Pulsos Atados

20 Capítulo 19 – Caixa Postal - Mariana/A Besta


Bom, eu me senti aliviada com aquela confissão dela.

Era ótimo saber que eu não era a única que estava totalmente perdida e maluca com todo aquele mistério. Eu ia fazer mais uma pergunta pra ela, e ia quebrar a cabeça até ter uma explicação lógica pra tudo isso, mas ela me surpreendeu ao levantar as mãos pro ar dramaticamente e suspirar:

– Eu to cansada de falar sobre isso. Vamos só tentar esquecer isso...

– Esquecer isso? — Eu encarei-a incrédula — Esquecer que eu posso ter perdido a minha virgindade com o meu parceiro da turma de biologia? Como eu poderia esquecer uma coisa dessas?

Keyla encontrou meus olhos e ficamos nos encarando seriamente, ambas perdidas na maré de dúvidas que nos rodeava.

– Você já tentou ligar pro Richard? — Ela quebrou o silêncio que tinha se instalado depois das minhas últimas palavras.

Abri minha boca, até que minha mente entendeu o raciocínio dela. Fala sério, eu era uma idiota.

– Não — Eu respondi já me levantando em direção a minha "mini-bagagem", que estava perto de um vaso de plantas, à procura do meu celular.

Eu a ouvi simular um som parecido com um "deeer", mas não dei atenção.

Assim que encontrei meu celular, disquei o nome dele na lista de contatos e o selecionei, hesitei e me voltei para Keyla de novo, que continuava me encarando incisivamente.

– Será que ele ainda está acordado a essa hora? Já é meio tarde você não acha?

Ela revirou os olhos.

– Dá pra você fazer isso logo? Ou prefere continuar não sabendo o que merda aconteceu ontem?

Bufei prendendo uma vontade forte de xingá-la e apertei o botão verde de ligar.

Andei de um lado para o outro, enquanto o celular só chamava e chamava até que caiu na caixa postal pela primeira vez. Keyla fez um gesto questionador e eu encolhi os ombros e disquei o número novamente. De novo, caixa postal.

Lágrimas de frustração ameaçavam fugir dos meus olhos, mas me mantive firme e engoli o choro.

Na verdade, se nós tivéssemos tido qualquer coisa, ele no mínimo me deixaria uma mensagem, ou haveria uma ligação perdida, qualquer coisa. Ou mesmo que não tivesse acontecido nada, eu sabia que ele gostava de mim desde criança, ele ia tentar entrar em contato comigo. Eu o conhecia bem demais.

Não fazia sentido.

Pela milésima vez eu cheguei à conclusão de que alguma coisa estava muito errada, muito errada mesmo.

– Ele não me atende — Minha voz soou calma demais, que pareceu totalmente fingida até para eu mesma.

Keyla ficou sentada por alguns instantes, e então se levantou decididamente do sofá e veio na minha direção abrindo seus braços e me acolhendo em um abraço confortador.

– Amiga, eu sei que você está preocupada, mas a gente precisa relaxar um pouco. Essa tensão toda não vai melhorar nada. A gente ainda precisa fazer a nossa maratona de pipocas, brigadeiros e coca e depois uma guerra de travesseiros pra deixar de lado um pouco essa história maluca.

Eu a abracei de volta, e me contive bravamente em parar as lágrimas mais uma vez.

– Eu me sinto tão perdida. To com medo Keyla. Será que aconteceu alguma coisa com o Richard?

– Não Mary, relaxa um pouco. Aposto que foi tudo um mal entendido. — Ela acariciou minhas costas como se fosse minha mãe — Amanhã a gente liga pra ele de novo, e se ele não atender a gente liga pros pais dele, sei lá. Hoje já tivemos estresse demais, agora vamos só devorar nossas pipocas.

Consegui esboçar um sorriso torto, mas não podia deixar de sentir aquele calafrio perturbador na espinha, mas concordava que eu estava me preocupando demais pra um dia só.

Endireitei-me e me sentei ao seu lado no sofá, enquanto ela procurava em um dos inúmeros canais da sua televisão paga, um filme para assistirmos. Só então consegui me distrair e fugir um pouco daquele maldito espaço em branco da minha memória.

❀ ◕‿◕ ❀

Era quase impossível enxergar algo que não fosse as incontáveis chamas que consumiam até o menor canto do recinto. Impossível ouvir algum som que não fosse os estalos das labaredas e os gritos de socorro e misericórdia. Impossível sentir qualquer emoção que não fosse pavor e pânico, e nada se passava em sua cabeça, a não ser estratégias malucas para fugir daquele lugar.

Eu abri meus olhos e encontrei corpos mutilados, presos em celas logo na frente da minha própria, com serpentes os sufocando e formas que pareciam insetos grudando e pulsando à sua volta, arrancando a todo o momento gritos de dor e agonia lancinante.

Todas as celas estavam abarrotadas, com exceção da minha. Na verdade, agora que eu estava conseguindo recuperar parte da minha sanidade, percebi que eu não estava presa à nenhum objeto de tortura nem nada semelhante. Também me dei conta de que o cadeado da minha sela estava aberto, como se eu tivesse entrado lá por vontade própria, ou para fazer algo.

O mais assustador daquela tenebrosa visão diante de meus olhos, era o prazer que eu sentia ao contemplá-la. Sim, a dor era a serventia dacasa, e eu ansiava por um prato cheio dela. Era mais que uma fome, uma ansiedade, uma necessidade ou desejo. Não havia uma descrição, uma definição para o que eu sentia. Eu só sabia o que tinha que fazer, e também sabia que nunca poderia saciar esse instinto de ganância.

E então o cenário mudou.

Ao contrário da cena anterior, na qual só havia trevas, maldade e horror, nessa só havia um imenso azul profundo e sereno em minha mente, seguida de uma sensação estranhamente reconfortante, e não nauseante como era de se esperar, de estar voando.

A princípio não consegui pensar no que poderia ser aquele véu azul tão fúlgido, até que o reconheci. Era o céu, e eu estava subindo e subindo cada vez mais de encontro a ele.

A minha pessoa que estava literalmente levitando naquele instante não estranhou nada, nem ao menos questionou. Parecia tão banal, como seaquela Mariana se sentisse segura com a sensação de voar, ou fizesse isso constantemente. Demorou mais algum tempo até uma luz muito forte cegar meus olhos, e em seguida eu ser preenchida por uma sensação de êxtase tão boa e tão inexplicável. Era uma energia tão positiva que até me repudiava por alguma razão que eu desconhecia.

A cena se alterou novamente, e um trono apareceu à minha frente, tomado por uma fonte de luz muito forte, como se fosse o próprio sol que se mantivesse assentado ali. Meus olhos começaram a se acostumar um pouco com a sua majestosa alvura e já não doíam tanto como antes, permitindo que eu capturasse a silhueta de um ser humano em meio à claridade cegante.

“Devo reconhecer que você foste a única de sua espécie a amar verdadeiramente e honesta, ainda que a maldade ocupe um certo espaço em seu coração. Meu filho veio ao meu encontro, e me pediu que eu lhe concedesse a vida eterna, como se reside em toda a minha Glória, mas negarei isso perante aos fatos.

Você se arrepende por seus erros, eu vejo isso. Mas como recompensá-la com uma dádiva tão preciosa se o que fizeste para o teu próximo foi somente o mal e apenas para satisfazê-la? Como presenteá-la se fostes tão rude com as minhas doutrinas?

Para conquistar a Paz e meu perdão, terás que superar a tentação [...]”

A voz que vinha do ser humano reluzente como o próprio sol começou a perder sua ressonância, até eu abrir meus olhos e descobrir que eu havia tido um pesadelo bizarro. Eu despertei encharcada de suor e ofegante, com minha visão ainda meio turva, incapaz de ajustar minha consciência para a realidade.

Aos poucos fui me recuperando, até eu perceber que estava na cama de beliche de Key. Em meio ao silêncio ouvi a sua respiração inativa, o que indicava que eu não havia gritado ou feito escândalo durante o meu transe.

Foi só um sonho... – Eu repetia e garantia a mim mesma, mas eu sabia a verdade.

Aquilo não podia ter sido um sonho. Era simplesmente real demais e os meus problemas estavam se agravando a cada dia, me fazendo beirar na dúvida entre a realidade e no que minha vida estava se tornando. Parecia um filme de terror ou uma série de perseguição e mistérios.

E eu não estava mais suportando aguentar toda aquela situação calada. Eu realmente precisava desabafar com alguém, ou despejar todo aquele peso das minhas costas. E pela milésima vez, eu chorei gritos silenciosos e agonizados, farta do quanto eu me sentia exausta e fraca com toda aquela desordem que me cercava.

❀ ◕‿◕ ❀

A Besta

Em algum lugar distante e familiar...

DOIS OLHOS FEROZES CONTEMPLAVAM ATRAVÉS DA NÉVOA OBSCURA O PRANTO DE SUA FILHA. SENTIA-SE IMPOTENTE, E DIVIDIDO ENTRE AS EMOÇÕES CONFUSAS DE SEU CORAÇÃO. SE É QUE ELE TINHA ALGUM, AFINAL COMO UMA BESTA PODERIA TER? SE BEM QUE ELA TAMBÉM COSTUMAVA SER JULGADA DESSA MANEIRA, ATÉ SURPREENDER A TODOS MOSTRANDO SER TOTALMENTE O CONTRÁRIO DE TUDO O QUE SE PENSAVA A SEU RESPEITO.

ELA ATÉ TINHA NOMES RECONHECIDOS POR TODOS OS LUGARES, MESMO POR HUMANOS QUE POSSUÍAM ESPIRITUALMENTE ALGUM PACTO COM A LUZ OU COM AS TREVAS: VÍBORA DAS SOMBRAS, O SOPRO DA SENTENÇA, DEUSA DA ESCURIDÃO, ENTRE OUTROS.

MAS O SEU RECONHECIMENTO DIGNO DE SER PURAMENTE RENASCIDA DAS TREVAS NÃO IMPORTAVA, POIS TUDO O QUE FIZERA PARA TÊ-LA POR PERTO E PARA TORNÁ-LA IMPIEDOSA E INALCANÇÁVEL, TANTO COM RELAÇÃO AOS SEUS PODERES VASTOS MAS TAMBÉM COM A EXTINÇÃO DA SUA HUMANIDADE, NÃO FOI O SUFICIENTE PARA PROTEGÊ-LA. ELA FOI ROUBADA DELE, PELO MESMO SER QUE HAVIA TOMADO A SUA PRECIOSA PAIXÃO HÁ ÉONS ATRÁS.

ELA SEMPRE FOI UMA CÓPIA IDÊNTICA DA MÃE, E MESMO AGORA, APRISIONADA DENTRO DAQUELA HUMANA DESPREZÍVEL, ELE AINDA A RECONHECIA. SEUS TRAÇOS INCRIVELMENTE CONSEGUIRAM MANTER-SE APÓS A SUA REENCARNAÇÃO.

SUA FILHA ERA A ÚNICA QUE IMPORTAVA PARA ELE. ERA A ÚNICA QUE AINDA O FAZIA AMAR, APESAR DA TRAIÇÃO, DA DECEPÇÃO E DE TUDO O QUE HAVIA ACONTECIDO HÁ TANTO TEMPO ATRÁS. ISSO NÃO O FAZIA TOTALMENTE FRIO E INSENSÍVEL COMO TODOS E ATÉ ELE MESMO COSTUMAVA PENSAR.

ELE CONVOCOU DAS SUAS MAIS OBSCURAS SOMBRAS DE PODER A VISÃO DE SUA FILHA E DA “CONCHA” QUE A GUARDAVA DENTRO DE SI, E FICOU PARADO PERANTE A IMAGEM, VISLUMBRANDO-A E GUARDANDO CADA DETALHE OU VESTÍGIO QUE O LEMBRASSE DELA. ELE DECEPCIONOU-SE AO REPARAR QUE A HUMANA ESTAVA CHORANDO, O QUE DEFINITIVAMENTE NÃO O FAZIA LEMBRAR DELA, MAS MESMO ASSIM AQUILO O DEIXOU APREENSIVO E INTERESSADO EM SABER DO PORQUÊ DE SUA TRISTEZA. NÃO QUE ELE SE IMPORTASSE COM A HUMANA EM SI PRÓPRIA...

– PAI?

RÁPIDO COMO UM VULTO ELE SE VIROU NA DIREÇÃO DAQUELA VOZ FALHA, QUE O FEZ LEMBRAR DA MESMA QUE ELE ESPIAVA HÁ APENAS ALGUNS INSTANTES ATRÁS.

– PENSEI QUE TINHA DEIXADO CLARO QUE EU NÃO QUERIA SER INTERROMPIDO. – ELE ROSNOU PARA LUNA, UMA DE SUAS INÚMERAS CRIAÇÕES DESPREZÍVEIS QUE ELE NÃO DENOMINAVA COMO UM FILHO LEGÍTIMO.

ELA ENCOLHEU-SE DIANTE DE SUA REPREENSÃO E ABAIXOU A CABEÇA.

– PEÇO-LHE PERDÃO PAI, MAS ACHEI QUE DEVERIA LHE INFORMAR SOBRE A MENSAGEM QUE ME FOI COMUNICADA. – LUNA FEZ UMA BREVE PAUSA PARA ENCONTRAR OS OLHOS SINISTROS DE SEU PAI E PROSSEGUIU: — ARIEL REVELOU À HUMANA, DE FORMA AMBÍGUA E NÃO DIRETA, SOBRE A PROFECIA.

– O QUÊ?! – O BERRO DELE FEZ TODO O ABISMO SUBTERRÂNEO ACIMA E EM VOLTA DELES ESTREMECER.

– ELE NÃO CONTOU DIRETAMENTE SOBRE A PROFECIA, MAS RECITOU APENAS UM TRECHO DELA... – LUNA CONTINUAVA A GAGUEJAR E TENTAR ESCLARECER MAS PARECIA QUE AS PALAVRAS HAVIAM FUGIDO DELA.

A IRA O AFUNDOU EM COMPLEXIDADE E PERPLEXIDADE.

UMA DAS CAUSAS DE SUA PERDA ERA ESSE ANJO ARIEL. SE SUA FILHA NÃO O TIVESSE CONHECIDO, OU NEM MESMO À GABRIEL, O SEGUNDO TRAIDOR DA TURMA, ELA NUNCA SE SUJEITARIA A PARTIR DE SUA CASA, E SER CONDENADA A UMA MALDIÇÃO.

ARIEL SABIA SOBRE A PROFECIA. QUANTO MAIS ELA SOUBESSE E DESCOBRISSE SOBRE O SEU PASSADO, MAIS O PROCESSO DE TRANSIÇÃO ACELERARIA, FAZENDO COM QUE A LUTA DA MAIS PODEROSA IMORTAL DE TODOS OS TEMPOS CONTRA SEU PRÓPRIO PASSADO SE ADIANTASSE NO TEMPO E TROUXESSE A DEVASTAÇÃO PARA TODO O MUNDO.

AQUELA DOR OCULTA QUE ELE LUTAVA TANTO PARA ESCONDER REVERBERAVA EM SEU CORAÇÃO.

– COMO AQUELE BASTARDO OUSA... – ELE SE ACALMOU AO SOM CREPITANTE DAS CHAMAS QUE LAMBIAM TODO O RECINTO, E QUE SEMPRE ERAM, NA MAIOR PARTE DAS VEZES, O SEU MAIOR CONFORTO – CASTIGAI-O! EU ORDENO QUE TODOS OS MEUS ALIADOS SE PROTESTEM!

– NÃO HÁ COMO, PAI. ARIEL ESTÁ SENDO ZELADO PELA LEGIÃO DE ANJOS.

SUA FÚRIA O CONSUMIA POR INTEIRO.

– AQUELE SUJEITO DEVE PAGAR, ATÉ MESMO O PRÓPRIO HOMEM DE BRANCO ORDENOU QUE ESTE NÃO DEVERIA CONTAR-LHE A VERDADE.

– NÃO NECESSARIAMENTE, PAI. ELE APENAS ADVERTIU E O ORIENTOU QUE SE ELE REVELASSE À ELA SOBRE A PROFECIA, OU MESMO REENCONTRASSE-A E ELA O VISSE, O PROCESSO SE ACELERARIA. POR MAIS QUE ELE NÃO PUDESSE EVITAR AMBAS AS PARTES DE SE CONCRETIZAREM.

A BESTA LENTAMENTE DIRIGIU SEUS OLHOS PARA O ESTORVO À SUA FRENTE, DEIXANDO TRANSPARECER CLARAMENTE CADA GOTA DE IRA QUE FERVIA DENTRO DELE.

– NÃO PERMITIREI QUE ARIEL ESCAPE IMPUNE DE SEUS ATOS RECENTES. EU DECLARO GUERRA, E SE ISSO SIGNIFICAR PERDER METADE DO MEU EXÉRCITO, QUE ASSIM SEJA! AVISE AOS DEMÔNIOS AGORA!

– NÃO SERIA MAIS SENSATO...

– ISSO É UMA ORDEM! – ELE ESBRAVEJOU.

LUNA ABAIXOU A CABEÇA E ASSENTIU:

– SIM SENHOR, PAI. – ELA CURVOU-SE E SAIU DESLIZANDO ABISMO A FORA, EM BUSCA DAS CRIATURAS MAIS TEMIDAS QUE EXISTIAM.