Querido diário,

Sempre soube que a sociedade é volúvel e caprichosa. Com indiferença extravagante, ela pode consagrar uma donzela como um Diamante de Primeira Grandeza em uma noite e, na noite seguinte, declarar essa mesma donzela insuportavelmente insípida. Pode convencer toda a socie­dade a adquirir mobília chinesa, para depois afirmar que só a egípcia é bela.

É tudo tolo.

Uma declaração da total frivolidade da vaidade humana.

Por que uma donzela até então declarada um desastre, uma caipira sem encantos, passa a ser de repente ovacio­nada como uma Original?

Ah, sim.

O ridículo absurdo da sociedade.


XXXXX



Era muito divertido. Após semanas de cantos escuros, Gina era repentinamente a mais assediada. Bastava entrar em um salão para ser imediatamente cercada por anfitriãs esperançosas e cavalheiros ansiosos. Sua correspondência era recheada de con­vites. E suas tardes eram tomadas por inúmeros visitantes. Era uma Original. O último interesse de Harry.


O que, é claro, fazia toda a diferença.

Ou deveria fazer.

Era impossível identificar a origem do desconforto que domi­nava seu coração. Devia estar feliz com o sucesso de seu plano escandaloso. Pelo braço de Harry, fora apresentada a uma dúzia de cavalheiros solteiros. Homens atraentes. Poderia escolher qual­quer um, e teria a certeza de um casamento confortável.

Então, por que se sentia tão inquieta?

— Gina! Você prometeu que passaria o dia repousando!

Harry. Por mais frequentes que fossem os encontros e as visitas a sua casa, a reação era sempre a mesma. Aquele arrepio poderoso e delicioso.

Estava começando a se aborrecer com isso.

Quinze dias de exposição ao charme inegável do experiente sedutor, e ainda não se habituara a sua presença.

— Sr. Potter...

Ele se aproximou da mesa da biblioteca e sorriu.

— Meu nome é Harry. Já havíamos combinado, lembra?

— Eu... não ouvi quando foi anunciado.

— Não fui.

— Ah... Bem, terei de falar com meu mordomo. Ele parece ter esquecido quem paga seu salário.

— Não seja dura demais com o pobre homem. Naturalmente, ele presumiu que desejaria receber a visita do cavalheiro que a tirou da monotonia.

— Naturalmente.

— Está encantada com minha visita, não está?

Gina tentou convencer o corpo a atender aos comandos do cérebro. Não queria joelhos trêmulos, mãos frias e coração dis­parado. Isso era apenas um negócio.

— Na verdade, estou. Sua presença pode ser útil para mim.

— Intrigante... — Ele segurou seu rosto entre as mãos.

— O que está fazendo?

Harry beijou-a nos lábios com espantosa delicadeza.

— Sendo útil, é claro.

Maldição! Devia ser ilegal exibir toda essa sensualidade em público!

— Não era isso que...

O protesto morreu quando ele beijou um canto de sua boca.

— Relaxe, minha querida.

Relaxar? Com aquela labareda ardendo em seu ventre? Im­possível!

— Harry, seu comportamento é absurdo. Não precisa fingir quando estamos sozinhos.

Ele continuou beijando o canto de sua boca, afagando seu rosto com as mãos.

— Preciso praticar...

— Deve ter praticado o suficiente para a vida inteira.

— Hum... Então é você quem precisa de prática. Ou... sou eu que não resisto à tentação.

A boca apoderou-se da dela num beijo que não era mais pro­vocante, mas indecente por sua intimidade.

Gina não conseguiu conter um gemido. Isso era diferente de tudo que havia vivido nas últimas duas semanas, dos toques ca­suais e das intimidades ocasionais. Havia uma voracidade no beijo... Uma necessidade compulsiva que despertava nela reação semelhante.

Sem se dar conta do que fazia, ela colou seu corpo ao dele. Não sabia o que buscava, até sentir o volume rígido pressionando seu ventre. Sim, pensou atordoada. Era isso que desejava. Preci­sava de ajuda para preencher aquele vazio.

Devia estar chocada. Horrorizada, até. Mas era difícil combater o impulso de friccionar-se contra aquele volume tão evidente.

Como se sentisse seu desejo, Harry gemeu e segurou-a pela cintura, movendo as mãos por suas costas até encontrar a coluna em sua porção mais baixa.

— Gina... — murmurou, puxando-a contra o corpo. — Quero sentir seus lábios em mim.

— O quê?

— Beije-me.

As palavras penetraram em sua mente confusa e, sem prestar atenção ao que fazia, Gina deixou os lábios deslizarem por sua face até o queixo de formato perfeito. Era um toque suave, sutil, mas poderoso o bastante para fazê-lo tremer.

— Você é uma mulher perigosa...

O que havia começado como um jogo transformava-se rapi­damente em uma ameaça. Algo que poderia levá-la ao desastre, se não tivesse cuidado.

Com as mãos apoiadas no peito largo, ela se esforçou para recuperar a razão.

— O perigo aqui é você, não eu.

— Está com medo?

Devia estar. Reconhecia a ameaça na paixão que ia descobrin­do com Harry. Seria fácil trocar a sanidade pelo prazer que ele podia oferecer.

Mas, apesar do bom senso avisar que devia se comportar, não sentia medo. Sentia, sim, uma maravilhosa euforia.

O prazer que ele provocava podia ser pecaminoso, mas era delicioso demais para lamentar.

— Não — admitiu finalmente.

— Isso é o que mais admiro em você, minha cara.

— O quê?

— Essa coragem inabalável. Já enfrentou alguém ou alguma coisa que não pudesse conquistar?

Você.

Gina se afastou para esconder a expressão horrorizada.

Qual era o problema com ela?

Não queria conquistar esse homem. Ele era um patife. Um velhaco. Um cavalheiro que nada possuía para oferecer a uma mulher, além de prazer fugaz e sem importância.

Ele só estava em sua vida por dinheiro. No momento em que esquecesse esse fato, estaria em grande perigo.

Com um controle impressionante, ela o encarou e sorriu.

— Londres, por exemplo. A cidade me apavora.

— Você já conquistou Londres. Está nos lábios da sociedade.

— Graças a você. E só por um momento. Na próxima semana já terão me esquecido.

— Tomaremos providências para que isso não ocorra. Sempre tive um grande talento para provocar rumores.

— Mas eu devo agir com cautela.

— O que quer dizer?

Ela retirou uma folha de papel da gaveta da escrivaninha. Con­tratara Harry para encontrar um marido, não para ser seduzida. Quanto antes encontrasse esse homem, mais depressa poderia voltar a Surrey e recuperar a sobriedade.

— Estive fazendo uma lista.

— Outra?

— Já disse que preciso delas para organizar meus pensamen­tos. Fiz uma relação de cavalheiros solteiros aos quais fui apre­sentada nas últimas duas semanas.

— Ah...

— Infelizmente, sei pouco mais que seus nomes. Espero que possa me dizer mais sobre cada um deles.

— Eu?

— Bem, você os conhece melhor que eu.

— Gina, sou um homem sofisticado, é verdade, mas meus in­teresses não incluem rapazes ou cavalheiros.

— Deve saber alguma coisa sobre eles.

— Nada. Apenas que são aborrecidos.

— Não quer ao menos ver os nomes? Talvez...

— Não. — Harry soava irritado. — Não vou perder um dia lindo com suas listas ridículas.

Gina perdeu a paciência.

— Diferente de você, não estou aqui para desperdiçar meus dias no ócio. Só tenho algumas semanas até o fim da temporada, e pretendo encontrar um marido até lá.

— E espera retirá-lo de uma lista? Como se comprasse um bilhete de loteria? Absurdo!

Como se não sonhasse com uma corte normal, com um pre­tendente apaixonado e apaixonante.

— O que espera que eu faça? Acha que devo voltar a Surrey e me casar com um agricultor? Ou pensa que um mercador seria mais adequado para uma dama que cheira a feno?

— Não é nada disso.

— Então...

— Gina, não vim aqui para discutir.

— Por que veio, afinal?

— Pensei que seria conveniente se fôssemos vistos juntos no parque. É o esperado.

— Não sei se...

— Escute, eu me desculpo por tê-la ofendido ou magoado. Leve sua lista e discutiremos seus maridos em potencial, se quiser.

— Não me trate como uma menina mimada, Sr. Potter.

— Não estou... Ah, eu já pedi desculpas, não?

— E não pense que me encanta com seu charme.

— Não? Devo implorar, então? — Ele segurou sua mão e beijou-a. — Por favor, minha querida, acompanhe-me em um passeio ao parque. Prometo que vou me comportar.

— Eu... não creio que seu melhor comportamento seja o bas­tante.

— Não seja cruel, minha querida. Vamos aproveitar esse lin­do dia.

Quando o contratara, sabia com quem teria de lidar. Tinha consciência dos riscos. Mas ainda precisava de um marido, e sua única esperança era que a convivência com esse cavalheiro atraís­se outros pretendentes.

— Preciso mudar de roupa.

— Use o vestido azul. Realça seus olhos.


XXXXX

— Muito bem — Harry anunciou relutante no interior da carruagem, tentando ignorar o desejo que ameaçava incinerá-lo —, vamos ver essa sua lista de nomes.

Sempre eficiente, ela tirou a relação de sua pequenina bolsa.

— O primeiro é o Sr. Thomas — disse animada.

— Dino Tímido? Por Deus, não!

— Por que o trata por esse apelido?

— Porque ele é tão mole que tem medo até da própria mãe. É fraco.

— Talvez seja apenas encabulado.

— Ele desmaiou na queima de fogos em Vauxhall e saiu cor­rendo e gritando da casa dos White quando lorde Dunn disse, brincando, que havia um rato sob sua cadeira.

— Ah... E lorde Finch Fletchey?

— Um bêbado.

— Tem certeza?

Harry hesitou. Honestamente, só havia visto o jovem nobre embriagado em algumas poucas ocasiões. Mesmo assim, era me­lhor ter cautela. Essa mulher estaria à mercê do marido. Devia ter confiança de que o homem escolhido fosse respeitável e es­tivesse acima de qualquer crítica.

— Sim — mentiu.

— O Sr. Finnigan?

— Ele joga — Harry exagerou mais uma vez. — Logo per­derá toda sua fortuna.

— Sr. Corner?

Ele tossiu constrangido.

— Não.

— Por quê?

— Digamos apenas que ele possui hábitos... desagradáveis.

— Desagradáveis?

— Hábitos aos quais nenhuma jovem mulher deve ser exposta.

— Oh... — Um rubor tingiu suas faces. — E o Sr. Creevey? Ele é muito agradável.

Como o nome de Colin fora parar na maldita lista? O belo de­vasso era um dos piores canalhas de Londres. Teria Gina em sua cama antes que ela pudesse piscar. Era evidente que precisava ter uma conversa com o velhaco. Uma conversa na qual deixaria bem claro que o elegante sedutor correria risco de danos quali­ficados, caso encostasse um dedo na Srta. Weasley.

— Sim, muito agradável...

— Então você o aprova?

— Por que não aprovaria? Só pensei que... Bem, você mesma disse que não se interessava por patifes e velhacos.

— Ele é um patife?

— De fama e notoriedade.

— E deve haver algo errado com o Sr. Goldstein, também?

— Ele não toma banho com muita frequência, e dizem que trapaceia no jogo de cartas.

Gina suspirou e dobrou sua lista.

— Devo dizer que é um homem muito difícil.

— Eu? Por quê?

— Pensei que estivesse ansioso para me pôr nos braços de um futuro marido. Afinal, quanto antes me comprometer, mais de­pressa estará livre desta farsa.

— Prefere que eu minta e permita que se case com um cava­lheiro inteiramente inadequado?

— É claro que não, mas...

— Sim?

— Não consigo acreditar que todos esses cavalheiros são ina­dequados.

Talvez não inadequados, ele concordou em silêncio, mas cer­tamente intoleráveis.

— Receio que a procura continue — Harry respondeu com um sorriso enigmático.

— É o que parece — ela confirmou desconfiada.

— Ainda há muito tempo, minha querida. — Harry fitou os olhos brilhantes e inteligentes, a boca carnuda e tentadora, e sua determinação ganhou força. Não a entregaria a um cavalheiro qualquer que não apreciasse seus raros dons. — Não vai querer fazer uma escolha precipitada e passar o resto da vida lamentando essa decisão. Vai acabar encontrando um cavalheiro decente. Até lá, teremos de manter nosso flerte. Agora, diga-me que delicioso passatempo tem em mente para mais tarde?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.