Pulsos Atados
27 Capítulo 26 – A sala (Keyla)
Aquele dia era o primeiro em anos que Keyla e Mariana não estavam juntas. Lógico, não fisicamente, mas em contato virtual. Não havia nenhuma ligação perdida ou indício de paradeiro em sua caixa de mensagens.
Algo que não saia do seu cérebro foi a reação que Mariana teve depois de estar conversando com os pais do Richard, provavelmente a respeito do seu sumiço. Claro que ela não estava perto o bastante para ouvir o diálogo, mas sua fuga inusitada não intrigou só a todos, como possivelmente até a polícia. Se o que ela queria era chamar a atenção da multidão, ela conseguira.Enquanto fugia, Mariana pôde ter o seu momento de "fama", pois roubou todos os olhares e apreensão do conjunto de pessoas lá presentes. Outra impertinência que transcorria à Keyla era o fato inegável que sua melhor amiga estava sim com Richard, aliás, foi possivelmente também a última a estar com este.Lógico que as dúvidas ainda prevaleciam perante aos fatos. A principal delas era como uma garota franzina poderia causar qualquer tipo de mal a um cara musculoso como Richard, mesmo que não pudesse ser descartada a hipótese de ela ter tido comparsas, algum tipo de arma ao seu favor ou coisa pior.Keyla assistia o episódio recém-lançado de uma de suas séries favoritas, Pretty Little Liars, no momento em que sentiu aquele calafrio em resposta a sua tensão e estresse. Pelo menos ela esperava que fosse em razão disso.Checou seu celular pela milésima vez examinando sua lista de chamadas, e ficou surpresa por suas contagens de chamadas terem estourado do número 30."Algo está errado! Algo está errado!" — Era o que seu inconsciente berrava à todo custo.Odiava aquele sentimento de inquietação vindo de seu lado interno, qual mesmo que ela se esquivasse, não parava de a perseguir com mais e mais perguntas. Sentiu como se já tivesse passado por isso recentemente, mas não sabia dizer quando e nem como sabia daquilo.Como se tivesse feito uma espécie chamamento ao se relembrar dessa pequena partícula de luz em sua memória, a noite do Deluzze's a prendeu em seus labirintos indecifráveis. Parecia até roteiro de filme saber que por acaso Mariana também não se lembrava dessa noite, intrigando-a mais veementemente para a imprecisão do que haviam ingerido naquela noite. E se alguém as tivesse drogado ou tivessem só exagerado na bebida?A primeira opção era a que mais fazia sentido na mente dela, mas ainda não compreendia quem as odiaria tanto para ter feito aquilo, isto é, se caso quem as entorpeceu não tivesse outros planos na manga, como por exemplo assassinar alguém sem a intervenção delas."Tim dom"— Tem alguém na porta, filha. Você atende pra mãe? Tô na ducha ainda! — Rose berrou do andar de cima.Keyla deu um salto quando a onomatopeia do sino deu vários retrocessos em seu cérebro até que se restaurasse de volta à realidade.— Já vou! — Ela respondeu tentando ser presunçosa a sua lentidão.Ao girar completamente a chave pela fechadura e segurar a maçaneta para liberar o acesso de sua visão ao quintal, seus olhos quase saltaram das órbitas, além de seu coração quase ter a sufocado pela garganta.Era a polícia... Bem ali, diante de sua casa!❀ ◕‿◕ ❀Por volta de dez minutos depois ela estava sendo conduzida gentilmente — e apressadamente — pelos policiais locais. Sua mãe ficou barbarizada quando soube que naquela hora da noite sua filha seria obrigada a responder perguntas sobre o escândalo de desaparecimento sob ordem judicial.Keyla não estava exatamente sóbria quando pisou seus pés no chão de porcelanato da delegacia, pois era como se sua mente , carregada de tantos problemas tivesse saído temporariamente de sistema. Sentia-se anestesiada sob um efeito de calmante natural.Era bom estar assim e por longos pontos de recaídas dessa sensação, desejou muito poder controlar seu corpo para expelir endorfina de sobra para que não tivesse mais irritação amotinadas em sua vida, especialmente naquela hora.Ela não conseguia oscilar seu olhar para outra direção, senão para o chão aos seus pés.Finalmente depois de muita apelação de sua mãe dizendo que tudo ficaria bem e que não tinha com o que se preocupar, Keyla foi guiada até àquelas salas típicas de interrogatórios, como nos filmes de detetives.Havia uma mesa com duas cadeiras e à direita tinha uma parede revestida com uma janela de vidro composta por uma circunferência no centro, para que os "turistas" que ali transitassem pudessem assistir o filme de terror que era estar ali, sendo a protagonista no cenário interior àquelas paredes. A luz acima de suas cabeças era fraca e as sombras cobriam quase todas as feições do homem que se sentara na outra cadeira.Minutos antes, apresentara-se formalmente como Delegado Albert Shock do Destrito 12, aparentando ter em média 35 anos, tinha cabelos sutilmente grisalhos e calvo, a última característica descrita frustradamente não disfarçada e camuflada pela boina de seu uniforme, já que os olhos de águia de Keyla os fisgaram no instante em que o avistou.Olhos azuis, paciente, simpático, barba e bigodes a aparar. Calorosamente seu estado se mostrava incrivelmente calmo e sereno.
Keyla tentou aderir seu estado ao do mesmo, porém sua frequência cardíaca perpetuava-se frenética, as pernas fragilmente bambas.— Senhorita Aniston — Ele dialogou após os cumprimentos — Poderia me contar sobre a noite do Deluzze's?— Sim, o que eu lembrar lhe direi, sem mentiras — Sua língua se atrapalhou na fala, mas conseguiu empurrar seu juramento para fora de si.Sugou uma longa lufada de ar, suspirando por conseguinte.— Confesso que não sei nem por onde começar. — Ela admitiu após uma longa espera embargada de expectativa de Albert.— Sei que está nervosa — Ele a amparou — Não se preocupe, ainda não temos nada que prove seu envolvimento no desaparecimento.Keyla, por impulso da lúcida memória que chocou-se a ela no meio do que ele dissera naquela hora, gesticulou pedindo pra que o delegado parasse de a confortar.— Lembro de eu estar ligando preocupadamente para Mariana. Aproximadamente lá pelas 18h e... — Sua mente oscilou mas se estabilizou novamente — E consegui falar com ela, só que a tal se encontrava, sabe... Estranha. Realmente não sei como explicar. Tanto é, agora que me lembrei dessa parte da ligação, me toquei que nem falei pra Mariana quando ela veio me perguntar em casa o que havia acontecido na noite do Deluzze's.— Já temos a informação que Mariana não foi mais vista desde sua fuga do tumulto da escola. Mandamos nossos aliados para lá e Lianna alegou que não a viu desde que a mesma foi, no sábado, dormir em sua casa certo?— Certo. — Assentiu.— Enfim, como você acabou de dizer, vocês discutiram a respeito de sexta, afinal, a intenção era que fosse um jantar romântico pelo qual Richard convidou Mariana não é?— Por que me pergunta isso? — Ela genialmente respondeu com outra pergunta.— Porque as duas são melhores amigas, creio que conversaram sobre isso não? Ou não são tão próximas assim?— Ah não, não é nada disso, somos amigas sim. Na verdade, conversamos mas... Nenhuma das duas está com a memória boa. Ela veio me perguntar se eu me recordava do encontro, entretanto, nem eu tinha me tocado o quão péssima minha memória se conservava desse momento. Nós duas descartamos que a causa da estranheza no comportamento da Mariana fosse efeito de bebidas, porque lembro que antes mesmo da gente ingerir bebida, quando estávamos indo a mesa reservada para nós ela já estava esquisita. Outro detalhe importante que você deve saber é que o que ela vestia com certeza não condiz com a Mariana que conheço por todos esses anos da minha vida.— Sim, sim os pais de Richard comentaram o mesmo fato quando vieram prestar seus depoimentos.— Entendi. Ela passou pra me buscar de carro lá pelas 20h.Keyla ajustou sua postura na cadeira, desconfortável por sua intuição que a aconselhava a calar a boca sobre o detalhe de que ela não sabia que carro Mariana portava no dia.— E... — Ela deu seguimento a sua explicação — Mariana ficava fazendo piadas, conversava com todos os convidados, que não vou citar nomes porque se os pais de Richard já reportaram o ocorrido, sem dúvidas já mencionaram isso. Eu diria que minha amiga não parecia estar muito dentro de si... Não sei explicar, seu comportamento e jeito eram muito suspeitos, assim... Não num mal sentido claro, é que... — Seu instinto a fez se embolar nas palavras e seus burburinhos, obrigando o policial a tentar deduzir em voz alta o que sua boca tentava transmitir a ele.— Ela estava diferente do normal. Sim, eu compreendi isso.— Ufa, ótimo! Bom, deixa eu ver o que mais consigo me lembrar...O delegado aquiesceu quietamente aproveitando o intervalo para bebericar um copo de água que estava lá de espectador vip em cima da mesa intimidadora que os divisava.Keyla sabia convicta que não podia contar a verdade com negligência, e o que vinha a seguir na sua sequência de memórias cheias de camadas e labirintos, era a cena de Mariana entregando a bolinha de papel para o desaparecido em questão! Ela não podia contar isso!"Esconder a verdade não é mentir". — Amparou a si mesma psicologicamente.— Bom, me lembrei de outra coisa. Quando ela foi dormir em minha casa, estava super desligada, não que seja fora do comum a indiferença dela com os meus papinhos de adolescente inacabáveis. Afinal, Mariana é uma das pessoas mais maduras que conheço, mas é que a tal nem parecia estar na sala comigo. Sabe quando a pessoa te olha mas você percebe que ela está no piloto automático?Sr Shock aquiesceu mais uma vez e sugeriu hipotético:— Então ela é uma jovem madura e distraída?— Sim senhor, ela não é e nunca foi rebelde, sempre estudiosa e nerd... Eu sempre a chamei para fazer travessuras e ela agia feito minha própria mãe, com direito a sermão e ameaças de contar pra a mulher que me pariu em si dos meus planos e tal. Nos conhecemos desde bem antes de meu pai... você sabe, falecer.— São amigas de infância. — Seu olhar a confortou, franzindo o cenho pela sabe se lá qual vez e bufou com vontade — Estou interrogando a pessoa certa pelo visto.Keyla abaixou a cabeça sentindo-se intimidada a dizer para aquele homem o que sua mente ainda fosse capaz de recordar e então uma minúcia interessante lhe veio.— Sabe, acabei de relembrar outra coisa. Nós conversávamos pelo telefone antes dela vir me buscar e ela citou seu nome pela terceira pessoa mas depois logo tratou de se auto corrigir. Isso me fez pensar que de alguma forma não fosse ela quem estivesse conversando comigo, só que acho pouquíssimo provável que não pois mesmo que sua voz estivesse diferente, como que mais encorpada, não sei, ela usou como referência uma loja na qual nós duas tínhamos ido juntas comprar um vestido, para especificar qual ela sugeria para eu vestir no evento. E tipo, nenhuma pessoa que conheço também estava lá nesse dia.Albert fez mais anotações rápidas e ilegíveis no seu bloquinho de notas.— Pela manhã, a mãe de Richard compareceu nesta delegacia para prestar depoimento e ser interrogada a respeito dos fatos. Ela me contou que se recorda claramente de você e sua amiga estarem lá no restaurante, e que você parecia perturbada com algo, tanto que não interagia com ninguém ali presente. Já quanto a Mariana, esta sim parecia estar confortável, a vontade e extrovertida quanto a ocasião. O pai do garoto reportou a mesma coisa. O que tem a declarar sobre isso?— Eu... — Sua voz embargou-se por vida própria, improvisando bem mal uma resposta rápida — não faço a menor ideia do que está dizendo.— Então não se lembra dessa parte? — Ele a indagou.— Ahn, com certeza não.— Você diz que estava sóbria o bastante até a hora que adentrou no Deluzze's para relembrar que Mariana já estava estranha antes de tudo. Mas terei que fazer mais algumas perguntas. Você realmente não se lembra de ter ingerido álcool algum?— Não, pela minha memória eu não bebi um gole de nada que fosse prejudicar minha memória e acredito que os pais de Richard não relataram que eu bebi algo ou estou errada?Albert inclinou a cabeça para o lado, pensativo.— Não, mas anotarei essa dúvida para que seja respondida depois. Enfim, é usuária de drogas senhorita Keyla?Involuntariamente ela se pôs a rir da pergunta.— É vero que não. Mamãe me mataria!— Pois bem — Ele balançou a cabeça — E quanto a Mariana?Com um silvo mental, a resposta não lhe foi álibi, pois apesar de saber que Mariana definitivamente não bebia, o que a garantiria que o mesmo valesse para as drogas?— Acredito que não, senhor. Entretanto, não posso deixar de levantar a hipótese de que alguém tenha nos drogado com alguma droga que nos faça entrar numa espécie de coma passageiro, inclusive esqueci o nome de uma que conheço por ser bem popular que causa esse sintoma de esquecimento...— Boa noite cinderela — O delegado concordou — É uma boa forma de raciocínio e perspectiva minha jovem, mas outra duvida que nos empertiga a desconfiar de tudo é o porque dela ter fugido hoje...Exatamente o que a incomodava com altivez era esse pequenino detalhe. Será que sua melhor amiga havia mesmo descuidado de sua saúde mental e se sentido culpada de alguma forma, fugindo para isolar sua aptidão de ultraje? Ou a mesma teria tropeçado no atrelado de problemas que envolvia todo o caso e tivesse acabado se envolvendo nessa teia perigosa?— Senhorita? — Sua mente foi jogada duramente para fora de sua área de interrogações— Ah desculpe-me! Pois não?O homem abanou a cabeça para os lados em sinal de desaprovação.— Vejo que está muito distraída e isso não irá colaborar muito para o nosso lado, não concorda?
Sim, ela concordava, todavia, sua mente estava um caos só!— Desculpe-me! Desculpe-me! Agora vou tentar me focar no presente, eu prometo!Assentindo novamente, o sujeito denominado delegado lhe dirigiu as seguintes palavras:— Assim espero, pois ainda há cinco horas pela frente até que você nos forneça alguma informação propriamente útil.
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