Pudinzinho
1 Início, meio e fim
Notas iniciais
“Você me ama, pudinzinho?”
Joker rabiscou furiosamente os cálculos de explosivos que fazia no rodapé dos mapas roubados do banco central. Aquela porcaria estava cheia de números quebrados. Impaciente, voltou algumas folhas para conferir a quantidade de arsênio disponível e a espessura das paredes do estacionamento subterrâneo. Oh, mas é óbvio! Estava trabalhando com arsênio, não bombas de cianureto! Que erro patético! Agora, se buscasse uma raiz congênita pelo novo ponto de estouro do hidrogênio, conseguiria achar-...
“Você me ama, pudinzinho?”
– Mas que inferno! – urrou, exausto, jogando para fora da mesa todos os rolos de papéis amontoados e em seguida massageando dramaticamente as têmporas.
O que havia de errado com aquele pensamento parasita que rondava sua cabeça há três noites seguidas? O que havia de errado com Harley Quinn?
“Você me ama, pudinzinho?”
Arlequina havia perguntado, pouco depois de lhe entregar as caixas de mapas e arquivos roubados, em uma das noites abafadas que passavam naquele muquifo fedendo a naftalina e mijo de rato. Seus olhos não tinham o brilho de psicopatia costumeiro e todo seu corpo parecia ter se retesado em uma expectativa receosa. Joker limitou-se a olha-la de soslaio, mesmo que naquele momento já tivesse percebido a estranheza da situação. “Pare de me perturbar com besteiras e volte ao trabalho”, era o que sempre dizia quando ela passava as madrugadas se enroscando nele e ronronando como um gato, ou cortando coraçõezinhos nas suas roupas, e ela saiu do apartamento, cabisbaixa.
Afinal, o que diabos havia de errado com ela agora?
Arlequina sempre tivera o dom de tira-lo do sério, por mais que sua psicopatia nunca deixasse transpassar isso. Era por si só um incômodo agitado, inquieto, perturbador. E a forma como lhe chamava, então! Pudinzinho! Joker estremecia de nervoso, só de pensar. Nenhum vilão nunca deveria ser obrigado a passar por tamanha humilhação!
A verdade é que desde que conhecera Ivy, a maldita ruiva das ervas, Arlequina estava diferente. Joker sabia que corria muitos riscos por deixar aquela cabecinha avoada e influenciável que era sua parceira de crime ser bombardeada pelo espírito rebelde e feminista de Ivy, mas tinha ignorado sua própria lógica a fim de aproveitar o tempo de descanso que teria sem ter a loira grudada no seu pescoço. Agora já não havia mais como não encarar os fatos. Arlequina estava duvidando do próprio amor que tinha criado desde que os dois se conheceram e ela ainda era uma psicóloga pouco experiente. Ela estava voltando a raciocinar!
Joker olhou cansado e irritadiço para o monte de papéis que era seu trabalho espalhado no chão. Desde aquela noite Arlequina não havia voltado mais para o apartamento escuro e cheio de mofo que dividiam e Joker planejou aproveitar os tempos de paz para acertar os detalhes da grande explosão do banco central, mas aquela maldita paz se mostrara algo sufocante e tedioso e durante todas aquelas três noites a única coisa que conseguia fazer era... pensar nela. Arlequina estava voltando pra realidade. Arlequina estava finalmente indo embora...
Que fosse embora! Ele não se importava. Que fosse morar com a maldita ruiva dos temperos! Ele não se importava, de forma alguma! Que o deixasse só naquele buraco imundo inquietantemente silencioso, que nunca mais o chamasse por aquele apelido vergonhoso, que fosse perseguir e invadir o banheiro de outras pessoas enquanto estivessem tomando banho, que ajudasse a calcular explosões de um outro vilão qualquer. Não se importava!
Afinal, ele é o Joker, e o Joker não se importa com ninguém.
Não, o Joker não ama ninguém.
Não, definitivamente não.
Absolutamente não.
Não.
...Não?
Joker entrelaçou as mãos na frente do rosto, nervoso e pensativo. A chuva lá fora jogava gotas pesadas pra janela a sua frente, e se antes aquele som e umidade lhe inspiravam a escrever os mais mirabolantes planos anti-Batman, agora tudo o que faziam eram completar sua atmosfera de frustração.
O que diabos significa amar, afinal?
Buscando em memórias de tempos desagradáveis, lembrou-se das novelas de televisão que a mãe costumava ver. As mulheres idiotas, os homens ridiculamente submissos, lágrimas por toda a parte. Aquilo era patético demais para ser verdade. Ou talvez o amor em si fosse algo absurdamente patético. Coisa de gente fraca.
Sentiu um desconforto latejante dentro da sua cabeça. Ele não era uma pessoa comum, porque diabos iria se sentir como uma então? Nem era Arlequina. Mas Arlequina podia voltar a ser Harley Quinn, e Harley Quinn iria voltar a pensar como todas as pessoas comuns pensam. E talvez voltasse a trabalhar como psicóloga, criaria rotinas numa vida monótona, esconderia sua máscara e seu passado, sequer tentaria o odiar, porque não é isso que pessoas comuns fazem. Iria apenas escondê-lo junto do passado, e esquecê-lo, devagar. Para ele o pudinzinho seria apenas um ato de rebeldia que passou.
O que deveria ser uma coisa boa, obviamente.
Sem mais vozes melosas e irritantes pela madrugada, sem mais noites de sono interrompidas por uma intrusa invadindo sua cama, sem mais banhos invadidos de cinco em cinco segundos, sem mais fotos recortadas dos dois para descobrir como seriam seus bebês. A sua vida, sem Arlequina. Só noites pacíficas como essa, chuvosas, com papéis pelo chão e uma dor de cabeça irritante. Pensando nela.
Joker remexeu-se na cadeira. Não podia estar apaixonado. Estava agindo como idiota, certo, e tinha acabado de perder três noites de trabalho duro que provavelmente resultariam em uma adiação inevitável da sua explosão e não conseguiria mais atacar o banco na véspera do desfile de São Patrício, perdendo aí uma grande chance de criar prejuízo e capturar o Batman, certo. Mas deveria haver muitas outras explicações plausíveis para isso. O calor que fizera nos últimos dias. O cheiro sufocante de produto de limpeza barato que emanava das paredes. São coisas que podem afetar indiretamente muitos homens comuns, mesmo que não fosse um deles.
O importante é que não estava nem um pouco apaixonado por Arlequina.
Não se importava com ela.
Sequer sentiria sua falta quando fosse embora.
E não a amava. Decididamente não.
Foi enquanto selava essa importante conclusão na mente que Joker percebeu algo de estranho no prédio em frente. Uma movimentação incomum, por trás da cortina de chuva, escondida na penumbra do terraço. Seus reflexos, porém, não eram tão ágeis, e mesmo que já soubesse o que ia acontecer, não lhe houve tempo para reagir.
Arlequina despedaçou o vidro da janela com o impulso do pulo e o fez voar por todos os quatro cantos do quarto. Aterrissou sobre a mesa antes ocupada pelos mapas e planos de destruição, ergueu-se e apontou o braço para ele, tudo em um movimento extremamente rápido e gracioso. Estava segurando uma pistola .40, pressionando o cano gelado contra a sua testa.
– Diga que me ama, seu verme! – berrou. – DIGA!!
Joker viu seus olhos azuis transbordarem uma fúria psicopata, ensandecida, perigosa.
Ela estava sem a máscara e os cabelos loiros presos nas marias-chiquinhas costumeiras pingavam água para o chão, bem como toda a sua roupa. A pistola estava carregada, destravada, com seu dedo no gatilho.
E foi só então que ele conseguiu entender tudo.
Joker se levantou com cautela, sorrindo para aqueles olhos, levemente curvado para frente pelas mãos agarradas às bordas da mesa, e Arlequina agachou-se flexionando os joelhos dentro da malha lustrosa que era a sua roupa, aproximando seu rosto do dele, e descendo o cano da pistola para debaixo do seu queixo.
– Diga que me ama, miserável – ralhou entredentes com tanta fúria que parecia a ponto de quebrar a mandíbula -, ou eu explodo os seus miolos.
– Atire – desafiou, com o sorriso se alargando no rosto pálido.
– Não estou blefando.
– Eu também não – e um músculo do seu rosto se retesou, mostrando parte dos dentes brancos em uma careta de escárnio.
Houve então o choque, a explosão, a descarga elétrica. Não de balas, pólvora ou cianureto. Mas de braços, pernas e bocas.
Em um instante Joker estava tomando furiosamente os lábios cheios de batom preto e cólera. Sentia uma fome urgente por sua boca, seu corpo, seu calor. Deslizou os braços pela roupa escorregadia, apertando, puxando, procurando o maldito fecho que o privava do contato que tanto necessitava, aqui, agora, neste exato momento, por favor.
O cano do revolver continuou pressionado contra seu queixo e depois desceu pelo seu pescoço quando os nervos dela estremeceram. Arlequina já não sabia mais à qual das loucuras sucumbir. Perdera o fôlego, o controle, a sua vida. Com as poucas forças que lhe restavam sussurrava frases soltas quando os lábios dos dois se desencontravam atrás de ar para respirar.
– Diga que me ama, Joker, diga...
– Me mate – sussurrava de volta.
Os joelhos dela fraquejaram e Arlequina se deixou sentar sobre a mesa de trabalho. Joker lhe apertou a coxa cravando os dedos com toda a força, frustrado por ainda estar sentindo o tecido duro e não a pele morna da sua assistente.
Arlequina enlaçou a cintura dele com as coxas, ainda parecendo ligeiramente torpe e tomada pelo ataque de raiva lunático, sem ter certeza se estava alucinando prazerosamente ou se realmente sentia a língua de Joker invadir a sua boca.
Os dedos dele finalmente bateram com o fecho de prata das costas e começou a descê-lo, ao que Arlequina lhe puxou violentamente os cabelos para trás, tirando a arma do seu pescoço e apontando diretamente para o seu rosto outra vez.
– Diga que me ama, filho da puta, ou sua cabeça vai voar por toda a merda desse quarto.
Seus olhos gritavam a loucura, a boca raivosa de batom borrado fazia uma careta de asco ofegante, os cabelos loiros fugiam das presilhas e caíram bagunçados pelo rosto. Arlequina agora era apenas uma mente frenética, perigosa e incontrolável.
Joker nunca se sentiu tão excitado em toda a sua vida.
– Já estou cansado desta arma – Ele disse ao conseguir livrar-se das mãos furiosas. Lentamente, encostou os dedos no cano da arma e o baixou. Sorriu de forma maliciosa — Seja uma boa menina e lhe darei outra para brincar.
Um baque metálico anunciou que o revólver estava no chão. Arlequina mais uma vez foi tomada pelo abraço do outro, sem mais ameaças de morte. Seu figurino foi cuidadosamente puxado revelando a pele rosada da assistente e os seios fartos que Joker apertou com gosto. A carne era tão macia que quase lhe escapava das mãos e muito satisfatoriamente ele ouviu Arlequina gemer entre seus lábios quando teve um dos mamilos beliscados. Demorou-se um pouco mais neles sentindo nas mãos a consistência suave e imaginando como foi capaz de passar tanto tempo estando no mesmo cômodo que Arlequina sem nunca ter sucumbido à urgência de tocá-los antes. Os quadris da loira moviam-se na sua cintura, estimulando seus nervos mais sensíveis e Joker finalmente percebeu que precisaria de um móvel mais propenso aos seus movimentos do que aquela mesa bamba.
Prendeu as nádegas de Arlequina com um puxão que a fez estreitar as pernas em volta dele e a ergueu da mesa. De bocas ainda entrelaçadas e o rosto perdido entre os cabelos loiros ele a levou até o quarto, perdendo sua camisa pelo caminho. Jogou a assistente na cama e foi puxado por suas pernas, caindo por cima dela.
Agora que sua liberdade era maior Joker pôde curvar-se até os seios insaciados e tanto lamber quanto chupar demoradamente seus mamilos enrijecidos, com Arlequina se contorcendo e gemendo debaixo do seu corpo. Sentiu algo pressionar seu membro rijo, provocando-o, era o joelho da assistente. Joker a deixou continuar e desceu com uma das mãos pela curva da sua coxa, parando com a mão em forma de concha na inclinação entre suas pernas e dirigindo-lhe apertões por cima da roupa que ainda estava entre os dois.
– J-Joker... – Arlequina gemeu em um suspiro profundo, entre um aperto e outro. – Isso é tortura...
A voz trêmula, as faces rosadas e a boca ligeiramente entreaberta o deliciaram quase tanto quanto o pequeno mamilo rosado com o qual brincava com a língua. Joker sentiu a ereção cada vez mais apertada dentro de suas calças. Teria de esperar mais um pouco pela sua atenção. Tortura? A sua intenção era enlouquecer.
– Sou um dos vilões, Arlequina – disse, voltando-se para o pescoço alvo e o lambendo até alcançar sua orelha. — É isso que os vilões fazem.
Joker sentiu todo o fôlego se esvair do corpo de Arlequina quando sua mão finalmente escorregou por dentro do uniforme vermelho e preto e tocou sua intimidade, surpreendente já úmida e quente. Pressionou com o dedo médio o seu ponto mais sensível e deu uma risada prazerosa ao ver o rosto da assistente enrubescer até a raiz do cabelo.
– J-Joker...
– Algum problema, Arlequina? Achei que você gostasse das minhas brincadeiras.
Permitiu que seu dedo se movimentasse sobre o nervo tenso, massageando-o em círculos com variações de ritmo que Arlequina acompanhava com arfadas e gemidos.
Arlequina se sentia frágil e impotente a cada vez que era forçada a fechar os olhos pelas ondas prazerosas e ao abrir via o sorriso satisfeito de Joker, se deliciando com a sua imagem desprotegida. Era tão errado para uma mulher do seu nível sucumbir tão rápido assim... Por mais gostosas que as sensações fossem. Estremeceu. O que Ivy diria?
Puxou Joker para si e abafou os próprios gemidos e pensamentos com a saliva da sua boca com gosto de remédios e café. Com um movimento engenhoso, estava por cima dele, os quadris apertando seu membro rijo encoberto.
– Você não é o único que sabe brincar, Joker – sussurrou em seu ouvido, movimentando os quadris pelo que ela sabia ser o jeito certo já que ele lhe agarrara as nádegas e acompanhava seu ritmo.
Arlequina passeou os lábios pelo pescoço de Joker marcando-o com mordidas e chupões e com as mãos deslizou por seus ombros, peito e barriga, até encontrar o cós alto das calças roxas. Seus dedos desfizeram o fecho e Arlequina transpassou o tecido leve das roupas de baixo para sentir diretamente o membro quente e pulsante contra sua mão. Apertou a base até a glande em um movimento leve e repetitivo, percebendo com enorme excitação o modo como Joker apertara os olhos e abafava um gemido.
– Foi um gemido seu o que eu ouvi? – Provocou deliciada e lhe lambeu os lábios.
Joker sorriu com a provocação. Segurou um dos pulsos de Arlequina e inverteu as posições outra vez. Ajoelhou-se na cama entre os joelhos da assistente e lhe puxou bruscamente o resto do uniforme, levantando suas pernas. A malha lustrosa caiu no chão e Joker sustentou no alto uma de suas pernas nua e bem delineada.
– Você deve admitir, Arlequina, que meus jogos são bem mais interessantes.
Arlequina se apoiou nos cotovelos para ficar mais confortável e sentiu seus dedos dos pés serem beijados, um por um, o olhar altivo de Joker fixo no seu. Ele passou a boca por seu tornozelo, pela perna. Beijou seu joelho. Desceu por sua coxa, beijando-lhe a parte interna. Mordeu a região próxima da virilha e... Arlequina jogou a cabeça para trás, com a certeza de que só por manter o contato visual com Joker em uma área sua tão íntima iria falecer em orgasmos. Sentiu o hálito quente dele, próximo. Tão próximo. Tão quente...
E então Joker continuou, pondo-se sobre ela novamente. Arlequina bufou, desapontada, e encontrou o rosto dele sobre o seu com um sorriso sacana.
– Oras, foi um muxoxo de decepção o que eu ouvi, Arlequina?
Ela estava furiosa novamente, bem como ele queria. Abafou seus protestos e reclamações com um beijo cheio de cólera, recebendo mordidas nos lábios tão fortes que trouxeram o gosto de sangue. Joker sentiu o corpo debaixo do seu se debater revoltoso, mas conseguiu prender seus pulsos com apenas uma mão no colchão acima da sua cabeça. Arlequina tentou se livrar empurrando-o com os pés e tudo o que conseguiu fazer foi puxar a sua calça, deixando a mostra o quanto as suas provocações e sua loucura o tiravam do sério.
Joker pressionou o membro duro contra o seu baixo-ventre, roçando a excitação dos dois e com a mão livre erguendo uma das pernas de Arlequina de encontro à sua cintura. Penetrou a carne macia, quase perdendo completamente a razão com sua recompensa apertada e quente e recebendo uma mordida particularmente forte de Arlequina que tentava não gemer em seu lábio inferior. Depois dos primeiros movimentos as amarras não se fizeram mais necessárias e Joker soltou os pulsos da assistente para se apoiar na cama cama e ganhar mais impulso. Arlequina enlaçou os seus quadris para facilitar o contato entre os dois e Joker aumentou tanto a força quanto a velocidade das estocadas, a boca agora negligenciada da assistente gemendo sem pudores contra o seu pescoço.
Joker notou com deleite o momento em que Arlequina apertou os olhos com força e lhe mordeu o ombro, as unhas cravadas nas suas costas a ponto de lhe tirar sangue. A entrega da assistente e o choque dos seus quadris com os dela não o permitiram resistir por mais tempo e logo ele mesmo estava gemendo sôfregamente, com uma coleção de espasmos e arrepios gelando seu corpo.
Ainda estava com a mente enevoada pelo prazer quando sentiu os lábios de Arlequina carinhosamente apertados contra o seu queixo. Então as palavras simplesmente saíram, uma confissão tão leve e natural que mal sentiu sua boca mexer para pronunciá-las.
– Eu te amo, Arlequina. Não escute a Ivy, não vá embora. Eu preciso de você aqui, comigo.
“Oh, pudinzinho!”
“Você tinha que estragar a porra do momento com esse apelido, não tinha?”
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