Pulsação
16 Baby, Please Don't Go
Notas iniciais
Helga só queria beber mais um pouco pra ver se conseguiria dormir mais rápido. Vasculhou em seu closet todas as bolsas e caixas onde costumara esconder as garrafas, mas não encontrou nada. Era estranho, pois pelo menos um resto de vodka ela sabia que existia e não só isso, deveriam ter no mínimo 4 garrafas vazias. Céus... Big bob as pegou! Era só o que faltava, além de descobrir Torvald, descobrir que ela saia escondida e ainda que escondia bebidas no closet. Helga estava apenas esperando a punição. Em algum momento alguma punição, mais séria do que lacrar sua janela, viria. Voltou a deitar-se na cama para tentar dormir, mas sua cabeça estava a mil por hora. Por mais que tentasse não conseguia tirar as frases estúpidas de Arnold e Torvald da cabeça.
Pouco antes de o despertador tocar ouviu três batidas na porta e então o som de ela sendo destrancada. Helga sentia a cabeça pesada, o rosto provavelmente inchado devido ao tanto que chorou antes de dormir. Checou o celular, mas nenhuma mensagem ou ligação. Arrastou-se até o banheiro, relaxou o máximo que pode no banho, vestiu-se como sempre e pode sentir cheiro de bacon quando começou a descer as escadas. Ao chegar na cozinha um susto: Miriam e Big Bob estavam acordados e na cozinha. Café pronto, ovos e bacon. Ela aproximou-se devagar, como um animal a uma presa muito fácil. Miriam não estava descabelada de pijamas, nem segurando alguma garrafa de bebida. Havia anos que Helga não a via tão arrumada. Em compensação Big Bob nunca parecera tão cansado, com olheiras fundas, as rugas pareciam mais acentuadas e a barba estava por fazer. Sentou-se a mesa e encarou a mãe, ela não parecia bêbada e não cheirava a bebida, seria isso um sonho? Big Bob serviu café em três xícaras enquanto Miriam distribuía os ovos e bacon em três pratos. Após o café da manhã mais estranho de todos havia outra novidade: Big Bob a levou pra escola.
–As três horas eu estarei aqui pra te levar pra casa. – Bob falava sem olhar para a filha
–Mas eu tenho aula extra classe – Helga tentou falar suave
–Até que horas? – Bob não parecia nada feliz
–Seis. – Ele apenas concordou com a cabeça e ela rapidamente saiu do carro.
Queria que ele a buscasse mais tarde, mas três horas eram suficientes para ficar fora de casa. Nem quando Helga ia para a pré-escola seus pais não faziam café da manhã e a deixavam na escola. O quê, depois de 11 anos, acontecera? Assim que entrou na escola viu Laila com o rosto ainda inchado, contado aos berros para Sheena o que tinha acontecido na noite anterior. Alguns garotos apresentavam sinais de ressaca e usavam óculos escuros. Assim que Helga se aproximou de Phoebe a amiga se exaltou.
–Você não muda mesmo Helga!
–Eu? Mas foi ela!
–Não interessa o que ela faz ou deixa de fazer, controle-se. – falou mais calma. – Se você quiser Arnold de volta vai... – Helga a interrompeu
–Não o quero. – Falou séria e seca. – Não quero nenhum dos dois.
–O que aconteceu Helga? – Phoebe estava preocupada
–Arnold é um estúpido e Torvald um babaca. Ah... Eu não posso mais passar as tardes na sua casa.
Helga contou para a amiga o que estava acontecendo em sua vida enquanto seguiam para a aula. Torvald não apareceu logo no começo, mas de repente ele estava lá esperando do lado de fora da sala de aula onde ela estava. Ela passou reto por ele, tentando ignorá-lo.
–Helga! – Ele tentou segurá-la pelo braço
–Não. – Ela puxou o braço rapidamente e apresou o passo
–Por favor – Ele veio correndo atrás
–Não! – Ela começou a correr, ele correu atrás e puxou-a pelo braço
–Helga Geraldine Pataki, seja minha namorada – falou debochado de joelhos
–O quê? – Helga perguntou finalmente olhando para ele. Estava com enormes olheiras e pela cara ele estava exausto.
–É só dizer que sim – Ele segurava a mão da loira enquanto todos no corredor os encaravam
–Não! – Soltou a mão e bateu no rosto dele.
Saiu quase correndo para o estacionamento, do lado de fora remexia a bolsa atrás de algum cigarro perdido. Achou um último todo amassado, pegou o isqueiro do bolso da calça e tentou acendê-lo, sua mão tremia em irritação e ela não conseguia acender.
–Nós não temos nada com isso. – Ouviu a voz de Sid vindo de trás dela. – Kate e eu.
–Todos sabiam? – Ela ainda não conseguira acender o cigarro
–Sim. – Ele esticou o braço até ela com o isqueiro na mão e acendeu o cigarro para ela. – Torvald nos proibiu de contar, mas nós estamos nos afastando, isso tudo já foi longe demais.
–Eles precisam parar. – Ela deu uma tragada no cigarro finalmente acesso.
–Nós tentamos convencê-los. Kate está desesperada com medo de Leo se dar mal. – Sid sentou no chão e Helga o acompanhou.
–Eles podem acabar presos – Ela falava com o olhar perdido
–Helga, — Sid falava com cautela. – eles podem acabar mortos.
–Eles realmente precisam parar. – O coração de Helga estava apertado
–Nós nunca tínhamos conversado no colégio antes Helga. – Sid parecia ter percebido a cara de preocupação da garota e mudou o rumo da conversa
–Pois é, talvez esteja na hora de algumas coisas mudarem – Helga esboçou um sorriso. – O que vamos fazer Sid?
–Não podemos fazer nada. Não é só desistir, se demitir, alguém sempre irá atrás de você.
–Sid, se a polícia for atrás deles a gente se fode junto – A loira olhou para o amigo com os olhos já marejados.
–Sim, somos cumplices. Olha, eu e Kate vamos ao casebre depois da aula pra tirar nossas coisas de lá, venha com a gente... O casebre não é mais nossa casa Helga, por isso vim falar com você. – Helga apenas suspirou, queria chorar – Vamos dar um adeus.
Uma parte da vida de Helga estava indo embora, seu casebre e sua família já não eram mais seus. Seus amigos estavam se dividindo, isso doía tanto. Ela terminou seu cigarro e voltou para dentro ainda conversando com Sid, mas agora falavam sobre outro assunto.
As 15h Helga saiu do colégio e seguiu com Sid até o casebre onde encontraram com Kate. A loira sentia um aperto no peito ao entrar no casebre, pensando que seria a última vez que entraria ali. Procurou por roupas, brincos e demais acessórios que constantemente esquecia lá. Sid recolheu todos os CD’s que eles costumavam ouvir, Kate achou apenas um casaco perdido. Kate pegou algo para eles beberem, brindaram ao casebre e no fundo todos desejavam que ele não fosse destruído. Helga sabia que era improvável, gostaria que achassem outro lugar como esse, mas sabia que era ainda mais improvável. Além do fato de esse ser o último ano de quase todos eles, apenas Helga e Sid teriam mais um ano, tinha o fato de que todos iriam para faculdades, estariam longe e ela provavelmente nunca mais os veria. Afastou os pensamentos tristes e tentou se divertir.
Não durou muito tempo, logo Torvald, Leo e Jake entraram no casebre em meio a risadas. As risadas pararam assim que os olhares dos que chegavam encontraram os olhares dos que já estavam lá. Algo já tinha acontecido entre eles, Helga podia perceber pela tensão que era quase palpável, mas não fazia ideia do que exatamente tinha acontecido. Helga acompanhou os olhos de T. passando pelas bolsas dela e de Sid cheias. Sentou-se no sofá entre Sid e Kate, Leo sentou ao lado de Helga sobre a mesa, Jake no chão.
–Já estão fazendo a mudança? – Leo perguntou para Helga que encarou seus grandes olhos antes de responder.
–Pretendo me afastar disso o mais rápido que puder. – Helga olhou para T. que flexionava os dedos.
–Pois bem, porque ainda estão aqui? – Leo a olhava nos olhos, ele queria tirá-la do sério. Devia estar projetando nela a raiva que estava da irmã por estar o “traindo”.
–Estamos dando adeus. – Helga falou pausadamente, irritada.
Torvald levantou bruscamente, todos permaneceram sérios e em silêncio. Ele foi até o quarto, ouviam barulhos de plástico, sacolas... Ele voltou com sacos e uma balança. Sentou no chão e começou a pesar saquinhos de cocaína.
–Torvald... – Kate chamou enquanto ele fechava um saquinho.
–Já que estão de saída, não vejo nenhum motivo para continuar escondendo. – Continuou o que estava fazendo ignorando o desconforto alheio. Helga se irritou ainda mais, como poderia ser tão babaca?
–Vocês vão estragar nosso último momento juntos! – Ela gritou
–Não por opção nossa. – finalmente Jake abriu a boca e pareceu se importar com o que estava acontecendo.
–Sim opção de vocês. Se parassem não precisaríamos nos separar. – Helga estava com os olhos cheios de lágrimas.
–Não é assim que funciona. – Leo fazia cara feia para Helga
–Porque não?! – Quem gritava agora era Kate, já chorando muito.
–Você sabe por quê. Não vou conseguir ter esse dinheiro de nenhuma outra maneira. Nós não temos dinheiro, nenhum de nós tem, só os dois. – Leo apontava para Helga e Sid.
–Eu? – Ela se levantou. – Eu? Me diga o que você sabe de mim! – Ela estava de frente para ele.
–Acorda Helga, enquanto você sofre entre Edward e Jacob, nós temos preocupações mais sérias. – Jake falava frio e sem expressão. A garota fechou as mãos, pronta pra socar a cara do loiro, fechou os olhos e respirou fundo sem se virar na direção dele.
–Helga precisa de dinheiro, Jake. Não tanto quanto eu ou você, mas definitivamente mais do que Leo e Kate. – T. falou sério sem tirar os olhos dos saquinhos, Helga se virou pra encará-lo surpresa.
–E precisa pra quê princesa? – Leo perguntava, Helga estava de costas para ele e não o responderia.
–A mãe dela, a mãe dela precisa de tratamento – Sid falou baixo. Como ele poderia saber? Como ele sabia?! Helga mal tinha contado para Torvald. O silêncio seria completo se não fosse Torvald pesando os saquinhos, ignorando completamente a situação.
–Eu tenho motivos para fazer o que fazem, mas eu escolho não fazer. – Ela olhava pro chão.
–Você tem medo. – Jake acusava sem nem olhar para a garota, olhava fixo para as pesagens de Torvald.
–Nenhum de nós tem muitas condições, nenhum de nós tem família estruturada, todos precisam desse dinheiro, mas não significa que vamos traficar para conseguir. – Sid falou ainda baixo – Vocês estão indo pelo caminho que mais lhes convém.
–Queria que trabalhássemos em fast foods e mercadinhos? – Leo falava debochado como sempre.
–Sim. – Helga respondeu prontamente, voltando a encará-lo. – Poderiam fazer qualquer coisa. Poderiam se formar, ir para a faculdade e aí sim ajudar suas famílias. – Helga pegou sua bolsa e caminhou em direção a porta.
–Trégua! – Torvald gritava, soltando o que estava fazendo e se levantando. – Eu proponho trégua, hoje é o último dia de casebre. – Torvald gritou quando Helga alcançou a porta.
Ela estava chorando. Ele a abraçou por trás, ela soluçava de chorar. Sentir o corpo dele contra o dela era algo que sentiria falta, mas tinha medo de ficar com ele. A loira virou para ele e continuou sendo abraçada, suas lágrimas molhando a camiseta dele. Chorava de raiva, de tristeza, de saudade... Seu peito apertava, a respiração estava difícil, ela não o abraçava de volta, queria apenas ficar encostada nele. Virou o rosto para ele e entre lágrimas o beijou, beijo intenso e cheio de paixão. Sentiu-se leve, por um momento a dor tinha passado. Independente do que tivesse acontecido entre eles, sempre desejaria estar com ele. Era natural, era fácil, era errado e certo ao mesmo tempo. Quando pararam de se beijar ela percebeu que o casebre estava em silêncio, todas as discussões cessaram por um momento, a trégua seria respeitada.
A tensão no ar não existia mais, estavam rindo e bebendo como sempre, Helga ignorou por completo o mundo fora dali, estava sentada quase no colo de Torvald e arrepiava-se por completo toda vez que ele a beijava no pescoço ou falava alguma besteira ao pé do ouvido. Em apenas três semanas tudo havia mudado drasticamente, talvez por isso doesse tanto, não tivera tempo de se preparar para a separação, imaginou mil vezes, mas vivenciar era muito pior. Ficar com ele era arriscado, mas o risco não valeria a pena? Seus olhos estavam fixos no rosto dele, ele sabia que ela estava encarando, mas apenas ria com os amigos. Estava com os olhos fundos, meio pálido, parecia cansado, como se não estivesse dormindo, ou talvez fosse do uso de drogas. Ela nunca o vira usando nada, mas era óbvio que usava.
Todos ficaram no casebre até o último minuto que puderam, já passava das dez horas quando Leo, Kate, Sid e Jake foram embora. Todos se foram sem grandes despedidas, apenas o de sempre, como se no dia seguinte fossem se encontrar novamente, até poderiam se encontrar, mas não ali. Talvez apenas Helga estivesse achando aquilo tudo dolorido demais, talvez fosse o medo que ela tinha de ficar sozinha. Depois que os quatro saíram Helga correu para os braços de Torvald, enquanto o beijava passava as mãos por todo o corpo dele queria prolongar aquele momento ao máximo. Ele segurou-a firme pela cintura. Sentia seu corpo todo esquentando a medida que Torvald a apertava aqui e ali. Helga se soltou e o puxou com ela para a cama dentro do quarto.
A madrugada foi longe enquanto eles transavam, conversavam, transavam de novo, bebiam, se amavam... Helga acordou, estava deitada no peito nu de Torvald, na verdade ambos estavam nus. Ela sorriu involuntariamente, olhou para seu rosto que nem dormindo parecia relaxar. Ela deu um beijo leve em seu rosto, uma lágrima escorreu, levantou sem fazer barulho, vestiu-se rapidamente e saiu do quarto. Olhou para a sala do casebre, porque parecia tão difícil ir embora? Ela poderia voltar ali outro dia, só não poderia continuar indo todos os dias. Saiu do casebre chorando e foi para a escola caminhando rápido. Só foi perceber o quanto Torvald era importante pra ela quando percebeu que iria perdê-lo e isso a fez aproveitar cada segundo a seu lado.
Chegou à escola muito cedo, apenas meia dúzia de estudantes havia chegado. Foi até o banheiro lavar o rosto, tirar o resto da maquiagem, arrumar o cabelo e parecer mais apresentável. Quando saiu do banheiro o corredor já estava cheio, todos em seus armários, em grupos de amigos, rindo e falando alto, tudo como sempre. O sol estava raiando, o dia estava bonito, tudo como deveria ser, mas dentro dela algo estava errado e ela não conseguia sentir-se parte daquele lugar.
–Oi Helga! – Phoebe vinha sorrindo
–Oi Pheebs. – Helga tentou sorrir.
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