Notas iniciais
~~ Boa Leitura

Peter não precisou olhar para Ned para saber que o mesmo estava lhe encarando, podia sentir o peso em seus ombros. Um sorriso já estava firmemente enraizado em seu rosto quando ele decidiu olhar de soslaio para o amigo. Como o esperado, Ned parecia surpreso; com os olhos arregalados e a boca entreaberta.

Ele parecia sem palavras, apenas plantado ali de pé, lhe encarando como se Peter fosse uma espécie de fantasma.

— Você... é filho do Tony Stark? — Foi a primeira coisa que ele disse depois de quase um minuto inteiro calado. Não era exatamente uma pergunta, mais uma afirmação para si mesmo de que isso era real. Ele deu um passo para trás apenas para ganhar distância e analisar Peter dos pés à cabeça com cuidado.

Ele parecia estar procurando por alguma coisa, e Peter sabia perfeitamente o que era — a semelhança entre ele e Tony, que era perceptível em vários aspectos. O jovem aranha deveria ter se sentido desconfortável, mas era impossível já que apenas o rosto de Ned era engraçado demais e ele sentiu vontade de rir em vez disso.

Não havia mais aquela tensão, aquele medo estranho, por mais que ele soubesse que muita coisa estava por vir, o pior já parecia ter passado. Peter sorriu para o amigo e depois acenou com veemência — apesar de que a essa altura, nem fosse preciso confirmar. Havia um estranho orgulho em seu peito, mesmo que ele não soubesse dizer exatamente sobre o que era.

Se era orgulho de si mesmo, da situação ou por ter finalmente chegado até aqui, ainda inteiro.

Peter sentiu como se tivesse tirado um enorme peso de seus ombros, tanto que ele se sentiu até mesmo mais leve.

Foi quase revigorante.

— Ned, é u- — Ele não teve tempo de terminar, de ao menos começar a explicar a enorme história que carregava nas costas.

Em um momento Ned parecia estupefato, o encarando com os olhos arregalados numa expressão surpresa; e no outro, parecia estar borbulhando de excitação. Seu rosto se iluminou por completo, olhos brilhantes e um enorme sorriso preso no rosto; Peter sabia naquele instante que seria difícil controlar toda a animação do amigo.

Isso fez um sorriso carinhoso brotar em seus lábios.

— Você é filho do Tony Stark! — Repetiu, como se essa fosse a maior notícia do mundo e que por isso todos deveriam ficar sabendo. Ele parecia literalmente a um passo de surtar, e Peter, particularmente, já esperava por isso. — Mas... como?! Espera! — Ned ergueu dois dedos, não dando nenhuma brecha para Peter sequer pensar em falar alguma coisa.

Por isso ele preferiu apenas ficar calado e ouvir o que seu amigo entusiasmado tinha para dizer.

O rosto de Ned se iluminou, quase como se ele tivesse acabado de descobrir todas as respostas para todos os problemas do mundo. Parecia radiante, exalando uma aura própria. Peter riu diante desta perspectiva.

— Você é Jean Stark! O filho desaparecido do Tony Stark! — Ele disse, voz carregada com uma emoção forte e brilhante, quase como se isso fosse a maior descoberta do mundo, e então apontou para Peter de forma acusativa. — Cara! Quando? Como? Onde você esteve? O que aconteceu? Eu me lembro de ter pesquisado sobre o seu pai anos atrás e a notícia estava em todos os sites, todo mundo estava te procurando mesmo anos depois...! Mais alguém sabe? A MJ sabe? Se não, você precisa contar pra ela!

Foi a vez de Peter levantar as mãos, pedindo uma pausa quase que desesperada. Já era muitas perguntas para ele mesmo lidar, e Ned não demonstrou nenhum indicio de que iria parar tão cedo. Se ele deixasse, provavelmente iria continuar pelo resto do dia, e se isso acontecesse, ambos não sairiam dali tão cedo.

— Calma! Vamos com calma Ned — Peter disse, praticamente implorando. Ele andou até o amigo e alcançou seus ombros, podendo sentir a animação mesmo de longe. Ned parecia incapaz de se manter parado. — Eu vou te contar tudo

Foi necessário um pouco de força para fazê-lo se virar e então guia-lo até o sofá mais próximo; mas Ned não parava de lhe encarar, quase como se não pudesse desviar o olhar. O sorriso radiante em seu rosto ainda estava gravado.

— Isso é doidera! — Ned exclamou pouco antes de ser empurrado pra baixo e forçado a se sentar no sofá. Nem mesmo um segundo depois ele estava balançando a perna para cima e para baixo em pura ansiedade. Ainda olhava para Peter com um brilho a mais nos olhos, algo que não parecia ser admiração, mas se aproximava bastante disso.

— Respondendo suas perguntas — Peter respirou fundo e se ajeitou em seu próprio lugar ao lado de Ned, que se virou instantaneamente para encara-lo frente a frente, Peter seguiu seus movimentos e assim ambos estava se olhando. — Há apenas 3 meses... eu não sabia que existia alguém me procurando. Ou que eu ainda tinha alguma espécie de parente... como? Bem... esse é uma história enorme — Acrescentou a última parte com um encolher de ombros.

— Me conta! — Ned disse sem nem ao menos considerar suas opções, ele provavelmente já tinha decidido isso antes. Ele estava claramente tentando se controlar de alguma forma, e Peter não pode deixar de ver isso como algo admirável.

Ele conhecia Ned o suficiente para saber que ele geralmente não consegue conter sua animação, o que quer dizer que ele é perfeitamente capaz de ficar horas falando e falando sobre a mesma coisa, sem parar.

— Quero ouvir tudo! Tudo, tudo, tudo! Desde o inicio

Peter suspirou. Ele mesmo não sabia direito o início de sua própria história; a ordem cronológica das coisas começava apenas no orfanato, mas não parece certo começar dali — tinha muito mais antes disso, mas ele nem ao menos se lembrava.

— Certo... eu vou tentar — Ele acenou, deixando seus ombros caírem por um momento antes de forçar algum ânimo em seu corpo.

Eles ficaram uma hora ali — ou ao menos pareceu ser uma hora, Peter não sabia ao certo. Ele tentou explicar as coisas do melhor jeito possível; simplificando, omitindo detalhes e respondendo sempre as perguntas de Ned. Mas em sua maioria, sendo honesto com o amigo. Agora que ele estava se abrindo, pareceu ser a primeira vez em que estava realmente sendo ele; sem máscara, sem mentiras — apenas o Peter.

Não havia nada para esconder, ele podia confiar em Ned; podia confiar nele porque, além de MJ, ele tinha sido o primeiro a realmente compartilhar suas ideias com ele, a ser verdadeiro, e agora as coisas pareciam estar em ordem — do jeitinho que sempre deveriam ser. Peter não tinha notado o quão pesado isso tinha se tornado em seus ombros. Parecia até mais leve agora, enquanto falava e encarava o amigo nos olhos.

Ele falou do orfanato, falou em como as coisas eram estranhas quando ele acordou pela primeira vez — confuso e com uma enorme dor de cabeça. Falou do que se lembrava; de como eram as noites quando 20 garotos pequenos se deitavam em beliches para tentar dormir, de como a comida era racionada e por vezes a única coisa que eles tinham para o café da manhã eram biscoitos secos e leite.

Falou de como conheceu Richard e Mary, de como ambos os adultos o escolheram entre milhares e milhares de crianças; de como Mary o viu como um filho logo no primeiro momento. Peter nem ao menos percebeu o que estava falando até que Ned o interrompesse com alguma pergunta. Ele estava se deixando levar, deixando que essa parte escondida viesse à tona.

Ele estava se abrindo ali.

Peter falou sobre Richard, de como ele era ocupado e dedicado ao trabalho, e que por vezes fazia questão de levar Peter ao trabalho apenas por um capricho. Contou as pequenas peculiaridades de Mary — como ela odiava sapatos sujos dentro de casa e que as roupas no armário eram arrumadas por cores. Ele então disse como ambos morreram, e o que aconteceu depois.

Peter não se aprofundou muito na história sobre Skip, optando apenas por pular o máximo essa etapa. A única coisa que ele deixou claro é que ele não era um bom tutor.

Por enquanto, ele não sabia se podia falar mais sobre isso sem que sua mente o torturasse novamente.

— Ele não gostava de você? Quer dizer... ele não era legal? — Ned perguntou logo depois que Peter deixou claro que não poderia viver com o homem. Ele estava ouvindo e fazendo suas perguntas sempre que podia, demonstrando verdadeiro interesse. Era cativante apenas olhar para seu rosto.

— Ele foi muitas coisas — Peter suspirou, jogando as lembranças para o fundo da sua mente, enterrando-as sob anos e anos de experiência. Sob outras lembranças que poderiam ser consideradas melhores. — Mas legal definitivamente não era uma delas

Foi a única coisa que ele deixou claro; Skip não era legal.

Peter também não falou da mordida, não falou dos seus poderes e nem da forma como passava a maior parte dos seus dias — se pendurando pelos prédios e ajudando as pessoas sempre que podia. Ele não contou sobre as encrencas em que se meteu — o que era bem mais frequente do que ele queria admitir.

— Um ano?! — Ned perguntou exasperado, quase se levantando do sofá em um pulo, agora um pouco espantado com essa informação. Peter estava esperando algum tipo de acusação, algo que demonstrasse nojo ou receio. Ele realmente pensou que Ned agiria assim e a ansiedade fez ele cerrar as mãos em punhos fortes, deixando que as unhas cravassem na pele.

Porém, para a sua surpresa — e alivio — Ned não se afastou e nem fez uma careta para a informação. Pelo contrário, ele parecia apenas impressionado com isso, não de um jeito ruim.

Peter forçou seu corpo a se acalmar e tentou — quase que futilmente — relaxar os ombros.

— E meio... quase dois na verdade — Peter coçou a nuca, desviando o olhar. Ele não estava necessariamente incomodado, era apenas um assunto um tanto delicado, considerando tudo que ele viu e fez.

Ned, por sua vez, arfou, boca se abrindo em um grande “O”. Pela primeira vez, ele pareceu sem palavras — sem perguntas, sem comentário e sem divagações.

Peter então continuou encurtando a história ao máximo. Contou como ele conheceu MJ. Em como ela parecia ser grossa e distante no primeiro momento, mas que apenas uma conversa os aproximou o suficiente para que ele logo fosse considerado um amigo — e assim ganhando o direito de chama-la de “MJ”. Também contou como conheceu Betty, e isso pareceu ser o suficiente para Ned respirar fundo e fechar a boca.

Finalmente, ele chegou a parte que Ned realmente estava ansioso para ouvir. Como ele se tornou o filho de Tony Stark.

Peter engoliu o orgulho e qualquer outra parte do seu ser que o fizesse vacilar, ele seguiu o que MJ disse no dia anterior e não sentiu remorso por quem ele um dia foi. Não importa o quão terrível fossem seus atos e como ele chegou até aqui.

— Você roubou uma mercearia?! — Ned perguntou com um suspiro, queixo agora caído novamente. Ele encarou Peter e sua expressão deixou bem claro o que ele estava pensando.

Como?

— Mas você parece tão... inofensivo? Ninguém pensaria que você fosse fazer isso! — Ele gesticulou para Peter, tentando deixar claro o que queria dizer.

Realmente. Talvez essa fosse uma das vantagens de ser pequeno, magrela e um pouco recluso demais. Ninguém desconfia de você.

Peter já estava se acostumando a ver isso como algo bom, pelo menos para alguns aspectos.

— É... todos os policiais na delegacia pensavam assim — Peter ofereceu um sorriso de lado, desviando o olhar novamente. Ele pensou naquele dia e as lembranças eram tão claras e nítidas, parecia que tudo tinha acontecido a apenas um dia atrás.

Peter contou que ele fugiu — não como, porque seria como se entregar —, contou em como estava fraco e que a neve parecia infinita ao seu redor. Contou em como estava com frio e com fome, e em como cambaleou de volta para o abrigo sem que ninguém percebesse o garoto pequeno e magro mancando pelas ruas. Ele falou com um breve rubor sobre a forma como MJ o recebeu.

E então, ele falou sobre os próximos três dias.

Explicar a parte do protocolo foi um pouco confusa, isso porque ele mesmo não sabia como as coisas funcionavam — como seu pai as configurou, como Tony realmente chegou até ele apenas três dias depois —, mas apenas uma breve explicação pareceu bastar.

Foi somente aí que Ned finalmente parou de interrompe-lo com perguntas, e deixou Peter continuar sem interrupções. Ele parecia atento a cada palavra, e acenava em concordância sempre que podia.

Ele contou, com um sorriso bobo no rosto, como foi o quase ataque cardíaco que Tony lhe deu quando acordou. Falou em como estava pirando por ter o bilionário ao seu lado no lugar que menos esperava — e no quão estranho foi aquilo. Ele disse também como descobriu o que estava acontecendo; dentro de um Audi preto, justamente por causa de uma cicatriz na mão.

Ele fez questão de mostrar a cicatriz para Ned, a exibindo com um certo orgulho em suas feições. Ned riu, tomando a sua mão para poder ver mais de perto, analisando a marca e ousando até mesmo a traçar as linhas com os dedos. Sua expressão naquele momento era de encanto, como se ele estivesse confirmando uma teoria na pratica.

— E... foi assim — Peter encolheu os ombros, não sabendo como continuar agora que tinha contado toda a sua trajetória. — O teste de DNA confirmou. Ele é meu pai...

— Como que ninguém descobriu isso até agora? — Ned perguntou, gesticulando para todos os lados freneticamente. A pergunta fez Peter se encolher. — Já era pro seu rosto estar estampado em todas as revistas e jornais dos Estados Unidos! Do mundo talvez!

Peter riu, sabendo perfeitamente que ele estava apenas com sorte — muita sorte, considerando que ele ainda carrega “A Sorte dos Parker” nas costas. Era questão de tempo até sua identidade ser revelada para todos, e particularmente, ele não estava ansioso por isso.

— Tony tem sido bem cuidadoso quanto a isso — Ele murmurou, desviando o olhar apenas por meio segundo antes de voltar a encarar o amigo. — Ele queria que eu me acostumasse com as coisas primeiro, mas acho que isso nunca vai acontecer. Ainda é um pouco estranho acordar e percebeu que eu não estou mais nas ruas

Peter se levantou, esperando que Ned fizesse o mesmo, ficar sentado naquele momento parecia mais cansativo do que ficar em pé. Felizmente, Ned entendeu o recado e também se levantou, o seguindo com um certo entusiasmo.

Naquele ponto, nada mais importava. Peter já tinha contado tudo que tinha para contar — pelo menos a parte que não o afetava mentalmente — e agora Ned o conhecia, o verdadeiro Peter.

Por algum motivo, isso o deixou estranho. Era como estar completamente exposto para alguém, sem mais mentiras. Peter não conseguia decidir se isso era realmente bom, parecia que ainda havia alguma insegurança por trás de tudo. Ele realmente queria acreditar que tudo estava bem, por isso pensou nisso como sendo verdade.

— Mas isso está durando por três meses! Como que você sobrevive? — Ned avançou e alcançou Peter rapidamente, parando somente quando estava na sua frente, impedindo assim que ele continuasse andando.

Ele olhou para o amigo e então riu, sabendo perfeitamente o quão recluso ele tem estado esse últimos messes, justamente porque tinha medo de cruzar uma linha imaginaria que ele mesmo criou.

— Acredite, Tony Stark é um bom pai — Peter disse, a havia apenas verdade em seu tom, porque sim, Tony era um bom pai... possivelmente um dos melhores. Ele viu quando Ned se iluminou novamente, pelo que seria a centésima vez em apenas uma hora em que estavam conversando. — Ele só é bem protetor... não do tipo normal que não quer que o filho saia com alguns grupinhos de amigos, mas do tipo que tem toque de recolher as 6. Eu ainda estou com um pé atrás em pedir algumas coisas pra ele

Peter suspirou, falar assim, tão abertamente, foi quase que relaxante.

— Peter! — Ned disse em um tom acusativo, fazendo Peter levantar uma sobrancelha. O amigo abriu a boca, e com um milésimo de segundo adiantado, Peter já sabia o que estava por vir. — Isso é completamente compreensível! Você viu as entrevistas que ele deu depois que você desapareceu?

A pergunta o pegou desprevenido.

Haviam entrevistas?

Peter nunca tinha parado para pensar nisso. Pensar que Tony veio a público falar sobre o seu desaparecimento — o desaparecimento de uma criança de 3 anos de idade —, ao mesmo tempo que estava lidando com policiais e detetives. Olhando por outro lado, era meio obvio que ele teria que fazer isso, afinal, Tony sempre foi famoso e isso quer dizer que sua vida estava sempre a mostra para o público.

Ainda assim, a imagem do bilionário em um terno, parado num pódio rodeado por jornalistas e fotógrafos enquanto falava sobre uma criança desaparecia, simplesmente não encaixava. Claro, Tony era forte o suficiente para passar por isso sem grandes problemas, mas ainda deveria ser cruel demais.

Peter sabe que seu pai sofreu, apesar de não ter uma empatia sobre isso — somente um pai que perdeu seu filho saberia descrever qual é o sentimento, então ele não pode simplesmente entender como Tony se sentiu, mas isso não o impede de ter uma ideia.

Peter fechou os olhos por um segundo e se amaldiçoou internamente, se sentindo um idiota por não ter pensado nisso antes. Agora ele realmente queria ver essas entrevistas — não para ver seu pai lidando com esse problema, mas porque essa era uma ótima maneira de começar a entender o porquê que Tony é sempre tão protetor e preocupado.

— Eu nunca... pensei nisso — Confessou com um encolher de ombros, sentindo seu rosto ruborizar.

— Então procure as entrevistas, tem tudo na internet — Ned respirou fundo, provavelmente organizando as palavras antes de joga-las para fora em um ritmo acelerado. — Ele parece horrível em todas! Como se tivesse tomado três garrafas de whisky e ido dormir as 3 da manhã para acordar as 6. Tem uma gravação de uma conferência de impressa onde ele confirma seu desaparecimento pela primeira vez. Ele claramente não queria estar ali. Parecia até um robô recitando palavras gravadas

Peter tentou imaginar Tony nessas condições, e se viu franzindo o cenho. Ele não tinha uma base real, mas imaginou que se parecia com quando Tony se tranca no laboratório por mais de um dia; ele fica com a pele pálida — um claro indicio da sua falta de alimentação — e olheiras profundas. O cansaço claro em seus olhos e em sua postura. Peter tentou imagina-lo assim, só que bem pior.

Ele não conseguiu. E como se já não bastasse, sentiu seu coração apertar dolorosamente com uma estranha preocupação, o que não fazia sentido, porque isso foi a literalmente 11 anos atrás.

Tony estava bem agora, certo?

— Eu nunca olhei por esse lado — Peter murmurou um pouco envergonhado, dando a volta ao redor de Ned apenas para parar alguns metros longe do balcão da cozinha. Ele não sabia o que fazer agora. — Acho que estive tentando lidar com outras coisas... e não parei pra pensar em como Tony se sentia — Peter pensou em seu alter-ego, em Skip, e então balançou a cabeça firmemente. — Preocupado demais comigo mesmo

Peter fechou os olhos por dois segundos, se sentindo subitamente cansado. Para a sua surpresa, Ned se aproximou, e numa tentativa de reconforta-lo, apertou seu ombro amigavelmente. Isso o fez abrir os olhos e se virar para encarar o amigo.

A primeira coisa que Peter notou é que não havia pena em seus olhos, apenas compreensão. Ned não parecia se importar se estava sendo evasivo demais — e particularmente, nem Peter —, ele apenas ficou lá e sorriu, se certificando de passar uma grande confiança através de seus olhos.

E ele era surpreendentemente bom nisso.

— Mas isso tudo é uma loucura! Das grandes. Você não fez nada de errado em se preocupar com outras coisas. Eu provavelmente ficaria no mundo da lua durante um mês inteiro! — Ned riu, e apenas o som disso fez Peter relaxar por completo. Ele suspirou, e deixou essas preocupações para mais tarde, por enquanto, ele vai simplesmente aproveitar a companhia do amigo. — Mas porque que ele não te mandou para um internato ou coisa parecida? Midtown é uma boa escola, mas em Visions as coisas são bem mais rígidas e você teria, com toda a certeza, tido mais oportunidade — Peter abriu a boca para respondeu, mas Ned não deixou, chegando a uma própria conclusão sozinho.

— Espera! É claro que ele não ia te mandar para um internato. Você ficaria longe demais. Cara! Tony Stark quer você por perto, tem ideia do quão maluco isso soa

Isso fez Peter rir, esquecendo de vez todo e qualquer problema. Era exatamente isso que ele pensava todas as vezes que acordava de manhã nas primeiras duas semanas, e as vezes, ainda se pegava pensando nisso. O quão louco tudo isso era.

— Todos os dias de manhã eu me lembro disso — Peter disse, um sorriso fácil em seu rosto que logo morreu. — E de outras coisas também...

Felizmente, Ned ignorou essa última parte, que Peter nem ao menos se deu conta de que havia falado em voz alta até que a última sílaba saiu dos seus lábios.

— Vamos contar pra todo mundo?! — Ned perguntou depois de dois segundos de silêncio completo, ganhando um olhar assustado de Peter no mesmo instante.

Era justamente isso que o jovem aranha queria evitar.

Ned podia não ver nenhum problema em simplesmente sair e contar para toda escola que ele era filho de Tony Stark — provavelmente ninguém iria acreditar até ver seu rosto em algum jornal ou site de fofoca —, mas Peter sabia que nada de bom poderia vir disso. Ele seria rapidamente sobrecarregado com pessoas que nem ao menos gostavam dele de verdade, e isso também poderia omitir “Os Perdedores”.

Ele estava bem sendo normal por um tempo.

— O quê? Não! Não posso Ned — Peter se virou completamente para o amigo agora, cenho franzido em uma careta. Ele ergueu as mãos, um pedido silencioso para que Ned parasse de pensar tão alto.

— Qual é? É só dizer que você conhece o Tony Stark! Isso já vai te consagrar como “popular” pelo resto da sua vida escolar — Ned exclamou, erguendo os braços de forma exagerada. Peter se permitiu sorrir para a cena, e então voltou a carranca de antes, talvez até mesmo mais profunda.

O pensamento de ser popular provavelmente seria seduzente para o Peter de 9 anos, que era alvo de bully na escola e que tinha pais esperando por ele em casa todos os dias. Mas agora, era estranho, nem um pouco atrativo — outras coisas poderiam ser bem melhores do que a fama escolar.

— Ned, não dá. Isso não seria legal — Peter suspirou, agarrando Ned pelos ombros numa tentativa de fazer o amigo ficar quieto e então ouvi-lo com clareza. — Eu nunca fui “popular” e não é agora que eu vou ser. Além do mais... — Ele ergueu um dedo e cutucou Ned no peito, um sorriso se formando em seu rosto; dessa vez sincero e completo, dando um brilho a mais em suas feições. — Eu não trocaria Os Perdedores por nada

Os olhos de Ned se arregalaram e ele sorriu lentamente de volta. Peter pode jurar que viu seus olhos se encherem de lagrimas antes que ele levantasse uma mão em um convite claro. O jovem aranha a encarou por meio segundo, e então levantou sua própria mão.

Eles estavam trabalhando nesse cumprimento a quase duas semanas, e sempre tinha algo a ser adicionado. Era longo, complicado, e qualquer pessoa sensata e que fosse de fora acharia estranho, mas para eles era perfeito.

Foram longos 5 segundos até acabar, o que fez Peter rir porque eles de fato estavam levando isso para frente. Era quase como uma conquista pessoal.

— É uma honra ser seu amigo, sr. Stark — Ned disse, como se estivesse saldando um soldado ou algo parecido. Por um momento, isso pegou Peter desprevenido, mas então ele deixou seus ombros caírem e suspirou pesadamente.

Já não bastava MJ o chamando sem mais nem menos de “Stark”, ele não precisava que Ned também entrasse na onda.

— Ah não! Você também não! — Ele reclamou em voz alta, franzindo o cenho em desagrado.

— O que? Não gosta de ser chamado de “sr. Stark”? — Ned disse, assumindo um tom de brincadeira. Ficou obvio então que ele estava fazendo aquilo apenas para perturbar Peter.

— Eu te prometo mostrar algo legal se você nunca mais me chamar de “sr. Stark” — Peter disse, e então fez uma careta para o som disso. — Tony tem razão, a gente se sente mais velho com isso

Ned ignorou completamente o que ele disse por último, dando atenção apenas a primeira frase. Isso fez um enorme sorriso crescer em seu rosto e então ele estava encarando Peter com expectativa.

— O que é?!

O tom do amigo o fez rir. Era bom ver Ned assim, borbulhando por dentro e por fora. Peter colocou as mãos na cintura e olhou vagamente para cima.

— Sexta-Feira — Peter chamou pela I.A, e logo em seguida Ned também estava olhando para teto. Esse provavelmente era um costume que não seria facilmente deixado de lado. — Onde estão os Vingadores?

O queixo de Ned caiu novamente e Peter pode ver que ele estava se contendo para não gritar — provavelmente não seria algo muito legal. Não foi preciso abaixar o olhar e encontrar com o rosto de Ned para saber que ele estava o encarando com pura admiração brilhando em seus olhos.

— Não brinca! — Exclamou, deixando claro o esforço para não sair correndo e gritando igual um fã maluco.

— Capitão Rogers, sr. Wilson e o sr. Barnes sairam para uma caminhada, mas o resto dos Vingadores estão atualmente no andar de baixo. Devo avisar que o agente Barton está tentando fazer... cookies? Não tenho certeza, de qualquer forma ele não parece estar tendo sucesso — Sexta-Feira pareceu terminar seu breve relatório, mas não deu tempo de Peter agradecer, sua voz voltou, dessa vez em um tom claro de brincadeira e o jovem aranha pode jurar que se ela fosse humana, estaria sorrindo. — Sr. Stark

Peter olhou incrédulo para o teto, queixo caído. Ele percebeu pela primeira vez o lado ousado da I.A, fazendo com que uma risada borbulhasse em seu peito. Estava surpreso, e um rápido olhar para Ned deixou claro que o amigo não estava tão diferente dele.

Então essa era a verdadeira face de Sexta-Feira, sem a parte atenciosa que Tony incrementou em sua programação apenas para deixar Peter mais confortável.

— Sexta-Feira! — Seu grito desesperado saiu um pouco estrangulado, e talvez não fosse tão sério quanto ele esperava. Ele soava como uma criança brigando com um adulto.

Uma risadinha soou no cômodo, algo tão ousado e inesperado que pegou ambos os adolescentes de surpresa. Peter não pode impedir a gargalhada que veio e Ned também não parecia disposto a se segurar.

Ambos estavam rindo alto; o som das suas risadas sendo o único em todo o andar.

— Isso sim é uma inteligência artificial! — Ned disse, ainda em meios os risos. Ele parecia empolgado e divertido. — Alexa não é nada comparada a isso

— Obrigada, Ned — Sexta-Feira respondeu, o sorriso ainda claro em sua voz. Ela parecia divertida com ambos os adolescentes, e não se importou em esconder isso. Peter se perguntou se isso já estava incrementado em sua programação, ou se era algo que ela aprendeu.

— Eu nunca tinha visto esse lado dela! — Peter exclamou, ainda surpreso, depois que se acalmou o suficiente para conseguir falar. Ele estava fingindo irritação, mas o sorriso estampado em seu rosto o dedurava.

Demorou um pouco para a dupla se acalmar, o que foi necessário algumas lufadas de ar. Peter então olhou para Ned e estufou o peito, se sentindo bem mais animado e confiante depois desse tempinho juntos.

Ele realmente estava precisando disso.

— Quer conhecer os Vingadores?

Notas finais
Oh Meu Deus! Não acredito que consegui. Tive alguns problemas com a minha internet nesse últimos dias (obrigada folha de coqueiro...), mas finalmente estou de volta (vamos apenas ignorar o fato de que eu passei as ultimas 3 horas tentando postar isso mas não conseguia entrar no site...) De qualquer forma, me avisem se tiver algum erro nesse capítulos, meio que vai me ajudar a corrigi-los ♥ ~~ See Ya Later