Protegida

3 Capítulo 3: Reviravolta


–Pode se levantar, garota. –Disse uma voz desconhecida.

Anna abriu os olhos. Despertou em um local que se parecia com um porão velho e empoeirado. Vários frascos de substâncias estranhas e animais exóticos se enfileiravam em um conjunto de prateleiras. A luz de uma vela, ela observou atentamente aqueles cabelos ruivos que se pareciam com a extremidade de uma vassoura. Imaginou uma versão de Emily mais velha e feia que usava vestes pretas ao invés do usual rosa.

O mundo a sua volta parecia diferente. Não conseguia sentir o ar preenchendo seus pulmões. Sua visão estava estranha e ampliada.

–Onde estou?

A mulher a olhou intensamente. A voz de Anna saiu de forma estranha, não era a mesma de sempre.

–Você está na minha casa. Serafim te enviou para cá na esperança de salva-la, e bem no momento em que eu estava jantando em uma reunião de negócios. Tive de inventar para os meus chefes algo que explicasse o barulho na cozinha. Juro que quase te mandei de volta! O inútil nem conseguiu chegar ao coven mais próximo.

Ela deve ter percebido a expressão perplexa de Anna, porque logo depois disse:

–Coven é o termo que usamos para designar um local com várias bruxas ou bruxos reunidos.

–E como você conseguiu me salvar?

Anna tinha medo da resposta.

–Por que não vai até o espelho e confere?

Ela apontou para um velho espelho enfeitado de teias de aranha. Anna saiu de sua cama. Percebeu que estava muitos centímetros mais baixa. Recusou a olhar para si mesma até chegar ao espelho. A bruxa iluminou uma vela que estava próxima ao objeto, o que revelou uma imagem totalmente diferente de Anna. Seus olhos eram apenas duas bolas verdes de vidro, e nesse momento ela sentiu falta daquele tom de marrom vivo que possuía, e seu corpo estava todo esculpido em cerâmica. Seu vestido, que cobria quase toda a perna, esbanjava um tom de branco muito suave. O cabelo era marrom claro e estava amarrado em duas tranças.

–O que achou da sua aparência?- Ela chegou tão próximo ao ouvido dela que Anna se afastou.

–Repugnante. Como você fez isso comigo?!

–Você estava morrendo. Não tinha nenhum jeito de te salvar. Pelo menos não o seu corpo. Fui piedosa e transferi sua alma para uma boneca vitoriana com um feitiço muito forte e antigo. Recebi uma coleção da minha bisavó há décadas atrás. Acredite em mim, você não ia querer ser um abajur. Foi a coisa menos repugnante que encontrei.

–Menos repugnante seria me deixar morrer!

–Pare de reclamar garota!- Gritou a mulher, e o quarto estremeceu diante da voz dela. A chama da vela se apagou por um instante. Ela pareceu levitar sobre o chão, indo na direção de Anna. A mulher a pegou pelo pescoço e começou a falar- Sabe quantas bruxas implorariam para estar no seu lugar? Não existe uma chance de nós irmos para o céu. O único lugar para pessoas como nós é no inferno. E você iria para lá, se não fosse por mim. Não importa se você agiu corretamente a sua vida inteira. Acha mesmo que as portas do céu simplesmente se abririam para você e tudo seria lindo como em um conto de fadas?! Não é assim que as coisas funcionam!

–Eu já estou no inferno! Eu me recuso a viver neste corpo falso pelo resto da minha vida.

–Te darei uma chance para se decidir, garota, apenas uma. Você pode ficar comigo e aprender a viver assim ou eu posso te aniquilar de uma vez por todas. Quem sabe te aceitam no céu, já que seus poderes de bruxa não funcionam mais?

–Eu aceito... Morrer!

–Você fez sua decisão. Não poderá voltar atrás. Tem certeza?

–Sim. Pode me matar. Eu não sinto mais dor mesmo.

Anna fechou seus olhos de boneca e aguardou sua morte, mas a única coisa que sentiu foi as mãos da mulher se soltarem de seu pescoço. Abriu os olhos. Ela sorriu para Anna e passou a mão na frente do rosto rapidamente, revelando um rosto bonito e rejuvenescido, juntamente com vestes sociais muito agradáveis de ver.

–Espere aqui. Quando eu voltar, te jogo no primeiro caminhão de lixo que aparecer.

–Mas você prometeu que ia me matar.

–Querida, sua mãe não te ensinou que não se deve confiar em estranhos?

Ela começou a subir as escadas do porão. Anna tentou segui-la, mas suas pernas de boneca eram quase um fardo. A mulher abriu a porta. Ela tentou escalar usando as mãos e os braços.

–Volta aqui, sua desgraçada! Quem é você?! E por que você está fazendo isso comigo?!

–Eu sou Matilda. Matilda Von Borcke. E isso é tudo o que você precisa saber.

Anna permaneceu gritando e xingando na escuridão até que escorregou nos degraus. Parte de seu corpo se danificou com a queda. Matilda estalou os dedos e a porta se fechou automaticamente.

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