Protegidos — A lenda dos sete
6 I set fire to the rain
Diários de Catherine
Vinte e um de agosto de 1865
Assim que o sol começou a surgir em meu quarto acabei despertando com os inúmeros pensamentos do dia anterior, então finalmente chegou a hora de contar para ele.
Levantei de imediato para preparar o café e o bolo de ontem que ainda estava intacto em cima da pequena mesa de madeira, quem sabe eu poderia tentar usar isto para acalmar ele quando tudo vier à tona, mas duvido muito que algo assim iria ajudar.
Anthony sempre acorda cedo para cavalgar ou treinar a esgrima, mas tanto Shadow quanto as espadas continuava no mesmo lugar de sempre, talvez ele ainda esteja dormindo pela ressaca de ontem.
Fiquei sentada na esperança de que ele acordasse e visse o que havia preparado e assim sorrisse como sempre fazia ao ver algo doce, mas depois de uma hora fui obrigada a ver se ele estava bem e quando abri a porta do quarto não havia ninguém, nem mesmo suas roupas nas gavetas.
Vinte dois de agosto de 1865
Eu esperei por um dia na esperança de que ele fosse voltar sozinho, de que percebesse a idiotice que estava fazendo. Quando minha paciência se esgotou fui até a cidade em sua procura. Procurei em cada canto, mas não havia nenhum sinal dele.
— Resolveu aceitar a minha proposta, mademoiselle? — Derek estava encostado na batente da porta de uma loja de roupas, provavelmente era a loja dele.
— Não, estou apenas procurando um homem alto com cabelos negros e cara de imbecil rondando por aí.
— Devo admitir que sou ótimo em conseguir informações sobre qualquer um, mas para isso preciso saber bem mais sobre sua aparência.
— Agradeço a oferta, mas estou sem tempo para isso no momento.
— Espere! — Ele agarrou o meu braço esquerdo e por um segundo pensei ter o visto encarando meu pulso — Se você algum dia precisar de ajuda, por favor, me procure.
— Obrigada, mas isso eu consigo resolver sozinha.
O único lugar que eu não havia checado eram os portos, seria impossível que ele tivesse ido para lá, mas e se ele realmente foi embora? E se ele realmente me abandonou?
— Você precisa de ajuda, senhorita? — Um senhor barbudo que estava reforçando as amarras de sua rede me olhava preocupado.
— Sim, preciso. — Ele parou o que estava fazendo para se aproximar, provavelmente pensava que vim atrás de um dos marujos. — O senhor não viu um homem alto com cabelos negros ondulados passar por aqui? Ele é um pouco bronzeado e tem os olhos castanhos, provavelmente trazia uma trouxa de roupas consigo. — Ele Fez uma careta estranha que logo se tornou um sorriso.
— Eu acho que o vi sim, estava acompanhado de uma moça loira. Embarcaram ontem pela manhã em um navio do meu vizinho mesmo depois de eu os ter alertado sobre a tempestade que esta chegando. — Os céus realmente estavam mais negros e o ar denso, mas nada disso importava.
Minha única missão de vida e eu falhei miseravelmente.
O homem tentou continuar falando comigo depois de ver meu estado de choque, mas tudo parecia um borrão. Meu corpo começou a se mover sozinho em direção de casa, talvez a esperança de voltar e o ver me deixou assim.
A imagem de Luca e Ethan veio em minha mente, mas essa não é nem um pouco parecido com a situação deles. Sempre que Luca se perde Ethan consegue o encontra-lo porquê ele quer ser encontrado. Anthony foi embora porquê não queria mais a minha ajuda, ele tinha ido embora sem ao menos saber quem realmente é. Isso é terrivelmente perigoso, os protegidos conseguem reconhecer um igual quando o mesmo não tem intenção de ferir.
Se ele fosse capturado pelas virtudes a culpa seria minha, eu não perderia apenas a minha missão, mas Anthony também.
Comecei a sentir uma garoa fina cair quando estava perto de casa, cada gota que tocava em meu rosto me trazia mais angustia de saber que quando passasse pela porta não haveria ninguém me esperando.
Misturado ao cheiro de terra molhada se fez presente um forte cheiro de queimado, ao longe subia uma fumaça negra aos céus. Era a direção da minha casa. Comecei a correr desesperadamente parando apenas quando fiquei de frente para a minha casa em chamas.
Por instinto corri ate ela, como guardiã da ira eu sou imune ao fogo, assim como Thony. Mesmo assim eu ainda podia me machucar com os pedaços de madeira caiam do que um dia fora um teto.Apenas entrei na casa porquê não poderia deixar a única coisa que guardava de Anthony para trás, o Diário que ganhei de Luca. O guardava em uma pequena caixa de ferro no meu quarto, mesmo com toda aquela fumaça o encontrei embaixo da cama. Agarrei com força aquela pequena caixa de metal e sai de dentro dos destroços do que um dia fora uma casa. assim como Thony.
Caí de joelhos na grama fria, eu só conseguia observar a única coisa que tinha pegar fogo. A irônica de tudo aquilo era que justo o nosso elemento estava destruindo tudo o que construímos.
Aquela imagem simplesmente não podia ser real, não posso aceitar isso. Levantei aos tropeços indo para longe, sem rumo, precisava sair de perto daquele lugar.
As gotas de chuva caiam cada vez mais fortes contra o chão e deixava a cidade ainda mais deserta que antes. Tudo parecia quieto, calmo, com exceção da tempestade, é claro, algumas mulheres apressavam-se em sua caminhada para escapar da água que insistia em cair sobre todos sem uma proteção, e apesar de ser o que eu deveria estar fazendo, simplesmente não me movia. Não tinha para onde ir, não havia sobrado nada, tudo que me restava era a chuva forte que caia sobre minha cabeça e deixava minhas roupas encharcadas. Aquela tempestade marcava o fim de uma parte da minha vida e o inicio de outra.
— Hey, você ai! — o grito do outro lado da rua atraiu minha atenção para a pessoa que havia o proferido e vi um homem segurando fortemente um par de cavalos pelas rédeas de couro. — Não deveria ficar parada sob essa chuva, nada de bom acontece com pessoas paradas em meio a uma tempestade.
Não respondi imediatamente e pude ver sua confusão e impaciência ao notar que não responderia, e nem conseguiria caso tentasse. Meus olhos percorreram a face do homem com calma, absorvendo cada traço suave de seu rosto pálido, seus olhos enormes e negros eram visíveis mesmo através da chuva forte e da distancia razoável que nos separava, as roupas tão encharcadas quanto as minhas e coladas no corpo delineando cada músculo que compunha seu torço, mas o que chamou minha atenção eram seus cabelos. Nunca havia visto nada igual, mesmo colados em sua testa a cor clara o destacava dos demais, jamais encontrara alguém com aquele tom em seus cabelos, algo quase dourado, bem diferente dos tons escuros que eram comuns por todo o país. Era incrível a forma como a cor destacava seus olhos e moldava seu rosto tão bem, em todos esses anos nunca vira pessoas com cabelos com cores além de castanhos e negros, e claro, o tom alaranjado que os meus tinham, mas aquele homem trazia a cor mais bela que já encontrara e ainda era incrivelmente belo, parecendo um Anjo.
— Você não está me ouvindo? — gritou novamente. — Precisa sair daí, precisa ir para casa.
— Não tenho casa. — respondi em um impulso e sua expressão passou de impaciência para pensativa.
— Me siga. — foram as únicas palavras que disse o caminho inteiro enquanto me guiava até a loja de Derek.
Ele deixou os cavalos amarrados do lado de fora do estabelecimento e abriu à porta fazendo um gesto para que eu entrasse.
— Escolha qualquer peça que desejar. — disse apontando para alguns vestidos que ficavam na parte de trás do balcão — Não estrague nenhum senão vai pagar caro, atrás daquela porta tem um corredor siga até a última porta e lá vai encontrar uma cama onde você pode passar a noite. — Ele se virou indo em direção a saída
— Obrigada. — minha voz estava embargada, eu sabia que não conseguiria conter as lagrimas por muito tempo, por isso nem olhei direito os vestidos, peguei o primeiro do cabideiro e fui em direção do quarto.
Vinte e três de agosto
A luz do sol se mostrava fraca perto de meu rosto quando despertei, eu sentia meus cabelos molhados e meus olhos inchados. Cinco segundos foram necessários para que todo o peso do dia anterior viesse me fazendo revirar na cama. Eu queria que nada daquilo fosse real, que fosse apenas um pesadelo, queria ter acordado na minha casa, com as minhas velhas paredes de madeira e com Anthony gritando que daria um passeio em seu cavalo, porem, ao olhar em volta era mais do que claro que aquilo não iria acontecer.
Eu precisava achar um meio de encontrar Anthony e se eu precisasse mover uma montanha eu o faria. Meu dever não é ficar sentada em uma cama lamentando pelas minhas perdas, mas sim o ajudar a sobreviver, eu tenho que fazer o que eu fui treinada para fazer.
— Catherine Lumierè você não nasceu pra ter auto Piedade!
Levantei daquela cama e peguei minhas roupas que estavam no chão encharcadas, o vestido que eu havia pegado emprestado estava todo amassado, provavelmente o homem que me emprestou me mataria.
Saindo do quarto havia um corredor com duas portas e grandes quadros, no final havia outra porta que se me lembro bem daria ate a recepção, eu tinha que devolver o vestido e agradecer ao homem que havia me acolhido.
Quando me aproximei da porta que dava para recepção escutei vozes familiares que pareciam estar discutindo.
— Obviamente aquela tempestade de ontem não foi um fenômeno natural — Essa era claramente a voz de Derek.
— Você acha que foi... — A segunda voz parecia ser do rapaz de ontem.
— E o que mais você acha que poderia ter sido?
— Você quer que eu vá dar uma olhada?
— Você pode fazer isso depois, afinal, temos uma convidada.
Derek abriu a porta, ele tinha um grande sorriso em seu rosto.
— É bom ver que aceitou a minha oferta, senhorita. — Ele se curvou.
— Muito obrigada por ter me deixado ficar aqui noite passada — disse fazendo uma breve reverência.
— Ah sim, você teve sorte de ter encontrado Theodor — ele apontou para o rapaz atrás dele.
— Muito obrigada — ele apenas fez um gesto com a cabeça e se retirou.
— Então Catherine, você conseguiu encontrar o seu amigo?
— Não.
— Eu sinto muito por isso — ele ficava me olhando como se eu fosse um tipo de prêmio, isso realmente me deixava desconfortável — Sabe, eu poderia te ajudar a encontrar esse seu amigo.
— E como você faria isso? Desculpe-me, mas eu não sei como um vendedor de roupas possa me ajudar a encontrar alguém que saiu do país — eu tenho a péssima mania de explodir nas horas erradas, porem ele não pareceu se importar com isso, apenas continuava a me olhar daquele jeito estranho.
— Olhe você consegue muitas coisas sendo "apenas um vendedor de loja de roupas", eu também estou à procura de uma amiga minha é te garanto que se você quiser eu posso ajudar a encontrar o seu amigo.
— É o que você ganharia com isso? Por que você quer tanto me ajudar?
— Você é uma mulher jovem Catherine, e bonita. Mas sei que também não é apenas isso — ele começou a dobrar a manga esquerda de sua camiseta.
— Sim, eu também sei uns bons golpes. — Ele deu uma risada continuando o que estava fazendo.
— Veja, eu quero fazer um acordo com você. Você me ajuda a encontrar a minha amiga e eu te ajudo a encontrar o seu. — ele mostrou o pulso dele, havia duas marcas no braço dele: uma fênix e uma águia. Aquilo não era apenas uma tatuagem, era a marca de um contrato. Minha respiração falhou por um instante.
— Guardião ou Protegido? — Perguntei dando um passo para trás.
— Protegido. — Ao ver a minha expressão ele deu um passo para frente.
— Pecado ou virtude? — Olhei hesitante ao redor a procura de uma possível arma.
— Obviamente pecado, você já olhou para mim? — Ele riu parando de caminhar — Olha Cath... Eu só quero te ajudar como também quero ajuda.
— A encontrar essa sua amiga e o meu, certo. É o que me garante que essa sua amiga não existe e que você só quer que eu encontre o meu amigo para tentar se aproveitar.
— Se eu quisesse ter feito isso eu o faria quando te conheci.
— É impossível você ter descoberto quem eu era.
— Não, não era. Você estava tão feliz que baixou a guarda, estava transbordando "imortal aqui me capturem". — Ele fez uns gestos estranhos, mas parou quando me viu seria. — Guardiã ou Protegida?
— Guardiã.
— Perfeito! — disse pulando indo em direção ao balcão. — Nos precisamos de um guardião.
— Nos?
— Sim, o meu amigo que te recebeu aqui ontem.
— Aquele homem não é o seu guardião?
— Graças ao anjo que não. — disse rindo — ah achei. — ele tinha em mãos uma faca pequena. — Veja eu sei que isso não é comum e tal, que cada um deveria ficar no seu canto e bla bla bla, mas eu quero fazer um acordo de sangue com você.
— Se você fizer um acordo de sangue comigo...
— Eu não vou poder te machucar, é eu sei. Essa não é a minha intenção eu apenas quero a sua ajuda.
— Essa sua amiga deve valer muito a pena para você se arriscar assim.
— Ela é a minha guardiã, só estou tentando pegar a minha proteção de volta, acordo ou não acordo?
— Eu só quero achar o meu amigo.
— Acordo ou não acordo?
— Tudo bem.
— É assim que se fala — ele cortou a palma da mão e me entregou a faca, fiz o mesmo e apertei a mão dele. No meu pulso reapareceu a marca do urso de Luca e embaixo apareceu uma nova marca, uma Hidra, o símbolo do pecado da inveja.
— Puta merda! O seu protegido é o Dragão da ira. — Ele me encarava mais ansioso que antes, se era possível isso.
— Sim.
— Vai ser bem mais difícil encontrar ele então.
— Ele não sabe exatamente quem é — Derek me olhou como se eu tivesse acabado de acertá-lo com uma faca.
— A sua sorte é que ele não pode morrer. Ao menos ele tem o colar do tempo?
— Sim.
— Se ele não usar vai acabar envelhecendo e tendo o pior destino que um pecado ou virtude possa ter.
— Obrigada por me lembrar.
— Mas me diga Catherine, me acompanharia em um almoço? Acho que seria mais apropriado falarmos sobre isso enquanto comemos algo.
— Você só pode estar brincando.
— Não, não estou. Você passou por muita coisa ontem, merece uns minutos de descanso.
Derek me levou a um dos restaurantes do centro, ele fez questão de pedir todo o menu privilegiado.
— De onde você veio? — Perguntou quando viu que estávamos sozinhos.
— Inglaterra.
— Você não sabe o quanto eu invejo isso nos guardiões, vocês podem falar qualquer idioma sem nem ao menos ter que estudar ou ficar com sotaque.
— É vocês são imortais, a gente deveria ficar com algo bom também.
— Eu nasci aqui na Romênia. — Baixou o olhar pensativo.
— Com quantos anos você esta?
— Eu tenho sessenta e dois anos, mas escolhi parar de envelhecer aos vinte e sete. E você?
— Eu tenho trinta e sete, parei de envelhecer aos vinte e cinco.
— Não esta nisso há muito tempo então.
— Não.
— Se seu protegido não sabe quem realmente é então suponho que ele é mais novo que você.
— Ele tem vinte e seis anos.
— Minha Guardiã parou de envelhecer aos dezoitos.
— É arriscado parar de envelhecer tão jovem. — Ele riu para depois me olhar serio, eu deveria ser a ultima guardiã no mundo a querer dar sermão em alguém no momento.
— Foi escolha minha, eu tinha vinte e quatro anos quando disse que eu mesmo a protegeria.
— O que aconteceu com ela?
— Ela foi sequestrada. — Pela expressão que Derek fez ficou óbvio que o assunto deveria parar por aí.
— Entendi.
— Mas vamos falar sobre os negócios.
— Negócios?
— Você agora é uma das minhas parceiras na loja. Theodor cuida das entregas e do estoque, você vai me ajudar atendendo os clientes e fazendo propaganda das roupas, o que a propósito, este ficou maravilhoso em você. — apontou para o vestido que eu estava usando.
— Ta, mas como vamos descobrir onde eles estão?
— Theodor não e apenas entregador e eu também tenho outra pessoa que esta me ajudando a coletar informações, ele vai até essa pessoa e procura a fonte.
— É eu vou fazer o que além de atender os clientes?
— Você vai ser meus olhos e ouvidos, convença os clientes a gostarem de você e assim as portas irão se abrir.
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