Pulsos Atados

16 Capítulo 15 - Controvérsias - Mariana


Eram aproximadamente 7h da noite quando minha mãe chegou em casa.

Arrumei coragem para já esperá-la sentada no sofá.. Cara, eu tava morrendo de medo da bronca que ela ia me dar. Fazia um bom tempo que não me sentia tão tensa assim.

Ela encaixou a chave na fechadura, girou a maçaneta e enfim abriu a porta.

Não me atrevi a olhar em seus olhos por nenhum momento, apenas olhava sem foco nenhum para a televisão e fingia que estava assistindo. Pude notar pelo canto da minha visão que ela hesitou ao pousar seus olhos em mim, mas entrou rapidamente e fechou a porta atrás de si.

Ela jogou a bolsa e umas pastas com possíveis documentos e formulários do trabalho que ela teria que preencher e assinar em cima da mesa, e sentou-se pesadamente no mesmo sofá que eu.

O mundo parecia de repente tão sombrio.

Engoli em seco e ousei encontrar seus olhos, pronta para ouvir berros.

– Agora me diga, o que aconteceu ontem? — Seu tom de voz calmo me deixou surpresa por alguns instantes.

– Mãe, eu juro, não me lembro de nada do que aconteceu ontem. A senhora sabe que eu jamais faria uma coisa dessas, eu não estava dentro de mim...

– Essa é a desculpa que você dá? — Ela subitamente começou a gritar, sobrepondo minhas palavras — Quase chamei a polícia ontem e faltei no trabalho, colocando em risco o meu cargo de melhor funcionária-chefe do mês! Você sabe como demorou para eu consegui-lo?

Me calei.

Não tinha argumentos bons o bastante para discutir com ela, e também não podia lhe dar satisfação de nada, e era isso o que estava me matando.

– Me perdoa mãe. Não vai acontecer de novo.

Lianna, minha mãe tão jovial e bonita para uma mulher de 41 anos, suspirou e passou a mão sob seus cabelos cor-de-mel, desmanchando seus cachos anelados e ondulados.

– Nunca mais faça isso comigo, está me entendendo? Nunca! Mas eu preciso saber o motivo dessa sua rebeldia de ontem. O que aconteceu?

Ótimo, agora sim a coisa ia pesar.

– Eu não consigo me lembrar, por algum motivo, nem eu própria sei te explicar o que aconteceu. Eu estava pensando em ir dormir hoje na casa da Keyla para ela me ajudar. Ela me disse que eu fui no Deluzze's com ela por convite do Richard, um colega meu, e... — Eu respirei fundo — eu não me lembro de nada disso! A última coisa que eu me lembro era ter visto um vestido vermelho no quarto da Thammy, depois disso tudo apaga!

Lógico que eu não ia citar sobre a risada maligna que soltei — contra minha própria vontade — antes de todas as minhas lembranças do dia anterior desaparecerem. E lógico que eu não ia falar pra ela sobre Key ter me dito que eu tinha saído com Richard logo depois de jantar, e feito sabe-se lá o quê! Eu ainda era virgem!

Dizem que quando se perde dói muito a parte interna das coxas, e as minhas estavam boazinhas, não sentia nada de diferente de como eu era antes daquela confusão toda acontecer. Inclusive eu tinha até uma colega de classe da aula de Sociologia que tinha me contado que ao perder a virgindade dela, ela teve que ficar sentada em um saco congelado de salsichas (tá, eu sei que contando assim até parece engraçado, mas aquilo me deixou traumatizada). E também teve a Kimberlly do 2º ano que...

– Eu estou tentando ser compreensiva Mariana, pode me contar o que você aprontou, vou tentar não brigar muito com você! — Minha mãe interferiu minha tagarelice mental.

Ela tinha acabado de dizer isso mesmo? "Vou tentar não brigar muito com você!"

– Eu não aprontei nada, pelo menos não que eu saiba.

Pude notar o quanto ela tinha ficado decepcionada.

– Não esperava que você além de ter saído de casa sem meu consentimento, ainda mentiria pra mim. Estou desapontada com você, filha.

Suas palavras rasgaram meu coração, mesmo eu sabendo que não era culpada.

– Não estou mentindo.

Ela fez um gesto para me obliterar de explicações.

– Tá bom, Mariana. Já entendi.

Engoli secamente mais uma vez, tecendo os poucos fios que ainda restavam da minha tênue coragem.

– Eu posso ir dormir na casa da Keyla? — Perguntei com um tom neutro, tentando camuflar nosso diálogo tenso de antes.

Minha mãe olhou pra mim com aquela típica cara de repreensão, mas suavizou suas feições.

– Pode ir, mas não faça besteira de novo. Eu deveria te deixar de castigo.

Levantei rapidamente do sofá, antes que ela mudasse de ideia e subi as escadas de granito, com o coração na boca.

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No meu quarto, revirei minhas gavetas de roupas até encontrar meu pijama preferido da Minnie, e meu uniforme da escola só para prevenir caso eu decidisse passar o fim de semana inteiro lá — Por mais que eu duvidasse que minha mãe fosse deixar. Prendi meu cabelo em um frouxo rabo de cavalo e avaliei meu reflexo no espelho da minha penteadeira.

Eu estava bem, comparado ao meu estado emocional interior. Queria chorar por causa do estresse que conversar com a minha mãe me causara, mas eu apenas ignorei e liguei para Keyla para avisar que eu estava pronta.

Rose, uma mulher morena de cabelos grossos e pretos e olhos castanhos (e também a mãe da Key) veio me buscar com sua Biz Vermelha no portão de casa.

Keyla sem dúvidas não tinha puxado muito pra mãe. Ela tinha cabelos mistos de castanho claro com loiro escuro, e seus olhos tinham um tom de avelã parecido com o meu. Sua mãe me lembrava aquelas indígenas incomuns de beleza rara.

Montei na moto levando minha bolsa e meus pertences na mão esquerda.

Cumprimentei-a com um tímido "oi" e subi na garupa da moto afivelando o capacete em minha cabeça. Rose chamava essa moto de "Mascote", e tava bem na cara que tipo, ela tinha um amor forte pela geringonça — se bem que a moto estava inteira e boa para andar. A moto só não era páreo para as lombadas e buracos do asfalto, e literalmente quicava trazendo um enjoô e uma dor na bunda daquelas. Aquele banco era duro demais, e minha bunda dançava sobre ele como se tivesse com mal de Parkinson.

Desci da moto quase vomitando minhas tripas pra fora ao chegarmos.

– Você está bem querida?

Ah, Rose! Sempre tão gentil...

– Estou bem, só um pouco enjoada.

Ela me observou e arregalou os olhos.

– Nossa como você está pálida, vamos logo, entre!

Mentalmente agradeci-a e não hesitei em adentrar sua quase-mansão. Cara aquele lugar era simplesmente o sonho de qualquer um.

Entrei na sala me sentei sob o sofá de marfim e dei um sorriso fraco ao vê-la correr para a cozinha e me trazer um copo cheio de água gelada pra mim.

– Obrigada — Agradeci antes de virar o copo inteiro. Eu estava com sede e nem sabia.

Ouvi barulho de pés descendo escadas e não demorou muito para Key aparecer entre as colunas da casa enorme.

– Cadê a minha melhor ami... — Sua voz baixou ao me ver sentada no sofá com sua mãe do lado me animando — Nossa o que aconteceu?

Ela praticamente voou e sentou do meu outro lado.

– Ela passou mal ao vir pra cá. — Sua mãe, como sempre prestativa, fez questão de explicar.

Keyla revirou os olhos.

– Claro mãe, você ainda anda com aquela coisa mesmo que nós tenhamos condições de comprar um carro mil vezes, ou melhor, dez milhões de vezes melhor do que essa lata velha! Hello, estamos no século XXI! V-I-N-T-E E U-M.

– Tá chega! — Eu murmurei levantando os braços — Acho que já estou melhor.

– Tem certeza que não quer um comprimido para dor nem nada do tipo? — Rose perguntou, generosa.

Balancei minha cabeça para os lados, já de pé e mais disposta.

– Não, eu sobrevivo! — Ironizei brincando com sua benevolência exagerada.

Ela riu e se levantou do sofá, em direção a cozinha.

– Não aprontem enquanto eu estiver fora! — Ela gritou do cômodo.

– Fora? — Questionei.

Olhei para Keyla, perdida.

– Sim, ela vai se encontrar com o novo amante dela para tentar substituir meu pai, certo, mãe?

Keyla perdeu seu pai aos 9 anos, quando ele teve um ataque do coração fulminante. Foi um período difícil para ela e a família. Minha amiga ficou semanas sem ir para a escola — até hoje me pergunto como ela não reprovou de ano — ou sair de casa. E ela nunca aceitou ter um padrasto, para ela seu pai era único.

Assim como ela eu também não tinha pai, ele abandonou minha mãe um pouco antes de eu nascer, por essa razão eu nunca soube como é a perda, porque eu nunca tive. Mas eu queria, mesmo quando criança, que minha mãe buscasse sua felicidade perdida em outro homem, porém, ela me dizia que não queria mais saber de homens em sua vida. Feminista, magina não é?!

– Já conversamos sobre isso, Keyla. — Sua mãe a repreendeu em um tom sério — Não me dê esse desgosto mais uma vez.

– Meu pai foi fiel a você! — Keyla gritou ao meu lado — Até a morte, e você o quer trocar por um canalha qualquer? Mas que tipo de esposa você é?!

– Chega, Keyla! Sua mãe tem o direito de tentar ser feliz com outro alguém. Acha que seu pai gostaria de vê-la afundada na tristeza? Ela pode reparar sua dor com quem gosta! A vida é curta demais para lamentar o que não volta mais. Passado é passado! — Eu gritei com ela duramente — E não é porque ela vai namorar outro cara, que ela vai deixar de amar seu pai!

Eu ainda não podia acreditar como ela era ingênua, e contemplei ela fechar a cara e sair correndo para o andar de cima, totalmente chateada. Bem merda!

Rose me olhou com um jeito agradecido e sentou-se pesadamente sobre a cadeira da mesa de jantar.

– Quem sou eu pra teimar? Keyla nunca vai aceitar isso! Talvez seja melhor eu não ir...

– Nada disso! — Murmurei aproximando-me dela. — Você vai sim! Keyla vai entender, você viu a cara dela não viu? Eu senti que aquilo era um bom sinal.

– Eu não sei...

– Pode parando! — Sorri encorajando-a — Venha, vamos te arrumar a noite te espera! Eu vou conversar com ela, pode deixar comigo. — Pisquei um olho para Rose, levantando-a da cadeira e a guiando para sua suíte que ficava, assim como todos os quartos e banheiros, no andar de cima.

Parece que os esclarecimentos que Keyla me devia sobre a noite passada iam ter que esperar um pouco mais.