dela. Não que eu não tivesse qualidades, de inteligência e maturidade eu era dez. Mas meu jeito atrapalhado e meu não-talento para andar em cima de saltos fazia o placar de Key subir elos a mais que o meu.
– Olhe amiga eu vou te falar uma verdade, quem tem olhos vai olhar pra beleza sim. Tanto homem quanto mulher. O que eu tô querendo dizer é que você deveria se arrumar mais, tipo, arriscar em um decote de vez em quando, passar maquiagens mais fortes e usar um vestido mais curto às vezes. Tente ser mais provocante e confiante, é isso que todo homem adora em uma mulher.
– Não quero seus conselhos Keyla. Seu feminismo não me atinge. — Eu a respondi com sarcasmo pela primeira vez em anos.
– Isso não é feminismo...
– Tá tá não vamos começar aquela discussão chata e fastidiosa outra vez. Você não deveria buscar Heron hoje da escola?
Heron era o irmão pestinha de Keyla. Um menino com talento para revirar o mundo de cabeça para baixo quando estava longe dos olhos da mãe.
– Oh que saco, aquele pirralho deve estar dando um escândalo lá na escola.
Comecei a gargalhar.
– Também já é a sétima vez nesse mês que você esquece de ir buscar ele.
Ela fez uma careta e apanhou sua bicicleta assim como eu. Instintivamente olhei para o relógio de meu celular e quase deixei a bicicleta escorregar de minhas mãos. Faltava 10 minutos para a biblioteca fechar, e como eu queria ir pro terreno, era óbvio que eu deveria correr.
– Âhn Key, preciso ir na biblioteca e depois vou dar um passeio por aí okay?
– Okay, diz pro Ariel que eu mandei um beijo. — Ela respondeu com malícia.
Revirei meus olhos.
– Não vou ver ele.
– Ah tá bom, fala com a minha mão.
Fala sério ela tem que ver malícia em tudo que eu faço? — Me questionei mentalmente enquanto montava em cima de minha bicicleta, e pedalava na direção oposta na qual Key seguia.
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Passei na biblioteca em menos de dez minutos e saí com um livro novo em uma mão e coragem em outra para voltar ao único lugar do planeta que me fazia relaxar.
Me dirigi para a tão esquecida estrada de terra que dava acesso para a trilha de árvores. Tinha algumas camadas de poeira ao meu redor, que chegava a ser difícil para eu poder enxergar. Os pássaros sobrevoavam a relva sépia e se aninhavam aos seus bandos cantando ao ritmo da brisa fresca.
Fiquei arrastando minha bicicleta, tentando pensar em algo diferente para fazer no fim de semana além de vir para um terreno velho e abandonado, quando vislumbrei à minha direita a pequena abertura para a "mini floresta" que rodeava o centro.
Agarrei com mais força minha bicicleta enquanto os galhos das árvores deixavam vergões em meus braços e pernas. Depois de tanto lutar contra os paus e pedras da trilha, finalmente cheguei à nesga do terreno. Quando eu ia dar um passo a diante e me expor as luzes do sol, ouvi vozes. Imediatamente larguei minha bicicleta cuidadosamente no chão e me escondi atrás de um arbusto verdejante.
Em meio às folhas que me encobriam, vi dois garotos, idênticos, parados um à frente do outro. Um tinha cabelos avermelhados e o outro castanhos.
Ariel.
Primeiro houve o silêncio. E então a voz do garoto que tinha cabelos avermelhados (o que me fez pensar que lá no fundo eu sabia que não tinha imaginado coisas) dominou o som das árvores e pássaros.
– Como você pôde? Tantas formas, tantas maneiras de você iniciar a Transição e foi dessa forma? Por bobagem? Você persegue ela desde que nasceu, e tinha que dar um vacilo desses?
– Eu não tive culpa. Estava atrás de um cara que me devia na mesa de Poker desde a semana passada e acabei me deparando com ela. — Ariel retrucou.
Depois de um suspiro, o desconhecido cortou o silêncio mais uma vez.
– Como ela era? Quer dizer, a encarnação de Emilly?
O quê?
– A humana era bem... muito parecida com ela.
Minha mente estava girando em torno daquela conversa, tentando compreendê-la. Eles pareciam estar falando como se fossem superiores aos humanos ou como se não fossem humanos. Como se fossem de outra espécie.
De duas coisas eu sabia. O garoto de cabelos avermelhados era o mesmo com quem eu me deparara dois dias antes. E com certeza ele era familiar, igualmente como Ariel.
Eu queria abraçá-los e perguntar a eles o porquê de eu me sentir daquele jeito, mas o medo me paralisou. Eu não tinha mais o domínio dos meus pés e de minhas mãos, foi como se eu tivesse sido congelada no tempo.
– Temos que falar com a Besta.
– Não, Gabriel. É arriscado demais. – Ariel disse. Ah então o menino de cabelos avermelhados se chamava Gabriel!
– Não temos escolha. De quê outra maneira podemos impedir?
Quando Gabriel terminou a frase, um terremoto abalou aquele lugar.
Meu peito estava apertado e espremido no interior de minha pele. Minhas mãos soavam incontrolavelmente e lágrimas jorravam por minhas bochechas.
Eu podia sentir uma névoa escura, porém invisível. Eu tinha alguns vislumbres, tipo visões de algo maligno propago no ar, com chamas por toda a parte e então o presente voltava aos meus olhos e o terreno voltava a tremer.
Ariel arfava e mesmo com os borrões da minha visão eu conseguia vê-lo.
Quando minha consciência estava quase cedendo aos embalos, o chão do campo começou a se deslocar.
Foi como se a o planeta Terra estivesse sendo chacoalhado, pois nenhum impacto, nem mesmo terremoto poderia causar um tremor tão forte quanto aquele.
Minha visão começou a ficar turva e eu me debrucei sobre os cascalhos e esperei a vertigem me fazer desmaiar, mas o que estava acontecendo fez minha consciência se negar a descansar. Saindo da grande cratera do solo, várias faíscas de fogo consumiram a grama cortada e vários rochedos e pedras afiadas caiam por todas as partes.
– Ariel! — Eu gritei o mais alto que pude, mas ele pareceu não me ouvir. — Ariel! — Gritei de novo, mas ele continuava imóvel, incapaz de olhar algo que não fosse o grande precipício formado no solo.
E foi, diante de meus olhos, que de alguma forma reconheci aquela cena. Sim. Eu já tinha estado naquele lugar antes, de alguma forma.
O tremor começou a diminuir e uma forma sombria começou a se erguer das inúmeras chamas e se prostrou em frente a Ariel.
Tentei gritar mais uma vez, mas saiu apenas um chiado de meus lábios esbranquiçados. Continuei deitada, apenas observando o monstro gigantesco, e na mesma hora um sentimento enorme de adoração por aquela criatura veio à tona. Meu Senhor, meu Apolo. Aquele com certeza era quem eu queria servir pro resto de minha vida.
Eu finalmente retomei o domínio de meu corpo e me levantei devagar, tentando continuar escondida e arrisquei dar um passo para traz. Algum galho traiçoeiro, daqueles bem finos estalou e imediatamente dois olhos vermelhos e sedentos encontraram os meus.
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Corri.
Sem olhar para traz, sem ceder ao cansaço que tentava me engolir, apenas disparei em alerta, com o medo explodindo em minhas têmporas. Eu mal via nada ao meu redor, o único foco em minha mente era sair daquele lugar.
Eu não movia meus pés, nem tomava a decisão de qual rumo estava seguindo, era algo completamente diferente. Talvez instinto, ou algo a mais. Como se algo me possuísse.
Meus pensamentos orbitavam ao redor daquela cena, tentando se recordar de algo que estava perdido no longínquo de minha alma.
Ouvi passos atrás de mim e foi então que minha velocidade aumentou ainda mais. Do máximo para o extremo. O borrão dos galhos das árvores ficou quase preto com essa explosão de energia.
Minha velocidade era incrível, talvez ultrapassasse a de muitos atletas. Mas como? Eu não corria com frequência. Seria isso uma descarga de adrenalina?
Foi como se uma parte de mim, habilidosa, se reerguesse do meu interior. Depois do que pareceu segundos, que era pra ter demorado no mínimo meia hora, finalmente a estrada de barro apareceu novamente. Um rosnado escapou de minha garganta e percebi que eu estava agachada, em posição de ataque, tipo em futebol americano. Sem saber o que estava fazendo, concentrei-me até no menor dos ruídos ao meu redor.
Qualquer ser humano esperto teria fugido, como eu poderia enfrentar aquele monstro?
Depois de alguns minutos, levantei e lamentei não ter pego minha bicicleta. Como eu ia pra escola agora? Isso sem contar o livro da biblioteca. Agora eu tinha que pagar uma multa de 70 reais.
Apesar de toda aquela confusão, ainda que eu tentasse fingir para mim mesma, eu sabia o que eu desejava. Eu queria voltar lá e adorar aquela criatura com toda minha devoção.
Continuei caminhando, sempre olhando para traz, apenas para conferir se eu estava sendo seguida. Tentei distrair meus pensamentos, para qualquer coisa que não fosse no horror que havia acabado de acontecer. E então uma dor em meus joelhos me fez arfar. Eles estavam ralados e sangravam, mas era diferente. O sangue estava mais escuro que o normal, nem tom de vermelho ele tinha. Ele era negro como o céu sem estrelas. Obscuro como o sangue de um monstro.
Não.
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