Protect Me From What I Want
1 Capítulo Único
Na entrada da residência, a garota caminhou sobre as folhas secas, coberta por um casaco e com uma pequena mala na mão, sempre com seus olhos verdes apáticos que cobriam uma intensa curiosidade. Ela posicionou-se à frente da porta e suspirou. Ela estava cansada, não fisicamente, mas das tentativas que fizera no decorrer da vida como o casal de imigrantes da Alemanha em Iowa que obrigavam à comer porções alarmantes de strudel e ouvir todos os álbuns da Taylor Swift ou a mãe de Mississippi com suas dinâmicas de palestrante motivacional e aulas de Yoga.
Ela bateu na porta, mas apesar das batidas constantes, ninguém atendia, a mansão aparentava estar vazia, talvez, fosse um sinal de fuga, a qual Emma aceitaria por imediato, porém, a porta abriu-se devagar e ela entrou. O seu olhar acompanhou toda a imponente decoração e sua bela face permanecia com um ar de estranheza em relação a casa gélida que produzia um sentimento de solidão.
No outro cômodo, o compasso acelerado do corpo da rainha e seus passos largos e decididos pronunciavam sua chegada. A mulher mais velha de baixa estatura aproximou-se do mais novo membro da família. Desrespeitando o espaço pessoal da jovem de cabelos loiros, a rainha avaliou minuciosamente as características de seu ingrediente essencial e expirou o ar lentamente.
Poucas palavras foram ditas, após uma rasa apresentação foi feita, sua nova tutora a guiou para suas acomodações e desapareceu do cômodo. Enfim, a pequena Swan via-se novamente sozinha na imensidão residencial, amedrontada por aquela mulher estranha.
Anoiteceu no Maine. O jantar foi servido na casa dos Mills. A enorme mesa com um singelo banquete posto para a Rainha e sua convidada. Apenas os sons de talheres sobre o prato ou o ruído branco da rua eram escutados. De vez em quando, a pequena Swan lançava olhares sobre a mulher mais velha que estava fielmente concentrada no próprio prato. Emma não podia negar que estava ansiosa em tentar um diálogo com a sua nova tutora. Os seus lábios formigavam, mas sua garganta fechava a cada tentativa de dizer alguma frase. De repente, sua tutora notando sua inquietação, ergueu lentamente a cabeça e Emma encontrou um olhar sórdido e insustentável que não prometia coisas boas. A mulher com uma voz baixa e autoritária ordenou que não proferisse palavra alguma. Assim foi o primeiro diálogo com sua nova tutora e o jantar seguiu com a atmosfera sufocante.
Enfim, restava somente para Emma sentar-se à mesa, diante de um prato apetitoso, mas com uma intensa sensação de desgosto e indisposição. A jovem ajustou sua postura, tentou engolir suas últimas garfadas, pediu licença, se retirou da mesa e foi para o seu quarto.
Ao se deitar, ela optou por não guardar na memória sua terrível chegada, não orou como foi lhe ensinado e tampouco preocupou-se com a hora para dormir. O silêncio que recebia lhe causava insônia.
"No pequeno estábulo, o amante de Regina a enchia de olhares amorosos e pedia incessantemente para ela renegar aos desejos de sua mãe. Os belos olhos da princesa enchiam-se de tristeza assim que relatava que não podia fazer tal ato. Ela o amava com todo seu entendimento e essa tal razão a fizera covarde, por muitas vezes, diante de sua mãe e então os olhos de Daniel sumiram na névoa."
Durante o silêncio da noite, a rainha era aprisionada pelas próprias memórias, e pela manhã, apenas cansaço.
Após seu novo feitiço, Daniel voltará e a rainha o fará entender, como sofreu pela sua insanidade e como tentou libertá-lo, ele pode não ter escutado, pode não ter compreendido no passado, talvez ele escute agora.
Em outro cômodo, a pequena Swan imaginava as tardes de sábado com aquela a sensação quente e completa de estar sentada em um sofá, acompanhada por seu pai, um homem de cabelos claros igualmente ao seu e com quem trocaria olhares divertidos ou discutiria sobre os personagens do desenho animado. Ou observar seu reflexo no espelho da penteadeira cheia de produtos para cabelo, enquanto as pequenas mãos de sua mãe penteavam suavemente os seus fios de ouro com um imenso sorriso no rosto. Depois, desejaria sentir o calor entre os grandes braços do pai ou as carícias da mãe sobre a sua face, antes de a colocarem na cama. Essas imagens enchiam seu peito, doía e as lágrimas em sua face ardiam. Nunca teria tais coisas dos dias de outono.
Pela manhã, a garota com curiosidade de conhecer seu novo lar foi ao belo jardim, se assentou ao pé da macieira, tomou um dosfrutos já maduro e o saboreou. O outono estava lá, Emma Swan podia sentir.
Da janela de seu escritório, a rainha observava a garota sentada debaixo de sua macieira. Ela pensou que morte da menina valeria o preço de sua felicidade, e que os deuses a perdoassem, ela necessitava. Na chegada da nova hóspede, ela planejou uma rápida ação de tomar o coração da jovem, porém, falhou, ao se encontrar nos olhos da pequena Swan. Covarde, covarde. Se desconhecia, repetia inúmeras vezes quem era, jamais se compararia a uma órfã, mas, aquele sentimento a perseguia. Ela se esforçava para não conter os próprios desejos, porém, era grande a empatia que sentia pela garota. Não desejava que lapsos de razão a impedissem desta vez. Com compasso de seu corpo acelerado, ela expulsou qualquer pensamento em mente e foi para o seu jardim com um vigor renovado pelo ódio.
Ela se aproximou devagar de sua árvore. A garota se levanta das raízes com uma maçã em uma das mãos, ela se assusta com sua presença, porém, a oferece o fruto com um pequeno sorriso. Nas feições da moça havia uma suavidade que lhe causava náuseas. Novamente algo que recorria às suas memórias. Daniel...aquele que a incentivou a destruição dessa escuridão que agora, é parte de seu ser e, até mesmo, da ação que ela está prestes a fazer. Ele não está aqui, não, no momento. A sensação de trazer consigo alguns séculos de experiência foi necessário para prosseguir com o plano e com um movimento rápido, já estava com as mãos no coração de sua cativa.
Regina observava as feições da garota que respirava com dificuldade, lágrimas rolavam na face dela, as pequenas mãos que agarravam os seus braços. A pequena menina olhava diretamente em seus olhos negros e pedia em sussurros que não realizasse tal ato cruel, porém, após alguns segundos de hesitação por parte da rainha, a garota permaneceu estática, piscou repetidas vezes para descartar algumas lágrimas que ainda insistiam em cair e seu corpo se acalmou e o desespero até então notado desapareceu. Para a rainha um comportamento incomum de suas vítimas.
A jovem preparou seu espírito para sua ida ao mundo dos mortos, mas, antes de tudo olhou diretamente nos olhos da morte. Apesar dos intensos esforços de seu corpo para sobreviver, ela compreendeu que morte seria de agrado fino e ela não resistiria. Confirmando sua covardia, não realizou ato algum de bravura em relação a sua vida, onde no decorrer da mesma, eram sempre freiras ou assistentes que geriram seus direitos e ações. Portanto, o cumprimento da tradição não seria quebrado, no momento de sua morte, ela seria apenas mais uma espectadora de sua sofrível condição. Sendo assim, se a terra fosse o inferno de outro planeta que os deuses levassem a qualquer lugar, sabendo que não causou mal algum aos homens, ela aceitou o próprio fato, morrer como uma maçã esquecida ao pé da macieira e onde poderáapodrecer com o tempo...
Aquela cativa de desejos vãos, pouco se importava com a morte, sendo que sua bela face permanecia com um ar de desdém em relação às suas ações. Com o coração em sua mão, seu interior vibrou de ansiedade, enquanto observava seu mais novo componente. A rainha correu para seu refúgio a fim de realizar o seu feitiço, como uma colegial com os hormônios à flor da pele que foge de suas aulas para se encontrar com o namorado.
Em seu esconderijo, reuniu todos os componentes necessários e com intensa dificuldade e várias horas investidas, último ingrediente foi colocado. A luz intensa surgiu no pequeno ambiente e era possível enxergar uma figura humana que estendia os braços para ela, parecia ser Daniel. Seu amante, porém, a figura revelou-se somente em forma de névoa como em suas memórias, não criou forma humana definitiva. Os seus dedos ainda tentaram alcançá-lo, mas foi tarde e ele desapareceu.
Daniel despertou junto com a lua, sendo ela, dama consoladora não conseguiu cessar o pranto da rainha, enquanto ela se lançava novamente em seu desespero ou no passado de seu caminho, novamente sem Daniel. A rainha percebe uma presença estranha nas portas entreabertas do seu esconderijo, quando foi averiguar, encontra a sua cativa desfalecida como o cair das folhas de outono.
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