Psycho
9 Capítulo 9 - " Isso é impossível ! "
Lince andava de novo pelos corredores, rumo a sala de aula, novamente escondido com o capuz sobre o rosto. Desta vez se sentia mais vulnerável do que na manhã do mesmo dia. Não sabia se era somente impressão sua, mas era como se todos direcionassem o olhar para o rosto do garoto, já sabendo o que escondia, ou como ele estava. Seu estômago se revirava com essa terrível sensação. Puxou o capuz mais para baixo, e tentou se curvar mais um pouco, tomando o máximo de cuidado possível para não esbarrar em ninguém, ainda que só olhando para o chão.
Depois que a loira o observara sem o capuz — por culpa de Delancey — ele teve uma breve experiência de como todos iriam reagir. Jack provavelmente iria rir de sua cara, mas, para a sorte do rapaz, não vira o brutamontes na escola.
Ficara alguns minutos sozinho na biblioteca, depois que Delancey havia finalmente ido embora, junto com a amiga, porém, não aguentou ficar lá por muito tempo. Seu esconderijo, que antes lhe parecia seguro, estava completamente arruinado. Delancey com toda certeza iria voltar lá várias e várias vezes, e esta ideia arrepiava o garoto. Ainda que por um dia ela o fez se sentir bem, de resto ela só havia lhe causado problemas. E assim, com o coração acelerado, e um frio crescente na barriga, saiu da biblioteca rumo ao corredor.
Passara as aulas depois do intervalo da mesma maneira das que tinha passado antes. Sempre encolhido, desenhando, ou tentando dormir, mas, com o tanto de olhares que sentia pesar sobre sua nuca, esta última ação se tornara praticamente impossível. Delancey evitara olhar para o rapaz durante os tempos em que tinham as mesmas matérias. Sabia que ele se sentia mal com os olhares das pessoas, e ainda mais com a sua presença. Mas, Delancey não sabia o porque da repulsa repentina, e não conseguiria aceitar um pedido para ir embora tão facilmente. Simplesmente não fazia sentido a ideia de querer ficar sozinho em sua mente. Também não lhe parecia plausível a ideia de Lince ser uma má influência. Não lhe parecia ser o tipo de garoto que vive se metendo em brigas, mas, infelizmente, a maioria das pessoas pensaria coisas do tipo, ou até piores.
Precisava saber o porque. Não só um, mas vários. Porque ele a queria longe ? Porque estava naquele estado ? Eram as perguntas que mais se repetiam em sua cabeça.
A garota também tomara uma precaução em relação a Liv, uma de suas companheiras mais próximas, e que era a única além dela a ter visto o rosto do garoto. Achava ter a convencido a não espalhar o segredo do garoto, porque, se isto fosse levado a diretora, o garoto teria que ter uma conversinha especial com a mesma. E Delancey tinha a absoluta certeza de que isso não seria nada bom para o garoto.
O sinal estridente tocou, anunciando que finalmente o dia de aulas havia chegado ao fim. Lince esperou que todos fossem embora da sala, fingindo que estava dormindo, para que finalmente pudesse se levantar da posição incômoda que fazia suas costas doerem, e ir embora. Mas, Delancey também esperava que todos fossem embora, para tentar dialogar novamente para o rapaz.
Assim que a sala ficou vazia, o barulho de passos, risos e conversas se alastrando pelo corredor, Delancey deu um passo na direção do garoto. O mesmo ainda estava debruçado na mesa, sabia que a garota estava lá, mas desta vez, não iria lhe dirigir uma palavra sequer. A morena observou mais uma vez a figura curvada, e a ação que pensava fazer a seguir, começara a lhe parecer duvidosa. Mas, de repente, uma ideia nova de como poderia chegar até as respostas lhe surgiu, e então, agarrando a mochila e colocando a mesma no ombro direito, saiu da sala em passos rápidos, os mesmos ecoaram pela sala, até se juntarem a multidão de sons que já se encontrava distante.
Lince virou a cabeça levemente, para ver se ela realmente havia ido embora. Com a sua pergunta mental sendo respondida afirmativamente, se espreguiçou ainda sentado. Suas costas reclamavam por estar curvado o dia inteiro. Se levantou, passando a mão pelo cabelo castanho, e pegou a mochila, a jogando de imediato nas costas, e foi em direção a porta.
Caminhava pelos corredores calmamente, um pouco mais ereto, porém ainda com o capuz. Pouquíssimas pessoas se encontravam no local, e sempre que vira uma, voltava a sua posição curvada e escondia o rosto com o capuz, sem se importar em parecer um esquizofrênico.
Já estava próximo a saída, só faltava virar a esquerda no corredor em que estava e seguir em frente, mas, assim que virara a esquerda, escutou vozes, e rapidamente se escondeu atrás da parede pela qual havia a pouco passado.
Estendeu um pouco o pescoço, para ver quem estava lá, e para a sua surpresa, era Jack. O xingou mentalmente, voltando a ficar escondido pela parede. O brutamontes deu uma leve risada, aparentemente estava acompanhado de alguém, pensou Lince.
–Essa sua curiosidade só te deixa mais gata. -O escutou falar.
" Não me diga que serei obrigado a escutar isso... " pensou Lince, já se imaginando preso na escola por causa de uma possível pegação por parte do Jack e de sua possível ficante.
–Ahm...Obrigada.
Foi como se o torso do garoto ficasse oco repentinamente, ao reconhecer a voz da possível ficante de Jack. Era Delancey.
Sem acreditar no que acabara de escutar, esticou o pescoço mais uma vez, podendo então ver a morena ser encurralada em um armário por Jack, que tinha um braço estendido do lado da garota, impedindo sua saída, e sua outra mão, enrolava uma mecha do cabelo caramelo da jovem no dedo.
O coração de Lince disparou. Nunca pensou que veria esta cena. Não conseguiria mais se esconder e se privar de ver a estranha cena. Se aproximou mais da parede. Uma faísca surgia em seu ventre, e isso não era nada bom.
" Como que ela pode ficar com ele ?! Isso é impossível ! "
A cena não fazia sentido algum na cabeça do garoto. Delancey, pelo pouco tempo que teve para a conhecer, descobrira que era uma garota estudiosa, dedicada, inteligente, e um tanto sensível, mas sempre altruísta, coisa que o irritava algumas vezes, e Jack era praticamente o oposto. Não havia nexo algum nisso.
Mas a faísca crescente no garoto, não se devia somente a falta de sentido contida nisso, mas sim porque se sentia completamente derrotado por Jack. Ele obteve o que queria, passando por cima de Lince e o humilhando. O fazendo se esconder de tudo e todos. O fazendo detestar Delancey. Mas a raiva também não era direcionada somente ao agressor, mas também a morena, que se encontrava com as bochechas coradas com a proximidade em relação a Jack.
Como que ela ficara nesta situação ? O que tinha em Jack que a atraíra ? Nem se Lince fosse uma garota sentiria algum tipo de atração por ele. Muito pelo contrário. Independente dos músculos, dos olhos azuis, e do cabelo negro que sempre se mantia estranhamente arrumado, a repulsa de Lince em relação a ele continuaria a mesma.
Não conseguia compreender como que a garota gostava de Jack.
" Ela é cega ? Fala sério, o que é que esse gorila tem ?! Não entendo as garotas... "
Ignorava o diálogo do casal, somente focava em suas ações, ainda que reprovando e questionando a todas mentalmente. Jack parecera um tanto incomodado com alguma coisa que Delancey dissera, mas, este incômodo logo passou, assim que Jack se aproximou mais de Delancey, o rosto se inclinando em direção ao dela.
Lince sentiu seu estômago revirar. Não iria suportar a ideia de ver os dois se beijando. Parou de observar a cena, se escondendo novamente atrás da parede. Retirou o capuz, e passou as mãos pelo cabelo castanho, o deixando um tanto para trás. Sentia algo estranho. Uma incompreensão que não podia decifrar. Nunca pensou em ver nada parecido com aquilo, nunca achou que Delancey se deixaria ser levada por alguém como Jack, nunca pensou que Jack poderia se aproximar assim de Delancey.
Sentia-se confuso, irritado, e com uma leve vontade de sair de seu esconderijo e socar o nariz de Jack. Mas a última ideia, apesar de atraente, iria lhe render mais semanas de necessidade de se esconder, a tornando infelizmente inviável.
Sua raiva se misturava com a sua confusão mental. Simplesmente não conseguia entender o que Delancey vira em Jack, ou porque ela o procurava várias vezes, dizendo que iria o ajudar e depois simplesmente fazia isso. Mas não estava com tanta raiva dela assim. Mas sim de Jack. Afinal, ele conseguira o que queria, passou por cima dele, e roubou a atenção da única pessoa que Lince já havia conversado prazerosamente a anos.
Lince balançou a cabeça em negação, tentando esquecer a visão e as informações recém obtidas, mas tal tentativa se mostrava ser impossível.
( ... ) No dia seguinte...
Conflito era a palavra que resumia como Lince se sentia. Não importava o quanto tentasse esquecer, o tempo todo as lembranças do dia anterior voltavam.
Arrancou a folha do caderno em que desenhava e amassou a mesma, formando uma bola. Seus desenhos, que já não eram grande coisa, estavam piores, ele estava claramente mais propenso ao erro. O estado do rosto havia melhorado um pouco mais, e ele se encontrava em uma escadaria, sentado em um degrau. O rosto estava descoberto, a aparência agora não o incomodava tanto quanto a necessidade de esquecer o que vira.
Era um absurdo. Era impossível. Como ? Porque ?
Não dava para entender.
Rabiscou errado mais uma vez, e resolveu parar de continuar tentando. Desenhar nunca fora o seu forte, somente um passatempo, e agora que estava nervoso, sua criatividade parecera se esgotar e todas as suas linhas parecerem drasticamente deformadas. Fechou o caderno com uma certa velocidade, e passou a mão direita pelo cabelo, engolindo em seco.
Ao olhar para o corredor, a imagem passara mais uma vez pela a sua cabeça.
Se levantou, bufando, e começou a caminhar. Já nem sabia mais do que sentia aquela fúria. De Jack por ter praticamente o esmagado ? De Delancey, que se comportara como uma pessoa extremamente falsa ? Dele mesmo, por se deixar ser esmagado ? Ou por ter acreditado, de maneira idiota que finalmente conseguiria ao menos uma colega ? Ou talvez por ter ficado feliz em sua companhia ?
Balançou a cabeça, tentando expulsar as últimas alternativas. A culpa era de Jack. Só de Jack.
–Allen !
Foi como se seu torso ficasse vazio ao escutar a voz familiar. Apesar do leve susto, ignorou a garota, que andava em passos rápidos atrás do rapaz.
–Allen, é sério ! Para de fugir !
A frase lhe causara vontade se socar a parede.
" E você pare de tentar parecer uma pessoa caridosa ! Falsa ! " pensou, para logo depois se reprovar mentalmente. Olhando por um lado, ela não fizera nada demais, afinal não sabia que fora Jack quem o deixara naquele estado. Tudo o que fizera foi ficar com um cara que achava ser atraente, uma coisa muito normal de se fazer, queira ou não, Jack era popular, e adorado pelas garotas.
Se xingou mentalmente. Estava sendo injusto com a garota, ela não tinha culpa.
" Mas olhando por outro lado, tem sim. " E era verdade.
–Lince ! Eu quero te ajudar !
Não aguentou mais. Virou de costas rapidamente, ficando cara a cara com a garota, que revelara estar muito mais próxima dele do que a distância que ele considerava confortável. A garota deu um passo para trás.
–Para de tentar me ajudar ! -Ordenou em um tom alto.
–Eu falei com o Jack ! Eu sei que foi ele !
Lince congelou. Passou a mão pelo cabelo, mas o mesmo caiu novamente sobre a testa.
–O que ? -Perguntou, ainda que já sabendo do que se tratava.
–Eu conversei com o Jack. Eu soube que foi ele quem lhe agrediu.
" Perfeito, agora vou ser o fracote que depende da garota boazinha para o ajudar. E para completar, Provavelmente vão me matar assim que tiverem uma chance. " Pensou, revirando os olhos.
–Delancey. É sério, para de tentar me ajudar ! Eu sei me defender, e se eu não conseguir, isso não é problema seu !
–Na verdade, como representante do grêmio, é problema meu sim.
" Perfeito. Ela só está na minha cola porque é do grêmio. Eu sou um idiota. "
Se virou de costas para a garota novamente, e voltou a andar. Estava simplesmente farto disso. Então agora sabia porque quase tivera um amigo. É a função dela ser amigável, " irritante, falsa " e prestativa. E Lince era um problema para a sua reputação.
Agora ignorara Jack por um segundo. Sentia raiva dele mesmo.
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