Pulsos Atados

15 Capítulo 14 - Reconciliação - Mariana


Thammy me consolou com um olhar de pena.

– Pode ter sido apenas a luz com relação aos seus olhos, e também eu estava com tanto medo de você que talvez eu tenha exagerado um pouco nessa descrição da sua partida.

Eu sabia o que ela estava fazendo, tentando reprimir a minha culpa pelas palavras. Mas acontece que eu não era tão infantil assim, e a verdade já havia sido dita: Eu tinha a agredido por causa de um maldito carro.

– Tudo bem, você não precisa poupar as palavras. É que eu estava pensando... — Eu olhei pra ela, mordendo os lábios com certa voracidade, com medo da resposta para aquela pergunta que eu estava prestes a fazer — Quando eu exigi que você me emprestasse seu carro, eu mencionei para aonde eu pretendia ir?

Ela examinou suas lembranças por alguns segundos antes de responder.

– Não diretamente. — Seus olhos se alargaram um pouco antes de se mostrarem satisfeitos. — Pra falar a verdade, agora me lembrei de mais um detalhe, você me pediu um vestido vermelho que eu pretendia trocar semana que vem emprestado também."Emprestado!" – Minha mente ironizou antes de voltar ao foco da situação.
Subitamente me recordei do vestido lindo que eu tinha encontrado no quarto dela ontem. Sim! Era essa a minha ultima lembrança antes de tudo desaparecer. Eu sentia tontura ao me imaginar com aquele vestido e então eu desmaiava. E depois, tudo parecia fora do encaixe.
– Sim, eu me lembro desse vestido. É a ultima coisa que me vem à mente de ontem antes do apagão.
Ela espremeu os lábios delicadamente com os dedos, com uma expressão pensativa e vaga.
– Isso é estranho. Você não lembra realmente de mais nada?
Pensei mais profundamente, ignorando a dor que fazer aquilo trazia.
– Bom, eu ria contra a minha própria vontade antes de sentir uma vertigem quase cegante. — Eu cocei minha cabeça e fiz mais uma vez uma breve massagem em minhas têmporas doloridas.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, ambas distraídas, e quando Thammy quebrou o silêncio, dei um pulo quase caindo da cama.
– Acho melhor deixar isso pra lá, pelo menos por enquanto. Dá pra notar o quanto pensar nisso a deixa cansada.
Soltei um suspiro pesado.
– É tem razão.
Ela sorriu carinhosamente pra mim. Tá, aquilo foi estranho.
Minha irmã não era dessas que demonstrava sentimentos, na verdade, eu aderi esse defeito convivendo com ela. Eu não consegui tirar meus olhos dos dela, é como se estivessem pregados. Lentamente ela se aproximou de mim e se ajoelhou em minha frente na cama, com os olhos repletos de lágrimas e me abraçou no meio das cobertas.
– Me perdoa por tudo. Acho que eu mereci isso.
Hesitei antes de retribuir o abraço e assim como ela desabar em rios de soluços e catarro.
– Me desculpa também, mana. E para de dizer isso, você não mereceu nada disso que aconteceu. Nada se resolve com base na violência, entendeu? Nada!
Minha voz conseguiu soar firme, comparada ao meu verdadeiro estado emocional.
Ficamos daquele jeito, agarradas, buscando segurança uma na outra pelo que pareceu ser um bom tempo, antes de eu me desvencilhar de seus braços. Enxuguei minhas lágrimas e fiquei olhando para todos os lados, menos para o rosto dela. Aquele gesto era algo novo pra mim, e eu tinha a sensação que com ela também era a mesma coisa.
Suspirei profundamente limpando uma última vez meus olhos e me levantei rapidamente da cama.
– Bom, cadê a mamãe? — Perguntei pra ela, arriscando encará-la com desdém.
Ela também olhou meio sem jeito pra mim.
– Ela teve que sair pra trabalhar mais cedo. Parece que teve um imprevisto.
Bufei de alívio.
– Que bom! — Murmurei mais pra mim do que pra ela. — Pelo menos eu vou ter que aturar a bronca dela depois. Ela ficou muito preocupada?
Thammy deu de ombros.
– O que você acha?
Fiquei mais alguns instantes parada, antes de caminhar lentamente até a porta.
– Só mais uma pergunta... — Eu disse esperando ela assentir com a cabeça para continuar. — Você sabe que horas eu voltei?
Ela hesitou, vasculhando suas lembranças mais uma vez.
– Acho que por volta de umas duas da manhã.
Arregalei meus olhos, mas não consegui dizer nada. Apenas fiquei a encarando, pretérita.

❀ ◕‿◕ ❀
– Vou fazer alguma coisa pra comer — Quebrei o silêncio perturbador e me virei para encontrar seus olhos uma ultima vez. — Vê se vai tomar um banho ou lava esse rosto, porque você está com uma aparência péssima. Se bem que eu não sou ninguém pra dizer isso.
Ela deu uma risada baixinha, mas não me respondeu.
Fui até a cozinha, tentando ordenar meus pensamentos e encontrar algum sentido em tudo o que havia acontecido. Meu coração pulsava disparado e meu peito pesava quando abri a geladeira. Tinha margarina, requeijão, doce de leite e muitas outras gordices. Mas para minha surpresa, eu estava sem fome.
"Tipo uau, a Mariana está sem fome!"
Segurei tudo o que podia em meus braços e pus em cima da mesa. Tinha alguns ovos e cereais no armário. Achei também um pão de forma que estava quase no prazo de validade e mais alguns saquinhos de suco em pó.
Peguei a frigideira, pus duas colheres da margarina e esperei até o momento certo pra quebrar o ovo (como sempre sem sucesso, porque a casca sempre dava um jeito de quebrar na minha mão incrível isso). Peguei a sanduicheira, coloquei o presunto e queijo dentro das fatias do pão de forma e deixei assando.
Eu tinha acabado de virar o ovo na frigideira quando o telefone tocou.
Acompanhei o som e o segui até encontrar um feixe de luz no peitoril da janela da cozinha. O ruim de telefone sem fio, é que você nunca o encontra no devido lugar, até parece que o negócio tem vida própria.
– Alô? — Murmurei.
– Oi Mariana? Oh meu Deus você está viva! Quem tá falando é a Cátia — Uma voz feminina respondeu do outro lado da linha.
Graças aos céus, era Cátia, uma amiga íntima da minha mãe. E elas trabalhavam juntas, essa era minha chance de aliviar minha mãe do estresse e preocupação.
– Oi Cátia, nossa que bom que você me ligou. Eu preciso urgentemente falar com a...
– Com a sua mãe, sim eu sei, já imaginava! Na verdade, só liguei por ordens dela. Espera só um minutinho...
Ouvi o berro ensurdecedor da voz irritante dela gritar "Liannaaa!" como se estivesse em um parque e não no trabalho. Automaticamente afastei o telefone da orelha e grunhi fazendo uma careta.
– Mariana, pelo o amor de Deus, onde você andou a noite inteira? — Não demorou muito para sua voz estérica soar no telefone.
Suspirei de alívio ao ouvi-la. Pelo menos ela não tinha tido um choque epilético. Ainda!
– Mãe, como é bom te ouvir.
Eu não sabia o que dizer, e eu sabia que tinha fugido da pergunta dela. Mas o que eu poderia responder? A verdade parecia uma mentira muito mal contada e esclarecida.
– Responda a minha pergunta, Mariana Bittencout! — Ela gritou enfurecida — Você andou bebendo? Dormiu na casa de algum garoto? Aonde você esteve? Simplesmente evaporou e não deu notícias, nem ao menos me avisou para onde ia.
– Eu... — Baixei meus olhos e bufei de raiva. — não sei! Não me lembro de nada do que aconteceu ontem. Só me lembrei de eu acordando agora de manhã e...
– Você está mentindo pra mim, Mariana? Como você se atreve? — Ela me cortou e citou cada sílaba ríspida e raivosa, mas eu sabia que eu merecia isso. Na verdade não!
O que eu ia dizer agora? Seria melhor eu contar uma mentira mais "verdadeira"?
– Eu...
– Em casa a gente conversa! Agora tenho que trabalhar... — Ela me interrompeu mais uma vez, mas com a voz mais calma.
– Okay, bom trabalho pra senhora.
Ela desligou o telefone sem dizer mais nada. Tá, agora era oficial: Eu estava muito ferrada!
Fiquei um tempo congelada, incapaz de me movimentar. Naquele instante me senti como uma criança que aprontou uma travessura e estava só esperando para apanhar (quem nunca se encontrou nessa mesma situação? Fala sério!).
Senti um cheiro fétido de queimado e corri em direção a frigideira com os ovos.
Resmunguei alarmada, mas logo me aliviei ao notar que só tinha queimado uma das bordas da parte branca do ovo. Depois de tirar os ovos da frigideira, fiz o mesmo com os pães que assavam na chapa.
Estava terminando de misturar o suco de laranja quando ouvi o arrastar de pés de Thammy, seguido pelo som da cadeira sendo puxada da mesa.
– Quem era? — Ela perguntou meio grogue.
Virei a cabeça por tempo suficiente para vê-la de soslaio.
– Tomou banho rápido pelo visto.
Ela estava com uma toalha enrolada no cabelo, e não vou mentir, estava bem melhor do que antes. Pra ser sincera, Thammy era linda de qualquer jeito. Seus olhos esverdeados sempre me deixaram com um pouquinho de inveja, — Imagine-se no meu lugar, você tem uma mãe que tem olhos azuis, uma irmã de olhos puxados pra um tom de verde, e só você com seus olhos amendoados misturado com cor-de-mel — não no mal sentido, é claro! Eu até gostava da cor estranha dos meus olhos, mas preferia sem dúvidas um tom menos comum, como azul ou verde.
– Já faz quase uma hora que você tá nessa cozinha — Ela cortou minha tagarelice mental sobre cor de olhos me fazendo dar um pulinho em resposta.
– Ahn... eu nem percebi — Fui sincera, estava ocupada demais reordenando meus pensamentos.
Peguei os pratos e coloquei-os em cima da mesa, inspirando o aroma delicioso de pão na chapa que exalava no ar.
– Então, quem era? — Ela pegou um pão do prato.
Eu nem sabia como dizer pra ela que eu, a geralmente "Certinha", estava mais frita do que os ovos pré-queimados que eu havia acabado de fazer.
– Mamãe, e tenho só uma coisa pra te dizer: Estou ferrada!
Peguei a jarra de suco e coloquei em cima da mesa com os copos, e servi para nós duas enquanto murmurava.
– Bem, o que ela disse? — Ela degustou um gole pequeno do suco.
Bufei enquanto remexia os ovos no meu prato.
– "Em casa a gente conversa", tipo, naquele tom bem sinistro e maternal que ela costuma usar.
Thammy engasgou com o suco e me olhou com uma expressão chocada.
– Quem diria que você, — Ela recuperou a voz — levaria uma bronca dessas da mamãe. Ainda não estou acreditando.
"Se você não acredita, imagina eu!"– Tagarelei mentalmente, mas não disse nada.
Continuei beliscando meus ovos — Tá, isso soou meio mal– até Thammy cortar o silêncio.
– O que você acha que ela vai dizer?
Olhei pra ela e balancei os ombros.
– Não faço a menor ideia, e também acho que ela devia pensar um pouco antes de vim me dar sermão. Nunca aprontei a esse ponto, é a primeira vez, e a verdadeira culpada nem sou eu de verdade.
Revirei meus olhos e bufei mais uma vez, bebericando um pouco do suco de laranja. Huum tava uma delícia!
Pulei de susto ao ouvir sua gargalhada abafada e extremamente alta, aumentando cada vez mais. Sua crise de risos me contaminou também, e comecei a rir, sem saber o motivo exato, juntamente com ela.
Depois de nos recompormos, ela disse com a voz rouca e gasta:
– Você não soa bem como uma rebelde.
Ah, então era por isso! Senti minhas bochechas esquentarem. É ela realmente tinha razão, aquilo não combinava comigo.
– Acho que vou ter que concordar com você, não soa mesmo!

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O resto da manhã foi ótima.
Lavamos a louça juntas, também pela primeira vez, e inauguramos o tão esquecido Guitar Hero que estava mofando entre prateleiras da estante. Chequei se não tinha nenhum trabalho ou lição de casa pendente. Nada.
Só depois de Thammy sair para o curso matinal que ela fazia de inglês — O que sempre me surpreendeu de fato, afinal ela odeia estudar como qualquer adolescente mesquinha — deitei-me sobre minha cama e tentei, mais uma vez, me lembrar de alguma coisa da noite passada. Nada!
Desci as escadas e procurei na gaveta de remédios por um relaxante que minha mãe costumava tomar e engoli com alguns goles de água. Encostei-me no fogão e olhei automaticamente na direção do microondas, onde acima dele, pregada na parede, tinha uma foto minha tocando violão aos 9 anos em uma competição da escola (na qual eu só tinha participado pra não ter que fazer recuperação de matemática). Eu era a única menina da escola inteira que sabia tocar mais de 3 acordes. Por esse motivo, fiquei em 4º lugar, perdendo é claro, para alguns meninos mais velhos que tinham lá. O que sempre me irritou por acaso afinal, é comum meninas sempre perderem pros meninos.
Desviei meus pensamentos de feminismo e comecei a cantarolar e subir pro meu quarto de novo. Decidi ligar pra Keyla, ao contemplar meu violão jogado na parede. Keyla tocava piano e eu tocava violão, até tínhamos composto uma música. Corri para pegar meu celular de cima da cômoda e disquei seu número. Pra minha surpresa, tinha 21 chamadas perdidas, e 15 eram dela, as outras eram da minha mãe. Tenso!
– Alô?
Estanho. – Pensei.

Normalmente ela deveria saber que era eu, afinal, tinha certeza que eu era o primeiro número da lista de contatos dela.
– Keyla, sou eu, está tudo bem?
Não pude evitar de transparecer um tom de preocupação em minha voz.
– Aahhhhhhhh! — Ela gritou como uma completa louca me paralisando totalmente — Você e Richard! Feitos um para o outro...
Ela estava histérica e eufórica e eu mal consegui compreender suas palavras entre suas risadinhas e gritinhos.
– Como é bom te ouvir, Key... — Sorri entre as palavras.
– Também é bom te ouvir, Mary — Ela disse antes de voltar ao seu tom estridente. — O jantar de ontem à noite foi perfeito! Aliás, eu estou te ligando que nem uma condenada desde ontem quando você me deixou aqui em casa e foi se encontrar com o Richard. Pensa mesmo que eu não vi você entregando o guardanapo escrito com batom marcando o lugar pra vocês se encontrarem? Fala aí, o que rolou? Vocês deram uns amassos e uuiiii... — Keyla fez um som como se estivesse estremecendo — olha só estou toda arrepiada só de pensar! Você usou camisinha né? Até que enfim tomou jeito de adolescente, você não acredita como eu...
Ela continuou falando, mas eu não ouvia. Estava pasma.
Então eu tinha ido pro jantar, e tinha até ido me encontrar privadamente com Richard. Como assim?
– Keyla! — Eu gritei com as pernas bambas — Espera, vai devagar! Eu não tô entendendo... eu fui pro jantar?
Ela deu uma risada de louca.
– É claro que você foi, estava toda produzida roqueira. Você estava muito sexy ontem é sério!
A parte de estar vestida como gótica não era novidade, Thammy falara a mesma coisa.
– Sim, mas... tem como você me contar essa loucura de eu ter ido me encontrar com o Richard? Eu acho que bebi demais ontem — Menti, mas era a forma mais convincente para fazê-la contar tudo — não me lembro nem ao menos de ter ido pro restaurante.
Ela balbuciou amaldiçoando a minha falta de memória.
– Não, não, não! Você vai ter que se lembrar, eu quero saber tudo, os detalhes...
Levantei a mão até a minha cabeça, que ainda latejava.
– Okay, okay a gente arruma um jeito de se lembrar, eu vou ir dormir aí hoje! — Desviei meus olhos para o meu despertador defeituoso, e vi a hora que marcavam 14h05. — Por mas que eu duvide que minha mãe deixe! Ela está uma fera comigo...
– Nossa, mas por quê?
– Porque ontem cheguei muito tarde em casa, Thammy me disse que voltei lá pras duas da matina.
Agora eu só tinha dado mais motivos pra ela pensar errado.
– Huuum, então vejo que realmente rolou alguma coisa entre vocês. Fala aí você está querendo me deixar no suspense né?
Senti as lágrimas escorrendo antes que eu pudesse controlá-las.
– É melhor eu desligar...
– Claro, manda um beijo pro Richard.
– Para, Keyla! Isso não aconteceu, eu não seria louca de perder minha virgindade com um idiota como ele!
Ela deu uma risada maliciosa.
– Você ainda não se conhece, Mariana... — Ela disse com um tom meio estranho — Aceite os fatos amiga, você está mudando.
Apertei o botão de desligar e me joguei na cama. Meu dia não podia piorar mais!