Pulsos Atados
6 Capítulo 5 - Convite - Mariana
Claro que minha cabeça estava uma bagunça.
Loucuras e acontecimentos surreais demais para um dia só. Se ainda fosse normal tudo o que havia acontecido...
Mas não era, é claro que não era.
Aquele monstro não saía de meus pensamentos. Não só por ele ser um monstro, mas também por despertar um sentimento de adoração para algum Deus ou algo assim em mim.
Nunca fui religiosa, mas acreditava que Deus era o centro de tudo, por mais que não fosse obcecada pelo assunto.
Agora, com aquilo tudo acontecendo, era óbvio que minhas antigas reflexões agora estavam convertidas para dúvidas. Um milhão de dúvidas.
O que diabos era aquilo?
Passei o resto da tarde na casa de Keyla, pensando exatamente no assunto. Heron corria igual um louco com Key o perseguindo descabelada, e eu aproveitei esse fato para descansar em meio ao barulho.
Mesmo com aquela barulheira que Heron fazia, era melhor aquilo do que um questionário de cem perguntas que Key faria a mim se percebesse meu estado. Eu nem precisava me olhar no espelho para saber o quão pálida e fraca eu estava.
Eu tentava seriamente não pensar em como Ariel deveria estar. Ele e aquele Gabriel provavelmente estariam mortos agora, e eu tinha que fingir que nada havia acontecido e que eu não estava assustada...
Apesar de todas essas lembranças cegando minhas pálpebras, uma me assustava mais. Era a de mim correndo.
Eu não havia corrido com uma velocidade normal para os padrões humanos, era surreal. Uma descarga de energia e adrenalina inflamando em minhas fibras. Uma força que com certeza não era normal.
O sangue jorrando de meus joelhos, negro e sem vida, como se eu estivesse morta. Mas não fazia sentido, porque eu como qualquer outro ser humano já havia sangrado antes. Eu já havia me machucado, por mais que tivesse sido há um bom tempo.
Depois de encurralar Heron, Key começou a assistir televisão no outro sofá, tagarelando como sempre. O lustre de cristais que pendia no teto conseguiu me fazer relaxar por tempo o suficiente para eu poder finalmente retomar minhas forças e pisar meus pés no velho assoalho de madeira.
Key ainda não tinha visto minhas feridas nos joelhos porque meu vestido lilás cobria minhas pernas inteiras. Claro que meu uniforme estava todo surrado e sujo, e aquilo com certeza iria denunciar o que havia acontecido para ela, então, antes de eu vir, eu havia passado em minha casa e me vestido.
Eu não podia ter usado uma calça jeans ou nada assim, porque bastava um movimento para a dor no joelho se alastrar. Por isso, eu quase tinha desistido de vir, mas a vontade de não ficar sozinha com Thammy de castigo falou mais alto.
Olhei para Keyla, ela estava falando demais, sem parar. É claro que eu nem prestava atenção, mas tinha hora em aqueles zunidos enchiam minha paciência.
– Key, sério cala a boca. — Eu olhei para ela desejando retirar o que eu havia dito.
– Ah qual é? Vai me dizer que você não queria conhecê-lo? — Ela cruzou seus braços e me olhou com jeito de detetive.
– Quem? — Eu perguntei enquanto tentava me levantar e disfarçava uma careta de dor.
– Richard. — Ela revirou seus olhos. — Você realmente nunca presta atenção no que eu falo, certo?
– Certíssimo! — Eu sorri para ela enquanto calçava minhas sandálias e ia em direção a porta de mármore que dava saída para o quintal, e não demorou nada para Key vim logo atrás.
Eu queria ir embora logo. Queria poder dormir e tentar realmente esquecer o que havia acontecido — por mais que eu soubesse que isso ia ser um grande desafio.
– Ei espera! — Key gritou atrás de mim. — Já vai embora?
Já lá fora, eu me virei para encará-la.
– Eu não to legal, aquela bagunça que o Heron fez me deu dor de cabeça.
Esfreguei meus cabelos. Até que aquilo não era bem uma mentira.
– Tá bom, mas a gente vai falar com ele amanhã não vamos?
– Richard? Conversar sobre o quê? — Eu perguntei com desânimo.
– Oh pelo o amor de Deus ele já assumiu que é louco por você basicamente para a escola inteira. — Os olhos dela brilhavam iguais dois diamantes.
Momento embaraçoso...
– Quantas vezes terei que insistir pra você parar com isso? A resposta é nã... — Não consegui terminar a frase.
Uma força abalou meus sentidos e quase me fez recuar para longe de Keyla. Era um desejo intenso e íntimo, que nem eu sabia que existia. Ele me fez responder algo que eu jamais responderia na vida...
Vários calafrios percorreram minha pele extasiando meus músculos e células.
– Sim... nós falaremos com ele. — Eu respondi com uma voz mais grave que o normal.
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Aquelas inúmeras perguntas em minha cabeça me impediram de dormir. Eu ainda não sabia o que me havia feito responder que sim para Keyla. Eu não era daquelas garotas que caem de bruços quando vêem um cara lindo de morrer ou nada parecido.
Richard era popular, gentil e bonitinho até... mas ele não era o motivo da minha insônia.
Não foi como se da noite para o dia eu acabasse ficando a fim dele, era simplesmente um desejo que vinha de dentro de mim.
Tentei esquecer as perguntas que não paravam de me perturbar observando meu quarto bagunçado. A velha escrivaninha ainda permanecia de frente para a janela, que inúmeras vezes me distraía do dever de casa, para olhar a linda paisagem do campo de futebol que ficava em frente do apartamento.
Me levantei presunçosamente da cama e fui até ela. Meus joelhos não estavam mais doendo, e aquilo era uma grande vantagem ao meu favor. Olhei para fora da janela, para a escuridão densa que cercava os arredores. Um pensamento distraído me fez lembrar que eu não observava o zodíaco fazia meses.
Tomando a viga da janela, apoiei meu pé e segurei a cortina cor de creme e pisei no estreito parapeito que cercava as paredes do prédio.
Não tive coragem de olhar para baixo, na verdade, eu sabia que o que eu estava fazendo era burrice. Ou suicídio.
Mesmo espremida contra a pequena viga, a visão das estrelas não era nítida, pois as inúmeras sacadas dos andares de cima encobria mais da metade do céu.
À minha direita tinha uma laje raza, que era inclinada para a esquerda. O cara que deve ter construído ela deveria ser meio zarolho ou algo semelhante a isso.
Caminhei devagar, com medo do que meus instintos queriam fazer, para perto daquela laje. Como se fosse absolutamente normal eu manter um equilíbrio tão perfeito em um espaço tão pequeno, meu corpo firmou-se para pular em cima da laje.
Fechei meus olhos e deixei a leveza da gravidade me levar aonde meus pés queriam ir. Em uma fração de segundos abri meus olhos e lá estava eu agachada diante da velha laje. Ao redor de sua estrutura, a neblina densa encobria os arredores e o musgo afofava meus pés.
– Incrível. — Sussurrei sem acreditar que aquilo havia mesmo acabado de acontecer.
Como eu havia feito aquilo?
Dirigi meus olhos para a janela do meu quarto de onde eu havia saído, quando um rastro de luz prateada imediatamente me assustou.
Olhei para o céu rosnando como um cachorro ameaçado. Outro vislumbre de luz vindo de trás de mim aumentou ainda mais o meu rugido ou seja lá o que fosse aquilo que saía de minha garganta. Esperei mais alguns segundos antes de relaxar e me dar conta do que acabara de acontecer. Talvez fosse uma estrela cadente.
Olhei para o céu mais uma vez, e contemplei a lua cheia, livre de qualquer nuvem. Seus raios sublimes banhavam a fibra das folhas das árvores, junto ao horizonte escuro. As estrelas enfeitavam o céu com seus pontinhos de luz infestados por toda a escuridão, e antes que eu percebesse, eu estava deitada no chão de concreto.
Claro que eu não sabia o que estava fazendo, muito menos como eu havia ido parar ali, mas minha mente estava tão cansada que depois de horas de insônia, eu finalmente dormi, sob o ar fresco da noite.
❀ ◕‿◕ ❀
Sexta Feira
Lutei contra o cansaço que ameaçava me engolir e olhei para o horizonte. A manhã raiava em um misto de luz dourada e púrpura e os pássaros cantavam alegremente sob a manhã ensolarada.
– Marianaa! Abre a porta, você tá atrasada para a escola! — Uma voz familiar gritava de algum lugar ao longe.
A sonolência me entorpeceu e eu quase voltei a dormir, foi quando a voz voltou mais alta e clara.
– Mariana!
Era minha mãe! Oh merdas fedidas!
Eu nunca conseguiria voltar a tempo dela finalmente arrombar a porta. Cautelosamente, dei um salto silencioso e impossível na viga e me movi até a janela do meu quarto, ofegando. Agarrando as cortinas me apoiei no andar da janela e pulei para dentro do quarto encarando a porta. Minha mãe havia parado de socar a porta e gritar igual uma louca.
Eu podia faltar hoje, se não tivesse prova de biologia. Sr Jhown não aturava a incompetência de um aluno, muito menos daquele que não comparece no dia da prova. Ele ia dar um jeito de me dedurar pra minha mãe de um jeito ou de outro.
Revirei meus olhos cansada. Quando foi a ultima vez que eu havia faltado? Há três anos atrás talvez?
– Fala sério — Resmunguei.
Meus olhos encontraram o visor do meu despertador, que marcavam 6:44 AM.
Corri mais uma vez com ódio queimando minha cabeça de estresse. Não era a primeira vez que eu me atrasava, e para compensar, eu havia largado minha bicicleta no terreno quando eu tinha saído correndo da assombração que saiu de baixo da terra, o que significava que eu ia ter que pedir carona para Thammy.
Grrrr...
Me vesti rapidamente com as primeiras roupas que encontrei. Fui ao banheiro lavei meu rosto, escovei meus dentes e saí correndo até a cozinha com a mochila pendurada no ombro direito. No caminho pendi meu cabelo em um coque meio frouxo e torto. Peguei uma maçã e fiz sinal para Thammy me esperar.
Ignorei a cara dela de emburrada e entrei dentro do antigo Uno cor de vinho. Depois de algumas engasgadas, ele finalmente cedeu e começou a andar.
Eu odiava pedir carona para Thammy por causa dos olhares que ela me jogava. Às vezes eu ficava pensando como ela trataria uma inimiga, porque se eu que sou irmã dela e sou tratada desse jeito, imagine só uma inimiga.
Não olhei para o rosto dela o caminho inteiro e pedi pra descer uma esquina antes da escola com a desculpa que ia comprar um salgado na padaria, mas era mentira. Eu queria é me livrar da cara de bunda dela. Eu sabia que de um jeito ou de outro ela daria um jeito de esconder o carro e me esconder para manter a reputação dela de RIQUINHA.
Saí correndo em direção ao portão da escola ainda roendo os restos da maçã. Key estava quase saindo do seu lugar usual de espera.
– Atrasada, de novo! – Ela disse assim que me aproximei.
– Desculpa mais uma vez, acho que preciso comprar mesmo um despertador novo.
– Ah você acha? Eu tenho certeza! Pera aí, cadê sua bicicleta? — Ela olhou para minhas mãos.
Mais problemas pra minha cabeça...
– Ammm... Tá no concerto, o pneu dela furou. – Inventei a primeira desculpa que se passou em minha cabeça. – É melhor a gente entrar, Sr Jhown não atura atrasos.
Keyla olhou para mim com uma expressão de espanto e bateu com força na testa.
– Ah meu Deus a prova!
Aquilo não era nenhuma novidade. Keyla nunca se lembrava de nenhuma prova, nem se tatuasse na cara dela.
– Eu te passo cola. – Respondi com desânimo.
Ela deu pequenos pulinhos de alegria e parecia uma criança comemorando a chegada do Papai Noel.
– Obrigada miga!
Ela me abraçou sorrindo amorosamente.
– Tá chega de amolação e vamos logo. – Respondi com mal humor ao ver Thammy do outro lado do campus dando em cima de Richard.
Eu não queria ver o que ela faria em seguida, por isso corri até a entrada da escola com Key lutando para me acompanhar logo atrás. Senti o olhar dele acompanhar meus movimentos e me enfiei no meio da multidão me escondendo de qualquer mal pressentimento que eu estava começando a sentir algo por ele. Algo que não era amor.
❀ ◕‿◕ ❀
Saí da escola exausta e Keyla parecia ter decidido me deixar em paz.
A prova não havia sido difícil, permanecer acordada já era outra coisa e pra variar Thammy estava na detenção, o que significava que eu teria que esperá-la.
Tudo o que eu queria era ir pro terreno e derrubar essa exaustidão que me pesava, mas as imagens de ontem me fizeram mudar de ideia no mesmo instante. Aquela coisa que eu havia visto ontem ainda me dava calafrios.
Eu ainda tinha medo de seguir essa parte oculta de mim. Essa parte que queria ser diferente, que havia mudado tanto meu lado físico quanto emocional. Eu estava perdida, de frente a uma bifurcação, sem saber o que fazer.
Ainda sentada na calçada da escola, observei a bruma das árvores que coloriam a escola e a opulência dos pássaros alegres. Como seria bom ser um pássaro.
Voar para onde eu quisesse, brincar e ser feliz todos os dias, sem me preocupar com responsabilidades e obrigações. E então tomei uma decisão.
Minha vida inteira foi sempre normal enfeitada de simplicidades e momentos especiais. Acho que seria bom mudar um pouco sair da rotina monótona. E dane-se se eu errasse. É assim que se cresce na vida, é irracional nós seres humanos termos medo de viver novas experiências e aventuras por medo de errar.
Intertida com essa nova decisão quase pulei de susto quando ouvi barulho de passos vindo em minha direção.
Levantei meus olhos e encontrei os de Richard.
– Oi. – Ele me cumprimentou enquanto se assentava ao meu lado.
– Oi.
Minha voz saiu estranha, como se estivesse mais grave e confiante. Pela primeira vez não falei agudo e baixo.
– Eu... ahn eu só vim te convidar para ir jantar comigo e com meus pais hoje. – Ele sorriu para mim com seus olhos azuis meio esverdeados brilhando em ansiedade. – Leve sua amiga Keyla se quiser.
Olhei para seus cabelos escuros e por alguma razão ele me lembrou um pouco Ariel. Claro que Ariel era completamente diferente, ele me fazia sentir algo diferente, e o irmão dele Gabriel também tinha esse efeito em mim.
Eu não queria ir. Não queria sair com ninguém, eu queria ficar em casa jogando GTA V de boa. Mas aquela parte de mim queria ir, e eu já havia decidido que ia tentar mudar um pouco.
– Sim nós iremos será um prazer. – Respondi tentando soar animada.
Em resposta ele me entregou um papel.
– Aí tem o horário e o lugar tudo certo, estou ansioso. – Ele olhou pra mim como se me visse pela primeira vez na vida.
– Okay. Quer que eu chame Thammy também? — Perguntei com uma expressão que muitos diriam de ciúme, mas não era bem assim.
Eu odiava garotos que usavam as garotas para os próprios interesses.
– Não. – Ele olhou seriamente para mim. – Não leve a mal mas ela não significa nada pra mim.
Hmm interessante.
– Legal. – Eu respondi me levantando da calçada e tirando a sujeira de minha calça jeans. – A gente se vê de noite.
– Tá a gente se vê.
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