Príncipe

1 O fim chega


Ela estava lá. Parada. Imobilizada em todos os lugares possiveis. Ele também estava lá. Parado. Em choque.

Ninguém acreditaria se ele contasse o que viu. Ninguém acreditaria nele, se contasse o motivo da provável morte dela. Iriam chama-lo de louco, mentalmente instável, ou iriam culpa-lo. Mas ele sabia a verdade. Por mais que não quisesse, ele sabia. Ele estava com a garota sorridente, brincalhona, feliz, no banco do passageiro do carro dela. Estavam saindo já fazia alguns meses, ele iria pedi-la em namoro no jantar, imaginando que ela diria sim.

Mas algo estava na estrada. Algo não humano. Algo perigoso. algo com garras talvez, ele não saberia dizer, ele só sabia que tinha algo lá. Talvez fosse sua visão pregando uma peça, já que estava escuro, e chovendo muito.

Os policiais disseram que era comum acontecer acidentes em dia de chuva. Mas ele sabia que não foi um acidente, foi intencional.

Algo ou Alguém, queria atingi-lo. pelo visto, tocaram na ferida mais profunda.Ele não queria ver ninguém, não queria conversar, só queria refletir, e tentar ver qual era o motivo de tanta perseguição.

Como se fosse uma resposta, suas lembranças voltaram à casa onde ele viveu até os 6 anos de idade.

"você não é normal! você é um monstro" seu meio irmão gritava "que tal voltar ao inferno, que é de onde você veio?" O garoto alto e loiro continuava gritando.
Ele sabia.

Seu meio irmão sabia.

Seu pai não sabia, mas desconfiava.

Sua madrasta não sobreviveu tempo suficiente para saber.

Sua mãe também não.

Ela, nem sonhava com algo do tipo.

Horas depois, o corpo dela foi levado ao necrotério, mas antes do corpo partir, ele deu uma ultima olhada. Ele procurou o sorriso, a pele bronzeada e quente, a voz gostosa e doce. Mas não viu. viu apenas uma figura pequena e pálida, ensanguentada de sangue dela própria e do "Algo", que os médicos nunca iriam descobrir.

Chegando em casa, ele sentiu o peso do céu desabar em suas costas. Culpa, dor, Infelicidade, dor, medo, dor, saudade, dor. E assim foi por cerca de uma semana. Ele não saia de casa, não tinha contato com pessoas, não bebia água nem comia. estava esquelético, tinha perdido o brilho dos olhos e do cabelo.

Um més depois, foi ao cemitério. Ele queria vê-la, nem que por pouco tempo, mesmo que soubesse que isso iria faze-lo ficar com mais culpa, ele sentia como se tivesse que ir lá, despedir-se direito.

Ao chegar na lápide de mármore dela, onde se lia:" Aqui jaz o corpo vazio de Mia, pois sua alma estás conosco"Os olhos dele percorreram todo o tumulo, em busca de algo, mas nada encontrou.

Ele se sentou ao lado do tumulo, recostando-se com as costas nele. Inspirou o ar grosso e nebuloso do lugar. Expirou. Inspirou. Expirou. E assim ficou por muito tempo.

"Vamos, monstrinho, ninguém te quer aqui, você só trás dor e sofrimento para as pessoas ao seu redor, vá embora!" -Vozes gritavam em sua cabeça, trazendo como relâmpago lembranças que ele nem se recordava mais. "Saia! você não pertence à este mundo! tu és um monstro! uma anomalia!" As vozes insistiam. As lembranças foram ficando cada vez mais fortes e causavam dor de cabeça nele.

Ele se encolheu de frio quando uma brisa gelada e barulhenta passou, levando folhas e almas pelo ar. Seus pensamentos ficaram cada vez mais nebulosos, e ele sabia oque iria acontecer caso continuasse ali. Mas não conseguia se mexer, não queria.

Quase que num gesto imperceptível, suas mãos escorregaram para seu bolso esquerdo, e puxou o pequeno e brilhante objeto de lá.

Sua mão direita passava rapidamente a lâmina pelas cicatrizes recém fechadas do pulso esquerdo, formando uma poça de sangue ao redor de seus pés. Depois de um tempo, ele não sentia mais dor física, que pra ele era melhor que espiritual, não via nada além de borrões acinzentados, nem sentia cheiros, mas sabia que cheirava a ferro molhado.

Ele já não tinha mais força para continuar, largou a lâmina suja no chão, e se deixou cair para o lado.

Podia ouvir vozes sussurrando em seu ouvido, palavras de saudação.

Podia sentir arrepios causado por algo segurando seus braços.

Então ele ouviu. A voz que sempre lhe assombrava nos pesadelos. A voz que sempre lhe disse o que fazer em situações difíceis. A voz que lhe dizia para voltar. Mas ele não sabia pra onde.

"Finalmente,"A voz soava mais clara e próxima que das outras vezes." Eu tentei te ajudar de todas as formas, para voltar, mas eu não sabia como te dizer o que fazer, não sei se obedeceria ou tentaria outra coisa, mas vi que achou seu próprio método"A voz era grave e se mostrava autoridade. Uma autoridade muito aliviada.

"Que método? quem é você?"Ele queria perguntar, mas não sentia sua boca.

"que método? Oras, a morte, filho."Ele quis gritar e perguntar como ele havia o entendido, qual o motivo de chama-lo de filho, já que ninguém antes o chamara assim.

"Tudo no seu tempo".

A sensação de frio havia passado, ele estava quente, sentia-se forte.

Foi ai que ele ouviu.

A voz doce, que enchia seus sonhos mais pessoais.

A voz doce que lhe alegrava o dia. A voz, da pessoa que ele mais amava, e daria a vida por ela. Afinal, não foi isso que ele fez?

"Querido, você finalmente veio" Ela disse"Descobri que meu lugar é com você" Ele abriu os olhos, e a viu. Ela vestia um vestido branco que lhe caia perfeitamente, realçando seus seios, seus olhos castanhos e seus lábios. O cabelo solto e castanho, caia sobre os ombros, a pele estava rosada e ela estava descalça. Não podia ser real, NÃO era real. Mas ele sentiu seu cheiro, floral e amaciante. como ele sentiria seu cheiro se não fosse real?

Ela se aproximou e tocou-lhe nas bochechas, deixando-o arrepiado. Então ele se lembrou de quem era, e oque era.

"quero que seja minha, somente minha"Ele disse á ela, que respondeu com um beijo. A pele dela estava quente.

Ele ouviu murmurações de alegria ao seu redor e olhou. Seu choque foi grande, mas não foi maior ao reconhecer seu pai no meio das pessoas. Não o pai que lhe criou, mas seu pai de sangue, seu pai biológico. Como sabia disso ele não fazia ideia, mas tinha certeza.

Ele olhou para os lados e viu sua mãe sorrindo. Também viu sua madrasta sorrindo. Viu um tio que, quando ele era pequeno, lhe dava doces. Viu todas as pessoas de que ele gostava ali, reunidas para saudá-lo de volta.

Sim, agora ele sabia, aquele era seu lugar. Junto aos mortos. Tendo causado ou não a morte deles, somente pessoas que ele amava estavam ali. talvez ele realmente tivesse provocado elas, mas estava feliz. Pela primeira vez, estava realmente feliz e se sentindo completo.

Afinal, aqueles eram os mortos. E ele era o príncipe dos mortos.

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