Protection
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Shikamaru
Cara, escrever relatórios é tão problemático... É tão chato, tão detalhado e tão... Problemático... Principalmente ir entregá-los à Hokage, que saco. Mal vejo a hora de poder ir me deitar e tirar um bom cochilo.
—Hey, Shikamaru! – Chouji me cumprimentou quando saia de uma loja de presentes.
—Olá Chouji. – Abri um pequeno sorriso – Mande lembranças à Ino.
—Ah, sim. Pode deixar... – Chouji ficou um pouco envergonhado e coçou a cabeça.
Apesar de estarem juntos há quase três meses Chouji ainda fica sem graça em falar sobre isso. Acho engraçado mesmo assim. Quem imaginaria? Ino e Chouji? Não numa realidade tão próxima. Continuei meu caminho exaustivo até cumprir meu objetivo, mas Hokage-sama não me dispensou logo em seguida e sim começou a falar sobre outra missão, problemático. Alguém bateu na porta e entrou. “Essa não!”, pensei comigo. Era a Problemática do Deserto.
—Olá Temari. – Tsunade-sama a cumprimentou – Chegou no momento certo.
—Olá Hokage-sama. – Ela se curvou e depois olhou para mim – Oi Shikamaru.
—Oi Temari. – Passei a mão na cabeça enquanto imaginava qual problema ela trazia até Konoha.
—Aqui está o pergaminho que Kazekage-sama me pediu para trazer. – Ela se aproximou da mesa de Tsunade e depositou o pergaminho sobre ela.
—Muito bem. Já fui orientada que esse pergaminho deve chegar às mãos do Mizukage também. Por isso, amanhã cedo vocês dois irão à Kirigakure completar essa missão. Gostaria que você se reportasse como representante do Kazekage, espero que não se importe, Temari.
—Claro, Hokage-sama. – Temari assentiu e não demonstrou nenhuma emoção. Cara, isso vai ser tão problemático.
—Ótimo, estão dispensados. Passem aqui antes de saírem para pegar o pergaminho. – Tsunade pegou o pergaminho em cima da mesa e começou a abrir.
—Hai! – Temari e eu dissemos ao mesmo tempo, mas claro que com ânimos bem diferentes. Nos curvamos e saímos pela porta. Aparentemente estamos tomando o mesmo rumo.
Temari estava com a cabeça erguida e olhava fixamente para frente. Soltei um longo suspiro. Por que ela age como se não me conhecesse? Por que mulheres tem que ser tão complicadas?
—O que te incomoda, Temari? – Coloquei as mãos nos bolsos e soltei os ombros.
—Hm? – Ela pareceu surpresa e olhou rapidamente para mim com o canto do olho, ficou sem graça e corou um pouco, mas fingi que não percebi – Nada, estou bem...
—Ruh. – Murmurei e olhei para ela. Por que não diz logo? Que problemático – Você é uma péssima mentirosa.
—Ora. – Temari não aprovou minha observação – Estou preocupada com esse assunto dos Kages, Gaara não quis me contar sobre o que é.
—Não fique. Com certeza se fosse algo ruim já saberíamos. – Dei um pequeno sorriso de lado que pareceu acalmar essa mulher problemática – Vamos comer algo, deve estar com fome depois dessa longa viagem. – Olhei para Temari e ela assentiu. Ótimo, pelo menos dessa vez foi sem joguinhos. Suspirei internamente.
Nos dirigimos até o quiosque de dango, nos sentamos numa mesa e fizemos nossos pedidos. Temari estava quieta e visivelmente incomodada com algo, além de seu cansaço. Trocamos poucas palavras durante nossa refeição e depois a convidei para dar uma volta. Não que eu quisesse ficar andando por ai com a Mandona do Deserto, mas parecia a coisa certa a se fazer. Temari resolveu se sentar em um dos bancos da praça e levou a cabeça para trás, olhando a lua. Fiquei um pouco em pé, observando as feições: cansada, frustrada e triste? Isso definitivamente não faz o jeito da Temari, se ela continuar assim vai ser difícil sobreviver até a Névoa. Aliás, como ela conseguiu vir sozinha de Suna?
—Quer conversar sobre algo? – Me sentei vagarosamente ao seu lado e parece que a tirei de seus pensamentos. Temari balançou a cabeça negativamente, mas não disse nada. Levantei os braços e os apoiei sobre o encosto do banco.
—Olá Shika! Olá Temari! – A voz alegre de Ino preencheu o silêncio que a Mandona deixou. Viramos a cabeça em direção a origem do som e avistamos Ino e Chouji caminhando abraçados. Ela estava acenando com um sorriso enorme no rosto e Chouji sorria sem graça.
—Oi. – Temari estava evidentemente surpresa e sua voz saiu baixa.
—Oi Ino, Chouji. – Acenei com a cabeça enquanto eles passavam por nós.
—Isso é sério? – Temari me dirigiu a pergunta incrédula e com os olhos ligeiramente arregalados.
—Eles estão juntos há uns três meses. – Respondi com um curto sorriso – É sério? – Devolvi a pergunta e Temari assentiu, concordando – Você não precisa ficar com inveja da Ino. – Provoquei-a enquanto encarava a lua e sorria.
—Do que você tá falando? Por que eu teria inveja da Ino? – Temari esbravejou, indicando que estava voltando ao normal – Convenhamos, o Chouji nem é bonito. – Ela deu uma pequena risada irônica.
—Mas a Ino encontrou alguém que goste dela. – Olhei para Temari com o canto de olho, ela desviou o olhar e fitou o chão.
Temari estava pensativa e não desviava os olhos do chão. Me inclinei em direção a ela, usei uma das mãos para segurá-la pelo queixo e fazê-la me encarar. A Mandona do Deserto, que não estava mandona hoje, me olhou surpresa e notei suas bochechas ficando vermelhas rapidamente enquanto ela prendia a respiração involuntariamente. Abri um pequeno sorriso e fechei os olhos, me aproximei mais de seu rosto e senti sua leve expiração. Quando encostei em seus lábios, Temari os entreabriu e retribuiu docemente aquele beijo. Ao nos separarmos, Temari pareceu surpresa e, talvez, assustada. Ela se levantou rapidamente e ficou em pé me encarando por alguns segundos.
—Idiota! – Ela esbravejou como de costume e me deu as costas, caminhando com passos apressados e pesados. Então parou de repente e disse em voz alta sem se virar – Nos encontraremos no portão. Eu pego o pergaminho. E não se atrase. – Alinhou sua postura, ergueu o queixo e continuou seu caminho.
—Problemática. – Murmurei para mim mesmo, enquanto analisava os fatos antes de ir para a casa.
Temari
Argh! Aquele idiota do Nara! Fechei a porta do quarto do hotel e me apoiei contra ela. Não tinha notado até o momento que a minha respiração estava ofegante e meu coração acelerado. Mas que diabos? Por que aquele babaca fez isso?! Meu corpo estava todo arrepiado e eu não parecia ter controle nenhum sobre ele, minhas mãos geladas tremiam como se a temperatura estivesse baixíssima. Mas não estava.
Fechei os olhos para me concentrar na respiração, mas o sorriso debochado de Shikamaru foi o que veio à mente. Não, Temari! De jeito nenhum! Abri os olhos outra vez e melhorei minha postura levantando os ombros, involuntariamente toquei meus lábios e toda aquela sensação voltou. Ele estava tão próximo de mim, senti minhas bochechas queimando e de repente ele estava me beijando... Eu esperaria qualquer coisa dele naquele momento, mas não aquilo.
Foco, Temari. Você tem uma missão. Que não é beijar o Shikamaru. Pergaminho. Névoa. Importante. Secreto. Kages. Shikamaru. Não! Foco, garota!
Me joguei na cama de bruços e abracei o travesseiro. Será que isso foi alguma espécie de aposta? Será que ele também se sentiu mal com a Ino namorando o Chouji? Será que o Shikamaru gosta da Ino?! Mas como ele pode? Ela é tão chata... Mas eles são amigos de infância, parceiros de equipe... Eles inclusive tem uma técnica que executam juntos... É, talvez ele esteja se sentindo mal por não ter conquistado a Ino. Então ele me usou? Eu não acredito que aquele idiota ousa imaginar que vai me usar para esquecer a Ino!
Mas e se ele não gosta da Ino? Será que ele me beijou porque quis? O Shikamaru gosta de mim? Não, claro que não... Por que ele gostaria de mim?... Por que eu ficaria triste com isso?! Qual é, Temari!! É o Shikamaru, você não se importa, certo...? Certo Temari?! Certo. Certo, não me importo. Mas ele continua sendo um idiota! E continuei repetindo isso a mim mesma até pegar no sono.
Shikamaru
“E não se atrase” – A voz da Mandona ecoou na minha cabeça. Soltei um longo suspiro e cruzei os braços. Já estava esperando Temari há uns 30 minutos do horário combinado. Espero que ela não tenha cometido a estupidez de ir à Névoa sozinha. Por que as mulheres têm que ser tão complicadas?
E lá vem ela. A Mandona do Deserto, caminhando com toda a “graciosidade” de uma leoa feroz, disposta a matar o primeiro que cruzar seu caminho, que, para a minha irônica sorte, sou eu. Problemático...
—Bom di...
—Eu sei, estou atrasada. Perdi a hora. Agora vamos logo com isso. – Ela me interrompeu e passou caminhando sem sequer olhar para mim. Revirei os olhos e a segui, tentando alcançá-la.
—Temari...
—Eu sinto muito por você ser obrigado a vir, mas não se preocupe. Pode ficar se quiser, eu consigo levar o pergaminho até a Névoa, você não precisa ir também. Quer saber, não venha. Sei como você preferiria um milhão de vezes estar dormindo agora ou fazendo qualquer outra coisa que não seja uma missão. – Temari me interrompeu outra vez e, enquanto reclamava sem parar, peguei o pergaminho da sua mão e guardei em um dos meus bolsos. Ela me olhou espantada e parou de falar, arqueei as sobrancelhas, Temari desviou o olhar e continuou caminhando.
Soltei um longo suspiro, coloquei as mãos nos bolsos e continuei caminhando ao lado de Temari. Não trocamos nenhuma palavra por um bom tempo, mas eu a observava pelo canto do olho e via sua cara amarrada e seus punhos cerrados. Algo que me diz que ela está brava comigo. Acabei dando uma risada em voz alta.
—O que foi? – Temari me olhou cheia de fúria.
—Você continua bonita mesmo brava. – Na minha cabeça isso se parecia muito menos com uma cantada. Mas dei um pequeno sorriso de qualquer maneira.
Temari arregalou os olhos e corou. Virou outra vez a cabeça para frente e apertou os passos. Ela estava poucos metros a minha frente, mas não fiz questão de acompanhá-la. Caminhamos por mais um longo tempo sem conversar, mas a expressão dela havia mudado. Ah, cara, que problemático.
Percorremos boa parte do caminho em silêncio. Trocávamos meia dúzia de palavras somente quanto a missão, sobre o tempo que levaríamos para chegar até o mar, horário dos barcos e intervalos para descanso. Quando passávamos pelo meio de algum vilarejo, conseguia perceber Temari retraindo os ombros e abaixando a cabeça. Seus passos ficavam mais rápidos e era como se ela quisesse passar despercebida por ali. Foi então que me convenci que algo realmente estava acontecendo. Que não eram só os hormônios ou irritação por eu tê-la beijado na noite anterior. Algo estava tirando a atenção dela.
Mesmo após anoitecer ainda percorremos bons quilômetros. Paramos somente quando ficamos exaustos e a noite atingiu seu ápice de escuridão. Montamos uma barraca apenas e revezaríamos a guarda. Acendi uma fogueira e fiquei perto dela me aquecendo, enquanto Temari descansava no lado de dentro da barraca. Apesar de estar fechada eu conseguia ouvi-la virar de um lado para o outro incansavelmente.
Temari
Eu queria dormir. Eu precisava dormir. Mas a minha cabeça estava tão cheia e tão pesada que eu estava sentindo que ela explodiria a qualquer instante. Há tempos desde a última vez em que tinha conseguido dormir de modo que eu realmente pudesse descansar, entretanto, na noite passada eu consegui. Talvez estivesse cansada da viagem, talvez eu tivesse certeza que estaria em segurança no território de Konoha ou talvez porque Shikamaru tinha voltado todos os meus pensamentos para o beijo que ele tinha me dado e Hideo já havia perdido seu espaço na minha mente, deixando de me assombrar.
Esses dois pensamentos estavam em um grande conflito na minha mente e isso realmente me tirava o sono. Eu temia ver Hideo nos vilarejos pelos quais passamos, pois sabia que ele poderia muito bem ter conseguido uma missão e descobrir minha localização em questão de horas. Obviamente Kankuro diria a ele sem rodeios nenhum. Ninguém suspeitava de Hideo e por isso ninguém acreditava em mim. Maldita hora em que decidi que deveria me abrir! Como pude cometer um erro tão grande? Logo eu! Eu me condenava e, mesmo assustada, eu acreditava merecer esse terror. Afinal, eu havia tratado todos com desprezo desde sempre, certo? Eu poderia ter escolhido qualquer outro shinobi que me tratasse melhor, mas eu escolhi aquele shinobi. Eu merecia Hideo.
Mas e Shikamaru? Ele era idiota, sim. Bebê chorão e resmungão. Mas ele sempre me tratou bem. E o que eram todas essas coisas que estavam acontecendo entre nós? Ele me levou para comer dangos, depois demos uma volta, ele notou que algo me incomodava e me beijou. Hoje ele me elogiou e se preocupou em me deixar dormir primeiro porque eu estava mais cansada. Ele passou o direito de dormir! Se eu o conheço pelo menos um pouco sei o quanto ele gosta de dormir e que ele agarraria a oportunidade com as duas mãos quando pudesse. E ele fez exatamente ao contrário.
Era inevitável não rolar de um lado para o outro e eu sabia que ele perceberia isso. Shikamaru sempre foi tão analítico, óbvio que nada passaria despercebido pelos seus olhos. Eu estava me esforçando tanto para parecer natural e que tudo estava sob controle, mas eu sabia que ele logo perceberia que não estava e, por mais que eu não quisesse admitir, eu já não estava tão forte assim. E o pior de tudo é que eu sabia disso. Mas eu jamais aceitaria esse fato. Entretanto, se houvesse alguém nesse planeta em que eu poderia confiar a situação que eu me encontrava, essa pessoa certamente seria Shikamaru. Ele saberia o que me dizer. Ele era bom em estratégias, talvez me ajudasse a fugir de Hideo. Só não seria agora. Eu não sei se meu orgulho me permitiria aceitar que eu precisava da ajuda dele. Eu sou forte. Eu não vou fraquejar.
Eu não posso fraquejar.
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