Psicose
2 Arrested
Notas iniciais
Ouviu o eco de uma das portas sendo fechada ao longe. Podia fingir ainda estar dormindo até achar uma maneira de entender o que estava acontecendo e sair de lá, todavia não o fez. Talvez não estivesse vindo na sua direção e tomou o sentido oposto, mas ainda assim estranhou a falta do som dos passos pelo corredor. Havia acordado a alguns minutos, estava analisando sua situação. Perguntava-se como foi parar em tal lugar, um pequeno cubículo tão escuro que mal poderia dizer seu tamanho, o único que conseguia ver eram as manchas de sangue seco ao seu redor.
– Já acordou?
Sobressaltou-se e olhou para a silhueta a sua frente sem entender como havia chegado lá... Observou com cuidado o pouco que conseguia graças a pouca luz. Não foram suas roupas caras e luxuosas que estavam estranhamente tão destruídas e rasgadas, mesmo tendo o aspecto de serem novas, nem seu cabelo desarrumado e tão preto que mal podia ver a linha que separava os fios da escuridão, muito menos a única mexa branca que havia em sua franja que cobria seu olho direito... O que mais lhe chamou atenção no ser a sua frente foi seu olhar: sarcástico, distante e com um obvio desagrado, mesmo que não soubesse dizer exatamente do que.
– ... Onde estou? – Hesitou em falar, a desconfiança era nítida.
– Trancado. – Deu de ombros, com o sorriso repugnante.
– ...Onde?
– No castelo de nosso rei. – Chiou, fazendo o barulho repugnante ecoar pelo pequeno quarto e o corredor.
Olhou Devit com desdém, não entendendo suas respostas. “Desprezível”, esse provavelmente era seu principal pensamento sobre o homem que não desistia da idéia de incomoda-lo.
– Porque? – Perguntou ainda desconfiado.
– Porque o que? – Deu de ombros, fingindo ingenuidade, causando mais desprezo no outro.
– Porque estou preso?
– Prefere estar em um quarto de hospedes? – Comentou levando a mão ao queixo, em uma pose pensativa, para logo depois chiar com mais cinismo que o normal, como se risse de uma piada.
– Obviamente iria preferir. – Ironizou, até onde aquela brincadeira iria? – O que estou fazendo aqui?
– Tendo seu corpo e alma protegidos. – Chiou novamente, como se a piada tivesse sido repetida.
– Poderia fazer o favor de explicar melhor o porque disso? – Acalmou-se, cansado de se estressar sem motivo e o olhou no único olho visível.
– Creio que não gostaria de ser devorado em todos os sentidos que a palavra possui. – Chiou divertido, causando mais dor nos ouvidos alheios. – Mas se quiser, ainda podemos dar um jeito nisso.
Devit levou a mão até o bolso direito e tirou de lá um molho de chaves. Enquanto o outro olhava atônito, tentando raciocinar o significado de suas palavras, ele simplesmente brincava com as chaves, jogando-as divertidamente de uma mão a outra.
– ...Desculpe, como assim? –Sua mente gritava-lhe para tomar cuidado. O ser a sua frente poderia não ser tão perigoso, mas a situação era de atenção.
– Perguntei se deseja ser devorado. – Repetiu entediado, apoiando seu corpo contra as grades, girando as chaves em uma de suas mãos.
– O único que desejo é saber o que está acontecendo.
– Ótima resposta. – Chiou, desencostando e abrindo a porta. – Então venha. Vamos jogar um jogo, Alice.
– ... Um jogo?
– Sim… Bem vindo a Underland... Um mundo abaixo do seu.
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