Prova de Coragem

1 Encontros e apresentações


Notas iniciais
Primeiro capítulo, espero que vocês gostem. Se curtirem eu posto mais! P.S.: As partes em itálico são excertos do livro. Podem pular se quiserem.

Mansão Malfoy, 1997

Os dois homens apareceram do nada, separados por apenas alguns metros na estreita rua iluminada pela lua. Por um momento eles ficaram parados, com as varinhas apontadas para seus peitos, então, ao se reconhecerem, guardaram suas varinhas debaixo de suas capas e começaram a andar apressadamente na mesma direção. — "Novidades?" Perguntou o mais alto dos dois. — "As melhores." Respondeu Severo Snape. A rua era cercada à esquerda por pequenas amoreiras, e à direita por uma fileira de altos arbustos cuidadosamente podados. As longas capas dos homens balançavam ao redor de seus tornozelos enquanto caminhavam. — "Já pode ser demasiado tarde," disse Yaxley, suas feições arredondadas ficando fora de vista a medida que galhos desgarrados de suas árvores bloqueavam a luz do luar. "Foi um pouco mais complicado do que eu imaginava. Mas eu acho que ele ficará satisfeito. Você está confiante de que a sua recepção será boa?" Snape concordou afirmativamente mas não se aprofundou no assunto. Eles viraram à direita, em uma larga garagem que dava acesso à rua. A alta fileira de arbustos continuava à distância, além dos impressionantes portões de ferro trabalhados que barravam o caminho dos homens. Em silêncio, ambos levantaram seus braços esquerdos numa espécie de cumprimento e atravessaram os portões, como se este fosse feito de fumaça. As amoreiras abafavam os sons dos passos dos homens. Ouviu-se um farfalhar à direita. Yaxley sacou sua varinha e apontou-a por cima da cabeça de seu companheiro, mas a fonte sonora provou-se ser apenas um pavão albino varrendo majestosamente de uma ponta a outra do topo do arbusto. — "Ele sempre fez bem a si mesmo, Lúcio, Pavões." Yaxley guardou de volta sua varinha debaixo de sua capa com um grunhido. Um belo casarão se destacava na escuridão ao final do caminho estreito, com luzes piscando nas janelas brilhantes do térreo. Em algum lugar no jardim escuro, atrás dos arbustos, uma fonte soava curta e grave abaixo de seus pés, enquanto Snape e Yaxley se apressavam em direção à porta da frente, que se abriu para dentro com a aproximação deles, embora não houvesse ninguém visível capaz de abri-la. O hall de entrada era grande, pouco iluminado, e suntuosamente decorado, com um magnífico carpete cobrindo a maior parte do chão de pedra. Os olhos dos retratos nas paredes seguiram Snape e Yaxley assim que eles passaram. Os dois homens pararam em uma pesada porta de madeira que levava à próxima sala, hesitaram pelo tempo de um pulsar de seus corações, até que Snape girou a maçaneta de bronze. A sala de estar estava cheia de pessoas em silêncio, sentadas em uma grande e ornamentada mesa. Os móveis costumeiros da sala foram empurrados bruscamente em direção às paredes. A iluminação vinha de uma fogueira estalante acesa em uma bela lareira de mármore cercada de um espelho banhado a ouro. Snape e Yaxley se demoraram por um momento na entrada. À medida que seus olhos se acostumaram à falta de luz, eles tomaram consciência do detalhe mais estranho da cena: uma figura humana aparentemente inconsciente, estava pendurada de cabeça para baixo acima da mesa, girando vagarosamente como se estivesse suspensa por uma corda invisível, refletida no espelho e na superfície polida da mesa abaixo. Nenhuma das pessoas próximas a essa situação singular estavam olhando para ela, exceto por um jovem pálido sentado praticamente abaixo dela. Ele parecia incapaz de evitar de olhar para cima de minuto em minuto. — "Yaxley, Snape," falou uma voz aguda e clara da cabeceira da mesa, "Vocês estão muito, quase atrasados." O interlocutor estava sentado diretamente à frente da lareira, de maneira que era difícil, a princípio, aos recém chegados, distinguir mais que sua silhueta. À medida que chegaram mais perto, no entanto, sua face brilhou através da penumbra, careca, um rosto ofídico, com rasgos estreitos no lugar de narinas e olhos vermelhos e brilhantes cujas pupilas eram verticais. Ele era tão pálido que parecia emitir um brilho perolado. — "Severus, aqui," disse Voldemort, indicando o assento imediatamente à sua direita, "Yaxley-ao lado de Dolohov." Os dois homens tomaram seus lugares definidos. A maioria dos olhares na mesa seguiam Snape, e foi com ele que Voldemort falou primeiramente. — "E então?" — "Meu Lorde, a Ordem da Fênix pretende tirar Harry Potter de seu atual lugar de segurança no Sábado, ao anoitecer." O interesse ao redor da mesa mudou perceptivelmente. Alguns enrijeceram, outros ficaram inquietos, todos olhando para Snape e Voldemort. — "Sábado,... ao anoitecer," repetiu Voldemort. Seus olhos vermelhos fitando os pretos de Snape com tanta intensidade que alguns dos observadores desviaram o olhar, aparentemente receosos que eles mesmos seriam atingidos pela ferocidade do olhar. Snape, no entanto, olhava calmamente no rosto de Voldemort, e após alguns momentos, a boca sem lábios de Voldemort se curvou no que parecia ser um sorriso. — "Bom, muito bom. E essa informação vem de-" — "-da fonte sobre a qual discutimos." disse Snape. — "Meu Lorde." Yaxley se curvou para frente para olhar para Voldemort e Snape. Todos os rostos se viraram para ele. — "Meu Lorde, eu ouvi outra coisa." Yaxley esperou, mas Voldemort não falou, então ele continuou. — "Dawlish, o Auror, deixou escapara que Potter não vai ser mudado de lugar até o dia 13, a que precede o aniversário de 17 anos dele." Snape estava sorrindo. — "Minha fonte me disse que há planos de dar um alarme falso; esse deve ser o referido. Não há dúvida que um Feitiço Confumdus foi posto em Dawlish. Não seria a primeira vez, ele é conhecido por ser suscetível a tais artifícios." — "Eu posso lhe assegurar, meu Lorde, que Dawlish parecia estar muito certo do que disse," disse Yaxley. — "Se ele está sob feitiço, obviamente ele vai parecer confiante." disse Snape — "Eu lhe garanto, Yaxley, que o escritório dos Aurores não vai desempenhar papel na proteção de Harry Potter. A Ordem acredita que nós estamos infiltrados no Ministério." — "A Ordem supõe uma coisa corretamente então, né?" disse um homem baixo e gordo sentado não muito distante de Yaxley, ele deu uma risadinha forçada que ecoou aqui e ali por toda a mesa. Voldemort não riu. Seu olhar havia se detido acima, em direção ao corpo que girava vagarosamente, e ele parecia perdido em pensamentos. — "Meu Lorde," Yaxley continuou, "Dawlish acredita que um esquadrão inteiro de Aurores vai ser usado para transferir o garoto-" Voldemort levantou uma grande mão branca, e Yaxley parou de uma vez, olhando amargamente à medida que Voldemort se virou para Snape. — "Onde eles vão esconder o garoto em seguida?" — "Na casa de um dos participantes da Ordem" disse Snape. "O lugar, de acordo com a fonte, recebeu toda proteção que a Ordem junto com o Ministério podem dar. Eu acredito que a chance de o pegarmos assim que ele estiver lá é pequena, meu Lorde, a não ser que o Ministério, é claro, tenha sido derrotado antes do próximo sábado, o que talvez nos daria oportunidade de descobrir e desfazer encantamentos suficientes para passar pelos restantes." — "Bom, Yaxley?" Voldemort chamou-o através da mesa, a luz do fogo refulgindo estranhamente em seus olhos vermelhos. "O Ministério será derrotado até o próximo Sábado?" Mais uma vez, todas as cabeças giraram. Yaxley ajeitou seus ombros. — "Meu Lorde, eu tenho boas notícias em relação à isso. Eu consegui — com grande dificuldade, e depois de muito esforço — lançar uma maldição Imperius em Plus Thicknesse." Muitos daqueles sentados em volta de Yaxley pareceram impressionados, seu vizinho de cadeira, Dolohov, um homem com uma grande e estranha face, deu um tapinha em suas costas. — "É um começo," disse Voldemort, "Mas Thicknesse é apenas um homem, Scrimgeour deve estar cercado de nossa gente antes que eu aja. Um atentado mau-sucedido à vida do Ministro, pode me retroceder um bom caminho. — "Sim — meu Lorde — isso é verdade — mas você sabe, como Chefe do Departamento de Aplicação das Leis da Magia, Thicknesse tem contato regular não somente com o ministro, bem como todos os chefes de departamento do Ministério. Será fácil, creio eu, agora que nós temos um oficial de ranking tão elevado sob nosso controle, subjugar os outros, e então eles podem todos trabalhar juntos para derrubar Scrimgeour." — "Isso se o nosso amigo Thicknesse não for descoberto antes que ele tenha convertido o resto," disse Voldemort. "Em qualquer ritmo, ainda continua sendo improvável que o Ministério seja meu antes do próximo sábado. Se nós não podemos alcançar o garoto em seu destino, então isso deve ser feito enquanto ele viaja." — "Nós estamos em vantagem aqui, meu Lorde." disse Yaxley, que parecia determinado a receber algum tipo de aprovação. "Agora nós temos muitas pessoas posicionadas dentro do Departamento de Transporte Mágico. Se Potter Aparatar ou usar a rede de Floo, nós saberemos imediatamente." — "Ele não fará nenhum dos dois," disse Snape. "A Ordem está evitando todo tipo de transporte que seja controlado ou regulado pelo Ministério, eles desconfiam de tudo que tenha a ver com o mesmo." — "Melhor ainda." disse Voldemort. "Ele vai ter que se mover em campo aberto. Mais fácil de pegá-lo, sem dúvidas." Mais uma vez Voldemort fitou o corpo que girava vagarosamente enquanto ele continuou — "Eu mesmo vou atrás do garoto. Já houve muitos erros no que diz respeito a Harry Potter. Alguns deles foram meus próprios. O fato de Potter viver se deve mais a meus erros do que aos seus triunfos." O grupo em volta da mesa observou Voldemort apreensivamente, cada um deles, através de sua expressão. com medo de serem culpados por Harry Potter continuar existindo. Voldemort, no entanto, parecia estar falando mais consigo mesmo do que para qualquer um deles, ainda atento ao corpo inconsciente acima dele. — "Eu não fui cuidadoso, e também fui frustrado pela sorte e pela chance, esses estraga prazeres de todos menos dos planos mais bem elaborados. Mas eu sei melhor agora, eu entendo coisas que eu não entendia antes, eu devo ser a pessoa que mata Harry Potter, e eu vou ser."

De repente, o olhar do Lord se direcionou a uma pessoa que vestia uma capa preta com capuz. Estava sentada no fim da mesa, perto de Nagini.

— Antes de começarmos a diversão, gostaria de lhes apresentar nossa mais nova colaboradora: Alice Zamora.

Todos os olhares viraram em direção à pessoa coberta pelo tecido preto. Lentamente o capuz caiu, mostrando uma face alva, de olhos cinza e cabelos castanhos.

— Obrigada por me permitir fazer parte do seu seleto grupo, Milord.

Nunca nenhum dos presentes ouvira falar daquela mulher, ou melhor, moça: aparentava estar saindo da adolescência.

— Você me foi muito bem recomendada – respondeu Voldemort. – Pelo que me contaram, era íntima do falecido Albus.

Muitos risos debochados podiam ser ouvidos.

— Procurei Dumbledore nos últimos anos pois ele era amigo dos meus pais, e eu intencionava que ele convencesse meus pais a me deixarem estudar em Hogwarts, onde toda minha família estudou. Mas eles acreditavam que eu estaria mais segura em Beauxbatons. Sabiam tão pouco... No final do ano passado, meu sexto ano na escola, eles morreram num assalto quando saíam de um bar em Hogsmeade. Hoje em dia sou emancipada, herdei uma boa quantia e finalmente conhecerei Hogwarts. Fico honrada que seja a Hogwarts do Lorde das Trevas, não daquele velho caduco amante de trouxas que nunca me ajudou.

Por algum motivo, Snape não acreditou na história contada pela menina. Ele sempre tivera a habilidade de saber quando alguém estava mentindo, e ele apostaria todo seu dinheiro que aquele papo era invenção. Respirou fundo e continuou prestando atenção naquele curioso diálogo.

— Seja bem vinda à nova era bruxa, minha cara. Acredito que você tenha a idade de Draco... Ele poderá lhe ajudar a descobrir as maravilhas do castelo.

Draco, que antes olhava diretamente para Voldemort, encarou o chão.

— Bom, sem mais delongas, continuaremos com a próxima atração da noite.

Com essas palavras, como que em resposta à elas, um repentino berro ressoou. um terrível grito profundo de miséria e dor. Muitos dos que estavam na mesa olharam para baixo, surpresos pelo som que parecia ter vindo debaixo de seus pés. — "Rabicho?" falou Voldemort, sem mudar o seu tom baixo e sóbrio, e sem tirar os olhos do corpo que girava acima, "Eu já não te falei sobre manter o nosso prisioneiro quieto?" — "Sim, m-meu Lorde," engasgou um pequeno homem na metade da mesa, que estava sentado tão profundamente em sua cadeira que a princípio parecia desocupado. Agora ele saltava de sua cadeira e disparava da sala, deixando nada mais atrás dele que um curioso brilho de prata. — "Como eu estava falando" continuou Voldemort, olhando mais uma vez para as tensas faces de seus seguidores. "Eu entendo agora, eu posso precisar, por exemplo, emprestar uma varinha de um de vocês antes que eu vá matar Potter." As faces à sua volta entraram em choque, ele pareceu ter anunciado que queria um braço de um deles emprestado. — "Sem voluntários?" disse Voldemort, "Vamos ver... Lúcio, eu não vejo razão para você ainda ter uma varinha." Lúcio olhou para cima. Sua pele parecia amarela e feita de cera sob a luz do fogo, seus olhos eram profundos e sombrios. Quando ele falou, sua voz estava embargada. — "Meu Lorde?" — "Sua varinha, Lúcio. Eu estou requisitando a sua varinha." — "Eu..." Malfoy olhou de lado para sua esposa. Ela estava parada logo à frente, quase tão pálida quanto ele, seu longo cabelo loiro caído em suas costas, através da mesa os dedos finos de sua esposa fecharam brevemente em seu punho. Ao toque dela, Malfoy pôs a mão em seu robe, sacou uma varinha e a passou para Voldemort, que a segurou em frente à seus olhos vermelhos, examinando-a atentamente. — "Do que ela é feita?" — "Ulmeiro, meu Lorde" sussurou Malfoy. — "E o núcleo?" — "Dragão — coração de dragão." — "Bom." disse Voldemort. Ele sacou sua própria varinha e comparou os comprimentos. Lúcio Malfoy fez um movimento involuntário, por uma fração de segundo, pareceu que ele esperava receber a varinha de Voldemort em troca da sua. O gesto não foi ignorado por Voldemort, cujos olhos apertaram maliciosamente. — "Te dar a minha varinha, Lúcio? Minha varinha?" Alguns dos presentes deram risadinhas. — "Eu dei a você a sua liberdade, Lúcio, isso não é o suficiente para você? Mas eu tenho notado que você e a sua família parecem menos que felizes. O que há com a minha presença em sua casa que o incomoda, Lúcio?" — "Nada — nada, meu Lorde." — "Tais mentiras Lúcio..." A voz suave parecia continuar a sair como um chiado de cobra, mesmo depois de a boca cruel ter parado de se movimentar. Um ou dois dos bruxos quase não seguraram um tremido assim que o chiado começou a ficar mais alto; alguma coisa pesada pôde ser ouvida deslizando através da mesa, embaixo dela. A cobra imensa emergiu e escalou lentamente a cadeira de Voldemort. Ela se levantou, aparentemente sem fim, e veio a descansar nos ombros de Voldemort. Seu pescoço da espessura da coxa de um homem; seus olhos, com seus orifícios verticais no lugar de pupilas, não piscavam. Voldemort tocando a criatura distraidamente com seus longos dedos, ainda olhando para Lúcio Malfoy. — "Porquê os Malfoy parecem tão infelizes com seu bando? Não é o meu retorno, minha ascensão ao poder, o que eles sempre proclamaram desejar por tantos anos?" — "Mas é claro meu Lorde," disse Lúcio Malfoy. Sua mão tremia enquanto ele secava o suor de seu lábio superior. "Nós desejávamos isso — nós ainda desejamos." À esquerda de Malfoy, sua mulher fez um estranho gesto de afirmação, seus olhos desviados de Voldemort e da cobra. À sua direita, seu filho, Draco, que esteve olhando o corpo inerte pendurado, olhou rapidamente Voldemort e desviou o olhar em seguida, aterrorizado com o contato visual. — "Meu Lorde," disse uma mulher morena na metade da mesa, sua voz modificada pela emoção. "é uma honra tê-lo aqui, na casa de nossa família. Não há honra maior que essa." Ela sentava ao lado de sua irmã, diferente dela na aparência, com seus cabelos negros e olhos de pálpebras pesadas, assim como também era diferente em seu comportamento; enquanto Narcissa estava sentada rígida e impassiva, Bellatrix estava curvada em direção a Voldemort, como se palavras não pudessem demonstrar o seu anseio por contato físico com ele. — "Não há prazer maior," repetiu Voldemort, sua cabeça virou um pouco para um lado enquanto ele analisava Bellatrix. "Isso significa muito, Bellatrix, vindo de você." Seu semblante se encheu de cor, seus olhos lacrimejaram de prazer. — "Meu Lorde sabe que eu falo nada além da verdade!" — "Não há prazer maior...mesmo comparado com o evento feliz que eu fiquei sabendo que aconteceu com a sua família essa semana?" Ela o fitou, seus lábios partidos, evidentemente confusa. — "Eu não sei do que você está falando, meu Lorde." — "Eu estou falando da sua sobrinha, Bellatrix. E sua também, Lúcia e Narcissa. Ela acabou de se casar com o lobisomem, Remus Lupin, vocês devem estar tão orgulhosos." Houve uma erupção de gargalhadas desrespeitosas ao redor da mesa, muitos se curvaram para a frente para uma troca de olhares contentes, alguns bateram na mesa com seus punhos. A grande cobra, não gostando da bagunça, abriu a sua boca exageradamente e chiou nervosa, mas os Comensais da Morte não prestaram atenção, embriagados de felicidade pela humilhação de Bellatrix e dos Malfoy. O rosto de Bellatrix, recentemente inundado de felicidade, ficou rubro. — "Ela não é nossa sobrinha, meu Lorde." ela gritou em meio à balbúrdia, "Nós — Narcissa e eu — nunca colocamos os olhos em nossa irmã depois que ela se casou com o sangueruim. Aquela peste não tem nada conosco, e nem a besta com a qual ela se casou." — "E o que você diz, Draco?" perguntou Voldemort, e apesar de sua voz ser baixa, ela passou claramente por todo o barulho e excitamento, "Você vai ser babá dos filhotinhos?" A hilaridade tomou conta; Draco Malfoy olhou em terror para seu pai, que estava olhando para seu próprio colo, e depois cruzou o olhar com o de sua mãe. Ela balançou sua cabeça imperceptivelmente, então voltou a olhar liturgicamente para a parede oposta. — "Já basta." disse Voldemort, acariciando a cobra raivosa, "Já basta" E as risadas pararam de uma só vez. — "Muitas de nossas mais tradicionais árvores genealógicas se tornam um pouco doentes com o passar do tempo," ele disse enquanto Bellatrix olhava para ele, sem fôlego e implorando. — "Vocês devem podar as suas, não devem, para mantê-las saudáveis? Cortar fora aquelas partes que ameaçam a saúde do resto." — "Sim, meu Lorde." sussurou Bellatrix e seus olhos se enchiam de lágrimas de gratidão novamente. "Na primeira chance!" — "Você a terá" disse Voldemort. "E em sua família, assim como no mundo...nós vamos cortar fora a praga que nos infesta até que somente os sangue-puro restarão..." Voldemort levantou a varinha de Lúcio Malfoy, apontou ela diretamente para a figura que rodava vagarosamente, suspensa acima da mesa, e deu um pequeno giro. A figura voltou a vida com um grunhido e começou a lutar contra barreiras invisíveis. — "Você reconhece nosso convidado, Severo?" perguntou Voldemort Snape ergueu seus olhos para o rosto virado de cabeça pra baixo. Todos os Comensais da Morte estavam olhando para o prisioneiro agora, como se lhes tivesse sido dada a permissão para demonstrar curiosidade. À medida que girava para encarar a luz do fogo, a mulher disse em uma aguda e aterrorizada voz. — "Severo, me ajude!" — "Ah sim," disse Snape enquanto a prisioneira virava de devagar de volta. — "E você, Draco?" perguntou Voltemort, acariciando o focinho da cobra com a mão livre. Draco concordou com sua cabeça de maneira boba. Agora que a mulher havia acordado, ele parecia ser incapaz de continuar olhando para ela. — "Mas você não fazia disciplina dela," disse Voldemort. "Para aqueles que não sabem, nós estamos reunidos aqui hoje à noite, por Charity Burbage que, até recentemente, lecionava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!" Houve pequenos barulhos de compreensão ao redor da mesa. Uma mulher brega, de dentes pontudos gargalhou. — "Sim...Professora Barbage ensinava às crianças bruxas tudo sobre os trouxas... como eles não são muito diferentes de nós..." Um dos Comensais da Morte bateu no chão. Charity Burbage girou a ponto de fitar Snape novamente. — "Severus...por favor...por favor..." — "Silêncio," disse Voldemort, com mais um movimento com a varinha de Malfoy, e Charity ficou em silêncio como se tivesse sido calada. "Não contente em corromper e poluir as mentes das crianças bruxas, semana passada, a Professora Burbage, escreveu uma apaixonada defesa sobre os sangue-ruins no Profeta Diário. Os bruxos, ela diz, devem aceitar esses ladrões de seus conhecimentos e magias. A diminuição dos sangue-puros é, diz a Professora Burbage, uma circunstância mais que desejável... Ela faria todos nós casarmos com trouxas... ou, não duvido nada, com Lobisomens..." Ninguém riu dessa vez. Não havia como não discernir a raiva e o desprezo na voz de Voldemort. Pela terceira vez, Charity Burbage girava e fitava Snape. Lágrimas saíam de seus olhos e escorriam em seus cabelos. Snape olhou de volta pra ela, praticamente impassível, enquanto ela girava para longe dele novamente. — "Avada Kedavra" Um flash de luz verde iluminou cada canto da sala. Charity caiu, com um barulho ressoante, na mesa abaixo, que rachou e quebrou. Vários dos Comensais da Morte pularam para trás em suas cadeiras, Draco caiu da sua própria cadeira e foi para o chão. — "Jantar Nagini" disse Voldemort suavemente, e a grande cobra rastejou de seus ombros em direção ao chão de madeira polido.

Todos se levantaram e tomaram diferentes caminhos. A maioria dos comensais aparatou sabe-se lá pra onde, enquanto os Malfoy e Bellatrix foram cada um para o seu quarto. Snape estava levantando-se para seguir seu caminho, quando foi interrompido por Voldemort.

— Severus... Esperei todos saírem porque tenho uma missão importante pra delegar a você. Fique.

Snape sentou-se novamente, ao lado de Voldemort. Percebeu então que a nova comensal também estava ali, um pouco distante dele. Ela vestia uma capa preta com capuz, um corselet magenta e uma saia preta. Seus olhos acinzentados o encaravam fundo, como se pudessem enxergar sua alma.

— Nossa nova colaboradora me fez um pedido quando veio a mim pela primeira vez, e como costumo premiar aqueles que me são úteis – ela foi, extremamente – resolvi conceder isso a ela. Alice ficará hospedada na sua casa, com você e rabicho, até o começo das aulas.

Quê? Aquela mulher, se é que se podia chamar uma pirralha de 17 anos de mulher, tinha pedido pra ficar na casa dele? Quando podia, e deveria, ficar na luxuosa Mansão Malfoy? Toda aquela situação parecia absurda pra Snape.

— Já fui informada – disse a garota, cuja voz parecia firme e mais adulta que sua aparência – que o professor Snape será o novo diretor. Espero que possa aprender com ele antes das aulas começarem.

— Sem dúvida – respondeu o Lord – gostaria que você ensinasse a ela um pouco de oclumência, Severus. Pois ela será nossa mais nova espiã dupla, já que você foi forçado a largar o posto graças a seu último serviço.

Era verdade: desde a morte de Dumbledore, Snape se tornara quase mais odiado pela Ordem da Fênix do que o próprio Voldemort. Antes disso, contava com a confiança de Dumbledore e por isso ninguém questionava suas intenções. Como aquela menina teria convencido a Ordem que estava do lado deles, sem Dumbledore pra certificar sua lealdade? Essas e muitas outras perguntas povoavam a mente do príncipe mestiço. Porém ele nada podia fazer: se o Lord das Trevas havia decidido que ela ficaria na casa dele, assim seria. E ainda teria que ensinar oclumência pra novata. Well, já tivera missões mais difíceis. Seria chato, mas teria que ser feito.

— Ficarei honrado em cumprir essa missão, Milord. Começaremos amanhã.

— Certo, Severus. Leve Alice pra sua casa, acomode-a e amanhã iniciará sua nova missão.

A morena simplesmente sorriu: um sorriso curto e discreto. Caminhou até Snape e segurou em seu braço para que pudessem aparatar juntos. E assim o fizeram.

—

Rua da Fiação, alguns minutos depois

Desaparataram na sala, e logo Alice deu uma observada geral no ambiente. Haviam muitos livros, um caldeirão sobre uma mesa e três poltronas que pareciam ser mais velhas que ela.

— O quarto de hóspedes é a segunda porta à esquerda – ele apontou para um corredor escuro. – Mas antes, sente-se. Gostaria de um pouco de vinho dos elfos?

A intenção dele era descobrir um pouco mais sobre aquela jovem mulher, sem despertar suspeitas, afinal até onde ele sabia ela acreditava que ele era um leal comensal do mais alto escalão.

— Claro, muito obrigada. É minha bebida preferida. – Disse ela, sentando-se na poltrona mais escura.

A luz do luar e um pequeno candelabro iluminavam o aposento. Snape abriu a garrafa com a varinha, num suave movimento. Duas taças saíram da cristaleira e flutuaram até onde ele estava. Depois, uma se dirigiu às mãos de Alice e a outra foi pega no ar por Snape.

— Então, me diga... de onde seus pais conheciam Dumbledore?

— Posso te chamar de Severus enquanto estamos fora da escola? Afinal, aqui somos companheiros...

— Ah, sim, se você faz questão, pode me chamar pelo primeiro nome, Alice.

— Então, Severus: tenho algumas coisas a te contar.

O professor logo pensou que ela lhe diria a verdade sobre a história de sua família, pois não engolira aquele papo de assalto em Hogsmeade. Se isso tivesse ocorrido, certamente teria saído em alguma publicação do Profeta Diário, e ele não lembrava de ter lido sobre nada parecido.

— Vá em frente, sou todo ouvidos. – Ele disse, de maneira calma e fria.

— Bem, na verdade meus pais nunca conheceram Albus Dumbledore. Eu recorri a ele através de uma carta, no final do ano passado, poucas semanas antes dele morrer. E, não vou dar detalhes, mas ele confiou em mim quase que de imediato. Então me contou que já estava morrendo, que você o mataria pra ganhar de vez a confiança do Lord das Trevas. E, bom... estou ciente da sua motivação para querer a derrota do Lord. Eu sei sobre Lily.

Snape engoliu em seco. Nem para os mais antigos participantes da Ordem Dumbledore havia revelado o segredo de Snape. Como assim aquele velho fofoqueiro entregara sua maior fraqueza a uma semi desconhecida? Aquela história só piorava. O professor deixou a incredulidade se revelar em sua expressão facial.

— E eu te apoio, Severus. Estou do seu lado.

— E qual seria o meu lado? – agora se mostrava extremamente incomodado. Virou o resto do vinho em sua garganta. – Acho que a senhorita está se superestimando.

— Qualquer que seja. Meu lado nessa guerra é o seu. Minha missão, meu objetivo, é te proteger. E Dumbledore entendeu isso. Inclusive... ele deixou uma carta comigo. Uma carta pra você.

Alice abriu a pequena bolsa, que provavelmente estava encantada pra ter um fundo infinito, e tirou um pergaminho amarelado.

— Ó. Se você não confia em mim, talvez confie no seu chefe.

Ainda descrente do que acabara de ouvir, Snape pegou o papel e começou a ler.

“Caro Severus,

Quando estiver lendo isso, eu há muito terei partido. Talvez você se pergunte o porquê de eu não ter te dito o que vou dizer nesta carta­­ quando estava vivo, mas a resposta é que ainda não tenho certeza que meu plano funcionará. Se você recebeu essa carta, é porque funcionou.

Você deve confiar em Alice Zamora. Não posso revelar meus motivos pra considerá-la digna de tanta consideração, mas um dia você saberá. Na hora certa. Digamos que ela entende sua motivação pra estar contra Voldemort, e possui uma bem parecida.

Mantenha-a próxima de você, o que creio que não será difícil. Um dia você terá todas as respostas, confie no seu velho Dumby.

Boa sorte!”

Albus Dumbledore

— Isso tudo é muito, muito esquisito, srta. Zamora...

— Pode continuar me chamando de Alice.

— Que seja, Alice. Como espera que eu confie em você sendo que tudo que ouvi você dizer há algumas horas era mentira?

— Você também mente para o Lord das Trevas. Sabe como é difícil, devia me parabenizar por conseguir tal feito. Achei que a palavra de Dumbledore fosse o suficiente pra você confiar em mim.

— Ah, mas não é. Dumbledore estava velho e meio delirante, a palavra dele não é das mais confiáveis na minha opinião, apesar dele ser o bruxo mais poderoso que já existiu. Primeiramente, vamos começar do começo: de onde você veio?

— Essa informação faz parte daquilo que você ainda não pode saber, Severus. A única coisa que você precisa entender sobre mim é que eu sou uma bruxa poderosa e bem treinada, e que estou ao seu lado. Considere-me sua guarda- costas.

Snape bufou.

— Mas era só o que me faltava. Uma pirralha querendo cuidar de mim. Sobrevivi todos esses anos enganando o bruxo mais perigoso de todos e agora você e Dumbledore acreditam que eu preciso de proteção? De uma menina de 17 anos?!

— Você ficaria chocado se soubesse tudo que essa menina já passou. Mas já que não confia em mim, faça um teste. – disse Alice, levantando-se da cadeira e empunhando sua varinha.

— Quê? – perguntou um desorientado Snape.

— Tente duelar comigo. Pra valer.

O professor soltou uma risada contida.

— Ah, por favor. Eu acabaria com você em cinco minutos ou menos.

— Tente! Vamos lá!.

Snape também empunhou a varinha e pensou: “vou começar de leve”.

— Expelliarmus! – bradou Severus.

Sem precisar abrir a boca, Alice ergueu a varinha e o feitiço ricocheteou.

— C’mon, it’s too easy. Go hard on me.

Ela possuía um olhar provocante, que parecia invadir a mente de Snape. Mas não poderia, afinal ele era um mestre na arte da oclumência.

— Reducto!

Mais uma vez, sem dizer uma palavra, ela fez um movimento curto com a varinha e o feitiço novamente ricocheteou.

— Tente você. Vamos, me ataque. – ele disse, tentando não se mostrar surpreso com a facilidade com a qual ela se livrava dos seus feitiços.

Alguns instantes antes dele terminar a palavra “ataque”, ela lançou um expelliarmus e a varinha dele voou longe.

— Isso foi só um golpe de sorte...

— Não quero machucar você, Severus. Meu objetivo é possuir sua confiança. Você deve estar cansado, continuamos amanhã.

Apesar de considerá-la uma pirralha pedante, aquela garota lhe despertara sentimentos dúbios. Era incrivelmente atraente, com seus olhos acinzentados e seios que pareciam querer pular pra fora do corpete. Mas era pedante, e esse era um dos defeitos que Snape mais odiava.

— Certo. Leve sua mala para o quarto de hóspedes que te indiquei. O café da manhã é às 9h.

— Estarei aqui. – ela piscou com o olho esquerdo – Até amanhã, professor.

O jeito como ela pronunciara a última palavra fez Severus se arrepiar. Estava levemente envolvido com o jeito seguro e misterioso da garota, mas não se deixaria descobrir. Seria um muro de pedra diante dela, que teria que fazer muito mais que desarmá-lo e conquistar Dumbledore pra receber sua confiança. Mas sua mente estava totalmente entregue à aura de suspense que envolvia Alice. Para se livrar dos pensamentos inquietantes, preparou uma poção que lhe daria um sono neutro, sem sonhos ou pesadelos, e foi dormir, curioso sobre como seriam os próximos dias.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.