Pulsos Atados

13 Capítulo 12 - O Segredo Perturbador - Richard


Mariana pôs a ultima colher de macarrão na boca e tomou mais um gole do vinho.

Ela mal olhou para Richard enquanto se dirigia para a cozinha. Ele permaneceu calado, sem saber o porquê de sua inapetência. Ele estava louco para vê-la e agora, se recordando que ele nunca a teria de verdade, estava se permitindo ser embebido pela tristeza.

Ele suspirou lentamente, de repente sentiu-se constrangido pela sua falta de ânimo.

– Vem aqui, R. — Mariana gritou da cozinha.

Ele acordou de seu breve devaneio e se levantou rapidamente seguindo o som de sua voz. Encontrou-a sentada no balcão da cozinha, próxima a pia de inox.

Ele parou logo na divisa que separava a copa da cozinha, admirando-a e resistindo a sua vontade de desistir de tudo. Ele finalmente teria a garota dos seus sonhos, mas não da maneira exata que ele pretendia. O brilho daquela garota o enlouquecia. Tudo nela, seus lábios, suas curvas, seus olhos até seus cabelos... tudo era como um imã que o atraía inevitavelmente.

– Vai ficar aí parado ou fazer o que seus olhos estão me dizendo?

Ela o fitava com um olhar penetrante.

Essas palavras acabaram com a barreira que o impedia de tocá-la. Ele contraiu rapidamente a distância entre seus corpos, os olhos fervilhando de desejo, e a beijou ainda sentada em cima do balcão. Os braços dela envolveram todas as suas costas, e sua unha afiada acariciou suavemente a nuca dele. Uma das mãos dele pousaram no quadril dela, enquanto a outra acariciava seu cabelo incansavelmente.

O beijo ficou voraz e mais intenso, desesperado. Richard não conseguia pensar em mais nada, e não queria soltá-la de jeito nenhum. Agora ele se recordava do porque estava naquele lugar... para a ter mesmo que fosse por apenas algumas horas. Ele não se importava mais.

A mão dele instintivamente seguiu até seu decote ousado, enterrando-se contra sua pele sedosa e macia, encharcada de suor. Mariana apenas o segurava com uma mão agora, pressionando mais a nuca dele contra seu rosto. Ele queria que ela o tocasse com mais intensidade, mais vivamente, mas ela não o fazia.

Mesmo assim, ele não a soltou por nenhum instante. Não se permitiu dar por vencido.

Ele a segurou em volta da cintura e a pegou no colo, sem interromper o toque de seus lábios. Era como estar no paraíso, no melhor de todos os seus sonhos. Delicadamente ele a colocou no chão e repentinamente ela deu um passo para trás, se afastando dele. Os olhos dela estavam diferentes, pois luziam um brilho vermelho intenso, mas bastou uma piscada para eles voltarem ao normal. Ele pensou ter sido invenção de sua imaginação, por isso não se assustou.

Ele parou para observar em silêncio mais uma vez sua silhueta esbelta. Aquele vestido se encaixava perfeitamente em seu corpo, e suas curvas estavam visivelmente mais relevadas por causa do suor. Seus cabelos cor-de-mel lhe caíam sobre os ombros, moldando seu rosto oval deixando-a incrivelmente mais linda.

– Porque está tão tenso, Richard? — Ela perguntou quebrando mais uma vez o devaneio de seus pensamentos absortos.

– Não estou tenso. — Ele murmurou secamente, desejando incontrolavelmente que ela estivesse em seus braços mais uma vez.

Ela franziu o cenho.

– Não minta pra mim.

Soou como uma ameaça, mas ele fingiu não perceber.

– Não sei, talvez porque a garota dos meus sonhos também me quer?!

Ela arqueou uma de suas sobrancelhas.

– Garota dos seus sonhos? — Ela ronronou aproximando-se dele.

Ele repentinamente sentiu a necessidade de desabafar.

– Ah qual é Mariana? — Ele agarrou os ombros dela, forçando-a a olhar profundamente em seus olhos. — Você sabe o quanto eu a quero, desde o início. Desde que eu a conheci na porcaria daquela escola. Eu a quero desde que éramos crianças, não dessa maneira... — Ele pausou relutante em escolher as próximas palavras — Quer dizer, também, mas eu queria algo mais sério também. Queria te chamar de minha não só enquanto estivermos, ahn...

Ela balançou a cabeça cortando-o.

– Tudo bem eu entendi o que quis dizer. — Ela inclinou-se na ponta dos pés e sussurrou perto de seus ouvidos — Mas não tenha tanta certeza de que eu vá querer o mesmo.

Ela roçou seu nariz na mandíbula dele até encontrar seus lábios novamente, e o calou com mais um beijo.

Richard afundou em uma onda de emoções, aceitando mais uma vez o êxtase que o enchia de prazer. Ele começou a passar suas mãos pelo corpo dela, começando das coxas e subindo até o quadril. Com um breve vigor, ele rasgou a parte de trás do vestido que a cobria, folgando o tecido contra o corpo dela. Repentinamente sentiu uma pontada arder-lhe no peito, seguido de uma sensação de algo entrando em seu peito esquerdo. Imediatamente seus joelhos cederam à dor insuportável.

Suas mãos desesperadamente tentavam reprimir a dor, dando tapinhas leves naquela região, até sentir o cabo de uma adaga cravada em sua pele.

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Inutilmente ele tentava resistir à escuridão de suas pálpebras e à vertigem que o tentava levar como uma maré, mas ele sabia que era em vão. Levou alguns segundos para ele pensar no que poderia ter acontecido, em quem poderia ter feito aquilo. A resposta foi tão imediata, que a princípio ele não quis acreditar. Não, não podia ser. Ele não aceitava a resposta tão óbvia e perturbadora que seu inconsciente o dizia.

Ele piscou algumas vezes antes de olhar para o alto, ainda de joelhos. Os olhos de Mariana estavam com aquele brilho vermelho que ele pensou ter imaginado, mas agora ele tinha certeza que não era só uma mera ilusão. Aquela era a realidade.

O vermelho fluorescente cintilava ardentemente em sua íris, dando a impressão de que seus próprios olhos tinham mudado de cor. Sua pupila mal era visível. A claridade da lâmpada que iluminava a cozinha agora luzia radiante como a luz do sol. Para onde ele olhasse a náusea o perseguia e o forçava cada vez mais a desistir. Era aquele o seu fim? Uma garota o havia matado? Para piorar, a garota que ele amava desde os 10 anos?

Não, ele não ia ceder a morte antes de ter explicações.

– O que você fez... — Ele grunhiu expelindo com força as palavras de sua boca.

Mariana começou a rir compulsivamente, como uma louca.

– Você é tão idiota e ingênuo. Não pensou que Mariana fosse se entregar assim de bandeja pra você de uma hora pra outra, pensou? Não tava óbvio que ela era santinha demais pra fazer isso?

Ela ria, e mesmo sem entender o motivo da graça, ele tentou arrancar mais respostas para seu turbilhão de perguntas.

– Por que está falando de si mesma na terceira pessoa, Mariana? Você é uma assassina e matou o cara que mais a amava. E... — Ele arfou com a dor que aumentava a cada palavra que ele dizia. — o que é essa luz vermelha em seus olhos?

Ela delicadamente se ajoelhou também e esboçou um sorriso falso.

– Pra início de conversa, não sou essa garotinha medíocre que você ama, meu nome é Emilly. Confie em mim, você reconhecerá meu nome e minha história quando você ir pro inferno, ou mesmo que você suba tanto faz pra mim... Meu nome é famoso e temido no mundo dos mortos.

Só podia ser brincadeira.

Ou simplesmente um pesadelo que parecia ser bem surreal. Como assim Emilly ou essa história ridícula de mundo dos mortos? Só podia ser invenção de sua cabeça, ou ela podia estar simplesmente brincando com ele, como esteve desde o começo.

– Como assim? Que história é essa? Por que você fez isso Mari...

– Emilly! — Ela gritou com ódio, agarrando a gola de sua camisa. — Estou cansada desse nome ridículo de Mariana! De fingir ser uma sonsa que não sabe de nada e fingir que só beijei sete caras na vida. — Sua expressão se suavizou subitamente. — Mas, como você vai empacotar aqui mesmo eu vou te contar algumas coisinhas e o que eu vou fazer com você daqui a pouquinho.

Ela piscou pra ele maliciosamente, mudando sua expressão mais uma vez. Era difícil acompanhar seu ritmo de humor.

– Sou um demônio que se alimenta da alma das pessoas quando estão à beira da morte. O que sinto quando o faço é inexplicável, é inebriante. E é o que vou fazer com você. — Ela dizia as palavras como se esperasse que ele fosse acreditar ou aceitar facilmente, como uma xícara de café ou algo semelhante. — Não se preocupe com sua querida Mariana, ela vai voltar para dentro de si mesma amanhã inteirinha, em seu estado normal. Considere-a inocente porque dependendo do ponto de vista ela é mesmo. Estive presa dentro dela por todos esses anos e só agora tive a chance de me libertar, mesmo que seja temporariamente.

A tontura começou a o distanciar daquele lugar e daquela coisa que estava a sua frente, falando coisas espantosas e sem sentido nenhum. Seria verdade? Existia demônios e todas essas baboseiras de religião da qual ele sempre desacreditou?

O pânico começou a se juntar com as inúmeras emoções em seu coração.

Ele queria ter abraçado mais o seu pai antes de vir encontrar aquele monstro que possuía a sua amada, queria ter se despedido de sua mãe com mais veemência... queria ter aproveitado mais a sua vida. Ainda não tinha caído a ficha que ele estava em seu leito de morte. Tudo ainda parecia um sonho mal interpretado.

Dizem que quando a morte vem, todos os momentos de sua vida vislumbram como um filme diante de seus olhos. Ele sabia que aquela breve frase era verdadeira.

Todos os seus momentos, desde criança na creche "Lar dos Nanicos", até os seus momentos finais domaram sua visão. As lembranças se desenrolavam devagar, sem pressa, permitindo que seus olhos gravassem cada instante daquele déjà vu perfeitamente. As recordações do momento em que conheceu Mariana surgiram em câmera lenta, ele considerava a fase que a conheceu como a melhor da sua vida. Agora, ele já não tinha mais tanta certeza disso.

Ele se recordou quando começou a jogar futebol no time da escola e finalmente começou a ser aceito pelas outras pessoas. Ele tinha pelo menos mais da metade das garotas da escola aos seus pés, mas nenhuma delas ele desejava como a desejava. O desinteresse dela sempre o fez se sentir mais frustrado e, portanto, mais apaixonado.

Ele se acalmava ao pensar que ela estaria bem e segura na manhã seguinte, mesmo naquela situação confusa, ele ainda se preocupava com ela. Ele ainda a amava e sabia que ela não havia feito aquilo, por todos os anos que a conhecia, sabia em seu coração que ela jamais faria aquilo.

Mariana não era culpada, e mesmo que fosse, ele odiava admitir isso para si mesmo, mas ele a amaria mesmo assim. De qualquer maneira, de todas as formas, de corpo e alma. Mesmo que ele fosse um imbecil por fazer isso, mas era a verdade.

Foi pensando nisso, que ele se permitiu fechar os olhos e ceder à dormência que o embriagava, partindo daquele lugar, para o véu tênue do Outro Mundo.