Ps:Te Odeio
2 Pipoca da pracinha
Notas iniciais
19 anos atrás
Todos os finais de semana o João vem pra cá, e ainda traz amigos. Eles sempre fazem o maior barulho, nem da para eu brincar em paz com as minhas bonecas. Porém hoje eles estavam fazendo menos barulho que o normal, então fui ver o que eles estavam fazendo.
Assim que entro no quarto pego os três com um binóculo, olhando pela janela.
–-Que bonito, os três olhando pela janela, em um binóculo só. – digo colocando as mãos na cintura
Os três viram assustados
–-O que vocês estão olhando pela janela? – pergunto me aproximando
–-Não te interessa Maria. – diz João
–-Me interessa sim, me da o binóculo. – digo tirando o binóculo das mãos dele
Vou até a janela ver o que eles tanto olhavam.
–- Não acredito que vocês estavam espionando nossa vizinha. – digo me virando – Seu pai vai adorar saber disso, João. – digo sorrindo e indo até a porta
–- Não Maria! – ele diz – Não conta, por favor.
–- Por que não contaria? – pergunto
–-Porque estou pedindo, por favor. – ele diz
–-Eu vou contar sim, seu pai esta lá embaixo. – digo me virando
Ele se ajoelha
–-Por favor, Maria.
–-Adoro quando implora. De novo...
–-Por favor, Maria...
–-Tudo bem não conto. – ele suspira – Mas pode continuar ajoelhado, e beijar meu pé. – coloco o pé no joelho dele
–- O que? – ele pergunta – Antes morto e enterrado, não mesmo.
–-Então ta. – digo – O TI... – grito
Ela tapa minha boca
–-Cala a boca menina. – diz ele com a mão na minha boca
–-Então beija. – digo
Ele se ajoelha e eu coloco meu pé sobre o joelho dele
–- Você não vai contar né? – ele pergunta
–-Beeija... – digo
–-Maria é serio.
–-Beeija... – digo apontando para o meu pé
–-Olha e se beijar e você contar...
–-Beeija João... – digo mais uma vez e ele o faz – Pode deixar que não irei contar nada não.
Ele se levanta e suspira aliviado
–-Não, hoje. – digo e saio do quarto
Ouço-o gritar
–-PERTURBADA!
19 anos depois
Chega a hora do discurso do papai.
Todos estão envolta da mesa de jantar, esperando o discurso. Papai se levanta com uma taça de champagne na em uma das mãos.
–-Gostaria de agradecer a todos pela presença. Por estarem comigo nesse momento tão especial e tão importante da minha vida. – ele começa – Quero agradecer a minha filha Maria, que sempre esteve comigo, me apoiando sempre. – ele diz sorrindo pra mim – E ao meu filho de coração João, que eu tenho tanto orgulho.
Ele termina o discurso e recebe os aplausos de todos. A festa esta quase no fim, quando papai faz um sinal para mim.
Aproximo-me
–- Sim papai? – digo
–-Quero falar com você. – ele diz serio
–-Nossa! Pai você esta com uma cara. O assunto é tão serio assim? – pergunto preocupada
–-Sim. Você pode estar amanha de manhã as nove no meu escritório?
–-Claro pai. – digo
Estou preocupada com o papai, ontem ele estava tão serio. Nem dormi direito pensando no tal “assunto serio” que ele tem ele tem pra falar comigo.
Chego ao escritório do papai uns dez minutos antes do horário marcado. A sala de espera esta vazia e silenciosa à apenas o barulho do ar condicionado. Sento-me no sofá aconchegante de cor bege. Assim que me sento à porta se abre acabando com o silêncio, entra na sala a secretaria do papai, uma mulher de uns quarenta anos, e de cabelos negros, combinando com seu terninho preto. Ela se senta em sua mesa e da um singelo sorriso para mim.
–-Seu pai já vai atendê-la. – ela diz
–- Ok. – digo simpática
Sheila começa a digitar em seu computador e o silencio volta a reinar, e fica só o barulho das teclas do teclado.
Papai é dono de uma grande empresa de publicidade, herdou do vovô. Sempre disse que iria continuar o trabalho deles, porém não aconteceu tudo como previsto, acabei seguindo a carreira de cineasta.
O silencio da sala é interrompido novamente pela porta se abrindo. É João
Não acredito
–-O que você faz aqui? – pergunto levantando
–-Além de trabalhar aqui. – ele diz fechando o terno – Seu pai quer falar comigo.
–-Ele também quer falar com você? – pergunto surpresa
–-Como eu disse. – ele diz – Você sabe o assunto?
–-Não estou como você. – digo
–-O senhor Carlos pediu para que entrem. – Sheila diz
Entramos na sala, o papai esta sentando em sua mesa, e assim que nos vê entrando se levanta.
–-Bom dia. – ele diz com um sorriso meio turvo – sentem se, por favor. – ele diz apontando as cadeiras de couro preto à frente de sua mesa.
–-Papai, estou ficando preocupada. – digo assim que me sento
–-Também já estou preocupado. O que de tão importante o senhor tem para falar, para mim e para Maria?—diz João sentando ao meu lado.
–- Bom não quero enrolar muito vocês, até porque não saberia como o fazer. O assunto que eu tenho para falar para vocês é muito serio, importante e muito delicado. —papai diz se sentando
–-Ai meu Deus. – digo tensa
–-Bom esses dias eu fui ao medico fazer os meus exames de rotina. Preferi ir a pé, afinal a clinica não é tão longe, e eu gosto muito do parquinho que tem no caminho, lá tem um senhorzinho que vende uma pipoca que... Nossa! É muito boa. Ele coloca...
–- Pai, o que temos a ver com a pipoca que vendem na pracinha? – pergunto confusa
–-E a parte de não vou enrolar muito onde é que fica? – pergunta João colocando uma das mãos sobre o queixo.
–-Ah! Perdoem-me, é que a pipoca da pracinha é realmente muito boa. – ele diz se consertando na cadeira – Enfim o assunto que tenho para dizer a vocês é que de acordo com os resultados dos meus exames eu tenho apenas alguns meses de vida. – ele diz cruzando as mãos
–-Oi? – pergunto atônita
–-É... Seu Carlos eu acho que não ouvi direito. – diz João
–-Ouviu direito sim meu filho. Eu estou para morrer. – papai diz novamente e eu me levanto incrédula
–-E o senhor diz isso assim nessa calma? – digo com os olhos já marejados
–-Digo sim meu amor, ficar nervoso pra que? É triste saber que daqui a alguns meses não comerei mais a pipoca da pracinha. – ele diz olhando para o infinito
–- Dane-se a pipoca da pracinha. – digo
–-O senhor esta preocupado com pipoca?-- pergunta João
–-Claro. Mas também estou preocupado com outra coisa. – ele diz – Eu estou para morrer, e é claro que meus bens e minhas empresas tem que ir para vocês. Eu adoraria que você João ficasse com minhas empresas, e você Maria com todas as minhas propriedades.
–-Adoraria? – pergunto – Não vai deixar?
–-Claro, mas com uma condição. Para os dois receberem minha herança, terão que casar.
–-Como? – pergunto me jogando na cadeira
–-Casar? – pergunta João
–-Claro, meu sonho é entrar na igreja com você Maria. E ver você João, se casando. Essa é minha condição, ou vocês casam, ou a herança fica para o governo. – ele diz ajeitando os óculos.
–-Mas papai isso é um absurdo. – digo colocando uma das mãos na testa
–-Seu Carlos onde eu vou arranjar uma noiva, assim de uma hora pra outra? – pergunta João se levantando.
–-É com a cara que você tem vai ser difícil mesmo. – digo – Mas não se preocupa João, eu casando fico com tudo, o que é mais justo já que sou filha legitima. – digo enfatizando a última palavra
–-Como se alguém fosse te querer né. – ele diz consertando a gravata – Porque parece que você pediu pra ser insuportável na sala do eco.
–-Vocês já podem parar. – diz papai alterando um pouco a voz – Maria minha filha, com esses olhos verdes e essa cara de anjo, não há homem na face da terra que resista. – sorrio
–-Desculpa me meter, mas anjo só se for anjo caído né. – diz o energúmeno do João
–-É eu cai junto com você. – digo
–-Vamos parar os dois. – papai altera a voz mais uma vez – Os dois são lindos, e totalmente capazes de achar a pessoa ideal para se casar.
–-João já pode se casar com uma cadela. – digo sorrindo
–-Ah! Como você é engraçada. – ele diz – Já até imagino com quem você casaria.
–-Enfim essa é minha condição para que vocês recebam minha herança. Lembrando que tem que haver sentimento nesse casamento, não quero que casem só pelo dinheiro.
–-Há, ai fica difícil né pai. – digo me levantando.
–-É isso. Podem ir agora. – papai diz se levantando.
–-Pai, eu te amo muito. Não quero que nada aconteça com o senhor. Mas se o seu sonho é ver me casando eu farei de tudo pra realizá-lo. – digo com os olhos marejados
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