Psycho
6 Capítulo 6 - " Delancey. "
Após alguns minutos que pareceram horas na percepção de Lince, começou a descobrir o que estava sentindo. Primeiro a tristeza chegou, o torturando, o fazendo lembrar de sua mãe, de seus olhos azuis acinzentados, de seus cabelos loiros...Dos bons momentos juntos, e também lembrou-se de como seus cabelos estavam bagunçados naquela maldita noite. De como parecia maltratada, com olheiras que apagavam o azul de seus olhos.
Lembrou-se de como parecia exausta naquela noite. Os cabelos loiros bagunçados, a caneca de café na sua mão...E ainda assim lutava para manter um sorriso no rosto e o acalmar...
E então, subitamente, todo o pano azul da tristeza e saudade que o envolvia, pareceu se rasgar dando lugar a uma chama vermelha, que começava a queimar em raiva dentro de seu peito, acelerando o seu batimento cardíaco. Seus pensamentos não estavam mais direcionados a mãe, mas sim, a pessoa que tinha desgosto de chamar de pai.
" Ele a trocou...Como ele pôde fazer isso ?! Não sente culpa pelo que fez ?! " pensava revoltado, se virando na cama, ficando de barriga para cima.
Simplesmente não conseguia compreender como que alguém poderia ser tão insensível ao ponto de fazer isso ?! Ele gostava de ver Lince sofrer ?! Gostou de ver a sua mãe gritar por ajuda enquanto era agredida ?! O que ela havia feito de tão ruim para merecer aquilo ?!
Se levantou com um pulo, já não aguentava mais ficar parado. A raiva corria por suas veias. Sentia o seu coração bater mais rápido, e conseguia perceber as veias pulsando em suas têmporas. Queria sair de lá, queria sumir, não queria mais aquela vida, aquelas pessoas...
Saiu do quarto batendo a porta velha de madeira em que a tinta branca descascava em vários lugares com força, e desceu em passos rápidos os degraus que rangiam.
Passou pela cozinha com igual velocidade, ignorando o barulho que vez quando esbarrou em uns utensílios de cozinha pendurados na parede, que foram de encontro ao chão. Se irritou um tanto mais pelo fato da cozinha ser tão apertada.
–Que merda você tá fazendo aí ? -Gritou seu pai, da sala.
Entrando na sala, avistou a figura paterna jogada no sofá velho, com uma garrafa de cerveja em mãos, prestando demasiada atenção em um jogo de futebol que passava em uma pequena televisão antiga.
Fixou o olhar no rosto desdenhoso do pai, e em seguida no objeto que segurava na mão direita. A raiva queimou em seu torso, subindo para seu rosto pálido, fazendo o mesmo adquirir uma coloração avermelhada.
–Você não muda, não é ?! -Perguntou Lince, em um tom de voz baixo, sentindo o maxilar tremer. -Sempre na merda, sempre FAZENDO MERDA ! -Não resistiu a gritar a última oração. -Você é um DESGRAÇADO ! INSENSÍVEL ! NÃO SENTE NENHUMA CULPA PELO QUE FEZ ?! E AINDA VAI TROCAR A MINHA MÃE POR AQUELA VADIA ? -Ignorou o fato de talvez estar fazendo um julgamento errado da loira. -EU TE ODEIO !
O pai apenas encarou o filho com uma expressão desdenhosa, franzindo as sobrancelhas.
–Ô idiota, saiba que por mais que você seja revoltado por qualquer merda que eu fiz, se é que eu fiz não é ? Ninguém acredita em você. E além disso, tem DNA meu correndo nesse instante por suas veias. -Disse e bebeu mais um gole da sua cerveja. -Por mais que você se revolte, não tem como lutar contra isso. Pode se matar então. -Disse voltando o rosto para a TV recém instalada. -Seria menos um problema para mim.
Lince ficou atônito. Como era possível alguém ser tão frio ? Ele realmente não sentia nada por Lince ? Querendo ou não, ele era seu filho, deveria ter ao mínimo uma consideração, uma preocupação, mas não. Balançou a cabeça, ainda olhando para a nuca paterna.
Piscou os olhos e virou o rosto, sentindo o mesmo perder o calor da raiva.
Atravessou a sala em direção a porta, se retirando do local e fechando a porta com força. Olhou para o céu e suspirou.
Porque ele tinha aquela vida ? O que fizera de tão mal ?
Baixou o rosto e começou a caminhar, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Não sabia para onde iria, nem tinha para onde ir, se pensasse melhor.
Após alguns minutos de uma caminhada sem ponto de chegada, parou. Não passava nada pela sua mente, todos os sentimentos que a pouco ferviam dentro de si, haviam evaporado para algum lugar esquecido de sua cabeça. Respirou fundo, e olhou para a esquerda. Havia parado em frente a uma livraria.
Sem pensar, e ignorando o fato de que estava sem dinheiro, subiu os poucos degraus que levavam a estrada, sem tocar no corrimão recém pintado de branco.
Abriu a porta de vidro da direita, e adentrou a livraria, sentindo um vento frio proveniente do ar condicionado. Inspirou profundamente, o cheiro dos livros o agradava. Não era bem uma pessoa que costumava ler muito, mas nunca tirara uma nota vermelha em literatura ou outras matérias em que a leitura fosse necessária.
Adentrou a livraria, indo em direção a seção de aventura. Pegou um livro com uma capa esverdeada, com uma espada no centro da capa. Virou o mesmo e começou a ler a sinopse.
–Allen ? -Lince virou a cabeça na direção do chamado imediatamente. -Você por aqui ?
" Fala sério...Só pode estar de brincadeira... " pensou, percebendo os olhos castanhos que o encaravam arregalados, com um misto de alegria e surpresa.
–Delancey. -Falou Lince, em uma espécie de cumprimento, antes de voltar sua atenção para a sinopse.
–Então você gosta realmente de livros... -Ela continuou, com um sorriso.
O canto da boca de Lince tremeu. Aquele sorriso insistente dela o irritava.
–Eu já li esse. Não recomendo muito. -Ela disse analisando a capa do livro, antes de voltar a encarar Lince. -A continuação é melhor, porém os personagens mudam completamente de personalidade. -Disse e fez uma careta de reprovação.
–Hum. -Lince ignorou, colocando o livro de volta na prateleira.
–Então...-Começou a garota, finalmente deixando de analisar o rosto do rapaz, desviando o olhar para o piso branco, enquanto entrelaçava as mãos. -Eu estou indo para um café aqui do lado, tinha convidado o Jack pra vir comigo mas ele não pôde...-Falou a garota, com um certo desapontamento na voz.
" Aposto que ele não queria. Aquele lá, saindo com a presidente do grêmio ? Pra um lugar próximo a uma livraria ?! Só em sonho mesmo. " debochou mentalmente.
–Quer vir comigo ? Você tá sempre tão...Sozinho... -Propôs Delancey, dando um passo a frente, se aproximando do rapaz, que recuou.
" Claro que não. " respondeu mentalmente.
E então olhou para o rosto da garota. Seus olhos castanhos o observavam parecendo suplicar por companhia, junto com suas sobrancelhas franzidas, coisa que fez Lince a comparar com um gatinho de rua com fome.
" Vai, você nem tem pra onde ir mesmo ! " pensou, contrariado.
Mas, infelizmente era a mais pura verdade. Daquela cidade, os únicos pontos que conhecia era a sua escola, que com certeza não era uma opção ir, e a sua casa, mas rejeitava a ideia de voltar tão cedo para a mesma.
Então ele não teria muita escolha.
Bufou, revirando os olhos verde água. Não gostava muito da garota, mas seria melhor ficar perto dela do que ficar perto da criatura sem coração que deveria chamar de pai. Não ligar pra Lince, tudo bem, mas dizer que não se importava se ele se matasse, já era algo completamente diferente, e de certa forma, doloroso, por mais que Lince negasse admitir.
–Okay. -Respondeu para a garota, que abriu um sorriso maior do que os que ele já havia visto em seu rosto.
Em menos de dois minutos depois, Lince estava sendo puxado pela garota, que o segurava pelo pulso esquerdo.
–Você vai adorar esse lugar ! É ótimo para ler ! -Exclamou a garota, contente.
Na esquina da livraria, ele pôde avistar uma cafeteria, o exterior colorido de um marrom chocolate ao leite. Delancey adentrou o café, sendo seguida de Lince, e então finalmente soltou o pulso do garoto.
Assim que entraram, uma brisa quente e um suave cheiro de café com chocolate os atingiu. O café era pequeno, porém muito aconchegante. Delancey guiou Lince até uma mesa com duas cadeiras, que dava para um vidro que tinha visão da rua.
–O que achou ? -Perguntou a garota, colocando os cotovelos na mesa, com seu rosto apoiado nas mãos.
–É bem bonito. -Respondeu Lince, com sinceridade, quanto olhava ao redor.
–Sabia que você ia gostar ! -Respondeu Delancey, mais uma vez com seu sorriso radiante. -Então...Me fala de você. -Pediu a garota, recebendo um olhar desconfiado do rapaz. -Ah fala sério. Não achou que iríamos ficar olhando um para o outro em silêncio, não é ?
–Não, mas...-Suspirou, desistindo de fazer qualquer objeção. Realmente parecia muito idiota ter vindo a um café com a garota se nem fosse conversar com ela. -Tá, o que quer saber ? -Perguntou rolando os olhos.
–O básico. -Respondeu a garota, se emprumando na cadeira. -Sua idade, o que gosta, o que não gosta....
–Ahm...Tenho 16 anos. Do que eu gosto ? Bem....
E por aí foi. Dentro de uma hora já havia descoberto que Delancey era libriana, adorava livros de romance, fantasia, e detestava comida apimentada. Também descobrira que adorava gatos, e inclusive tinha dois em casa, e que os apelidara de Fluffy e de Mike e que era filha única.
Delancey também descobriu algumas coisas sobre Lince. Como por exemplo, sua core favorita eraverde escuro, que gostaria de colocar um piercing de argola na sobrancelha — ideia que Delancey exclamou " Fala sério ! " em reprovação — , que gostava de música eletrônica, e que detestava pessoas que se achavam. Descobriu também que gostava de livros de ficção e aventura.
Em alguns momentos, Lince desviou o olhar para o lado de fora, sentindo a estranha sensação de que estava sendo observado queimar sua nuca, mas resolveu ignorar a mesma.
Embora a conversa já estivesse rolando sem se forçar nada, coisa que fez Lince se surpreender, algo do lado de fora os chamou a atenção. O sol já estava se pondo.
–Bem, eu acho que tenho que ir. -Disse Delancey, se levantando e colocando a alça branca da bolsa por cima do ombro direito. -Foi ótimo finalmente te conhecer, Allen.
E, com mais um sorriso, foi embora, após passar a mão direita pelo ombro esquerdo de Lince, que estranhou o toque. Na verdade, estranhara tudo naquele dia.
Era a primeira vez que conseguira conversar com alguém durante tanto tempo, como se fossem amigos, e Lince havia apreciado a sensação. Saiu do café alguns minutos depois da garota ter saído do local.
Quando chegou em casa, avistou seu pai adormecido no sofá, uma garrafa de cerveja caída no chão, e outra sobre seu peito, também vazia. A TV, que ainda estava ligada, exibia o noticiário. Ignorou a cena lamentável e subiu para o seu quarto, ainda atônito pelo dia que tivera.
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