Psycho
2 Capítulo 2 - " É bom que se lembre disso. "
–Olha lá, é o esquisito !
Lince suspirou, já prevendo o que lhe iria acontecer. Todos os dias eram assim, desde que se mudara para aquela nova escola.
Já faziam dois anos desde que presenciara a cena que ele desejava intensamente nunca ter visto, ou nunca ter acontecido. Seu pai, com medo de que a polícia lhe procurasse, fugiu com o menino para uma cidade próxima, e vivia fazendo ameaças constantes para o menino, que passara a desenvolver um grande medo da figura paterna.
Com a nova cidade, é claro que entrou em uma nova escola, porém, com novas — e piores — pessoas. Em seu primeiro dia, enquanto todos falavam das férias que passaram ao lado de sua família, Lince pensou no tipo de "família" que tinha, se é que aquilo poderia ser chamado de família, e esses pensamentos o levaram a deixar cair algumas lágrimas.
E, para um grupo de meninos de dez anos, o choro em público é um belo motivo para ou se ter pena, ou se zoar. E a primeira alternativa não existia no vocabulário deles.
Se encolhendo na cadeira, Lince esperou que chegassem até ele, e assim o fizeram. Lince foi puxado para trás, e se deparou com três garotos.
–E aí, chorão ? Sozinho mais uma vez ? -Disse o líder do grupo, que encarava com um sorriso debochado. -Ah, me desculpe, você já deve até estar acostumado com isso.
Lince apertou com mais força o sanduíche que segurava. Sua paciência já estava se acabando com o grupinho.
–Não brinca com isso cara, ele vai acabar chorando e contando tudo pra mãe dele ! -Disse outro, empurrando Lince pelo lado esquerdo.
–Se ele tivesse uma mãe. -Outro comentou, com um olhar debochado.
Lince se encontrava de cabeça baixa, absorvendo tudo o que eles diziam. Todas as palavras batiam com força em sua consciência. Será que seria ruim de mais se ele revidasse ? Já aguentou aqueles moleques por mais tempo que deveria, pensava.
Ao falarem de sua mãe, Lince mordeu o lábio inferior, sentindo o coração palpitar, e suas mãos se fecharam em raiva.
–Ih, olha lá, o bebê vai chorar ! Quer que eu chame a mamãe pra você ? -O líder do bando caçoou dele, levando o grupo todo a rir.
Mas Lince não estava chorando. E nem iria.
Antes que eles pudessem falar mais alguma coisa que atingisse o garoto, Lince se levantou e empurrou o líder do grupo, que, distraído e surpreso com o movimento rápido, caiu em cima da mesa. Os outros três olharam para o menino com raiva, e correram em sua direção. Lince levantou a cadeira em que antes estivera sentado e lançou para cima de um dos garotos. A cadeira atingiu-lhe a cabeça, e ele caiu apagado.
Lince se virou rápido, e atingiu o outro que vinha do outro lado com uma cotovelada no nariz, que o enfezou ainda mais. O Líder se levantou, porém o sorriso debochado não estava mais lá, e sim uma expressão de pura raiva. Lince correu para longe dos dois, indo em direção ao parquinho, onde se escondeu atrás de um arbusto.
Observou os dois chegarem e olharem tudo ao redor, até que um teve a ideia de subir no escorregador, para ver se conseguia captar algum sinal que os levassem ao menino.
" Agora sim. " Pensou Lince.
Esperou o outro sumir, e foi por trás do líder, que já se encontrava no topo do escorrega. Lince subiu as escadas com cuidado para não fazer nenhum barulho, tarefa em que foi bem sucedido, e então, ao ver as costas largas do garoto, cobertas pelo uniforme branco, não teve outra reação.
O empurrou. Mas não pela rampa do escorregador.
O menino bateu a cabeça na beira da rampa de ferro, e caiu no chão, paralisado e com um machucado na testa, que sangrava. Lince sorriu satisfeito com a visão de que a sua "vingança" havia sido completa, mas, seu sorriso durou pouco, já que se deparou com o garoto que restava, que o encarava assustado.
Lince direcionou seus olhos verde água para o menino, em um olhar de raiva que emitia uma mensagem clara e direta.
" O próximo vai ser você. "
Lince desceu pelo escorregador, ignorando os olhares de outras crianças que o olhavam assustadas, e correu em direção ao menino, que começou a correr em direção às salas de aula. Lince, por um momento teve medo. Se ele chegasse a falar para uma professora o que Lince fizera, já era. Seu pai saberia, e, se seu pai soubesse, talvez daqui a alguns anos não existisse mais um Lince para contar história.
Acelerou os passos, e, ao entrarem em um corredor, conseguiu agarrar o menino pela camisa, o puxando e o lançando ao chão.
–Aonde você pensa que vai ?! -Lince perguntou, a raiva clara em seu olhar e em sua voz.
O garoto, ainda deitado no chão, se erguendo pelos cotovelos, tinha um olhar apavorado para Lince, que começou a rir.
–Viu ? Não é bom quando vocês fazem isso comigo ?! -Lince se aproximou e pisou no peito do garoto, que foi levado ao chão novamente. Lince então perdeu o sorriso, e se aproximou do garoto, que o olhava com medo de qualquer outro movimento. -Você não vai contar isso pra ninguém. Se contar...Creio que vou ter que pegar pesado com você da próxima vez. -Falou baixo, encarando o garoto. -E eu adorarei fazer isso. -Sorriu de uma maneira um tanto maléfica para um menino de dez anos. -Entendeu ? -Largou o sorriso e lançou outro olhar sério para o garoto. -Ótimo. -Retirou o pé do peito do garoto, e se virou de costas, indo embora, como se nada nunca tivesse acontecido.
Parou, e virou o rosto para o lado, observando o menino se levantar, o observando ainda com medo.
–É bom que se lembre disso. -Disse Lince, e sorriu de uma maneira amigável demais para um quase arqui-inimigo.
O sinal de retorno a classe bateu, e ele voltou seu olhar para o corredor, indo em direção a sua sala de aula. Foi o primeiro a chegar lá.
Se sentia realizado, finalmente conseguiu dar-lhes o mesmo veneno que tanto recebia. Porém, uma sombra do medo invadiu a sua mente, condenando-o pelo que fez, usando uma só frase :
" Você se parece muito com o seu pai. "
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