Ps: Z'

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Aconselho a escutarem a música "When The Darkness Come" ;)

Soltei meu pulso e comecei a correr descendo as escadas da biblioteca a uma velocidade absurda. Abri a porta do cômodo nem me lembrando das botas ou do guarda-chuva, corri feito uma louca para minha casa mesmo com os pés descalços.

Entrei toda molhada e me tranquei em meu quarto mais uma vez, me encolhendo próxima a parede, rezando e orando para que o fantasma não voltasse.

Ele nunca tinha se materializado na minha frente, nunca tinha tentado me machucar e nunca esteve tão furioso quanto naquele momento. Nunca senti medo do meu fantasma, mas naquele instante eu sentia. Eu me encolhi próxima à parede como se eu pudesse ficar invisível. Olhei meu quarto procurando por qualquer evidência dele, imaginando se eu não havia apenas tido um devaneio.

Desfiz-me de meu casulo e caminhei em direção ao banheiro. Retirei minhas roupas molhadas e entrei no Box. A água entrando em contato com minha pele fria me fez refletir.Eu não imaginei aquilo, ele realmente havia aparecido na minha frente. Suspirei levemente e terminei meu banho. Enrolei a toalha em meu corpo e com a outra sequei os cabelos escuros e compridos. Sai do banheiro, entretida e cansada demais para pensar.

– Belas pernas. – Virei meu rosto para a voz grossa e meus olhos bateram com a imagem transparente do moreno. Soltei mais um grito e tentei voltar para o banheiro, mas a porta do mesmo se fechou repentinamente. – Não fuja. – Ele pediu. Meu corpo tremeu de medo. Corri para a porta principal, mas percebi estar fechada. Corri para o sofá próximo à janela e encostei-me ao mesmo, me encolhendo o máximo possível como uma concha.

Encolhi-me ainda mais e fechei meus olhos fortemente, como se eu ainda fosse uma garotinha e aquilo ainda fosse um pesadelo.

– Pai nosso que está no céu, santificado seja o vosso nome venha nós em vosso reino seja feita a vossa vontade... – Comecei a rezar rapidamente o pai nosso, tremendo de medo. Terminei e espiei esperando veementemente que ele não estivesse mais lá... Mas ele estava. – N-não me machuque, eu imploro. – Eu pedi quase em um sussurro. Ele se aproximou de mim, percebi pela frieza em meu rosto. Soltei um gemido de medo, e senti as primeiras lágrimas de terror descer por meus olhos.

– Eu não vou te machucar. – Ele falou em alto e bom som. – Eu não vou te fazer mal. – Ele explicou com uma voz extremamente suave. – Por favor, não sinta medo de mim Valentina. É a pior sensação do mundo. – O jeito que ele falou meu nome, fez um tremor passar por todo meu corpo. Retirei uma das mãos de cima de meu olho e dei uma espiada. – Ora vamos! Eu não sou horrível! – Ele falou mais bem humorado. Retirei minhas mãos e o fitei.

– Você sabe meu nome. – Afirmei.

– Depois de anos te vendo morar aqui, é impossível não saber seu nome. – Ele deu um sorriso de canto irônico, me encorajando a continuar a falar com ele. – Você já deve me conhecer, mas nunca fomos devidamente apresentados. Meu nome é Zayd Malik. – Seus olhos castanhos quase sorriram. Um calafrio passou mais uma vez por meu corpo. Olhei de novo pra ele e dei um sorriso em resposta. Levantei-me e o olhei mais segura, mas com uma recaída tímida.

– Valentina Campello. Me chame de Tina. – Sorri de lado para a figura fantasmagórica e transparente mais uma vez. Ele mantinha o diário em sua mão e me entregou o mesmo.

– Eu não devia ter te assustado daquela forma. Me desculpe.

– Relaxa tá tudo bem agora. – Falei um pouco tímida por só estar de toalha. Ele ergueu as sobrancelhas.

– Isso é um pouco estranho concorda? – Zayd murmura.

– Bastante. – Falei. – Hum você... Poderia abrir a porta do banheiro pra que eu possa me trocar. Conhecer o fantasma da minha infância só de toalha não é... Muito confortável. – Ele riu e a porta se abriu.

– Fique a vontade Valentina. – Caminhei até meu guarda roupa e busquei por algum pijama comportado. Corri para o banheiro e vesti a calça de moletom e a camisa comprida do Mickey. Penteei meus cabelos, e observei meu rosto moreno no espelho. Sai do espaço minúsculo e voltei para o meu quarto. O fantasma continuava me observando da cama desarrumada.

Subi desajeitadamente sobre a superfície de algodão e me enrolei com o grosso cobertor sem tirar os olhos de Zayd.

Continuamos nos olhando fixamente, esperando que um dos dois puxasse assunto.

– Por que nunca se mostrou pra mim? – Perguntei.

– Não sei... Por que você iria ter a mesma reação que teve agora há pouco? – Ele respondeu.

– Bom, eu não vou mais gritar. Prometo. – Falei. – Mas... Por que se mostrou hoje. Por que naquela hora? – Ele abaixou a cabeça levemente.

– Eu não me lembrava de você fazer tantas perguntas. – Dei um sorriso.

– E eu não me lembro de ter conversado com um fantasma. Estamos quites. – Falei enquanto ele revirou os olhos. – Então? – Estimulei. – A qual é? Você me observa e mete medo nas minhas amigas desde os meus oito anos, eu mereço uma explicação. – Ele riu de lado sensualmente e com a língua entre os dentes. Acho que nunca houve um fantasma tão lindo quanto ele.

– Tudo bem. – Ele suspirou. – Você estava lendo o diário dela, Valentina. Aquilo me chocou... Muito. Me trouxe lembranças. – Zayd disse vago.

– Lembranças boas? – Arrisquei.

– Lembranças ruins. – Ele concertou a afirmação. Calei-me, pois não queria machucar os sentimentos dele.

– Você é o garoto da história, não é? – Perguntei.

– Ela fala de mim no diário? – Ele pergunta surpreso.

– Acho que isso foi um sim. – Eu ri. – Mas... Você tá morto Zayd.

– É eu sei disso.

– O que houve naquela noite? – Ele continuou em silêncio e deu um leve sorriso de canto.

– Eu morri. – Ele parecia monótono, como se não sentisse nada.

– Por quê? – Perguntei.

– Eu fui morto, por ser alguém que não agradava a sociedade. – Ele levantou a cabeça e olhou diretamente para mim. – Eu era um pirata. – Observei seu semblante misterioso.

– Foi por isso. Foi por isso que vocês fugiram. – Falei. Ele balançou a cabeça assentindo.

– Quando a conheci, estava fugindo da cavalaria do rei. Havia acabado de roubar uma das joias da rainha. Estava eufórico com a conquista e pelo fato de ter acabado de chegar à Londres. – Ele riu travesso, provavelmente se lembrando de suas aventuras. –Eu não tinha para onde ir e a única pessoa que me ajudou foi a Bella. – Sua expressão ficou um pouco sonhadora. – Sempre amei o mar e sempre viajei pelos lugares mais exóticos que você imaginar. Mas... Eu nunca tinha me apaixonado, e de todas as aventuras que eu tive, nenhuma foi tão incrível e perigosa quanto o amor. – O jeito que ele falou do amor me fez ter um arrepio. – Eu me apaixonei por ela, isso é meio óbvio, não? Ela era a garota mais linda que eu já havia conhecido. Seus olhos pareciam estrelas de tão brilhantes e sua inocência e bondade me enfeitiçaram, só com um piscar de olhos. O fato de estar sempre lendo algum livro e de sempre ter tarefas pra conseguir um bom casamento a tornava escrava de suas obrigações. Ela tinha medo de ser ela mesma, sempre seguindo as regras que seu pai a fez seguir. – Ele passou os dedos na argola prateada em sua orelha distraidamente. – Ela era um tesouro escondido. Depois que a conheci passei semanas viajando e procurando coragem para vê-la novamente. Sentia-me errado só de olhar para ela, como se o fato de me envolver com Bella acabasse com a sua pureza. Como se fosse contra lei me apaixonar, e realmente... Era fora da lei. Eu poderia acabar com sua reputação e com sua chance de se casar, mesmo a paixão sendo irresistível. – Ele se calou por alguns minutos.

– Imagino. Ela era muito bonita Zayd. O desenho que fez dela... Ficou impecável. – Falei. Ele me observou fixamente de novo.

– Gostaria que eu a desenhasse? – Ele perguntou. Dei um sorriso tímido e corei.

– Você conseguiria?

– Estou meio enferrujado, mas acho que consigo fazer algo decente. – Ele se levantou. – Espere aqui. – E de repente ele sumiu. Isso mesmo sumiu na minha frente e apareceu de novo com um caderno e um lápis antigo em suas mãos.

– Não deu tempo nem de dizer ok. – Reclamei. Ele se posicionou, enquanto eu tentava inutilmente arrumar meus cabelos.

– Fique quieta. – Ele pediu de um jeito autoritário.

– O que aconteceu depois que você se apaixonou? – Perguntei.

– Você deve ter lido no diário, visitei ela todos os dias que pude. – Ele ficou calado e observou meu rosto desviando sua atenção depois ao caderno. – Nunca abusei dos limites dela e ela nunca abusou dos meus. Acho que era por isso que nos dávamos bem. – Ele observou mais uma vez meu rosto. – Ela cantava sabia? Tinha uma voz poderosa. Eu não achava que combinava com seu jeito, mas era uma voz... Bonita. – Ele hesitou antes de continuar.

– Você tem um jeito diferente de ver as coisas. – Falei. – As pessoas hoje em dia não tem mais tanta sensibilidade quanto antigamente. – Ele me olhou e sorriu de lado.

– É eu concordo com isso. – Ele continuou me desenhando. – O tempo passou e ela se tornou minha vida. Um dia sem vê-la era como passar um dia sem me alimentar. Eu a amei mais do que tudo. – Ele parou por um segundo. – Desculpe a pergunta, mas você já se apaixonou? – Hesitei com as palavras.

Conhecia o amor. O amor maternal, fraternal, o amor de amigos, o amor material, o amor pela vida. Sentira todos eles e os aproveitara da maneira correta. Mas o amor que Zayd se referia... Eu nunca o conhecera pessoalmente. Somente através de filmes e livros, mas nunca na minha realidade. A “paixão” era o único amor que eu nunca havia sentido.

– Não. — Fui direta e disse a verdade. — Não por falta de concorrentes ou por vontade. — Ri e ele também. — Mas... Por nunca ter encontrado a pessoa certa.

– Eu pensava assim antes de conhecê-la. Eu não tinha nada a perder Valentina, as coisas eram mais fáceis. — Percebi que o caderno se tornou uma ótima direção para se olhar, porque os caramelados olhos de Zayd se encheram de lágrimas.

– Zayd... O que realmente aconteceu naquela noite? – Ele arquejou e soltou um suspiro. Parecia que a qualquer momento ele cairia em choro.

– Ela foi me encontrar. Não trazia nada consigo a não ser a roupa do corpo. Meu barco, não estava muito longe, havia programado uma viagem pelos mares e depois voltar a minha terra de origem onde passaríamos o resto de nossas vidas. – Ele fechou os olhos fortemente. – Se soubesse o que iria acontecer, nunca teria dado a ideia. Era uma noite fria e nublada. O mar estava cinza e rebelde. Era exatamente meia noite quando ela chegou. Os olhos azuis brilhantes se destacando no vestido de seda branco. Foi a primeira e única vez que a vi sem nenhum penteado apenas com os cabelos loiros soltos. Parecia estar mais linda do que o normal. – Era a primeira vez que eu escutava a história de um fantasma. Acho que nada iria se comparar com a minha cara enquanto ele contava a história. Ele ainda desenhava meu rosto no caderno antigo. – Eu me sentia feliz, ela havia me escolhido. Havia deixado pra trás todas as suas obrigações para ficar comigo. Juro que nunca abri um sorriso tão grande. – Ele sorriu tímido. – Ela corria em minha direção com um sorriso alegre...

18 de Novembro de 1790.

– Zayd! Zayd! – A garota gritava e corria em sua direção com uma felicidade eufórica. Ele virou-se com um sorriso maior que seus lábios. A nuvem de poeira atrás dos pés da garota mostrava como corria sobre a areia fofa. Seus olhos brilhavam mais do que o normal e ela havia acabado de arrancar os sapatos dos pés.

– Bella! – O garoto gritou de volta, seu nome, quando ela tropeçou e se jogou em seus braços o abraçando. Ele envolveu sua cintura fina e colocou o rosto em seu pescoço aspirando o cheiro delicado de flores. Ele acariciou seus cabelos loiros e sedosos temendo que a alegria pudesse simplesmente explodir seu coração.

Bella desenrolou as mãos de seu pescoço e envolveu seu rosto com um sorriso do tamanho do sorriso de seu amado. Zayd fez o mesmo gesto e beijou seu rosto inteiro. Desde a testa até o queixo, repetindo a cada toque.

– Você veio! Você veio! – Ele beijou sua boca enfim com um beijo doce e ao mesmo tempo explosivo. Cheio de sentimentos reprimidos. Ela o abraçou com força coisa que nunca fizera. Tudo parecia perfeito demais.

– Eu te amo. – Ela disse simplesmente. Foi à única vez que seu rosto não corou com palavras tão fortes. Zayd a abraçou mais forte mesmo isso sendo quase impossível.

– Eu também te amo. – Ele sussurrou próximo de seu rosto. Ela encostou a cabeça em seu peito com um sorriso. Ela sentia que nunca mais iria deixar de sorrir. Tinha medo, que aquela alegria lhe fosse roubada, depois de tudo o que passou tinha medo de voltar ao sofrimento. Mas ela não queria voltar a pensar naquilo. Era um momento de felicidade, nada poderia atrapalha-los agora. Ela desencostou seu rosto e o fitou.

– Precisamos ir. – Ela sussurrou.

– Não... Temos a noite inteira para isso. – Ele falou com um sorriso. Ela não correspondeu, simplesmente franziu a testa com preocupação.

– Minha dama de companhia irá levar meu chá à meia noite. É o horário em que ela adormece. Eu nunca saio do quarto ela vai sentir

falta de minha presença e irá correndo avisar meu pai. Será o momento que ele mandará buscas atrás de mim. Zayd... Precisamos sair daqui, agora. – Ela falou preocupada e amedrontada. Assim que ela terminou de dizer foi que Zayd percebeu a gravidade da situação. A mulher estaria naquele exato momento indo avisar do desaparecimento de Bella. Se não corressem poderiam ser pegos em flagrante. Ele lhe segurou a mão e começou a correr em direção do navio. Alguns minutos depois escutaram trotes de cavalo. Eram cavalos rápidos e fortes, poderiam ser comparados com os cavalos da cavalaria do rei.

– Zayd... Eles estão vindo. – Bella falou arfante e com medo. Ela olhou para trás e avistou o rosto do pai enfurecido. Ele era o primeiro da tropa. – Zayd... meu pai. – Ela sussurrou mal conseguindo falar.

– Venha. – Ele a colocou em seus braços e correu. Sentia um medo profundo de não conseguir leva-la consigo. Colocou a mão sobre a cabeça da garota a fazendo esconder o rosto em seu pescoço. – Nós vamos conseguir acalme-se. – Se chegassem ao navio os piratas já estariam prontos para zarpar e seria um pulo para mar aberto e bem longe daquele lugar. Suas botas mal eram ouvidas na areia apenas suas pegadas fundas. Mesmo em momentos como aqueles Zayd via a coragem brotar e a cada passo se sentia cada vez mais inalcançável. Enquanto corresse nada poderia o deter.

O vento marítimo batia em seu rosto com brutalidade. As ondas quebravam na praia. Era tudo muito intenso. Dramático.

Ele correu o máximo que pode. Para salvar tanto a sua vida quanto a de sua amada. A vida que ele pretendia lhe proporcionar. Seu sonho mais complexo dependia daquilo. Ele colocou força nas pernas e aumentou a velocidade. As lágrimas de Bella começavam a molhar sua camisa branca e velha.

A questão era que os mocinhos estavam a pé e o vilões estavam a cavalo. A comparação do estímulo e rapidez de Zayd com a deles... Era incontável. Enquanto ele dava um passo, eles já haviam dado quatro. Mesmo a frente ele começou a se cansar enquanto o pai da garota se aproximava deles.

O pânico e o desespero começavam a aparecer ao perceber que não conseguiriam. Por mais que ele tentasse ir mais rápido suas pernas queimavam e a tropa se aproximava cada vez mais. Ele perdeu as esperanças quando o guarda principal passou a sua frente o cercando e o fazendo cair junto com Bella.

Seu corpo caiu bruscamente na areia enquanto a garota caia por cima dele. Ela chorava, apenas esperando o pior.

Os cavalos os cercaram. Cada homem com uma arma maior que seu próprio tamanho. Eles desciam com um pulo todos correndo na direção deles. O primeiro a se aproximar era o pai da menina. Tinha cabelos escuros e rosto marcado por olheiras devido à viuvez e naquele momento pelo desgosto.

Ele segurou o braço de Bella a erguendo com um salto.

– Não Pai, não! – A garota gritava em meio ao choro.

– Você eu resolvo depois. – Ele disse entregando a garota a dama de companhia que viera junto ao pai. A senhora parecia amedrontada e preocupada. Bella queria sentir raiva da mesma, mas não conseguia. Vivera tanto tempo com ela e sabia que a mulher não era realmente culpada por aquilo. Ela abraçou a única “mãe” que tinha no momento enquanto a mulher a acalentava.

O homem tinha fúria nos olhos e caminhava com as mãos em guarda até Malik. Ele segurou a gola do garoto e acertou um soco em seu rosto. Ele caiu no chão mais uma vez cuspindo sangue. Zayd não tinha forças para revidar.

– Zayd! – Bella gritou tentando ir a seu encontro enquanto a mulher a segurava.

– Quieta! – Seu pai gritou. Dois cavaleiros da tropa seguraram o corpo de Zayd, enquanto o pai da menina acertava seu estômago. – Quem você pensa que é?! – Ele gritou antes de acerta-lo novamente. – Você acha que tem o poder de iludir minha filha com palavras bobas e depois tira-la de mim?! – Ele gritou e socou Zayd. – Acha que com três palavrinhas pode simplesmente carrega-la?! – Ele segurou o queixo do garoto e aproximou o rosto do mesmo. – Pois você esta erroneamente enganado. – Ele socou o rapaz de novo.

Bella chorava com soluços cortantes sentindo junto a Zayd os golpes que seu pai lhe acertava. Tentava ir de encontro a eles, mas sua dama de companhia lhe segurava sem permitir que pudesse fazer nenhum movimento.

– Por favor! – Ela implorava e suplicava. – Para pai, por favor! – Os homens observavam tudo como soldados sem mover um músculo enquanto o homem dava uma surra em Malik.

Ele se afastou do garoto e puxou a arma de caça de um dos cavalheiros presentes. Era algo bem polido, de uma tecnologia muito avançada para a época. Os olhos de Bella se arregalaram quando percebeu que seu pai apontava a arma para Zayd.

O pirata estava conformado com seu fim. Mesmo que sentisse revolta por seu plano não ter dado certo sentia que era um fim completo, sabia que o velho jamais tocaria um dedo em sua filha. O amor por ela não permitiria que ele a machucasse.

– Chegou a hora de morrer. – Ele sussurrou preparando-se para atirar.

– NÃO!

Tudo pareceu ficar em câmera lenta mesmo que tivesse sido muito rápido. A garota de cabelos loiros se soltou de sua dama de companhia em uma rapidez inumana. O som da bala sendo disparada ecoou pela praia solitária enquanto o vestido branco da menina de olhos azuis se manchava de vermelho sangue. O impacto foi forte e os homens soltaram Zayd em um susto. Foi o tempo necessário para que ele segurasse a moça quando seu corpo tombou.

Ele segurou o corpo delgado e só então foi que percebeu o que havia acontecido. Tudo voltou como uma onda de tsunami, o tempo pareceu ficar mais rápido de novo. Todos estavam estáticos diante da cena. Em completo choque. Zayd deslizou seus pés pela areia segurando o corpo amolecido de Bella. Ele parecia ter perdido as forças sem acreditar que a garota havia feito aquilo.

Bella procurava por ar, seus pulmões pareciam ter se fechado bruscamente. O sangue sujava seu vestido como se fosse água. Zayd observava abismado. Cuidadoso e ainda incrédulo tirou uma mexa do cabelo loiro de seu rosto.

– Bella... – Lágrimas começavam a brotar em seus olhos. – NÃO! – As lágrimas já eram abundantes. – OLHA O QUE VOCÊ FEZ! – Ele gritou para o pai da garota que continuava paralisado. – Bella amor, não fecha os olhos. Não fecha. Olha para mim, só para mim. – Ele segurou a mão dela com força. Ela mal retribuía, seus olhos azuis perdiam o brilho e só enxergavam o céu escuro, sem nuvens ou estrelas. – Bella? Amor olha pra mim! – Ele pedia desesperado. O pânico de ver a vida de sua amada se esvaindo aos poucos o deixava louco.

– Zayd... – Ela sussurrou. Ela fechou os olhos levemente deixando duas lágrimas solitárias escorrerem.

– Olha para mim Bella! – Ele pedia desesperado. Ela seguiu seu pedido.

– Me desculpa. – Ela sussurrou. Zayd balançava a cabeça negativamente enquanto as lágrimas desciam por seu rosto e molhavam suas roupas.

O corpo da menina estava branco. Da cor de papel. Nada mais tinha tom, a não ser o ferimento sangrento. Seus típicos olhos azuis estavam quase transparentes de tão claros. Ela engoliu em seco e tentou segurar com mais força sua mão. A dor era profunda e insuportável. Ela era frágil e não conseguiria se manter viva por muito tempo. Ela conseguia sentir a morte puxando-a.

– Zayd. Pro... Prometa-me uma... Coisa. – Ela falou com dificuldade. Vendo que não tinha muito tempo e sem ação por parte do garoto ela continuou. – Prometa que vai me amar. Não importa o que acontecer lembre-se de mim. – Ela pediu quase sem voz. Ele desceu seus lábios e a beijou.

– Jamais irei esquecer você. – Ele disse.

– Eu não quero ir. – Ela disse triste.

– Não vá. Não me deixe. – Ele pedia a ela. O rosto da garota estava compadecido.

– Eu preciso... – Ela falou. – Zayd... Está doendo tanto. – Ela disse fechando os olhos e permitindo sentir outras lágrimas descerem por seus olhos. – Zayd... Eu estou vendo. É uma luz... – Ela abriu um sorriso. – É tão linda...

– Não vá Bella. – Ele pediu. Ela fechou os olhos e sorriu.

– Ela esta me chamando. – Ela disse retornando a abrir os olhos. – Eu preciso ir. Eu vou te encontrar de novo, em outro tempo. Não se esqueça disso meu amor. O destino é nosso guia, os sonhos nosso presente e o amor é o poder da fé. Eu te amo Zayd. Sempre amei. – Duas lágrimas escorregaram novamente pelo rosto dela enquanto ela fechava seus olhos. Dando seu último suspiro.

– NÃO! BELLA! NÃO! NÃO! – Zayd gritava em desespero. Suas lágrimas eram alarmantes. Ele embalava o corpo pequeno procurando conforto em um mar de sofrimento. Como se o fato de seu corpo ainda estar ali desse esperanças para sua volta.

Zayd gritava um grito de apelo. Ele pedia pela garota. O vazio que tinha em sua vida era doloroso, ele queria ser salvo daquele sentimento. Ele fechou os olhos segurando a menina fortemente.

– VOLTE! VOLTE POR FAVOR! VOLTE POR MIM! POR FAVOR! – As pessoas ao redor haviam voltado a sua sã consciência e tinham dó do pirata. Para ele qualquer coisa era melhor do que viver sem Bella. O pai da garota pareceu perceber o que aconteceu e saiu do choque.

– VOCÊ! A CULPA É SUA! – Ele gritava com Zayd. O garoto não tinha mais forças para nada. Tentava se apegar a alguma ponta de felicidade. Se o pai da menina iria xinga-lo ou mata-lo ele não estava preocupado. O homem voltou a falar baboseiras para ele, dizendo que ele era o culpado daquilo tudo. – VOCÊ A INFLUENCIOU A TUDO ISSO! MINHA FILHA ERA A MENINA MAIS OBEDIENTE DA SOCIEDADE RICA! VOCÊ A LEVOU! A DESVIOU! – Zayd simplesmente olhou para ele sem motivação e disse.

– Você... A prendeu em um mundo que ela nunca quis Sr. Monroe. Ela já estava morta desde que sua mulher faleceu de desgosto. Não era eu quem tinha uma arma nas mãos! Você... Você matou Bella Monroe. – Zayd falou. O homem pegou a gola do rapaz mais uma vez. O garoto o olhou sem responsabilidade, mas percebeu que o velho tinha lágrimas nos olhos.

Ele sabia desde o começo que aquilo era sua culpa, mas era covarde demais para enfrentar seus pesadelos. Ele largou o pirata e ergueu a arma novamente.

– Você pediu isso! – Ele gritou antes de atirar.

O garoto sentiu a dor incompensável em seu corpo. Sentiu tudo doer. Sentiu a vida humana se esvaindo aos poucos torturantemente. Sentiu seu corpo cair ao lado de Bella. Sentiu as estrelas mais altas do que ele. Sentiu os olhos se fecharem. Sentiu as estrelas diminuírem o tamanho. Cada vez mais... Até morrer.

Zayd sentiu o corpo ficar pesado e sua alma se desprender dele. Como um adesivo. Viu seu corpo esticado na areia e o de sua amada ao seu lado.

De repente ele avistou... A mesma luz clara que a garota havia descrito. Era estranhamente complicado descrever aquilo. Era como se a luz o carregasse e ela estava tão longe como se fosse uma luz no fim do túnel.

Várias pessoas se encontravam ao redor do garoto e ele não entendia o porquê da multidão estar indo para o mesmo lugar que ele, já que o pirata sabia que estava morto. Zayd não entendeu apenas seguiu seu caminho. E então ele a viu...

Bella com seu vestido branco e flutuante, em meio à multidão, seguindo para a luz como se estivesse hipnotizada. E ela estava. Quem não iria querer paz? Parecia tão seguro. Mas ele não queria aquilo. Queria o amor de sua amada.

“Bella!” O Garoto gritou. “Não siga a luz! Fique comigo!”. Ela não o escutava e seguia seu curso sem se quer uma virada de cabeça. Ele se desesperou. “BELLA!”. Ela entrou na luz e ele... Caiu.

18 de Novembro de 2013

Eu sentia lágrimas grossas por meu rosto e Zayd estava a ponto de desabar em lágrimas também. Ele continuou contando a história.

– Eu cai e retornei para essa casa. Abandonado e perdido sem que ninguém pudesse me entender. – Zayd disse com os olhos vazios. – A dama de companhia havia encontrado o diário de Bella em cima da cama. Ela se esqueceu de esconder como sempre fez. Jade levou o diário para o homem e o resto você já sabe. – Zayd murmurou. – Mas eu me vinguei. Vinguei minha vida e a de Bella. – Zayd falou. – Eu senti ódio daquele homem, ódio profundo por tê-la matado. Eu o enlouqueci. Apareci para ele todas as noites e todos os dias em que ele conviveu nessa casa até suicidar-se. Em seu próprio quarto, não antes de ler os últimos versos que sua filha escreveu e deixar o diário esquecido na biblioteca. – Zayd fungou levemente e deixou o caderno de lado. – Mas depois de um tempo... Percebi que foi uma escolha dela e senti ódio de mim mesmo por ter sido por mim seu sacrifício. Senti ódio de mim por não tê-la seguido após morrer.

– A culpa não foi sua. – Eu consegui pronunciar em meios às lágrimas silenciosas.

– É claro que foi Valentina. – Ele disse calmo, mas com rispidez na voz. – Eu senti ódio de mim por ter me transformado em um monstro. Assustando todos aqueles que entravam aqui. Eu não queria que quisessem morar aqui, não para ter momentos dos quais eu presenciaria e dos quais eu teria inveja. Eu não podia permitir que fossem felizes enquanto eu estava no meu inferno particular. – E enfim ele começou a chorar. Todo aquele tempo aguentando tudo que tinha entalado na garganta finalmente estava sendo desabafado com alguém. – Eu a amei tanto... Lembro-me de suas palavras como se estivessem sendo proferidas agora. O destino é nosso guia, os sonhos nosso presente...

–... E o amor é o poder da fé. – Terminei a frase por ele, mesmo sem saber como eu sabia aquilo.

– Como...? – Ele questionou.

– Shh! – Eu o fitei com compaixão, queria tanto reconforta-lo. Sem pensar duas vezes toquei em sua mão. Sua imagem tremeluziu como um holograma e lá estava ele, materializado. Com um corpo humano. Nós não entendemos como ele conseguiu ficar daquela forma, mas sabíamos que já tinha acontecido aquilo naquela noite. Fitei-o enquanto ele repetia o gesto. Seu cheiro poderia se comparar com o cheiro da água salgada na praia, amenizado pelo cheiro das rosas do jardim.

– Eu me odiei... Até você chegar. – Ele sussurrou me fazendo ficar parada como uma estátua. – Todos sentiam medo de mim Valentina e você... Uma simples garotinha de oito anos, frágil, nunca se quer se afastou mesmo sem saber. – Entendi o que Bella quis dizer com os olhos tempestuosos. – Eu te observei. Te vi crescer. Senti vontade de ser seu amigo ao vê-la brincar pelos jardins, senti-me feliz quando aprendeu a andar de bicicleta e quando viu a neve pela primeira vez no natal. Orgulhei-me quando chegou em casa com o melhor boletim da classe. Admirei-me com sua coragem ao enfrentar seu pai por uma amiga. Senti ciúmes quando vi garotos a deixando na porta de casa, senti raiva quando contou a sua mãe sobre sua primeira vez. – Meu rosto corou ao saber que ele escutara tais conversas. – E eu estava aqui no seu quarto quando teve seu primeiro coração partido. Eu te amei como seu amigo imaginário, como o irmão que você nunca teve e eu te amo agora. Você trocou o ódio por amor, é à única que ainda me prende a este mundo. Você é quem me faz sentir vivo novamente, me fez voltar a ser humano. Eu faria o possível e o impossível por você, pois fizestes o impossível em mim. – Meus olhos estavam marejados de admiração. Dei um sorriso de lado e o abracei envolvendo meus braços em seu pescoço. Sem maldades apenas por conforto. Por carinho. Por retribuição ao amor que ele sentia por mim.

– Obrigada. – Sussurrei em seu ouvido enquanto ele envolvia minha cintura com força.

– Você me lembra ela. – Ele sussurrou fazendo-me arrepiar e afastar-me alguns centímetros dele. – O jeito simples e delicado, a paixão pelos livros e pelas flores, o olhar, a meiguice, a bondade. – Ele colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha enquanto meu rosto corava. – A timidez. – Ele disse rindo. – Você é tão parecida com ela e ao mesmo tempo tão diferente. – Ele falou fitando-me fixamente. Eu deveria sentir-me triste por me parecer com Bella, mas eu sentia exatamente o contrário, por uma razão que realmente não sei.

Meu corpo estava próximo ao dele. A mesma mão que tocou meu cabelo se espalmou sobre um lado de minha face. Minha perna estava encostada em sua coxa e por nenhum segundo deixei de fita-lo. Pele com pele, olho no olho. Seu rosto se aproximou lentamente do meu, como se aquilo fizesse o tempo parar lentamente.

Eu tive chances de me afastar, mas como se eu estava hipnotizada pelo fantasma a minha frente? Aqueles lábios, aqueles olhos. Um arrepio desceu por minha espinha ao sentir sua outra mão ir de encontro a minha nuca. Apoiei minhas mãos em seu peito me firmando para o que iria acontecer.

E lá estava. Seus lábios nos meus. Um encontro firme e lento em nossas bocas. Descobríamo-nos devagar sem pressa. Como se fosse meu primeiro beijo novamente. Cada movimento algo bonito e indescritível como uma luzinha que brilhava no fundo do meu coração e me fazia acreditar em contos de fadas. Como se as borboletas no pé da minha barriga fossem reacendidas e fizessem cócegas incessantes em meu corpo.

Ele soltou-me imprevisivelmente, me fitou assustado e ofegante.

– Me perdoe, não foi minha intenção, desculpe-me Valenti... – Antes mesmo que ele terminasse de falar eu já havia me agarrado a sua nuca e o beijado novamente. Em algo mais urgente e preciso. Zayd enrolou suas mãos em meu cabelo perdendo o medo do desconhecido, dedilhando seus dedos por minhas costas.

Deslizei minhas mãos por seus cabelos negros, lisos e espetados. Era tão macio que eu tinha vontade de acaricia-lo para sempre. Abaixei-as lentamente até seu rosto onde a barba estava por fazer, fazendo minhas mãos formigarem. Algo no ato de beijar Zayd trazia-me paz, uma paz pura e guardiã. Afastei-me dele procurando por ar, mas ainda segurando seu rosto.

– Valentina... – Ele sussurrou. O fato dele ignorar meu apelido e sempre me chamar pelo nome completo me deixava zonza.

– Passe a noite comigo. – Pedi.

– É errado. – Ele disse.

– Por favor, não quero dormir sozinha. – Pedi novamente. Ele fitou-me por alguns segundos. – Por favor. – Repeti.

– Tudo bem. – Ele cedeu e deu um sorriso de lado. Amarrei meu cabelo em um coque rapidamente. Enquanto ele voltava a sua imagem fantasmagórica. Deite-me na cama e esperei ele vir.

Ao perceber que o mesmo ainda se encontrava sentado sobre a cama me observando sentei-me novamente.

– Ô! Eu esqueci que você não dorme. – Falei o fazendo rir. Toquei em sua mão e o fiz ficar materializado de novo, o puxando para deitar-se comigo. – Mas isso não te impede de se deitar comigo. – Falei.

– Isso na minha época, podia acabar com a reputação de uma Lady.

– Bom... Não sou uma lady e não estamos na sua época. Acho que esta tudo bem. – Disse com um sorriso de lado. Depois disso não precisei lhe pedir mais nada. Sua própria atitude o fez abraçar-me de lado encostando seu rosto em minha bochecha. Senti sua respiração em meu pescoço e dei um sorriso ao perceber que suas botas estavam entrelaçando-se com meus pés descalços por debaixo da coberta. – Zayd... Suas botas... – Murmurei.

– Ops! Me desculpe.- Ele ficou encabulado e de um segundo para o outro, a bota desapareceu de seus pés.

– Esse é o bom de ser um fantasma. – Falei, o deixando risonho. – Boa noite. – Sussurrei antes de pegar no sono.

Era um lugar escuro. Eu não conseguia enxergar nada, nem sentir nada. Era como se eu estivesse em repouso, mas eu sabia que estava de olhos abertos. Algo no som dos meus passos me fazia imaginar no que eu estava pisando.

Caminhei sem saber o caminho, mas caminhei. Depois de alguns minutos procurando por luz, eu vi. Uma claridade longínqua vinda do meio da escuridão. Aproximei-me curiosa sem temer que aquilo poderia ser algo ruim para mim.

Minhas pernas tremiam, mas eu segui. Não importava como, eu sabia que o que quer que acontecesse comigo ali, não me faria mal na realidade. Não no mundo real. Devagar e cautelosa eu me aproximei da luz. Aos poucos percebi que era um espelho.

Não um espelho comum. Um espelho de ouro de corpo inteiro, bem trabalhado em suas bordas. Algo caro e que jamais poderia ser desperdiçado. Aos poucos pude ver o reflexo do espelho e por mais estranho que soe não era o meu reflexo que refletia no objeto.

Era outra garota com uma aparência completamente diferente. Mais alta do que eu vários centímetros, cabelos loiros e compridos, com olhos azuis e lábios rosados. Utilizava de um vestido branco. Fitei seu rosto e levantei uma das mãos, mas ela não seguiu o meu movimento.

Seu rosto inocente, seus olhos expressivos e meiguice estampada em sua expressão facial deixava óbvio quem era ela.

– Bella. – Sussurrei – Você esta viva? – Questionei confusa. Ela sorriu.

– Estou. – Ela disse em uma voz idêntica a minha. Aquilo me surpreendeu.

– Como?

– Estou viva dentro de você. – Fitei seu rosto de forma irônica.

– Isso é impossível.

– Talvez. Mas se fosse impossível, não teria acontecido. – Ela disse. Abri minha boca, mas nenhum som saiu da mesma. – Eu renasci em você Valentina. Renasci por ele. – Ela falou. – Eu sou você.

– Não... Não pode ser.

– É claro que pode. – Bella falou enquanto o espelho dava visão à outra imagem, a imagem de Zayd e eu deitados na cama. – Retornei através de sua vida, pois precisava salva-lo do ódio que sentia de si próprio. – Ela disse. – Me sacrifiquei por ele e esta na hora de me sacrificar de novo.

– O que disse? – Questionei ainda mais confusa.

– Zayd só achará paz, quando retornamos Valentina.

– Retornamos para onde?

– Para a vida após a morte, ora. – Ela disse.

– Você quer... Que eu me mate?

– Quero que nos sacrifiquemos.

– Não sei se tenho coragem para tanto. – Falei indecisa.

– Não é necessário coragem... Apenas amor. – Bella disse. – Foi por amor que eu me sacrifiquei pela primeira vez e é por amor que você deve se sacrificar agora. Nós amamos Zayd. Ele precisa de nós.

– Terei de deixar tudo para ter que ficar com ele. – Falei com algumas lágrimas nos olhos. – Amigos, família... Eu os amo também.

– Eu amava meu pai Tina, amava Jane e amava a casa onde vivia. Mas muito mais do que isso, amava a ideia de ter Zayd para sempre. – Bella falou convicta. – Eu deixei tudo e sei que vale a pena, porque nós o amamos. – Ela falou e eu soube que era verdade. Éramos a mesma pessoa, distintas somente pelo tempo em que nascemos. Eu amava Zayd de uma forma e Bella de outra, mas ainda assim era amor. Fitei os olhos azuis da garota e assenti com a cabeça.

– Acredito em você Bella. Eu acredito...

Abri meus olhos abruptamente e remexi-me sobre os braços do fantasma. Ele passara a noite me fitando tinha certeza disso. Virei-me para ele e toquei em seu rosto com um sorriso.

– Bom dia, flor do dia. – Ele murmurou com sua típica voz grossa. Meus olhos cintilavam sobre a luz da manhã. Havia parado de chover.

– Bom dia. – Murmurei e encostei meus lábios no dele em um selinho doce. Foi uma surpresa para ele, pude julgar pelo fato de ter parado seu corpo como uma pedra. Sorri levemente e me levantei decidida a fazer o que tinha que fazer.

– O que houve? – Ele perguntou de volta a sua forma fantasmagórica e seguindo-me pelas escadas.

Debaixo dos ecos

Enterrado nas sombras

Lá estava você

Atraída pelo seu mistério

Eu estava apenas no começo

Para ver o seu fantasma

Mas você deve saber

– Você vai ver. – Falei correndo em direção à cozinha ele me fitava sem entender, mas me seguia em sua forma flutuante e transparente. Entrei no enorme cômodo reformado e moderno diferente da casa inteira. Abri a gaveta de facas e peguei a primeira que vi. Virei-me para ele com os olhos um pouco marejados segurando a faca.

– Ei! O que esta fazendo Valentina?! – Zayd perguntou um pouco histérico. Quando aproximei a faca de meu pulso e subitamente o instrumento sumiu de minhas mãos aparecendo na dele. – Estás louca?! – Ele perguntou.

– Zayd eu o amo...! – Disse já deixando as lágrimas caírem.

– O que...?!

– V-você v-vai entender, tá bom? – Falei alguns segundos antes de pegar outra faca e cortar meu pulso antes que ele fizesse algo para me impedir.

– Não! NÃO! – Ele gritou se aproximando de mim e me segurando sentado no chão. Lá estávamos nós, mais uma vez na mesma situação. – Por que fez isso? Por quê? – Ele me perguntava enquanto eu dava um sorriso. Seu corpo estava encostado no balcão da cozinha.

– Porque eu amo você. – Falei sentindo o sangue sair do meu pulso enquanto a inconsciência se aproximava do meu corpo. Fechei os olhos e sussurrei antes de morrer. – Eu amo você.

Eu vou estar aqui esperando

Torcendo

Rezando

Que esta luz vai guiar você para casa

Quando você estiver se sentindo perdido

Eu vou deixar meu amor

Escondido no sol

Para quando a escuridão vier

E lá estava eu, observando a mesma luz que eu fitara antes. Bella esperara por ele, dentro de mim ou no céu. Não importa ela o esperou, e era a minha vez de leva-lo. Zayd olhava para o meu corpo morto e chorava ainda se segurando a mim. Aproximei-me dele e toquei seu ombro levemente. Ele virou-se e me viu. Seu rosto se transformou de triste, para assustado.

– B-Bella? – Ele perguntou. Olhei para o meu corpo fantasmagórico e vi minha forma, não como Valentina, mas como Bella.

– Não... Valentina. – Falei o fitando. Ele repetiu o ato, mas sem acreditar.

– Como...?

– Eu sou ela. E ela sou eu. A luz não fora suficiente para nos salvar. Mas o amor, a fé que tínhamos um no outro... Foi um sentimento tão verdadeiro que me permitiu retornar por você. – Expliquei. Não pareceu fazer sentido na hora, nem para mim nem para ele. Mas eu sorri e estendi minha mão para ele.

Agora a porta está aberta

E o mundo que eu conhecia esta quebrado

Não há como voltar atrás

Agora o meu coração não está com medo

Apenas sabendo que você está lá

Me observando

Então, acredite

– Venha... Nossa hora já passou faz muito tempo. – Sussurrei. Ele levantou-se e segurou minha mão. Eu sentia o peso da vida de Bella em mim. Sentia todas as suas lembranças e todos os seus sentimentos. Era como se tivéssemos sido costuradas e encaixadas uma na outra.

Eu vou estar aqui esperando

Torcendo

Rezando

Que esta luz vai guiar você para casa

Quando você estiver se sentindo perdido

Eu vou deixar o meu amor

Escondido no sol

Para quando a escuridão vier

Para quando a escuridão vier

– Como irei chama-la agora? – Ele perguntou risonho enquanto nossos corpos se levantavam indo em direção à luz.

– Boa pergunta. – Falei indecisa.

– Que tal... Bella Valentina?

– Gosto de como soa. – Murmurei.

– Minha Bella Valentina. – Ele disse sorrindo enquanto ultrapassávamos o meu antigo quarto. E definitivamente era a última vez que eu via o cômodo.

Sobre a cama estava o caderno que Zayd usara para me desenhar. E lá o desenho que ele fizera. Estava perfeito, como imaginei que ficaria. Meu rosto arredondado, os cabelos negros, compridos e ondulados emolduravam meu corpo. Eu estava sentada com as pernas cruzadas e ele capturou bem o sorriso. Eu gostara da arte e a guardaria na memória. Fitei Zayd com um sorriso e dei um beijo em sua bochecha. Bem abaixo do desenho a assinatura dele se destacava. Ps: Z’.

Notas finais
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Você chegou ao fim do livro. Parabéns!