Protegidos — A lenda dos sete
1 A aventura começa
Notas iniciais
1846 vinte de agosto
Meu nome é Catherine Lumière e hoje é meu décimo oitavo aniversario. Eu nasci para ser a guardiã de um escolhido pelo Anjo, sacrificando tudo para que essa pessoa sobreviva e honre o contrato que há muitos anos sua família fez com o Anjo.
Os escolhidos são pessoas importantes para a humanidade, pois são considerados como os salvadores ou como alguns preferem nossas divindades. Existe quatorze deles espalhados pelo mundo. Sete deles são denominados como pecados e os outros sete são as virtudes. Meu protegido é um dos pecados, regido pela Ira. O mais perigoso dentre os sete.
Eu nunca conheci meus pais, fui separada deles e trazida para morar no castelo de Pedro Kerminite, o antigo pecado da ira. Ele infelizmente morreu na guerra que estamos travando contra os caçadores, o objetivo dos caçadores é exterminar com os escolhidos pelo Anjo por ordem do rei. Mas o grande problema deles é que os protegidos não morrem. Mas como Pedro morreu então? Simples, quando ele tem filhos o legado é passado para ele quando este morre. Com isso chegamos ao grande ponto de hoje: Meu décimo sétimo aniversario que também esta sendo o dia em que o meu pequeno protegido esta nascendo.
Enquanto eu estava acabando de arrumar minhas coisas Rosalia uma das criadas da Senhora Kerminite apareceu, suas expressões eram vazias e suas roupas estavam sujas de sangue.
— A criança finalmente nasceu à senhorita Marcela esta se despedindo dele. Por favor, me acompanhe.
Fiquei tão envolvida em meus devaneios que não tinha notado o tempo passar, dei uma ultima olhada no meu quarto antes de seguir Rosalia. Eu iria sentir falta dos meus livros e da minha cama provavelmente eu não iria mais ter um local tão confortável para morar como este castelo.
Rosalia pediu para que eu esperasse em um dos salões do castelo dos Kerminites, eu me sentia desconfortável pela primeira vez em ficar aqui. Geralmente esse castelo nunca ficava quieto sempre tinha os empregados vindo e indo ou até mesmo a senhora kerminite dançando alegremente pelos corredores.
Eu me lembro como se fosse ontem a primeira vez em que me deixaram entrar no castelo, eu sempre treinava nos jardins com o meu mestre para dominar a força e o conhecimento sobre os dons dos guardiões. O castelo possui corredores gigantescos e enormes pinturas sobre os antigos protegidos, eu sempre respeitei aquele lugar e sempre respeitei os Kerminites que me tratavam do melhor jeito possível. A senhora Kerminite vivia dizendo “Você tem que cuidar do que é mais precioso para mim, só não se esqueça de se cuidar já que é importante para mim também”.
Eu admirava muito ela, por isso foi um choque gigantesco quando Rosalia apareceu chorando, Rosalia nunca chorava a não ser pela senhora. Ela me puxou para entrar no quarto aonde à senhora deu a luz.
Todas as outras empregadas que eram próximas da senhora estavam lá, chorando e rezando de cabeça baixa. No meio do quarto estava a senhora Marcela deitada chorando enquanto tinha seu bebê recém nascido retirado de seus braços
— Seja forte — disse uma das parteiras me entregando o bebê, eu não sabia ao certo se o amparo era direcionado para mim ou para Marcela.
— Qual é o nome? — Perguntei quase chorando ao ver o estado da senhora
— Se for menina o nome é Camila e se for menino Anthony — ela virou o corpo e deitou de lado
— Leve isso junto de vocês, cuide com a sua vida — Rosalia me entregou dois colares: um tinha uma pedra azul e o outro tinha uma pedra verde — Escolha um para você e outro para a criança, isso vai ajudar a vocês envelhecerem mais devagar, de para ela quando julgar ser a hora.
— Esta bem
— Eu quero que todos vocês saiam imediatamente daqui — gritou Rosalia — Vocês sabem que os caçadores estão vindo e vão fazer de tudo para pegar o bebê.
Ninguém pareceu mover um músculo, provavelmente ficariam ali para proteger a senhora. Rosalia apenas suspirou e me acompanhou até uma das passagens secretas do castelo.
— Boa sorte Catherine, espero que algum dia possamos nos reencontrar novamente.
— Espero o mesmo Rosalia. — ela me entregou um manto longo e saiu em direção ao corredor.
Depois de anos de treinamento lá estava eu, saindo daquele castelo apenas com um bebe recém-nascido, algumas roupas e uma garrafa e meia de leite de cabra.
Esse era um grande começo de uma incrível história.
Aquele túnel úmido levava até o centro da cidade. É uma noite típica de Londres, úmida e nublada. As lamparinas iluminando as ruas enquanto as pessoas iam e viam a cavalo ou andando, para mim todos pareciam suspeitos, provavelmente os caçadores já estavam indo em direção do castelo, não tinha como saber já que eles são ótimos em se misturar. A vantagem é que o castelo fica no meio da floresta bem escondido de pessoas que não trabalham lá.
Eu tinha que sair daqui o mais rápido o possível. Em volta da cidade pela floresta tem vários abrigos que foram feitos para essa ocasião meu primeiro desafio é chegar a um desses sem ser notada.
Aos poucos eu consegui notar alguns homens se aproximando discretamente de mulheres que carregavam bebês, alguns até puxavam elas com grosseria para um canto. Foi ai que o desespero bateu, um deles cravou uma faca no peito de uma mulher que resistiu a parada abrupta, fizeram o mesmo com a criança deixando os dois deitados no beco.
O ar me faltou, como eles conseguiam ser tão cruéis com pessoas inocentes? Eu abracei mais forte o bebê em meus braços por baixo da manta e apressei o paço, o melhor para todos seria sair daqui imediatamente.
Consegui chegar à entrada da floresta sem que ninguém notasse a minha presença ou a do bebê, porem ele ou ela já começava a se movimentar impaciente em meus braços, provavelmente ele já deve estar com fome, fiquei surpresa porquê o caminho inteiro ele não chorou apenas ficou dormindo. Que ele continue assim.
Vinte e um de agosto
Depois de uma longa e complicada caminhada pela floresta durante a noite finalmente encontrei um dos abrigos feitos para esconder os escolhidos, por enquanto posso usar os abrigos provisórios que foram distribuídos por toda a capital da Inglaterra. Mas breve terei que arranjar eu mesma locais seguros para passar pois logo eles virão atrás da gente do mesmo modo que foram atrás daquelas pobres mulheres na cidade.
O abrigo era simples para não chamar muita atenção, era pequeno e tinha apenas uma cama improvisada no chão. Era mais do que obvio que ninguém visitava aquele lugar a bastante tempo pois a poeira era visível pela luz da lua.
Deixei o bebê sobre a cama improvisada, mas parece que ele não gostou muito de ser solto, pois começou a chorar.
— Céus! Como uma criança tão pequena consegue gritar desse jeito?
Eu não sabia o que ele queria, tentei dar um pouco do leite de cabra pelo caminho mas parece que não foi o suficiente para agrada-lo. Se ele continuar gritando assim alguém pode escutar.
— Ei bebê fique calmo — me deitei na cama junto dele e o abracei tentando acalmar ele, não funcionou.
Ao meio de toda aquela gritaria um cheiro ruim começou a se manifestar dele.
— Ta de brincadeira né? Você nasceu em menos de quatro horas é já ta me castigando
Rosalia me ensinou a parte pratica de como cuidar de um bebê, por inúmeras vezes ela me tirou do treinamento físico para que eu ajudasse a trocar os panos de um bebê de uma empregada ou apenas para dar de mama. Ela sempre ria das expressões horrorizadas que eu fazia na hora de trocar os panos, é dessa vez não foi diferente.
Peguei na minha bolsa um dos panos que trouxe para isso e fui em direção do bebê. Eu não tive coragem de encarar ele enquanto o trocava, e nem se eu quisesse conseguiria, odiava aquele cheiro.
— Eu te odeio pedaço de carne — o bebê pareceu voltar a dormir.
Acho que o melhor é fazer o mesmo
Trinta de agosto
Passei uma semana inteira me escondendo na floresta indo aos poucos a fronteira, enquanto tive que encontrar locais seguros para passar as noites frias por ali.
Dois dias atrás eu tive que ir em uma das cidades perto da floresta para conseguir mais leite, na área comercial da cidade algumas pessoas falavam sobre a onde de assassinatos na capital é que os motivos foram por causa de uma profecia seguida por pessoas de uma convicção corrompida. Obviamente as pessoas não sabiam que se tratava sobre os protegidos, pois há muitos anos eles deixaram de saber sobre a existência deles quando a guerra começou, os protegidos deram um jeito de acabar com todos os registros sobre eles e então a existência deles começou a ser apenas um mito cultuado pelas pessoas.
Eu não gostava muito da ideia das pessoas não ficarem sabendo que eles ainda existem, eles são os responsáveis por manter o equilíbrio no mundo e mesmo assim são caçados e torturados. Acho que tudo isso começou quando as virtudes começaram a se impor de mais perante os humanos, os reis não ficaram satisfeitos por receberem ordens de pessoas que eram mais “poderosas” então se rebelaram contra todos.
Trinta e um de Agosto
Durante a minha visita na cidade eu conheci um senhor dono de um comercio, ele gostou de mim e me ofereceu um emprego e estadia por o tempo que eu quisesse. Ele apenas fez isso porquê viu que eu não tinha dinheiro suficiente para comprar o leite, eu havia gastado o dinheiro com mais panos para o bebê. Eu avisei ele que tinha que voltar para buscar minhas coisas e que mais tarde voltaria.
Eu e o bebê fomos super bem acolhidos pela família do comerciante. O que não me agradou muito foi a esposa dele que estava tratando o bebê como se fosse seu novo bichinho.
— Como ele é lindo Catherine — dizia a senhora — E onde esta o pai dessa criança?
— Me abandonou quando soube da gravidez
— Que covarde! — Dizia ela quase sufocando a criança de tanto o apertar — Como você consegue alimenta-lo? Você não aparenta conseguir dar leite
— Problema de família minha senhora, minha mãe também não conseguia
— Podemos emprestar um pouco do leite da nossa cabra para essa fofura
— Muito obrigada senhora, gentileza de sua parte nos ajudar
— Mas diga-me qual é o nome dessa fofura?
— Bem — Peguei a criança do colo dela, eu ainda não sabia ao certo se era menino ou menina. Eu não tive coragem de tirar a duvida todas as vezes em que eu trocava os panos, com aquele cheiro simplesmente não dava — Ainda não me decidi o nome
— Apresse-se para dar um nome em! Ninguém merece crescer sem um nome, já basta que ele não vai ter o nome do pai
A noite aproveitei para finalmente dar um banho nele, esquentei água. Essa era finalmente uma oportunidade para ver se era menino ou menina.
— Com licença — Era idiota pedir permissão para dar banho a uma criança mas ele era meu “chefe”.
Quando eu ia tirar a roupa dele a senhora me apareceu sorridente no quarto
— O então vai dar banho na criança? Seria incomodo se eu ajudasse?
— Não senhora, claro que pode ajudar — ela nem esperou eu dizer e pegou ele dos meu braços e no momento seguinte ele já estava na bacia.
— Que lindo menino você teve — Era um menino então
— Anthony
— O que?
— O nome dele vai ser Anthony
— Um nome forte e lindo, que significa valioso. Boa escolha
— Obrigada senhora — De fato ele era valioso
— Ele vai ter belos cabelos pretos, pena não ter puxado os seus cabelos ruivos
A mãe de Anthony era da Lituania e seu pai de Londres, ela tinha longos cabelos ondulados castanhos enquanto seu pai tinha os cabelos pretos, ele tinha os olhos castanhos e a pele clara, ela tinha os olhos verdes e pele bronzeada. Anthony nasceu com os olhos castanhos e a pele levemente bronzeada.
— O pai dele tinha os cabelos pretos minha senhora
— Isso explica então mas mesmo assim é uma pena, imagina esse rapaz o sucesso que iria fazer se fosse ruivo com a pele bronzeada — ela deu uma piscadinha para mim
Durante uma semana eu trabalhei junto da família do comerciante, admito que queria ter ficado mais tempo mas as perguntas que a senhora fazia só aumentavam, e a cidade começou a ficar com muitos homens suspeitos levando pessoas embora. Para a segurança de Anthony e da família do comerciante eu fui embora, para não ter despedidas eu fui embora na calada da noite.
Meu próximo objetivo era encontrar um lugar onde ninguém encontraria essa criança ou fizesse perguntas.
Oito de setembro
Consegui chegar a uma das cidades que ficam na fronteira da Europa sem problemas mas eu tenho que escolher um lugar seguro é rápido, os boatos dos assassinatos se espalhou mais rápido do que eu esperava, e esse inútil pedaço de carne ainda não sabia nem andar imagina se defender, se alguém nos descobrissem estaremos ferrados. Mas qual lugar pode ser o mais adequado para se esconder? Um que ninguém suspeitaria da nossa presença, eu tenho que achar esse lugar o mais rápido possível.
Estávamos agora passando por umas das cidades independentes que ficam em volta da grande Europa, se eu quero sobreviver preciso de aliados pessoas que posso confiar e não sei porquê piratas me parecem a melhor opção, eu sei isso é loucura piratas são sedentos por ouro e no momento esse pedaço de carne nas minhas mãos vale muitas moedas de ouro.
Meu mestre uma vez me disse que o mais importante é sempre ter pessoas devendo favores para você porquê sempre vai chegar o dia de cobra-los.
Uma dessas pessoas era um pirata, eu e meu mestre o ajudamos uma vez. Provavelmente ele deveria estar em uma das cidades perto de um Cais, o problema é achar ele sem que me achassem.
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