Psychedelic Girl
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
Minha mente estava altamente intoxicada.
Meu corpo entorpecido se esfregava contra o de alguma pessoa de pele úmida e escorregadia.
Meus olhos semicerrados por causa das luzes psicodélicas do local. Onde eu estava?
Provavelmente em mais algum buraco londrino.
“Cause you’re a sky
You’re a sky full of stars
Such a heavenly view”
Minha língua pesada acompanhava a letra de maneira involuntária...era dele...não, era a nossa música. A nevoa pesada que encobria meus pensamentos truculentos começou a se dissipar, no mesmo instante uma língua áspera e desconhecida passou a lamber as gotículas de tequila que acidentalmente derrubei em meu ombro, eu estava acordando, mas não queria, por que se eu acordasse ele estaria lá...ou melhor, a sua sombra estaria lá, a sua aurea, a sua imagem marcada em minha mente mas não ele, não fisicamente, por que John foi embora. Doe, arde, queima...eu vou morrer, mas não de saudade, eu estava fazendo o certo, de uma maneira confusa para alguns, mas certa pra mim.
-Porra, eu preciso de entrar em algum tipo de coma!-Falei por alto sentindo uma forte mordida no pescoço, o corpo encoberto pelo breu se afastou da garota morena, suja e desesperada em busca de uma saída.
E lá estava ele...Puta que pariu, eu estava tendo alucinações ou aquele cara sendo iluminado pelos constantes feixes de luzes coloridas era o John?
Meus olhos sujos e ardidos continuavam focados na extremidade da boate próxima a porta ,ele dizia que era sempre assim, quando estávamos no mesmo lugar nossos olhos sempre se procuravam ,e lá estávamos nós ,suas mãos bem cuidadas estavam afundadas nos bolsos da calça jeans, os olhos castanhos analisavam cada parte do lugar, ele parecia certo demais pra esse lugar, John era certo demais para qualquer lugar, principalmente ao meu lado...e quando seus olhos finalmente encontraram-se com os meus, caralho, a nevoa se dissipou por completo . Seus passos expiravam decisão e confiança e quando suas mãos prenderam-se ao meu corpo inerte eu estremeci , estava lezada demais para impedir que ele me arrasta-se dali, meu corpo havia reconhecido o cheiro mentolado dele, aliás ele vivia se machucando nos treinos de futebol, e aquela era sua marca que fez meu interior se revirar de felicidade enquanto minha mente depressiva tentava impedi-lo, um confronto onde ninguém ganhava.
Seguimos inexpressivos até o elevador de metal vagabundo que nos tiraria daquele porão, John segurava firme no meu pulso, sem palavras, sem trocas de olhares, sem comunicação ...Apenas dois corpos dividindo o mesmo espaço no elevador. Qual era a probabilidade dele me jogar contra a parede e me chupar da maneira safada que ele só dedicava a mim?
-Hospital ou casa?-Sua voz grossa ecoou pela estrada vazia quando saimos do lugar, seu carro de ultima geração estava estacionado de maneira displicente em frente ao balcão onde acontecia a festa. Suas mãos apoiadas contra o metal frio e vermelho do seu porsche, a cabeça caída. Era isso que eu o causava, decepção.
-Eu não sou mais um bicho machucado pra sua coleção ,John!-Berrei desconsolada, cambaleando para trás por causa dos saltos pontiagudos contra os pedregulhos. O som de algo se trincando me chamou a atenção, um filete de sangue deslizava pelo seu braço, o vidro da janela do seu carro completamente trincado e seus olhos flamejantes de fúria.
-Você é uma vadia!-Seu dedo indicador estava apontado para mim como uma flecha afiada, bem rente ao meu peito...Engoli o acumulo de lágrimas que se iniciavam na minha garganta e o encarei sentindo todo o desgosto que o havia causado.- Mas mesmo assim, você vai entrar nessa porra desse carro e voltar pra mim!-Meus olhos se arregalaram, suas palavras me sufocaram, a última coisa que eu precisava ouvir era uma indireta estilo “Preciso da sua companhia”, essas eram pra ser minhas palavras não dele.
-Não posso continuar sendo um peso morto na sua vida...Só, não posso.- O fardo dessa culpa me atormentaria pro resta da minha existência, John sempre foi meu porto seguro, minha âncora, enquanto eu apenas o trazia junto comigo para o fundo, um estorvo que nunca compensaria tanto esforço. Os cabelos castanhos e longos de John se revoltaram quando um vento frio nos envolveu bagunçando os meus cachos, lançando-os em diversas direções fazendo-os grudar na maquiagem borrada e no batom vermelho, segundos duraram uma eternidade.
-Passei um mês tentando me convencer de que havia finalmente me livrado do maldito estorvo na minha vida...Pra só depois eu perceber que nós dois estávamos indo pelo mesmo caminho, nos afundando em vícios para esquecermos um do outro, pra no final do dia chegar em casa e sentir que falta aquela companhia que te faz sentir vivo.- Seus olhos castanhos brilhavam, fui atingida por sua sinceridade, sua transparência, seu carinho, seu amor...Desabei, mas seus braços estavam lá para me amparar, como sempre estiveram quando eu tinha recaídas.
-Um mês..-Disse entre soluços afogados contra sua camiseta vermelha de algodão.
-Um mês...e você continua viva, sem históricos de overdose ou coma alcoólico, acho que estamos avançando aqui.- John sorriu contra o topo da minha cabeça, não sorri apenas o abracei mais forte.
-E se um dia eu me curar, o que vai ser de nós?-Perguntei temendo ouvir alguma promessa falsa dos seus lábios, ou alguma verdade dolorida.
-Continuaremos nessa constante de felicidade que criamos, não encontrei ninguém que conseguisse acompanhar o meu ritmo.- Nos erguemos restaurados após a avalanche de emoções, retirei meus sapatos e senti as duras e frias pedrinhas contra a sola do meu pé, me apoiei no ombro de John e seguimos para o carro, os fios soltos entre nós foram reconstruídos e as magoas do passado não as romperiam, eu não deixaria isso acontecer novamente. John pós a chave na ignição e me olhou de soslaio.
-Hospital ou casa?-Perguntou novamente.
-Hospital e depois comida tailandesa.-Me espreguicei apoiando minha cabeça contra o ombro dele, a tensão entre nós se dissipou rapidamente, estávamos mais sólidos que antes , estávamos completos.
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