Príncipe das Areias
2 Capítulo 1 - Um novo Príncipe
Notas iniciais
No ano de 1318 Antes de Cristo, após o declínio de Ay, tornado faraó por casamento com a rainha egípcia, Ankhesenammun, irmã e viúva do lendário Tutankhammun, Ammonra, o justo, o misericordioso, o faraó dos faraós, defensor do povo egípcio, o comunicador dos deuses no mundo terreno, ascende ao poder.
Ammonra reinara durante vinte e cinco anos, e por vinte e cinco anos fora lembrado pela sua crueldade perante os injustos, os seus castigos na face dos traidores, e os seus louvores para com os verdadeiros merecedores de glória.
Depois de longos anos de dureza e justiça, o reinado de Ammonra aproximava-se rapidamente do final. Às portas da morte, um faraó já ancião aguardava a chegada do seu único filho, Ammun, um jovem de dezassete anos, de carácter forte e que, certamente, mostrar-se-ia um fiel servidor dos deuses no mundo terreno.
O jovem, embargado pela doença do seu pai, aproximou-se das largas portas do quarto, esculpidas em ouço maciço, com hieróglifos que ilustravam a longa linhagem de faraós que lhe predecesseram, desenhados com mestria e perfeição ao longo da larga e frondosa porta.
Os guardas autorizaram a passagem ao jovem Ammun, retirando-se com vénias discretas ao longo da abertura das portas.
— Meu pai— Chamou o rapaz, aproximando-se nas suas vestes de linho e cabelos longos, à medida dos seus largos ombros masculinos – Solicitou minha presença— Acrescentou, o tom na sua voz indicando que tal não se tratava de uma pergunta, mas sim da constatação de um facto.
Ammonra ergueu os olhos do seu leito, fitando longamente o seu filho, o seu herdeiro, o sucessor daquela que esperava vir a ser uma longa dinastia de faraós, gravada eternamente nos anais da história.
— Ammun, como você sabe, em breve os deuses me chamarão para junto de si. E, como tal, serei, como qualquer mortal, chamado a provar que seguira a maet em vida, e será a deusa a pesar o meu próprio coração. Será da próxima vida que observarei todos os teus passos, e que olharei por você enquanto rei e líder do nosso grande povo. Mas antes, há uma mais tarefa de que te quero encarregar.
Com um assentimento de cabeça, Ammun concordou, aproximando-se de uma das laterais da cama.
— Di-lo, e será feito, meu pai.
— Ammun, a nossa linhagem deverá manter-se pura. Assim, é meu desejo e minha ordem, assim que vejas cumpridas todas as tuas obrigações fúnebres para comigo, que desposes de imediato a filha de uma de minhas mulheres, e que ambos produzam herdeiros fortes e saudáveis em meu nome, e para agrado dos deuses.
O jovem pareceu perplexo, não compreendendo as palavras do pai. A única mulher do faraó, a rainha Isíris, grande rainha e senhora da XVIII dinastia do Egito, morrera ao dar à luz Ammun, pelo que ele não poderia ter nenhuma irmã trazida pelos deuses.
— Meu pai— Falou Ammun, novamente – Fa-lo-ia, de bom grado, mas...
Ammonra compreendeu a estranheza do rapaz. Era um homem feito, jovem, saudável, bem treinado nas artes do combate, mas desconhecedor das necessidades e deveres de um faraó.
— Quando a hora de Isíris terminou neste mundo, tomei como minha uma camponesa do grande oásis de Dhakla, no Alto Egito. Deitei-me com ela e desse enlace resultou uma criança, uma jovem que julgo não ser nem dois anos mais jovem que você. É minha última vontade, e ordem como faraó e pai, que vás ao seu encontro, e com ela te cases.
(…)
Ammun saiu do quarto, se cruzando no largo corredor do palácio com o Vizir Real, um ancião que servira Ammonra durante todo o seu longo reinado, um homem de profundos conhecimentos e sabedoria sem precedentes. Conhecera Ammun desde bebé, e educara-o para ser um fiel servidor da vontade dos deuses. Era um homem alto, imponente, de cabelo rapado e olhos penetrantes. Seguia as reuniões de paz e de guerra, e era nele que Ammonra confiava para o aconselhar nas decisões mais difíceis.
— Ah, Vizir— Chamou o jovem, ao que o ancião imediatamente suspendeu a sua marcha – Mesmo quem eu desejava ver.
— Em que posso servir-vos, meu príncipe?
— Vinde, conversaremos lá fora.
Os dois encaminharam-se para o largo terraço do palácio, de onde o faraó se dirigia ao povo, de onde tinha vista para toda a cidade de Tebas, onde o próprio Tutankhammun mandara erguer dois tronos, um para si e outro para a sua rainha. Ammun tomou um lugar nos braços de um dos tronos, aquele que, um dia, seria destinado a si pelos deuses, ao passo que o Vizir permaneceu de pé.
— Chegaram até mim notícias perturbadoras— Esclareceu o jovem, ainda tentando retirar sentido moral das palavras do seu pai. As ordens do faraó não deveriam ser contestadas, mas sim seguidas com rapidez e rectidão, mas Ammun ainda não tinha sido capaz de processar a notícia sobre uma irmã que nunca antes conhecera – O meu pai ordenou-me que, como seu último desejo em vida, viajasse até Dahkla afim de encontrar a filha de uma camponesa, e que a deverei aceitar como minha irmã e minha rainha, quando me tornar faraó.
O Vizir limitou-se a assentir, sem dar quaisquer mostras de surpresa, indignação ou um mínimo sentimento de estranheza. Por isso, Ammun prosseguiu.
— Não achais estranho?
O Vizir clareou a voz.
— De facto, não, meu príncipe. Poderá, de facto, parecer-lhe algo até invulgar, mas acredite-me: é costumário, e até aconselhado pelos Altos Sacerdotes do nosso grande povo, que um faraó assegure descendência através dos meios que considerar adequados. Perante a perda da grande rainha Isíris, senhora do nosso povo, o faraó tomou por meios assegurar mais um elo de ligação consigo mesmo e com este palácio, na pessoa da irmã a quem vos referistes.
— Dizeis que devo, portanto, encontrar essa jovem e desposá-la?
— Se foram esses os desejos do seu pai…
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