Ps:Te Odeio
41 Como é ser deixado no altar?
Notas iniciais
Um dia antes do casamento
Okay. Talvez tudo isso seja uma grande loucura. Talvez não é uma grande loucura. Amanhã, amanhã a essa hora estarei casada, e não é com o homem dos meus sonhos é com o João. Amanhã um dos meus piores pesadelos, pesadelos que de tão ruim nem cheguei a tê-lo, se tornara realidade. E como me sinto sobre isso? Sinto-me péssima. Não estou nem um pouco feliz com isso, não do jeito que está acontecendo. Estou histeria, ansiosa, nervosa, com medo, muito medo, mas não estou feliz, nem poderia estar.
Estou sentada no sofá comendo um pote de nutella, sim puro. Enquanto a TV me vê porque eu não tenho ideia do que está passando.
—- Desse jeito ficamos sem luz. – diz João desligando a TV – E você não entra no vestido. – ele diz se referindo ao meu pote de nutella – Sabe que isso se come com pão ou qualquer outra coisa acompanhando não é?
—- Eu prefiro puro. – digo encarando a TV desligada
O silencio reina na sala por alguns estantes
—- Aquele cachorro, já comeu hoje? – pergunta João quebrando o silencio
—- Sim, quase que comeu a tigela junto. – digo sem tirar os olhos da TV
—-Está tudo bem Maria? – ele pergunta
O encaro e a campainha toca ele vai atender. É Guido
—- Hello – diz Guido se aproximando – Senhor, não estou vendo isso. Você está querendo rasgar o vestido Maria? – ele pergunta – Sem condições você comer esse pote de nutella
—- Olha só é a véspera do meu casamento estou nervosa. – digo – Então me deixa.
—- Bom, para vocês que ficam, tenho que ir trabalhar. – diz João – Ah, e Guido se puder não deixa ela comer esse pote de nutella todo, porque eu também gosto. – ele diz saindo
Guido me encara por alguns segundos
—- Maria está tudo bem? – ele pergunta
—- Sinceramente? Não. – respondo – Não acho mais que essa seja uma boa ideia. Não acho que mentir é melhor que contar a verdade e não gostaria de continuar com isso.
Ele me encara
—- E eu posso saber o motivo? – ele pergunta
—- Você quer mais motivos? Guido olha tudo isso. – digo levantando – Até “ontem” eu tinha meu apartamento, morava sozinha e odiava o João e pra mim tudo isso era perfeito. Agora eu divido um apartamento e eu tenho um cachorro. Você alguma vez me imaginou cuidando de um cachorro? Pois é agora eu tenho um cachorro. Meu pai está doente e a ultima coisa que ele pode ouvir de mim talvez seja essa mentira toda que inventei. Em nenhum momento eu vi quanto eu estava sendo egoísta. Sim eu fui bem egoísta. Criei essa mentira e ainda coloquei o João no meio
—- Maria você não colocou uma arma na cabeça do João o forçando a fazer isso.
—-Não, mas talvez se eu tivesse uma arma eu o faria. Tenho medo de imaginar do que sou capaz. Até onde posso mentir pra conseguir o que quero.
—- Maria você está confundindo um pouco as coisas.
—- Não, não estou. E a Danielle coitada. Ela ama o João, ama. E eu simplesmente estraguei todas as chances dela com essa mentira. Eu serei muito castigada por isso. Tenho certeza. – digo sentando e colocando as mãos no rosto
—- Isso tudo é Tensão Pré Matrimonio? – ele pergunta – Maria, pensa no lado bom. Seu pai está feliz.
—- Mas eu não. – digo
—- Okay, agora você está pensando só em você. – ele diz – Você já nadou até aqui, não desiste no meio do caminho.
—- Eu sempre sonhei em casar com alguém que eu ame de verdade e que me amasse também. Sempre achei isso tão lindo, pessoas que se casam por amor. – digo – E eu posso estar destruindo isso na vida de alguém
—- Esquece esse alguém. Esquece esse melodrama. O casamento é amanhã, pode não ser o dia mais feliz da sua vida, pode não ser o dia dos seus sonhos. Mas ira acontecer e você será a de branco. – ele diz
Suspiro e encosto pego meu pote de nutella e encosto no sofá.
—- E chega de nutella. – ele diz tirando o pote de mim.
Depois da longa conversa com Guido a tarde passou voando. Já era noite e minha cabeça gritava mais auto que o silencio da sala. Eu estou realmente precisando de terapia. Decido ir para o quarto, tomar um banho, ler um livro e relaxar, ou pelo menos tentar.
Consigo me concentrar no livro, e estou realmente muito interessada no que irá acontecer com Sabrina, mas minha leitura é interrompida pelo João entrando no quarto.
—- Desculpa, não sabia que estava em casa. – ele diz – Não quis interromper sua leitura
—- Já interrompeu. – digo fechando o livro
—- Vou só tomar banho e já saio. – ele diz
—- Sem problemas. – digo tentando voltar a ler
Ele pega umas peças de roupa e entra no banheiro me deixando com meu livro e pensamentos novamente. Até tento, mas não consigo me concentrar novamente na leitura.
Não demora, para ele sair do banheiro secando o cabelo. Ele coloca a toalha sobre o ombro e se dirige até a porta
—- João! – o chamo e ele me encara
Penso no que iria perguntar e decido não o fazer
—- Não é nada. – digo e ele continua me encarando – Boa noite. – digo
—- Boa noite. – ele diz e sai do quarto
É amanhã será um grande e longo dia
O dia do casamento
Frio na barriga? Confere. Faltam apenas algumas horas para a grande hora. Meu pai chegou hoje de madrugada e fez questão de ligar avisando. Estou quase enfartando e ele pulando de alegria para esse casamento.
O casamento acontecera a tarde, ou pelo menos devera acontecer. Na minha tem tanta gente que eu nem sei quem mora aqui e quem não mora. O coitado do Bruce não saiu da sua casinha de tão assustado. Não vi João hoje, quando acordei e ele já não estava mais.
São 11h: 00min da manhã e o casamento são às 17h: 30min. E eu só tenho que fazer maquiagem, unha e cabelo. Pra que começar a me arrumar tão cedo? Bom, dizem que demora mesmo, mas nos meus cálculos eu acabo tudo isso em duas horas. Ainda mais com esse tanto de gente aqui.
Eles dão uma trégua na arrumação e me deixam ir alimentar meu cachorrinho. Quando chego na lavanderia ele não está lá, então vou procurá-lo no quarto. E o encontro de baixo da cama, com o broche que o João ganhou da Danielle na boca. Tiro correndo da boca dele, e observo o quarto pra ver de onde ele pegou. Acho o terno que João estava ontem no chão. Pego o broche e coloco no bolso do terno. E novamente pensamentos aleatórios vêm na minha cabeça. Fico alguns minutos no quarto pensando em tudo que está acontecendo. Até que me chamam. Então levanto e saio do quarto.
Já terminaram quase tudo faltava só a maquiagem, que eu insisti que eu mesma queria fazer. E pedi para que me deixassem sozinha. Eles relutaram um pouco principalmente Guido, mas me deixaram sozinha. Fiquei um pouco na sala silenciosa pensando. E logo peguei minha bolsa e sai.
No carro não tinha muita certeza do que iria fazer, mas se eu pensasse mais um pouco, não faria o certo, novamente. Então desci do carro e caminhei lentamente até a porta de entrada, aperto a campainha e olho para o relógio de pulso que marca exatamente 16h: 25min. Respiro fundo e espero abrirem a porta quando estou perto de apertar a campainha novamente:
—- Maria? – ela diz – O que faz aqui?
A encaro por alguns minutos
—- Vim falar com meu pai. – digo apreensiva
—- Mas hoje... – a interrompo
—- Margarida, onde está meu pai? – pergunto e o mesmo me responde descendo as escadas
—- O que tanto quer falar comigo filha? – ele pergunta
—- Quero lhe contar a verdade. – digo
Ele me encara depois encara Margarida.
—- Vamos conversar no meu escritório? – ele diz indo em direção ao escritório o sigo
Não tenho mais controle sobre minha respiração
—- Então, que verdade é essa? – ele pergunta sentando
Engulo a saliva e começo
Começo do inicio, conto tudo que fiz depois de sua proposta louca. Conto de como convenci o João, conto como foram os primeiros meses. Conto definitivamente tudo. E ele não está com um ar de bravo, nem de decepcionado, está me encarando com olhar de paisagem como se já soubesse de tudo.
—- Por que resolveu me contar? – ele pergunta
—- Porque não quero levar essa mentira adiante, eu estou estragando muita coisa. Não quero mais mentir para o senhor. – digo com os olhos marejados. – Por favor, me perdoa pai.
Ele me encara por alguns minutos
—- Também te devo perdão. Também menti. – ele diz levantando e vindo sentar ao meu lado
—-Como assim mentiu? – pergunto o observando sentar
—- Eu estou sim doente, mas não com os dias contados. Estou com doença normal de velho. Segundo os médicos ainda tenho uns dez anos de vida pela frente. – o encaro perplexa – Menti porque no primeiro momento antes de descobrir o que eu tinha, eu imaginei toda minha vida, todos os meus sonhos realizados e só faltava ver você e o João casando e tendo uma família. E pensei: não quero morrer sem ver isso. Então surgiu a ideia, mas ai o resultado do exame saiu e eu não tinha nada de grave. Mas não podia arriscar, estou velho qualquer estresse e eu posso morrer. Então segui adiante com a ideia. Quando você e o João apareceram aqui contando a mentira, nesse dia eu pensei em contar a verdade. Mas eu realmente acreditei em vocês, então não queria estragar tudo. – ele termina – Te peço perdão também minha filha
Continuo o encarando
—- Pai, eu chorei sua doença que não existe. Eu morei durante dois meses com o João, me sujeitei a quase morrer naquele apartamento. Isso não se faz. – digo levantando
—- Ah, e mentir para um velho idoso faz não é? – ele diz
—- Bem, que a mamãe já dizia, não precisa nem de teste para provar que somos pai e filha. – digo sorrindo
Ele sorri também e me abraça
—- Agora chega, temos um casamento pra ir. – ele diz separando o abraço
—- Não haverá mais casamento pai. – digo – Achei que deixei isso claro
—- E eu achei que seu sonho era casar com o amor da sua vida. E sinceramente depois de tudo isso, eu tenho certeza que não é o Brad Pitt. E sim o João
Fico em silencio por alguns segundos
—- Digamos que isso seja verdade. – digo – O João já tem a pessoa certa pra casar e não sou eu. Já atrapalhei a vida amorosa dele demais.
—- Você tem certeza? – ele pergunta
—- Absoluta. – respondo – O senhor pode fazer o favor de ir até aquele casamento e contar tudo? Ah, e peça desculpas em meu nome.
—- Não deveria, mas faço isso sim. – ele diz – Vai voltar para o seu apartamento?
—- Na verdade não. – digo – Hoje pela manhã recebi um convite tentador para participar da direção de um filme em New York. Irei pra São Paulo fechar negocio e de lá pego o avião.
—- Então não isso é uma despedia? – ele diz segurando minhas mãos
—- Não, é um até logo papai. – sorrimos e nos abraçamos novamente.
Ficamos abraçados por mais alguns minutos, e depois voltei para casa. Arrumei algumas coisas minhas não dá tudo em uma mala. Então deixo algumas coisas, bastantes coisas pra trás. Principalmente o Bruce, que ficou me olhando com uma carinha de dar dó.
Pedi um taxi voos do Rio para São Paulo, são bens mais rápidos.
POV JOAO
Já me disseram uma vez que é super normal noiva atrasar, mas um atraso de meia hora é preocupante. Se bem que se ela pudesse me ouvir diria que não se atrasa, mas faz suspense. Já olhei umas mil vezes no relógio e a hora só faz passar. São exatamente 18h: 00min e nada. Até que seu Carlos chega ele caminha rapidamente até mim, sobre os olhares dos convidados.
—- Seu Carlos onde está a Maria? – pergunto ele me encara serio
—- Eu sei de tudo João, de toda mentira, desse casamento de fachada. A Maria me contou. – ele diz
Fico sem ter o que responder
—- Não, não estou com raiva. Mas se você ficou até agora esperando pela Maria, acho melhor correr e se apressar, pois ela está indo para São Paulo. – ele diz
Por algum sentimento que nunca imaginei sentir na vida pela Maria, corro até meu carro. E dirijo o mais rápido que posso para chegar antes dela ir. Mas o mais rápido não foi o suficiente ela já tinha ido. Deixou metade de suas coisas para trás e deixou também minha sala uma bagunça.
Encontro em cima da minha cama uma carta:
“Hey, sempre quis saber: Como é ser deixado no altar? Não deve ser nem um pouco legal. Então me desculpa por isso, me desculpa também por ter deixado sua vida de cabeça para baixo nos últimos meses. Ah, e por ter pegado sua cama. Um conselho troca esse colchão que ele é meio duro. Rs Não sei o que escrever, nunca me imaginei escrevendo uma carta para você. Olha evolui bastante. Não sei quando iremos nos encontrar de novo, mas eu realmente espero que eu esteja curada desse sentimento bem louco que sinto no momento por você. Espero de verdade que você seja muito feliz. Cuida bem do Bruce. Sai mais, divirta-se mais, coma mais besteiras, use todo esse seu lado sarcástico e divirta-se. Ah, e mantenha a Danielle por perto.
Gostaria de saber como terminar essa carta, pessoas normais escreveriam: com amor fulano, mas quer esperar normalidade de mim? Sonha né?
Seja o mais feliz possível!
Ps: Te odeio.”
Essa mulher é realmente uma pedra no meu sapato, ela faz tudo isso na minha vida, vai embora e me escreve isso? Como posso raciocinar depois disso?
Fico durante alguns minutos pensando no que li. Mas não fico por muito tempo, saio e vou em direção ao aeroporto, procuro em todos o lugares e o último avião para São Paulo saiu a vinte minutos, o próximo sairia a meia hora. O jeito é esperar.
POV MARIA
Eram umas 19h: 00min quando o avião finalmente pousou em São Paulo. Eu estou morrendo de cansaço, mas realmente quero sair do Brasil em que seja três horas da manhã.
Pego um taxi e vou direto para a empresa que me contrataria. Temos uma breve reunião, mentira, tivemos uma longa reunião. Meu estomago colou nas costas de tanto que demorou. Saímos da sala de reunião conversando quando as portas de elevador se abrem e vejo João. Um tanto que ofegante
—- João o que faz aqui? – pergunto enquanto ele se aproxima – E por que você está ofegante? – pergunto
—- Eu vim correndo. – ele diz
—- Serio? Do Rio de Janeiro? – digo
—- Precisava falar com você. – ele diz
O interrompo
—- Mas não precisava correr do Rio de Janeiro pra cá, isso é quase um suicido. – digo
—- Me deixa falar, só escuta. – ele altera um pouco a voz
Concordo com a cabeça
—- Olha só, primeiro não é legal abandonar pessoas no altar. Segundo você não tinha nenhum direito de fazer isso. Você transformou minha vida em um verdadeiro inferno. Me jogou água gelada, cortou meus ternos, colocou aranhas no meu banheiro, isso quase me matou. Sem falar no cachorro que você levou para casa sem minha autorização. Então em tinha todos os motivos, pra sonhar com você morrendo afogada, porque sim, eu já sonhei bastante com isso.
—- Nossa isso é muito interessante...
—- Olha só já mandei você calar a boca. – ele diz – Mas nessas últimas semanas as coisas mudaram completamente e loucamente. E eu realmente queria dizer sim para você naquele altar, mas você não apareceu e ainda mandou seu pai. Ou seja até quando você não quer mais infernizar minha vida você inferniza. Mas tudo bem estou pronto para viver com isso pelo resto da minha vida.
—- Eu não estou entendendo aonde você quer chegar. – digo com os olhos um pouco marejados
Ele se aproxima
—- Você aceite, agora de verdade sem tentar me matar durante o café, se casar comigo? – ele pergunta colocando uma das mãos em meu rosto
—- Olha acho que essa é a declaração, mas doida que já recebi. – digo dando um leve sorriso
—- Eu sei – ele diz sorrindo também e me beija
Acho que o beijo que eu nunca pensei que esperaria tanto.
—- Você me fez correr uma maratona. Eu te odeio por isso. – ele diz entre o beijo
Sorrio
—- Ah, normal. Eu também te odeio. – digo e continuamos a nos beijar.
-The End-
Fale com o autor