Pulsos Atados

21 Capítulo 20 – Culpada? - Mariana


DOMINGO

Já era de manhã quando me levantei presunçosa da cama de beliche e fui em direção ao cheiro inebriante de ovos mexidos. Desci as escadas e me deparei com uma cena hilária de Keyla dançando SexyBack enquanto fazia o café da manhã.

Conversamos sobre como a maratona da noite passada tinha sido ótima e da péssima notícia que teríamos aula no dia seguinte de novo. Na verdade, eu acordei com uma leveza que parecia que eu não sentia há séculos. Consegui esquecer, pelo menos até antes de ficar totalmente sozinha, toda a confusão que vinha me perturbando há algum tempo.

Keyla depois disso saiu para buscar Heron, o seu irmão pestinha, na casa da tia. Rose ainda não havia voltado, mas havia deixado mensagens avisando que tudo estava bem com ela e que voltaria pouco depois das 18h. Considerei a sua demora como um sinal que a noite havia sido ótima pra ela.

Sorri enquanto lavava a louça, porém esse sorriso desapareceu com o lampejo que minha cabeça teve com o sonho. E não só com o sonho, com olhos azuis, uma besta totalmente anormal de olhos sangrentos, com os sorrisos de paquera do Richard...

Eu precisava de um calmante.

Procurei um na gaveta de remédios e engoli com dois goles de água, no mesmo tempo que pensava no que faria até Keyla voltar pra casa. Eu sabia que precisava dar uma olhadela pra confirmar se eu tinha alguma lição de casa pendente, e depois disso eu podia decidir como matar o tempo.

Subi as escadas até o quarto de Key e achei minha mochila, que eu trouxera exatamente pra prevenir caso eu decidisse ficar o fim de semana inteiro na casa dela. Na verdade era quase uma certeza desde o início porque eu não estava afim de encarar a minha mãe tão cedo.

Terminei de vasculhar meus cadernos e anotações com um suspiro de alívio, pois eu poderia ter uma folga depois de tanto peso nas costas. Lamentei um pouco o fato de que ficar sem fazer nada significava tédio, o que não me animava nem um pouco, mas o descanso com certeza o fazia e muito!

Eu podia recuperar o tempo de sono gasto ontem na maratona de filmes, pipoca e outras gordisses agora. Ou podia bancar uma de garota esportiva e saudável e dar uma caminhada pelo parque que ficava apenas uma quadra dali. A chave da casa sempre ficava em uma abertura no muro, próxima a uma árvore podada do quintal. Não era uma má idéia, eu podia ligar para Key e avisar...

Foi então que eu imediatamente recuei e tratei de deletar aquela idéia da minha cabeça. Era sempre dessa mesma maneira, eu saía sozinha ou decidia fazer alguma coisa diferente e então acontecia alguma coisa pra estragar tudo, e pior, me aterrorizar.

Joguei minha mochila no chão e fiquei considerando a ideia de descansar, que naquele instante soava péssima.

Tentei ligar mais algumas vezes pro Richard e todas as vezes caiu na caixa postal. Até pensei em ligar para seus pais como Key havia me aconselhado antes da maratona, mas ainda sim... eu não queria ligar enquanto estivesse sozinha.

Também estava com medo de ter mais pesadelos, apesar de eu ter descansado bem desde o último que eu tivera...

Foi com todo aquele turbilhão de preocupações que eu acabei adormecendo mais uma vez sem me permitir fazê-lo.

Acordei só no dia seguinte com aquele som irritante de despertador apitando, e uma sonolência que não permitia minhas pálpebras se abrirem, como se tivessem pedrinhas dentro dos meus olhos.

Depois de um tempo deitada, bêbada de sono e grogue pra caramba, finalmente consegui absorver força o suficiente para forçar meus olhos a seguirem aquele som insuportável. Me deparei com um despertador, que sem dúvidas não era o meu, marcando 6:25am.

Senti a compressão em meu peito e imediatamente voei da cama, e agradeci aos céus por ter cochilado na cama de baixo da beliche, onde Key costumava se deitar, porque se tivesse dormido na de cima, com certeza teria tomado um tombo muito feio.

Levantei acendendo a luz com pressa e cacei minha bolsa no meio daquela claridade repentina. Vesti a blusa preta regata que eu escolhera quando ainda estava na minha casa, minha calça jeans escura e confortável que eu amava e meu suéter azul-safira com ilhoses. Assim que acabei procurei Key na parte de cima da cama, mas não a encontrei.

Abri a porta do quarto mancando e tentando ajeitar meu cabelo desgrenhado, enquanto continuava a procurar nos quartos por ela. Tentei ignorar, mas não consegui resistir à curiosidade e então abri de fininho a porta do quarto de Rose.

Ela estava deitada e parecia a bela adormecida por incrível que pareça. Como ela conseguia ser tão linda mesmo enquanto dormia?

Devagar e com calma fechei a porta e desci as escadas, e rapidamente avistei Key jogada contra o sofá da sala.

Corri que nem uma louca resmungando e amaldiçoando a minha falta de bom senso, alegando que a culpa era minha por ter ido dormir na hora errada, apesar de saber que isso não era bem verdade.

– Keyla?! – Chacoalhei-a e a chamei insistentemente.

Finalmente ela demonstrou algum sinal de vida e resmungou algum dialeto que não entendi e virou-se para o outro lado.

– Keyla a gente tá atrasada! Levanta agora! – Literalmente berrei e pra facilitar acendi a luz.

Como eu podia ter dormido desde as 15h da tarde até aquele horário? A resposta pra essa pergunta era simples: o calmante que eu tinha tomado. Ou talvez eu tivesse ingerido morfina por engano, era uma resposta mais convincente. Se é que se podia ingerir morfina...enfim, claro que eu não entendia nada dessas coisas, por isso não me permiti perder mais tempo com respostas.

Ela continuou deitada me ignorando completamente, e então eu surtei e dei um chute no sofá com força, o que me deixou um pouco surpresa porque não doeu nem um pouco.

– O que você quer?

– Escola! Estamos atrasadas, por que não me acordou antes?

Ela levantou em câmera lenta e me encarou totalmente perdida e confusa.

– Eu... ahn sei lá! Achei que você merecia um descanso depois de tudo o que aconteceu.

Revirei meus olhos e repeli uma vontade enorme de dar uns tapas nela.

– Pelo o amor de Deus levanta logo! – Joguei algumas roupas que eu havia encontrado no seu guarda-roupas, e depois de me matar para abotoar os botões do meu suéter, apanhei as chaves e corri para fora da casa arrancando os cabelos da cabeça.

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Apesar do estresse por não ter mais minha bicicleta por perto, sempre à minha disposição, conseguimos uma carona para a escola.

Keyla quis acordar Rose para nos levar com sua biz, mas eu não queria fazer isso, porque além daquela geringonça ter lugar para apenas uma pessoa na garupa, ainda tinha o detalhe de eu enjoar muito fácil, isso sem contar a dor na bunda.

Pedimos carona para a vizinha de Key, que se chamava Hanna, e era também uma antiga colega de classe dela. Chegamos no horário pontual e quase nos ajoelhamos aos seus pés quando chegamos lá, enchendo-a de frases típicas do tipo: “Um dia a gente retribui o favor”; “Você salvou nossas vidas” enfim...

Tudo pareceu okay ao sairmos do carro bem na entrada da escola, pois Hanna ainda ia dar a volta para estacionar seu carro. Mas isso mudou quando avistamos o alvoroço se aninhando e aglomerando na entrada principal da escola.

– O que será que aconteceu? – Key questionou do meu lado.

– Não faço a menor ideia.

E naquele instante eu não fazia mesmo. Só depois de refletir e analisar tudo o que havia acontecido no final do dia é que eu percebi o quanto deveria ter sido óbvio desde o princípio.

Caminhamos até a multidão, curiosas e ingênuas de tudo.

Quando nos aproximamos, pude ver várias pessoas assustadas e chocadas, algumas até choravam. E todas, sem nenhuma exceção, estavam horrorizadas e incrédulas. Pareceu que eu estava em meio à cena de um filme de terror.

Totalmente nauseada e entorpecida de medo, reconheci Clara, a mãe de Richard na multidão. Ela estava perto da porta que dava entrada à escola, e corri até ela sem hesitar, sem me preocupar com Key ou qualquer um naquele momento.

– Sra Clara?! Graças aos céus eu finalmente...

– Mariana! Você está viva! Onde está Richard? Você foi a última a encontrá-lo precisa me contar! – Ela agarrou meus ombros e me chacoalhava a cada sílaba.

Não soube como reagir, simplesmente permaneci olhando pra ela com cara de retardada. Então Richard realmente havia sumido?

– Sra Clara, eu não sei dizer onde ele possa estar. Provavelmente ingeri muita bebida, me perdoe, mas eu não...

– Como assim não sabe? Você foi a última a estar com ele! Willian afirmou que vocês iam se encontrar depois do Deluzze’s, o próprio Richard foi pedir a permissão dele. Como você não poderia lembrar?

Ela não estava me deixando falar!

Na verdade, eu até me sentiria um pouco grata se o motivo dela me interromper tanto não fossem mais exigências. Eu não tinha argumentos, palavras, lembranças absolutamente nada! E ela estava à beira do pânico...

– Sinto muito, Sra Clara – Keyla pôs a mão em meu ombro e tentou me consolar miseravelmente. Pra ser sincera, eu nem lembrava que ela estava ali – Mariana está tendo muitos problemas em se lembrar desse dia. Eu também não me lembro de muita coisa, mas ela é um caso sério, pois não se recorda de absolutamente nada! O que é totalmente inacreditável, mas não é algo tão impossível de acontecer. Eles podem ter saído e bebido demais e Richard pode ter resolvido ficar na casa de alguém pra se recuperar da ressaca, entre outras mil possibilidades. Talvez seja só um mal entendido, por favor, se acalme!

Clara olhou para nós com um olhar tão triste que partiu meu coração.

– Pensei que você estava morta como ele. Tentei ligar pra vocês duas inúmeras vezes e sempre caía na caixa postal.

Encontrei minha voz para conseguir esclarecer alguma coisa.

– Mas nós estávamos em casa. Na verdade, eu fiquei na casa da Key e expliquei pra ela sobre a minha amnésia e ela também está um pouco desse jeito, digo com problemas de memória.

A mãe do Richard apenas ficou balançando a cabeça para os lados incansavelmente até Willian, seu marido, se aproximar de nós.

– Mariana e Keyla! Vocês estão a salvo! Onde está meu filho? Mariana foi você quem saiu com ele para se encontrarem privadamente...

Abri minha boca, mas não precisei dizer nada, acho que as nossas expressões, tanto minha quanto da Keyla e de sua esposa já emitiam tudo.

– Não sabemos onde ele está. – Key o respondeu com uma voz rouca e cansada, e tão ressentida quanto eu estava me sentindo.

– Você obviamente quis dizer que não se lembra da noite de sexta certo? – Ela nos fuzilou com um olhar afiado e cortante, claramente acusador.

Ela estava desconfiando da gente?

– Sim, foi o que ela quis dizer, mas de uma forma resumida. – Eu respondi pela minha melhor amiga, que havia ficado pálida e pasma com as palavras frias dela.

Willian se aproximou de mim e tocou meus dois ombros com suas mãos fortes.

– Por favor minha querida, tente se lembrar. Qualquer coisa, qualquer detalhe que possa nos ajudar. Qualquer lampejo pode ser importante nesse momento...

– E acho bom eu deixar claro que estamos pedindo pacificamente pra vocês nos darem explicações satisfatórias. Caso estejam escondendo qualquer coisa de nós preparem-se para lidar com a polícia! E confie em mim, se estivesse em seus lugares, temeriam mais a mim do que a própria polícia. – Clara nos amordaçou com suas ameaças, o que fez minhas pernas ficarem bambas.

Me concentrei no olhar gentil, e ainda compreensivo de Willian e fechei meus olhos, certa de que sentiria aquela dor nas têmporas e que não pensaria em nada além de um borrão branco de luz. Mas a vida mais uma vez pregara uma peça comigo e eu vislumbrei algo.

Um líquido vermelho escorria entre inúmeros pedaços de lembranças, como se elas fossem cacos de vidros espalhados por toda parte. Entre esses incontáveis lampejos e resquícios de memórias, um vulto tomou uma forma humana.

Estava prostrado no chão e parecia inconsciente, e então reconheci o topete. A visão se focou o suficiente para que eu tivesse uma rápida amostra que toda a minha premonição a respeito dessa loucura toda estivesse correta.

Eu vi os olhos azuis-piscina tão hipnotizantes do meu parceiro de Biologia totalmente sem vida, juntamente com seu rosto pálido. O sangue que eu via era dele! Eu não tinha mais dúvida nenhuma!

Tapei minha boca para não gritar de histeria e o pavor tratou de me ferrar mais ainda. Um branco moldurou os cantos de minha visão, como se eu estivesse em um sonho, e fui tomada pelo instinto de fugir.

Fugir para longe daquele mundo catastrófico que me encurralava e com a culpa consumindo toda a minha sanidade.

Apenas reparei para onde meus pés estavam me levando quando comecei a avistar muito ao horizonte, as velhas estradas abandonadas de barro vermelho. Eu estava indo de encontro para o lugar que costumava ser meu abrigo, e atualmente, para a origem de todos os meus maiores pesadelos.