Protège-moi
1 Capítulo Único
Notas iniciais
E espero que os demais que lerem também gostem. Have fun~
Meus olhos perdiam-se naquelas palavras, as quais eu já havia devorado inúmeras vezes antes. Entretanto, eu não conseguia manter-me realmente concentrado no que lia, pois ruídos altos, que só depois identifiquei como urros, desviavam minha atenção.
Fechei o livro, pondo o de volta na maleta e me dirigindo ao pátio central do colégio, que era de onde os gritos pareciam vir.
Uma multidão de alunos formava um círculo, e a palavra “briga!” era repetida com entusiasmo. O que raios acontecia...?
Tentei passar por dentre as brechas de algumas pessoas, até então chegar na frente do show que causara aquele caos todo. Ruki, um aluno do segundo ano, estava deitado no chão, e perto de si, uma pequena poça de sangue parecia ter sido expelida por seus lábios. Ele deveria ter levado um murro no estômago, para chegar a isso.
Quando olhei para o real motivo daquilo tudo, vi Uruha, um garoto do terceiro ano e namorado de Ruki, o que acabara de desferir um soco na face do moreno a sua frente. O meu espanto não era de ver que Aoi quem havia arrumado a confusão, e sim que não conseguira desviar do murro que o loiro lhe dera. Afinal, Yuu era um dos meninos mais briguentos do colégio, e porradaria era quase seu sobrenome.
Reita, amigo de Uruha e também do terceiro ano, tentava apartar a briga, entretanto, sem sucesso.
Eu não tinha escolha se não entrar ali no meio e tentar ajudar, também. Afinal... Era o Aoi quem estava ali.
- Por favor, pare, Uruha. – Pedi, metendo-me na frente de Aoi. – Eu acho que já foi o suficiente para vingar o que quer que seja que Aoi tenha feito ao Ruki, não?
- Tsc. – O loiro revirou os olhos. – Não chegou nem perto.
- Ao invés de continuar nessa briga sem fundamento, por que não o leva ao posto médico? Se está querendo ajudá-lo, não está fazendo da maneira certa.
Neste momento, eu pude ver a dor refletir nos olhos verdes de Uruha quando ele virou o rosto para olhar Ruki, sentado no chão com os braços em volto da cintura e os lábios sujo de sangue.
O loiro não disse mais nada, só pegou o menor no colo e abriu o caminho pela multidão que se dissipava aos poucos.
- Obrigado. – Disse o outro loiro que possuía uma faixa sobre seu nariz, constrangido. – Achei que não ia conseguir acabar com isso nunca.
- Sem problemas. – Sorri, e pude ver um pouco mais de rubor adornando sua face. Acabei por sentir a minha própria esquentar um pouco.
Ele então se retirou, timidamente, e meus olhos só pairaram em uma pessoa quando me virei. Aoi estava com seu corpo bem próximo do meu, e eu não fazia ideia de que tinha me intrometido tão perto de si. Sua respiração batia como uma brisa gentil em meu rosto, e isso fez com que todo meu corpo desconsertasse-se em um arrepio, algo como uma corrente elétrica que percorrera cada célula.
Seus olhos negros esbanjavam fúria, mesmo que a expressão impassível de sempre contornasse sua face. Os lábios grossos estavam ainda mais inchados e um filete grosso de sangue ainda escorria pelo canto destes.
- V-Você também deveria ir ao posto médico. – gaguejei, sentindo todo o meu sangue dirigir-se para as minhas bochechas. Eu detestava quando ele me olhava assim; seus olhos pareciam ler-me.
- Tsc. – Ele virou de costas para tomar seu rumo, entretanto, acabou por cair com um dos joelhos no asfalto. Uruha tinha lhe batido para valer.
Eu agachei ao seu lado, pondo seu braço sobre meus ombros, e fazendo força novamente com os joelhos para levantar-me.
- Acho melhor eu te levar pra casa. Entrar com você no posto médico na companhia do Uruha não é uma boa ideia.
Ele não disse uma palavra sequer, nem mesmo quando eu tive que pedir autorização à direção para poder levá-lo, mas ao menos ele me deixou acompanhá-lo até em casa sem reclamar. Eu não me sentia desconfortável em fazer isso, só um pouco esquisito. Era o Yuu... Ter um contato físico assim com ele depois de tanto tempo, era uma coisa que me deixava um pouco constrangido, apenas.
Entretanto, seus lábios manchados com aquele sangue seco estavam me dando agonia. Quando chegamos num parque perto do colégio, pedi gentilmente para que ele se sentasse em um dos bancos para que eu pudesse apenas limpar o seu ferimento. E ele aceitou, depois de muito reclamar e dizer o quanto isso era inútil.
Eu sabia que ele me analisava enquanto eu estava agachado a sua frente, procurando pelo meu estojo de primeiros socorros.
- Por que está fazendo isso? – indagou, repentinamente. – Hnm. Acredito que não seja para nada mais, tirando manter sua pose de bom moço no colégio, não? – O sorriso sarcástico que formara em seus lábios fez com que eu me enfezasse. – Não precisava.
- O murro que o Uruha te deu no rosto foi tão forte que te fez ter um lapso de memória? Ou você apenas esqueceu que, um dia, já fomos melhores amigos?
Aoi não respondeu, apenas virou o rosto. Seu orgulho era tão imenso, que eu quase o sentia como uma barreira energética que o envolvia.
Abri o estojo, procurando pelo algodão e pelo pequeno vidro com soro fisiológico e iodo.
- Por que raios você carrega um estojo de primeiros socorros na sua pasta? – Perguntou. Sua voz possuía um tom de desdém que eu já estava acostumado.
- Para quando idiotas como você se meterem em encrenca desnecessária, eu poder fazer alguma coisa para ajudar. – rebati simplesmente, limpando o ferimento de seus lábios com cuidado.
Yuu não moveu um dedo enquanto eu arrastava o algodão por sua boca, porém... Seus orbes negros mantinham se firmes analisando-me, observando minhas atitudes. Não consegui evitar que minhas bochechas ficassem ruborizadas. Seu olhar sempre me causara a mesma sensação, e eu recordava bem desta. Era algo como borboletas batendo as asas nas paredes de meu estômago, arrepios eriçando cada pelo meu, até o último fio de cabelo. Tudo isso por apenas ter o peso de seus ônix me admirando.
- Pronto. – disse por fim, enquanto já guardava os potes com os medicamentos.
- Por que é tão altruísta? As pessoas costumam se aproveitar disso. – comentou, enquanto passava novamente o braço sobre meus ombros para levantar-se. Eu dei de ombros.
- Eu quero ser um médico. E quando se é um médico, você não se importa se o indivíduo que está na maca é um assassino ou um salvador. Seu objetivo é apenas salvar a vida dele. E se uma vida puder ser salva, eu vou dar o meu melhor para que isso aconteça. – respondi, apenas. Meus olhos perdiam-se no sol que já se punha no horizonte que não podíamos enxergar pela quantidade abundante de prédios. – E de qualquer maneira, se uma pessoa tira vantagem de outra, é porque acredita que é incapaz. E eu tenho a consciência de que, se eu quiser fazer a diferença, eu vou conseguir por mim mesmo, não passando a perna nos outros.
- Hnm. – resmungou em resposta.
- E a propósito – eu não pude deixar de sorrir com a lembrança. – Você mesmo fazia isso quando éramos crianças, quando íamos comprar sorvete. Você sempre me convencia a comprar outro quando só restava um do que nós dois gostávamos. E eu sempre aceitava, porque se vinha de você, é porque o que dizia tinha de ser verdade.
Pela primeira vez depois de tanto tempo, eu o vi esboçar um sorriso. E apenas por isso, eu pude ver que aquele não parecia ser um dia perdido. Mesmo que eu não pudesse dizer metade das coisas que eu desejaria contar a Aoi.
Finalmente, depois de passos lentos e de uma caminhada muda, eu conseguira deixar Yuu em casa. Ele olhava-me, pondo as mãos nos bolsos ao apoiar-se na lateral de sua casa.
- Obrigado... pelo seu esforço. – Não consegui conter minha surpresa ao vê-lo me agradecer. Às vezes esquecia que mesmo sendo presunçoso, Aoi era grato às coisas que faziam por ele, mesmo que relutasse de vez em quando.
- Não se preocupe. – Sorri em resposta. – Bom, acho que você está fora de perigo, agora. Até mais, Aoi-kun.
Eu me virei para ir embora, entretanto, quando mencionei dar meu primeiro passo, sua voz me assaltou de repente.
- Então... você sempre se preocupou comigo da mesma forma que se preocuparia com qualquer outro, não? – Eu me virei, confuso. Mas o meu sorriso se mantinha.
- Não. Com você eu sempre tive o dobro de preocupação. – E pela milionésima vez no dia, eu senti meu rosto esquentar. – Eu sempre tive medo de te perder. E ainda tenho.
- Eu acho que nunca entendi o motivo de você ser tão altruísta. – Yuu respondeu, aproximando-se de mim sem a menor dificuldade, parecendo ignorar minhas palavras. – E acho que nunca vou entender.
E assim, seu corpo estava quase colado ao meu. Seus orbes negros eram fixos em meus olhos, e eu mal conseguia distinguir minhas reações. Além das borboletas e dos arrepios, não conseguia desviar o olhar do seu, e minha face queimava e as palmas de minhas mãos suavam.
O seu sorriso, o qual eu não via desde criança, estava lá; lindo e vívido como eu possuía em minhas recordações. Era o sorriso que fazia meu corpo tremular por inteiro.
- Mas entendo que... o motivo de você sempre ter ficado ao meu lado, ser o mesmo que o meu.
Suas duas mãos, de súbito, envolveram a minha nuca, e após isso, eu apenas senti o calor de seus lábios envolto nos meus, e o leve gosto de remédio em minha língua quando as nossas se entrelaçaram. O sabor de sua boca... o qual eu nunca imaginaria que um dia sentiria, era desigual. Seus dedos arrastavam por meu rosto e pescoço numa carícia delicada, e quando me dei conta, meus braços envolviam seu tronco, fazendo nossos corpos se encostarem por completo.
- E eu só te convencia a comprar o outro sorvete, porque eu gostava de admirar a sua expressão constrangida e em seguida o sorriso reluzente que você dirigia a mim quando assentia. – respondera ele em um murmúrio. Nossos lábios estavam apenas a milímetros de distância – que logo deixaram de existir quando sua boca voltou a buscar pela minha.
Nesse dia, eu não salvara apenas a vida de Aoi. Havia salvado, também, a minha própria.
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