Pulsos Atados
7 Capítulo 6 - Confusões - Mariana/Keyla
Encostada no canto inferior da parede, em meu quarto, me permiti deixar meus pensamentos vagarem em direção a Ariel.
Eu estava preocupada com ele e com medo. Desde a aparição da Besta ou seja lá o que fosse aquilo, um aperto em meu coração o sufocava. Eu sentia que meus batimentos não eram mais tão sonoros e vivos como antes, eles pareciam mais baixos e fracos. Meu sangue, já não tinha mais o tom escarlate que normalmente eu deveria ter, o que era mais do que bizarro. Eu estava mudando.
De alguma forma, um canto vazio e solitário de mim encobriu minha superfície. Eu não queria mais mudar, uma premonição não queria deixar isso acontecer. O único problema, é que eu havia prometido para Richard que eu iria para o jantar e eu não podia cancelar aquilo.
Meu celular vibrou em cima da cômoda e presunçosamente me levantei do chão e o peguei. O nome e a foto da minha melhor amiga apareceram na tela, o que não me deixou nem um pouco contente. Eu já tinha contado pra ela. Assim que eu tinha chego em casa da escola (aliás, da detenção de Thammy) senti uma vontade enorme de contar aquilo pra alguém, e advinha quem foi o felizardo? Ela, é claro!
– Fala Key. — Tentei mostrar ânimo.
– Estou sentindo um calor intenso vibrando em mim você não? Aquele Richard é um gatinho. — Ela exclamou eufórica como sempre.
Eu estava farta de tudo. Eu queria ficar em casa e descansar mas agora que Key sabia do pedido dele, ela ia me pressionar até eu concordar em sair.
– Richard já assumiu que está afim de mim não de você. — Eu deixei escapar sem querer, desejando retirar o que eu havia dito.
– Ah, isso não significa que ele não possa mudar de idéia. – Ela deu uma risadinha – Brincadeirinha, mas quem sabe...
Revirei meus olhos.
– Não dá pra mudar de assunto? Não quero começar com o interrogatório...
– Ah sua chata! Tudo bem eu tolero por enquanto os detalhes do pedido, mas você vai me contar tudo amanhã.
Era isso ou suportar a cara de emburrada dela.
– Fechado. — Sorri.
Começei a arrumar meu quarto, com Key me fazendo um bocado de perguntas sobre qual roupa vestir, ainda indecisa.
– Ah e por acaso — Ela disse depois de tanta fofoca. — com que roupa você vai?
Eu não havia pensado nisso. O restaurante Deluzze's era do tipo beem luxuoso, e é claro que eu não tinha roupa alguma formal o bastante para a ocasião.
– Meu Deus Keyla eu não tenho nenhuma roupa pra ir lá. Todas são simples demais, acho melhor eu não ir. — Sorri por dentro, quase morrendo de alegria.
– Thammy deve ter alguma roupa que preste, anda logo, vê se procura direito. O jantar é as 20:00 certo?
– Sim. — Meus olhos percorreram meu quarto até o visor do despertador.
Ainda eram 18:00.
– Tudo bem eu vou desligar e depois eu te ligo.
– Okay. — Concordei.
Claro que ela não ia decidir que roupa vestir em menos de duas horas, eu conhecia o quanto ela era chata nessa coisa de moda.
Saí do meu quarto sem esperança alguma de encontrar Thammy em casa, o que não me deixava escolha a não ser xeretar nas coisas dela. Abri a porta de seu quarto lentamente e pulei de susto ao ouvir um solavanco vindo de dentro do armário dela.
Me encolhi como um cachorro culpado e quase implorei por desculpas, pensando que era Thammy que estava me espionando. Esperei alguns segundos e a porta do lado direito do guarda roupas se abriu lentamente.
Mesmo com o pequeno espaço que tinha, vi apenas um pedaço de tecido vermelho meio caído contra a porta aberta. Com relutância me aproximei do guarda-roupas e abri a porta devagar.
Um vestido vermelho lindíssimo estava pendurado em um cabide, com uma plaquinha pregada perto do seio esquerdo TROCAR.
Eu mal podia acreditar que Thammy planejava se livrar de um vestido tão perfeito quanto aquele. Os strass bordados em sua renda pareciam pequenos diamantes em contraste com o vermelho vivo da seda. Ele possuía um decote no meio dos seios ousado e sexy e nas mangas ilhoses o enfeitavam ainda mais. Ele não era curto, muito pelo contrário. Ele descia até os pés e mesmo sem nenhum manequim, era visível o quanto ele destacava as curvas do corpo.
Por alguma razão eu desejava usá-lo, mesmo que Thammy descobrisse ou que ele fosse mais para um encontro a sós com um namorado e amante do que para um jantar em família e amigos.
Aquele instinto que me incomodava antes voltou mais forte do que nunca. Uma vertigem e uma escuridão cegou meus sentidos e a ultima coisa que me lembrei antes de perder completamente a consciência, foi a risada maligna que saiu de meus lábios.
❀ ◕‿◕ ❀ Keyla
– Por que ela não me atende?
Keyla quase enlouquecia de ansiedade se perguntando sem parar do paradeiro de Mariana. Faltava apenas meia hora para o jantar.
Ela estava descendo as escadas de sua enorme casa em direção a sua bicicleta quando o celular que estava em seu bolso começou a vibrar. Mariana.
– Cassete Mariana, cadê você! São 19:30 e falta pouco para o jantar, você sabe como o Deluzze's é longe daqui. A gente vai ter que pegar carona com a minha mãe. — Ao notar o silêncio perturbador, Keyla surtou. — Fala alguma coisa! O que há com você?
Keyla sentiu um forte peso em seu peito e um péssimo pressentimento ao ouvir a voz dela, parecia alterada. Talvez mais grave e sensual.
– Oi Keyla, pra que tanta pressa? Richard não vai morrer se esperar alguns minutinhos a mais.
Keyla ignorou o mal pressentimento e tentou soar o mais descontraída possível.
– Poxa eu fiquei preocupada, pensei que você não ia mais, ah e por acaso você tá rouca? Sua voz parece estar diferente, na verdade, você parece estar diferente...
Mariana hesitou antes de responder.
– Rouca? Magina. Mas o que você quis dizer com eu estar diferente? — A partir da ultima frase dita, Keyla sentiu um calafrio percorrer sua pele e um medo atravessar seus poros.
– N-nada, eu só queria saber se você acha que eu ficaria legal com aquele meu vestido roxo com camadas. Lembra? Aquele que eu usei na festa de aniversário da Anne?
Keyla tagarelava sempre que estava nervosa ou assustada com alguma coisa. Ela não conseguia disfarçar suas emoções.
– Claro que me lembro. Aquele vestido é muito infantil, experimenta aquele preto com renda que você comprou na Patzlaff's. Ficou ótimo em você quando você o provou na loja.
A surpresa abalou inesperadamente Keyla. Mariana só havia aceitado ir na loja nesse dia para comprar o vestido porque era seu aniversário. Ela nunca achou ou acreditou que Mariana tinha gostado realmente de estar lá, sua expressão de tédio comprovava isso.
– Sabe você tem razão, ele já deve estar mofando. Mas e aí tá animada para o encontro? — Keyla estava tagarelando de novo.
Ela sentia que algo havia mudado em Mariana desde o dia anterior, mesmo que não tivesse se importado.
– Oh sim estou ótima, na verdade estou fervendo. To louca pra eu ficar a sós com Richard.
Keyla sentiu seu coração acelerar ao ouvir a risada grotesca e maliciosa que Mariana deu depois de falar aquilo.
Ela conhecia o quanto Mariana era madura e sensata, e ela estranhou logo de cara a mudança repentina de personalidade de sua amiga. Mesmo com aquele pesar sob suas costas, ela caçoou em meio aos seus inúmeros vestidos e Cardigans, o vestido pelo qual Mariana falava.
– Ah você tinha razão. Nunca usei ele e ele continua lindo! — Key sorriu de felicidade enquanto o cheirava. — Bom por exceção do cheiro de velho, mas meu perfume da Burblye vai dar um jeito nisso.
Do outro lado da linha, Key pensou ter ouvido um chiado mas ignorou mesmo assim.
– Eu falei pra você..
– Uh uh! — Key se empolgou com a pergunta que iria fazer. — Achou alguma roupa pra vestir?
– Sim, sim! Sabe aquele vestido que a Ma... — Ela parou abruptamente, como se tivesse dito algo que não deveria.
E realmente disse.
Mariana falou dela mesma na terceira pessoa, como se não fosse realmente ela quem estivesse falando.
– Q-quer dizer aquele vestido que ganhei da minha tia Tessey no meu aniversário. É com ele que vou.
Sua memória vagou ao vestido lindo que Mari havia ganhado.
– Aquele vestido bordado com caveiras e renda roxa?
– Esse mesmo!
Keyla fez uma careta.
– Você não acha ele gótico demais para o Deluzze's?
– Um pouco... — Mariana admitiu. — Mas que se dane, inferno e demônios são tão sinistros e maneiros!
Keyla encolheu-se com a brisa fria que entrou em sua janela, trazendo consigo uma energia negativa e a certeza de que sua amiga estava completamente alterada e fora de si. Ou algo a mais que isso.
– Amnn... — Keyla murmurou depois de uma breve pausa. — Então eu e minha mãe passamos aí na sua casa em 15 minutos pode ser?
Keyla pôde sentir o sorriso dela mesmo pelo celular.
– Não precisa. Eu vou buscar você! Thammy me emprestou o carro dela de bom grado.
Keyla fez uma careta.
– Como assim? Thammy jamais te empresta nada! Quem diria o carro dela...
– Aaah, mas ela mudou de ideia diante da minha proposta.
A voz dela quase ronronava no celular, enquanto a de Keyla soava cada vez mais confusa.
– O que você fez Mariana? — Keyla perguntou seriamente.
A gargalhada estrondosa machucou os tímpanos dela.
– Só me espere aí na frente da sua casa e você vai ver!
Depois de dizer isso, o toque familiar que indicava o fim de uma ligação ecoou em seus ouvidos, enquanto Keyla quase enlouquecia com sua loucura impertinente de achar que algo estranho estava acontecendo com sua melhor amiga.
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