Protegida

1 Capítulo 1: Vilarejo


Capítulo 1: Vilarejo

Contemplou os vastos campos. No horizonte via-se um céu nublado. Anna Grace movia levemente o balanço enquanto olhava tediosamente para os próprios pés. As luzes de algumas cabanas estavam acesas, e sabia que seus pais estavam dormindo, já que não conseguia visualizar luz através das janelas da sua casa. O vilarejo era uma mistura de pequenas casas e pessoas caipiras, juntamente com um pequeno parquinho e uma igreja de brinde. Ela gostava de se sentar lá e permanecer até o anoitecer, e esquecer o olhar de estranhamento que as pessoas lhe lançavam. Deixava que os outros interpretassem o estranho comportamento de ficar sozinha da forma que quisessem. Sabia que estava acompanhada de seus pensamentos.

Conseguia ver algumas estrelas através do céu nublado, e sabia que já era noite. Todos obedeciam rigidamente a regra de dormir cedo, e assim que os astros se acumulavam no céu, iniciava-se uma contagem regressiva das luzes que se apagavam aos poucos nas casas. Nas últimas semanas sentia cada vez mais vontade de ficar lá. Não que odiasse ficar com seus amigos, mas aquilo trazia boas memórias da sua infância à tona. Crescer a deixava zangada, e todos diziam a Anna para largar a infância de uma vez por todas e amadurecer, mas ela persistia com suas ideias e batalhava contra o julgamento dos outros, mas seu corpo parecia estar do lado do inimigo. A cada dia ficava mais alta e seu corpo ganhava mais formas de uma mulher. Os seios cresciam e era obrigada a fazer visitas mais frequentes a loja de roupas, o que lhe dava preguiça, já que tinham de atravessar o rio à barco para chegar lá.

Acompanhou imóvel as últimas pessoas saírem da pequena igreja. Aquele vilarejo não era igual aos outros. Havia algo de especial nele. Dizia-se que os habitantes sentiam uma forte presença de um ser superior. Segundo a tradição local, cada pessoa recebia um guardião espiritual ao nascer, chamado de anjo da guarda. Este ser estabelecia uma ligação com o protegido, e em alguns era mais forte. Ela nunca sentiu a presença de ninguém, mas mesmo assim acreditava fielmente naquilo. Quaisquer questionamentos sobre religião não eram aceitos. Todos seguiam as ordens como robôs obedientes.

Levantou-se e começou a atravessar o gramado. Sabia que já era hora de voltar para casa.

Ajeitou seu vestido branco. Seus amigos sempre a zombavam quando usava um laço vermelho porque isso a deixava muito infantil, e sua amiga Leslie sempre dizia para deixar seus cabelos loiros soltos, pois dessa forma ficava mais bonita. Não os avistou em lugar nenhum, o que achou estranho, pois sempre eram vistos saindo da igreja às oito horas da noite em ponto. Esperou por eles ansiosamente por alguns momentos, mas acabou dando de ombros e indo em direção a porta da sua casa.

Andou em passos lentos para não acordar os pais. Subiu as escadas de madeira até o seu simples quarto. Havia uma cama de mármore encostada perto da parede, e um urso de pelúcia marrom se encontrava em cima dela, além de um armário de madeira para colocar suas roupas e bijuterias. Tirou rapidamente sua roupa de lã e colocou em um cabide. Vestiu um pijama branco e deitou-se em sua cama. Remexeu-se de forma inquieta nela até que resolveu se levantar e pegar um livro. Acendeu a vela que estava em cima da sua mesinha e começou a ler um exemplar de Moby Dick, do autor Herman Mellville. Os minutos se passaram sem saber o quanto estava escurecendo lá fora até que ouviu um pequeno barulho vindo da janela. Observou que pequenas pedras eram jogadas sobre o vidro. Levantou-se, colocou suas sandálias e abriu lentamente a janela, tomando cuidado para não ser atingida. A primeira coisa que ouviu foi o vento, juntamente com o som das vozes de seus amigos.

—Ei, Anna!- Disse Frank, um garoto de treze anos de cabelo marrom e sardas no rosto- Tem como você vir aqui? Nós temos uma surpresa para você.

—Por que vocês estão aqui? Se forem pegos acordados a essa hora da noite com certeza vão levar umas boas palmadas!

—Você vem ou não? Estamos esperando! — Disse Emily, a amiga ruiva que sempre dizia para deixar seu cabelo solto.

—Onde vocês querem ir? E qual é a surpresa?

—Olha, se você não nos acompanhar, nós vamos subir até o seu quarto!

—Boa sorte.

E fechou a janela. Alguns minutos depois avistou Frank batendo nela. Ela se assustou com aquela visão.

—Co...Como você subiu até aqui? — Disse abrindo o objeto.

—Não foi difícil. Foi só chamar o meu irmão Magno. Ele é muito alto e forte.

Anna olhou para baixo. Magno acenou para ela. Ele era careca e possuía muitos músculos. Ela acenou de volta enquanto ajudava Emily a também entrar no quarto.

—Agora temos que descer de fininho até a porta e destranca-la- Concluiu Frank- Meu irmão também quer entrar e participar da brincadeira.

—Não acha que ele seja muito velho para isso? Seu irmão tem dezoito anos!

—Não para essa brincadeira.

Anna tentou protestar, mas seus amigos já estavam abrindo a porta do seu quarto e descendo as escadas em passos lentos e silenciosos.

—Tomem cuidado!- Alertou.

Após alguns momentos todos entravam de pijama em seu quarto. Frank e seu irmão usavam um pijama verde e Emily usava um rosa.

—O que vocês querem me mostrar? O que seria tão importante ao ponto de me incomodarem a essa hora da noite?

—Foi algo que eu achei na casa da minha vó –Disse Frank- É um livro antigo que tem poderes especiais.

—Como assim poderes especiais?

Eles estavam tão empolgados que olhavam um para o outro quase pulando de alegria.

—Esse livro diz que há um jeito de se comunicar com os nossos anjos da guarda! É isso mesmo que você ouviu! Minha vó não me deixou levar o livro, mas eu arranquei a página.

Frank aproximou a vela e tirou um pedaço de papel do bolso. Ele começou a ler o que estava escrito.

—Para se comunicar com os guardiões, chamados de anjos da guarda, basta executar as seguintes ações:

.Procure por um fio de costura longo e transparente (ele será o ponto de comunicação entre você e o guardião).

.Faça o seguinte desenho no chão com o fio.

Frank mostrou o desenho. Era uma espécie de um conjunto de círculos com um traço no meio.

.Use o que restar do fio para enrolar sobre o dedo. Você sentirá uma presença e ouvirá um sussurro dizendo o nome de seu respectivo guardião. Repita três vezes o que ouvir em alto e bom som.

.Após isso, o guardião irá aparecer para você.

.A comunicação só durará por alguns minutos.

.NÃO corte o fio durante a comunicação.

.NÃO insulte o seu guardião. Ele pode abandona-lo.

.Só se comunique quando estiver sozinho.

.NÃO acenda as luzes. Isso pode camufla-los.

Ele olhou para Anna.

—Então. Vai tentar se comunicar como o seu guardião?

Ela hesitou durante alguns momentos.

—Claro! Por que não?- Decidiu.

—Eu vou primeiro, já que fui eu que achei o livro. Deixem-me sozinho.

Todos protestaram menos Anna, mas acabaram por obedecer. Fecharam a porta e deixaram Frank sozinho. Após alguns minutos de tensão esperando, ele apareceu na porta e disse.

—Foi incrível. Vocês tem que fazer isso também! O nome dele era Eli. Parecia um daqueles modelos que aparecem nas revistas.

—Para de falar! Agora é a minha vez!- Protestou Magno.

Ele entrou no quarto e permaneceu ali por mais algum tempo que o irmão enquanto Emily aguardava ansiosamente.

—Me deixa ir primeiro Anna?- Ela suplicou com um brilho nos olhos.

—Pode ir. Eu espero. Não me importo em ser a ultima.

Na verdade, sempre odiava ser a ultima. Mas naquela ocasião estava nervosa. Conhecer alguém que não tinha ideia de como era não parecia ser uma boa ideia para Anna.

E então foi a vez de Emily. Ambos os irmãos não paravam de conversar sobre como aquilo era bom, e isso começou a animar Anna. Talvez não fosse algo tão ruim quanto estava pensando, mas uma experiência magnífica e inesquecível. O guardião de Magno se chamava Jadel. Segundo ambos, os guardiões possuíam um rosto muito belo e usavam uma roupa de ouro, e quando falavam era de forma silenciosa, mas tinham a impressão de que a voz ecoava pelo quarto, sendo algo maravilhoso de se ouvir. A cabeça deles quase encostava no teto e balançavam as formosas asas. Diziam que vieram do céu e faziam elogios ao protegido a todo o momento.

—Deve ser por isso que ouvi-los é bom- Concluiu Anna, e os irmãos apenas acenaram com a cabeça.

Emily se despediu de Serafim e convidou Anna a entrar no quarto.

—É a sua vez agora. Não se esqueça das regras.

Ela assentiu para Emily e fechou a porta. O quarto estava muito escuro e a única coisa que o iluminava era a luz da vela desgastada. Andou lentamente e se agachou para pegar a linha. Era difícil de ver algo transparente naquela escuridão. Anna tateou no chão e a enrolou no dedo. Esperou ansiosamente até que uma voz veio até a sua mente.

—Beliel, Beliel, Beliel.

Anna estremeceu com aquele nome, mas mesmo assim repetiu as palavras em alto e bom som, tomando cuidado para não acordar os pais.

—Beliel, Beliel, Beliel.

De inicio não viu nada, mas então um ser misterioso apareceu.

—Por que me convocou aqui?

Eles estavam errados. A voz não era magnífica, e sim assustadora. Parecia entrar no seu ouvido e congelar todo o seu corpo, deixando-o com um medo aterrorizante. Anna esperava que seu guardião fosse mais gentil.

—Eu só queria te ver.

Ela se arrependeu de pedir isso, porque ele se aproximou da vela e Anna conseguiu enxergar seu corpo. Possuía um rosto semelhante a de um bode e tinha dois chifres tortos. Caminhava corcunda devido a sua altura que passava um pouco do teto. Os braços eram largos e peludos com unhas afiadas e sujas e os pés possuíam a mesma descrição, além de serem atrofiados. Olhou atentamente para sua cara pálida.–Pronto. Agora pode me mandar ir embora.

—Ainda não. Por que você é tão diferente dos outros?

Beliel não respondeu nada. Anna encontrou a resposta por si mesma, e o que descobriu não era algo bom.

—Você é um demônio. Um ser das trevas.

—Só descobriu isso agora menina tola?

—Não. Não é possível!

Ela tentou se afastar dele, mas o cômodo era pequeno.

—Se afaste de mim. Não volte nunca mais! Eu sou protegida por um anjo e não um ser sujo como você!

Anna não sabia como estava reunindo coragem para enfrenta-lo.

—Não ouse me insultar garota. Você precisa da minha proteção. Se não fosse a pedidodeleeu não estaria fazendo esse favor.

—Quer dizer... O rei das trevas?

—E quem você acha que é?

Anna não conseguia digerir aquela informação.

—Isso não é possível. Onde está meu anjo da guarda? Você o matou? Cada pessoa possui um guardião da luz. Demônios não protegem pessoas! Isso é ridículo.

—Você está certa. Eu não sou um guardião de luz, e você não é uma pessoa.

Seu coração batia fortemente e suas pernas tremiam enquanto olhava atentamente para aquele ser. Não sabia o que responder. Parecia que o pouco que tinha de coragem havia ido embora

—Acho que está na hora de revelar um segredo sobre você.

Anna tentou tampar os ouvidos, mas mesmo assim conseguia ouvir sua voz.

—Você é uma bruxa. Descendente de Lilith e Lúcifer. Fruto da traição da sua mãe com um homem qualquer.

Beliel riu ao dizer isso, e todo o quarto pareceu estremecer. Aquilo era chocante demais para Anna.

—Não! Você esta mentindo! Todos os seres das trevas mentem!- Gritava enquanto permanecia com as mãos nos ouvidos. Desesperada, ela pegou a vela em cima da pequena mesa e lançou sobre ele.

O corpo de Beliel começou a pegar fogo, mas ele não parecia sentir dor. Permanecia com um sorriso triunfante em seu rosto. O quarto se iluminou com as chamas, e pela primeira vez em milhões de anos pareceu um ser de luz.

—Acha que ataques humanos funcionam contra mim? É mais tola do que pensei. Conheci muitos bruxos e nenhum deles reclamou tanto quanto você. Pare com essa atitude infantil e amadureça. Aceite quem você é.

—Eu nunca acreditarei em nenhuma palavra do que disser! Vá embora!

Anna abriu rapidamente a gaveta e remexeu nas coisas que estavam lá, pegando desesperadamente uma tesoura. Segurou-a firmemente e cortou o fio antes mesmo que Beliel pudesse fazer algo. Ele apontou seu dedo indicador para o rosto dela e lançou palavras de fúria.

—Você não deveria fazer isso. Sua morte está próxima. Bruxas precisam de proteção até que tenham poder suficiente. Você sentirá a ira dos céus!

O quarto estremecia sobre sua voz, que começou a desaparecer junto com seu corpo.

—Suma daqui!- Dizia Anna entre choros e soluços.

Ela percebeu que alguma presença entrou no quarto. E não era nenhum de seus amigos.