Psicologia Reversa

5 Operação Varanda Limpa


Notas iniciais
Espero que gostem. Boa leitura!

— Não faça isso Tônia, eu imploro! Tudo menos isso!

— Farei porque merece, sua maníaca idiota compulsiva! — retrucou Tônia acendendo uma das bocas do fogão.

— Faço qualquer coisa, só não continue com esse ato pecaminoso e horrendo! — implorei insistentemente enquanto corria em sua direção.

— Tati, diga suas últimas palavras! — dessa vez o tom de voz da Tônia estava num nível de ironia nunca visto antes por mim.

— Me perdoe Tônia, sei que não sou a melhor irmã do mundo, mas te amo de verdade!

Enquanto dizia isso, ela despejava todo o sorvete que tinha guardado no freezer dentro de uma panela enorme que tem aqui em casa, rindo como se fosse uma bruxa preparando uma de suas poções!

— Não! Por quê? Por que, Tônia? — eu berrava aos prantos, minhas forças estavam se esvaindo, minhas pernas bambas, só havia em minha mente uma coisa: desperdício de sorvete!

Tônia dançava na minha frente como se uma assassina de sorvetes. Sua alegria era tanta que não conseguia conter sua gargalhada. De repente ela se vira em minha direção, se aproxima com a panela na mão e diz: — Você não gosta de derramar sorvete em mim? Deixe que eu te poupe este trabalho!

Erguendo sobre sua cabeça e virando a panela, todo o sorvete ia descendo por seu corpo e sendo desperdiçado bem na minha frente!

— NÃOOOOOOOOOOOOOOO! — gritei com minha alma.

Abri os olhos, o teto do meu quarto estava lá, minha cama estava lá, isso significa que... Desci correndo as escadas, passei como um míssil teleguiado em direção ao freezer. Estava lá! Ainda estavam todos lá! Ufa! Era só um pesadelo. Entretanto a situação ainda era a mesma.

Tônia me odiava cada vez mais e não estava falando comigo. Depois do ocorrido no shopping, voltamos pra casa em silêncio no carro de Tininha. Uma pra cada lado, cada uma em seu canto. O pequeno espaço que nos separava no banco de trás, ficava cada vez mais maior. Tônia transbordava de ódio enquanto enviava freneticamente mensagens no seu whats, explicando a suas amigas o que ocorrera.

O importante é que os sorvetes estão bem! Com a Tônia me resolvo depois. Ah... Ainda tem outro probleminha, preciso me desculpar com o Tárcio! Estava tão envergonhada pelo que aconteceu que só tive coragem de rabiscar meu número num guardanapo e sair correndo gritando: “Me manda mensagem depois!”.

Agora estou aqui, sentada no chão da cozinha, encostada no freezer com uma colher lotada de sorvete numa mão e com o celular na outra. Os minutos não passam! Nada de anormal em meu celular. Nem uma daquelas mensagens de operadora com seleção premiada, pra me dar falsas esperanças! — Devo ser uma idiota! — pensei em voz alta.

— Claro que é! Mas vai deixar de ser assim que terminar de lavar a varanda. — completou dona Tina num tom irônico.

— Ai mãe, me livre deste sofrimento só hoje. Por favor! — disse com aquela carinha de piedade tipo o gato de botas do Shrek.

— Tati, você precisa honrar seus compromissos. Tu aceitou todas as suas tarefas, agora cumpra!

— Mas mãe... Por favor! Nunca te pedi nada nessa vida! — acho que dessa vez forcei a barra, né!

— Hahaha. Tenho trabalho a fazer, e quando termina-lo, irei verificar o seu. Quero essa casa impecável hoje!

Vejam bem. Minha mãe é blogueira e microempresária, portanto fica quase o dia todo na frente do seu notebook ou no celular. Só vem a cozinha pra pegar café (sim ela é viciada) e ainda quer me forçar a fazer tarefas. Hoje ela está cobrando mais por um motivo especial e este motivo tem nome: Tarsísio! Sim ele é meu padrasto e pai da Tônia. Ele é super gente boa e a figura mais próxima que tenho de um pai de verdade. Não falei sobre ele antes porque tinha ido ver as filhas que moram com a mãe, após a virada do ano.

De qualquer forma vou começar minhas tarefas antes que a Sra. Inspetora volte a me perturbar. Por que toda mãe faz isso com os filhos hein? Nossa hoje não é meu dia!

Fui caminhando em direção à varanda com uma vassoura na mão e um balde pendurado na ponta do cabo da vassoura. Ia rodando o balde enquanto balançava a vassoura pelo caminho. Chegando à varanda dou de cara com Tônia, ela me encara com cara de desprezo e nojo. Seu olhar poderia ser traduzido dessa forma: “Pegue esta vassoura e suma daqui voando nela, sua bruxa!”. Por sorte ela nem se preocupou em dizer estas palavras, apenas me ignorou e entrou em casa.

— Bom... Não há pra onde correr. — suspirei brevemente.

— Não mesmo, porque já correu tudo o que tinha direito ontem! — ouvi uma voz muito familiar ao longe, na direção das minhas costas.

Quando me viro, Tárcio estava lá, debruçado no muro só com a cabeça a vista.

— Menino, o que você tá fazendo ai?— soltei essas palavras sem pensar.

— Menina, vim te ver! — ele disse com um sorriso trêmulo, pois estava fazendo muita força para estar ali.

— Desce logo daí doido! Vai acabar caindo e se machucando!

— Só se me deixar entrar! — insistiu ele.

— Tá! Vem logo! — já estava ficando impaciente.

Abri o portão e ele entrou como se já viesse preparado para isso.

— Como me achou aqui? Nunca te disse meu endereço. — disse em voz baixa.

— Não se preocupe, não sou um stalker. Foi apenas coincidência! O João estava chegando em casa no dia em que vocês estavam se mudando para cá. Ele se lembrou disso ao chegar em casa ontem e ver sua mãe saindo e me disse.

— Ah sim, aquele menino das piadinhas que estava contigo ontem, não é?

— Isso mesmo!

—E por que não me mandou mensagem? Achei que me odiasse por causa disso. — completei desviando o olhar para baixo.

— Te odiar? Claro que não! Apenas quis fazer uma surpresinha. — ele disse enquanto passava a mão na minha cabeça.

Não sabia o que fazer ou como me comportar, nunca tinha levado um menino para casa antes.

— Então, qual a missão de hoje? — me perguntou Tárcio.

— A mi-missão é la-lavar a varanda. — respondi gaguejando.

— Ok. Então vamos começar!

— Ué. Você va-vai mesmo me ajudar? — perguntei toda surpresa.

— Claro! Se tiver ajuda vai terminar mais rápido, dai terá mais tempo livre depois não é?

— Teoricamente sim.

— Então vamos logo, sem perder tempo. — disse ele enquanto tomava o balde da minha mão.

— Certo. Você pega um pouco de água e trás a mangueira pra cá, enquanto vou lá dentro pegar os produtos. — me senti minha mãe dando ordens nessa hora.

Enquanto Tárcio foi pegar água, entrei correndo e subi para meu quarto. Não sou do tipo que liga muito para as aparências, mas precisava ao menos arrumar meu cabelo que não era penteado desde o dia anterior. Desci as escadas correndo e fui pra cozinha. Peguei sorvete. Nessas horas preciso de pelo menos uma dose, pra controlar a tensão. Por fim consegui pegar os produtos e me dirigir à varanda. Já estava suando (não sei se era de nervoso ou de calor).

— Tati, o que faço com essa lixeira lotada? — disse Tárcio trazendo ela em minha direção.

— Caramba, a Tônia se esqueceu de levar o lixo pra fora hoje cedo, isso é tarefa dela!

— E agora? O lixeiro já passou. — ele completou se preparando para abrir a água da mangueira.

— E agora que a Tônia tá ferrada quando minha mãe descobrir. Vamos deixar ali no canto e continuar lavando assim mesmo.

Começamos a missão com Tárcio molhando o chão e eu esfregando com a vassoura.

— Molha mais pra lá! —ordenei.

— Sim, chefa! — exclamou Tárcio balançando a cabeça.

Por um instante tudo parecia certo. Estávamos em perfeita sintonia, até que em uma das minhas esfregadas acertei a mangueira com força e acabei puxando-o pra cima de mim! Caímos um por cima do outro rindo que nem idiotas.

— Meu Deus! Sinto muito! — disse com minhas bochechas hiper vermelhas.

— Tudo bem sem problemas, eu que devia ter prestado mais atenção! — falou com o rosto bem próximo ao meu. Tão próximo que conseguia sentir sua respiração.

Neste momento aquele calafrio familiar percorre todo meu corpo. Começo a tremer e a sofrer por antecedência. — Oi Tati, quanto tempo! Que tal sujar a varanda mais um pouquinho espalhando todo o lixo?

— Oi Tiffany! Farei isso com todo o prazer!

Empurrei o Tárcio de cima de mim, corri em direção a lata de lixo e comecei a jogar tudo pro alto como se estivesse procurando algo lá dentro! Não muito contente, peguei algumas sacolas plásticas que estavam com papéis de trabalho da minha mãe e sai correndo rasgando elas pela varanda toda.

— Tati se acalma! — gritou Tárcio tentando me segurar pelo braço.

Pisei numa poça que tinha sabão espalhado e cai feio. Ao mesmo tempo Tárcio caiu bem em cima do resto de lixo completando a missão que Tiffany intitulou de “Operação Varanda Limpa”.

O Silêncio pairava no lugar depois de toda aquela agitação. Um carro encosta em frente a nosso portão buzinando enlouquecidamente! Tarsísio sai do carro, e com ele duas visitas inesperadas!

Notas finais
Obrigado por lerem! E até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.