Pulsos Atados
3 Capítulo 2 - A Profecia se inicia - Mariana
Acordei com o apito insuportável do meu despertador.
Levantei bruscamente, vesti meu suéter com minha blusa regata branca, calça jeans escura e sapatilhas. Nada muito chamativo.
Prendi meus cachos cor de mel em um rabo de cavalo e contemplei meus olhos inchados em minha penteadeira.
Podia ser pior. - Refleti enquanto voava até o banheiro para escovar os dentes.
Saí de casa atrasada — como sempre — pedalando com toda força até chegar a decrépita High School de Poshercity. A escola era um lixo, nada diferente do resto da cidade. Os velhos tijolos eram revestidos de vigas de madeira escura — ambos envelhecidos. O prédio havia sido construído em 1988, e não era de se surpreender que sua estrutura já estivesse bem cansada.
Por sorte, o portão ainda não havia se fechado quando cheguei lá.
Keyla estava me esperando ao lado de um pequeno poste de luz, apoiada apenas me observando enquanto eu arfava de cansaço.
– Atrasada, de novo. — Ela revirou os olhos.
– Ah qual é? Meu despertador pifou de novo, atrasou meia hora o que eu podia fazer? — Eu respondi enquanto prendia minha bicicleta ao lado da dela com cadeado.
– Que tal comprar um novo? Fala sério, há quanto tempo você usa aquele despertador, 10 anos?
Abaixei meu olhar enquanto caminhava em direção a entrada, com minha bolsa pendurada em meu ombro direito.
– 9 anos.
– Dã qual a diferença? — Ela zombou.
– Um ano.
Sarcasmo não funcionava comigo, e ela sabia disso.
Passamos pela porta que dava acesso ao corredor, e sem querer deixei escapar um bocejo.
– Você é uma tonta eu estava tentando ser irônica. — Ela gritou enquanto lutava para me acompanhar.
– Você sabe que isso não funciona comigo.
No caminho, dei de ombros com Richard, meu parceiro da turma de biologia. Cumprimentei ele e me esquivei antes que pudesse me atrasar ainda mais. Corri para o meu armário guardei os livros que eu não ia usar e corri para a sala antes que Sr Phillip me comesse viva.
–------x--------
Depois da aula entediante de Geometria e as demais, encostei minhas costas ao lado da porta do meu armário e tentei de verdade aparentar interesse pelas fofocas de Keyla, mas a verdade é que minha cabeça estava explodindo. Prova de que tenho me esforçado bastante para me manter focada nos estudos. Eu ansiava por um bom descanso.
– [...] e aí ele encostou o ombro dele no meu! Você acha? Isso é tudo!
– Hmrum... — Murmurei coçando os olhos de cansaço.
– Você acha que eu e ele combina? Nick e eu?! — Ela quis saber enquanto eu quase me afundava na onda de sono.
Abri minha boca para responder, mas as palavras não saíram, quando meu olhar inconscientemente se encontrou com dois olhos azuis. Um formigamento, uma espécie de energia se manifestou em minhas células quase no mesmo instante. Uma convicção me submergiu, e ainda mais perguntas se formaram em minha mente. Aquela simples troca de olhar fez com que meu mundo parasse e fosse abalado por uma terrível certeza, ele era com certeza o mesmo garoto com quem me deparei no terreno.
A única diferença, é que eu podia jurar ter visto cabelos avermelhados.
O jovem era sutil, de cabelos loiros, dorso musculoso e olhos profundos. Aqueles olhos azuis parecia vir de alguma fonte de água cristalina, daquelas bem puras. Ou do céu sem nuvens.
Ele usava uma camiseta branca, calça jeans Levi's e parecia um gladiador aos meus olhos.
– Eii... — Keyla interveio sob meus pensamentos. — Eu te fiz uma pergunta.
Tentei fazer as palavras saltarem de minha boca novamente, mas não conseguia. Meu olhar estava preso naquele desconhecido, e ao mesmo tempo familiar.
– Eu ainda estou aqui, qual é? — Ela chamou minha atenção novamente, dessa vez se virando para ver onde eu encarava. Com vigor, desviei meu olhar dele e a encarei com timidez.
Eu era realmente uma idiota. Qualquer um teria desviado o olhar no primeiro instante, mas...era como se aqueles olhos tivessem um controle apoderado de mim. Eu sabia que ele era alguém conhecido no meu subconsciente, mas quem?
– Huum quem é aquele gato ali atrás? — Keyla sussurrou em meu ouvido e imediatamente lançou seu olhar de felina para mim.
– Annm... eu não sei. — Respondi de volta no mesmo tom.
– Ele não é seu ficante ou nada parecido é?
Eu conhecia aquela frase.
– Não. — Levantei meus braços na inocência, sentindo uma pontada de ciúme dentro de mim enquanto a observava caminhar em direção a ele.
Mesmo de onde eu estava, o clima de paquera era claramente visível.
Não fazia sentido eu continuar ali, encarando-os igual uma idiota. Eu nem conhecia ele para sentir aquela coisa. Com certeza aquela intuição deveria ser coisa da minha cabeça.
Suspirei profundamente de olhos fechados, e caminhei até eles.
Aqueles olhos azuis me perfuraram no mesmo instante em que cheguei lá.
– Desculpa atrapalhar. Keyla, eu já vou embora, okay?
– Okay, sem problemas. Vou ficar um tempo ocupada por aqui. — Ela o encarou com malícia.
Eu já havia ouvido falar em garanhões, mas nunca em “garanhonas”,até porque o termo não se encaixava muito bem no feminino, mas para Key era uma exceção.
Sorri inocentemente, sem considerar a ultima frase que ela havia dito.
– Divirtam-se! — Respondi enquanto me virava e caminhava rapidamente até a saída da escola.
O corredor estava absolutamente vazio, o que era uma vantagem para eles. Eu particularmente não queria nem imaginar o que fariam lá dentro, muito menos saber.
Um breve instinto me fez desejar voltar e distraí-los. Eu não queria realmente que ela se envolvesse com ele, o que era obviamente uma grande bobagem. Neguei a mim mesma o desejo de conhecê-lo, enquanto montava em minha bicicleta e me permitia olhar uma ultima vez para a porta da escola. Pedalei rapidamente tentando fugir de algo que com certeza me faria sentir arrependimento.
–------x--------
Voltei para casa exausta, com suor jorrando de minhas têmporas.
Pendurei as chaves da casa, joguei minha bolsa em cima de minha cama e entrei no banheiro. Imagens de Key e o desconhecido assombraram minha cabeça. Encarei meu reflexo no espelho e fechei meus olhos.
Tentei me concentrar e recordar de onde eu poderia ter visto aqueles olhos azuis, mas quanto mais eu tentava lembrar, mais eu sentia um formigamento.
Era realmente algum tipo de energia, a mesma que nosso encontro de olhares provocou em mim.
Desconcertada, abri meus olhos novamente e encarei o chuveiro.
– É melhor isso que ficar se fazendo de idiota. — Pensei em voz alta.
Com ânimo, liguei a ducha quente e relaxei.
Saí do banho ao ouvir Lianna, minha mãe, me gritar das escadas.
– Tô aqui mãe.
Seus passos imediatamente mudaram e ficaram mais altos.
– Oh então você está aí querida. — Ela sorriu. — Thammy... cadê você?
– Thammy ainda não chegou mãe. — Graças à Deus.
– Como ainda não chegou? — Sua expressão imediatamente endureceu.
– Apenas não chegou, só não me pergunte o por que. — Recuei antes que ela descontasse a culpa para cima de mim e fechei a porta creme do meu quarto atrás de mim.
Pulei de susto quando meu celular começou a tocar de cima de minha cômoda. Peguei ele e li o nome de Key no visor.
– Alô?
– E aí gatinha, tá afim de sair hoje? — Key tentou imitar uma voz masculina.
– Vocês vão sair? — Perguntei sem soar muito interessada.
– Não. — Sua voz disse com desânimo. — Ele nem queria saber de mim. Perguntou de você o tempo todo.
Hesitei em responder tentando compreender o que havia acabado de ser dito.
– E-eu? — Gaguejei sem disfarçar minha surpresa.
– É. — Pude perceber que ela estava trincando os dentes. — Perguntou qual o seu nome e mais um monte de coisas. Ele pensou que eu não tinha percebido, mas ele deixou muito óbvio. Ele era do FBI com certeza, não poderia haver outra razão para ele querer saber tanto de você e tão menos de mim.
– O que ele perguntou?
– Ah... — Ela deu uma pequena pausa. — Perguntou há quantos anos nos conhecíamos, etc... Mas não dei muita informação, eu não podia confiar.
– Enfim você agiu certo em alguma coisa. — Eu disse entredentes.
– É...eu acho!
Eu sabia que não deveria, mas não pude me controlar.
– Qual era o nome dele?
– Ariel... E não vou mentir pra você, esse nome me lembra capivaras. Sério!
Eu era perspicaz em saber quando Key ia começar mais uma de suas tagarelices, por isso, dei uma desculpa para desligar e desci para a sala. De frente para a lareira, sentada na velha poltrona do meu pai, fechei meus olhos e adormeci antes que me cogitasse em um sono profundo, onde rostos turvos e pensamentos do meu subconsciente se misturavam como uma sopa em minha cabeça.
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