Querido diário.

Desde que cheguei em Londres, descobri que ir a um baile elegante é como ser atriz em uma produção teatral.

Para começar, todos devem conhecer bem seu personagem e o exato local que ocupa no palco.

Cavalheiros mais velhos, cuja audição é reconhecidamente prejudicada, são postos bem afastados da orquestra, de forma que possam conversar aos berros sem importunar os que estão dançando. Matronas se situam em posição de proeminência de forma a poderem dispor confortavelmente da reputação de vários convidados.

As jovens beldades e as debutantes abençoadas por graça e beleza natural gozam de local privilegiado no centro de todos os acontecimentos, de onde flertam e escolhem seus parceiros para deslizarem pela pista de dança.

Finalmente, as desafortunadas encalhadas são postas todas juntas em um canto discreto e sombrio, como flores em um jardim esquecido e negligenciado.

Desgraçado daquele que não se submete com humildade ao papel que lhe é confiado...

*****

Ginevra Weasley estava infeliz.

Odiava Londres. Odiava o ar pesado, enfumaçado, as ruas movimentadas e estreitas, o barulho infinito, a sociedade arrogante e fútil. Acima de tudo, odiava a dolorosa humilhação do que era delicadamente denominado “Mercado de Casamentos”.

Quem poderia imaginar que a experiência seria tão deliciosa quanto extrair um dente?

Sem a mãe para preveni-la contra os tropeços do caminho, havia simplesmente imaginado que todas as donzelas que chegavam em Londres eram apresentadas a diversos cavalheiros na busca por uma esposa.

Não tinha grandes expectativas.

Sabia que era simples de traços e veemente demais para uma donzela. Tinha vinte e três anos, o que significava que estava muito além da idade adequada para uma debutante.

Mas era dona de considerável fortuna de uma vasta propriedade em Surrey, o que certamente representaria um atrativo. Parecia razoável que encontrasse um cavalheiro de bom temperamento que se interessasse por tais aquisições conjugais.

Como poderia ter imaginado que seria tão rapidamente julgada e decretada inadequada? Ou que, por não ser um diamante de primeira grandeza, deveria se manter no canto, ignorada e esquecida pelos vários cavalheiros?

Francamente, qualquer mulher estaria gritando de frustração.

E, para piorar, seu evidente fracasso era motivo de riso para as outras que alcançavam o sucesso social.

Mudando de posição na cadeira dura e desconfortável, Gina tentava ignorar as duas belas jovens paradas perto do canto afastado onde haviam sido acomodadas as indesejáveis do baile.

Nas últimas semanas havia suportado inúmeros insultos, humilhações e provocações cruéis da Srta. Parkinson e da Srta. Chang. Elas pareciam se divertir torturando as pobres donzelas que já sofriam tanto com o desprezo da sociedade. Rapidamente, aprendera que o único meio de suportar tanta crueldade era simplesmente fingir que não as notava.

A pequenina e morena Srta. Parkinson riu e apontou para Gina.

— Francamente, Cho, não é patético? Imaginar que alguém pode passar uma noite inteira sem ser tirada para dançar, sem ser cumprimentada por um cavalheiro sequer! Deve ser embaraçoso para elas.

Mais alta e chinesa, a Srta. Chang torceu o nariz como se o aroma ali não lhe agradasse.

— É de se imaginar que acabem percebendo que não são bem-vindas.

Gina segurava o leque com tanta força, que temia parti-lo ao meio. Enquanto isso, deliciava-se com a imagem das duas jovens sendo atiradas em um chiqueiro fedorento e cheio de lama.

Ou assando em fogo lento. Bem lento.

— Se ao menos fosse possível bani-las... Afinal, seria um gesto de caridade — riu a Srta. Parkinson. — Elas não podem apreciar um evento no qual são esnobadas, ignoradas!

— Talvez não tenham a sensatez de perceber que são desfavorecidas, desprovidas de encantos que possam atrair um cavalheiro. Isso explicaria tanta persistência.

— Realmente. No entanto, temo que a persistência não seja suficiente para atrair um cavalheiro ao canto das desesperadas.

A Srta. Chang riu.

— Quem sabe Longbottom Cara-de-Pudim? Ou o pobre e míope lorde Mundungo. Dizem que na semana passada ele tirou um vaso para dançar.

— Ele não é tão míope que possa desejar dançar com essas... senhoritas.

Gina mordeu o lábio até sentir gosto de sangue. Oh, sim, um fogo lento e ardente... Com uma maça enfiada na boca de cada uma delas.

Normalmente, não se incomodava com o que diziam as outras pessoas. Afinal, desafiava a convenção desde que o pai persistira em treiná-la para assumir seus negócios. Mas a escandalosa desaprovação nunca a afetara. No fundo, sempre tivera certeza da própria competência, da capacidade de ter um desempenho tão bom quanto de qualquer homem.

Mas isso...

O desdém se aproximava demais da realidade, ela reconheceu contrariada. Após várias semanas, ainda não conseguira chamar a atenção de nenhum cavalheiro respeitável. De nenhum cavalheiro, para ser mais exata. Eles a evitavam como se tivesse doença contagiosa.

Nesse momento, sentia-se mais propensa a desenvolver asas e voar do que a encontrar um marido.

A Srta. Chang apontou para o salão.

— Veja! É Harry.

Com um gritinho agudo e enervante, a Srta. Parkinson se ergueu na ponta dos pés para enxergar o mais novo queridinho da sociedade londrina, o Sr. Potter, um cavalheiro de beleza incontestável que era capaz de causar alvoroço entre as mulheres de Londres.

— Tem certeza?

— Eu não o confundiria com nenhum outro — protestou a Srta. Chang.

Nesse momento, sentia-se mais propensa a desenvolver asas e voar do que a encontrar um marido.

— Tem razão. Que outro cavalheiro poderia ser tão elegante ou belo?

— E tão charmoso?

— Ele é delicioso!

— Pena que nunca se aproxime das debutantes. É esse o tipo de marido que desejo encontrar.

Pansy olhou para a amiga com um misto de desdém e maldade.

— Minha mãe diz que uma mulher astuta pode capturar sua atenção elusiva. Afinal, ele é só um homem, tão vulnerável à paixão quanto qualquer outro.

A Srta. Chang franziu a testa numa reação azeda e previsível.

Aparentemente, a amizade não interferia na mais importante de todas as buscas: a de um marido.

— Suponho que se considere astuta o suficiente para conquista-lo? — ela provocou.

— Veremos... — respondeu a outra. — Venha, vamos sair daqui. Ele jamais se aproximaria de criaturas tão... desafortunadas. Vamos chegar mais perto dele.

Juntas, as duas jovens partiram no encalço do Sr. Potter, e Gina ficou olhando para suas costas como se pudesse fulmina-las com o olhar.

Era horrível ser ignorada, excluída e até, em algumas situações, diretamente humilhadas. Mas ser alvo do deboche de duas meninas inteiramente desprovidas de bom senso... Isso era insuportável!

Controlava uma vasta fortuna, administrava sua propriedade e conquistara o respeito de homens de negócios endurecidos, empresários que teriam jurado que nenhuma mulher seria capaz de cuidar tão bem das moedas.

Era intolerável que fosse considerada menos importante que essas tontas apenas por não ter a mesma beleza delas.

Ansiosa por um momento de privacidade e por um pouco de ar, temendo sufocar de calor e raiva diante dos olhares de evidente desprezo da multidão, Gina se levantou.

Nesse momento, daria metade de sua fortuna pela oportunidade de retornar à paz de Surrey.

*****

— Algumas semanas no campo não seriam tão terríveis, Rony. Deve haver alguma companhia por lá e, é claro, há sempre o prazer de evitar bailes tediosos como o de hoje. — O cavalheiro conhecido simplesmente como Harry se apoiou à parede em um canto do salão lotado.

Eram muitos os rumores sobre como ele conquistara o título. Cavalheiros mais velhos estavam convencidos de que era uma consequência de seu hábito agravante de chocar a sociedade com suas atitudes ultrajantes. No ano de 1810, ele havia arruinado um baile na Casa Smith ao levar como companhia um macaco que, prontamente, roubara a peruca de lorde Dédalo Diggle e provocara um ataque de vapores no velho lorde Elifas Doge. Ele vestira a amante como um rapaz e, audacioso, levara-a a diversos clubes de cavalheiros. Fora assistir a uma peça de teatro muito criticada por sua impropriedade, e no ano anterior comparecera ao casamento do tio vestindo luto fechado.

Mulheres idosas estavam certas de que o nome provinha do hábito de ignorar mulheres respeitáveis, preferindo a companhia de cortesãs experientes e viúvas devassas.

As jovens, é claro, o consideravam perigosamente belo. E era verdade. Harry possuía cabelos negros que cintilavam como o mais delicado cetim. Penteados para trás de maneira simples e despojada, os fios brilhantes emolduravam um rosto de traços angelicais. As sobrancelhas eram espessas, e o nariz, aquilino. Se havia um toque de arrogância nas faces proeminentes e no queixo quadrado, ninguém jamais se queixara. Até o corpo era perfeito, harmonioso.

E os olhos.

Ah, aqueles olhos verdes e insinuantes...

Eram os olhos de um patife, de um velhaco, de um... pecador.

Não era de espantar que jovens donzelas suspirassem quando ele as fitava. E jovens cavalheiros tentavam em vão imitar sua elegância.

Só Harry conhecia o dia exato em que havia adquirido tão notório título. Harry... o desregrado, incontrolável. Jamais esqueceria aquele dia. E nunca o revelaria a ninguém.

— Meu querido Harry, você perdeu o juízo? — indagou o homem ao seu lado. — Sabe como detesto o campo. Todo aquele ar puro e aquela lama... Não pode fazer bem à constituição de um cavalheiro. Sem mencionar o perigo de todas aquelas vacas imundas à espreita. Quem pode antecipar quando vão atacar e pisotear uma vítima inocente? Não, não. Temo ser incapaz de deixar Londres no auge da temporada.

Harry encolheu os ombros. Também não desejava deixar a cidade durante o agitado mês de abril. Mas, o que poderia fazer? Seus incontáveis credores iam se tornando vulgares.

— Por mais que me encante com Londres, receio não apreciar a imagem da cidade por trás das mulheres de Newgate.

Lorde Rony Bilius, mais conhecido como Rony, ergueu uma sobrancelha.

— Não pode estar dizendo que os problemas tomaram proporção tão desanimadora!

Harry torceu o nariz. A verdade era que estava numa situação muito difícil. Não era a primeira vez, mas, com certeza, era a mais complexa.

— Asseguro-lhe que me encontro em um beco sem saída — confessou em voz baixa. — Nunca tive o hábito de viver dentro dos limites dos meus rendimentos, que não são suficientes da moda. Minhas extravagâncias nunca tiveram muita importância, enquanto, aparentemente, eu mantinha a posição de herdeiro do conde de Falsdale. Os credores atendiam às minhas necessidades com imensa alegria, e eu recebia seus favores com idêntico sentimento. Mas agora...

O extravagante Rony levou um lenço rendado ao nariz. Aos olhos da maioria, ele era apenas mais um almofadinha ridículo como tantos outros na sociedade. Apenas alguns poucos escolhidos conheciam a mente brilhante e perspicaz por trás daquela imagem tola.

— Mas, agora que o conde decidiu tomar por esposa uma jovem cuja idade seria mais apropriada a sua neta, seu papel de aparente herdeiro perdeu a consistência?

Harry tentava manter a aparência de segurança casual. Quem teria imaginado que o tio, um homem pomposo e arrogante, decidiria se casar pouco antes de completar sessenta anos? Ou que escolheria uma noiva recém-saída da escola?

Teria sido hilário ver o velho se derreter todo por uma criança, não fosse o desastre causado por essa atitude na vida de Harry.

— Odioso! — admitiu em voz baixa. — Ele deveria ao menos ter tido a decência de escolher uma noiva que não fosse tão evidentemente capaz de produzir o próximo herdeiro do título e da fortuna. Desde o casamento, tenho sido assediado por credores aflitos exigindo ressarcimento.

— E o velho conde não pode ajuda-lo a resolver tão premente problema?

Preferia a falência à humilhação de pedir ajuda ao tio.

— Não.

— Entendo. E, se não pode contar com seu tio, vai ter de recorrer a outros meios para obter os fundos necessários. Jogo é imprevisível demais, a menos que se possua talento para a trapaça. E descobri, com grande pesar, confesso, que a loteria não é um meio confiável de afugentar os abutres. Porém, existe um meio confiável de se reabastecer os cofres vazios.

— Ah, sim? E que meio é esse?

— Bem, você só precisa voltar sua atenção para as numerosas debutantes. Já deve ter percebido que causa comoção entre as donzelas, e várias delas levarão ao casamento dotes consideráveis. Algumas são muito ricas. Um mês seria suficiente para recuperar seu conforto, se assim desejasse.

Harry olhou em volta sem esconder o terror. Já havia considerado a ideia de se casar com alguma fortuna, sim, o que, certamente, poria fim aos seus problemas e asseguraria a saciedade de seu notório apetite pelas coisas boas da vida.

Mas a ideia o repelira. Desde a repentina morte dos pais, nunca mais voltara a partilhar de sua intimidade com ninguém. Não tinha irmãos ou parentes próximos, além daquele tio detestável.

E, com sinceridade, não desejava tal invasão. Não quando estava perfeitamente satisfeito com os relacionamentos transitórios e livres que mantinha com a amante e os amigos.

Não queria ser responsável pela felicidade de outra pessoa. Especialmente de uma mulher romântica e sonhadora que, sem dúvida, desejaria receber seu coração em uma bandeja de prata. Era inimaginável.

— Não vou me pôr a leilão — respondeu com firmeza.

— Ah, que encantadora descrição do Mercado Matrimonial.

— Precisa, não?

— Seria uma solução rápida para todos os seus problemas.

— E um meio eficaz de me envolver em outros. O que pensa de passar o resto de sua vida preso a uma dessas meninas fúteis e tolas?

— Não me faça rir. Por favor, nem brinque com esse tipo de situação — Rony reagiu horrorizado.

— Exatamente. Sendo assim, terei de encontrar outro método para obter os fundos de que necessito.

— Talvez eu possa ajudar.

A voz suave e delicada soou atrás de uma grande urna, e Harry e Rony viram, chocados, uma jovem pequenina e desconhecida surgir diante deles.

Harry a encarou embaraçado. Por Deus, ela não possuía maneiras? Não sabia como era vulgar manter-se escondida ouvindo uma conversa entre cavalheiros?

Não que a culpasse por estar escondida. Afinal, a desconhecida não tinha nenhuma beleza a exibir. Era magra demais e excessivamente ruiva para a moda atual, com cachos que não combinavam com seu porte e pele cor de oliva. Seu único atrativo eram os grandes olhos azuis, embora o encarassem diretamente em vez de se refugiarem por trás de pestanas baixas, como era próprio.

— Quem é você? — ele perguntou.

— Srta. Weasley. Desculpem-me se interrompo, mas não pude deixar de ouvir o que diziam.

— Ah, não? Estava presa ao chão? Ou esqueceu de se afastar, como manda a boa educação?

Ela corou.

— Para ser honesta, fiquei para ouvir a conversa. Deliberadamente.

— Por quê?

— Ah, eu... Creio que podemos ser úteis um ao outro, Sr. Potter.

— Úteis?

— Sim. Tenho uma proposta a fazer.

— Lamento, Srta. Weasley, mas não há proposta alguma que possa me interessar. Não vindo de uma donzela. Não tenho paciência para debutantes e suas atenções tediosas.

— Conheço sua preferência por damas mais sofisticadas. Na verdade, toda a sociedade conhece seus desafortunados... hábitos.

— Então, o que quer?

— A proposta que tenho a fazer é de natureza comercial.

Absurdo. O que uma jovem como ela podia saber sobre negócios?

— Nesse caso, devo desapontá-la mais uma vez, Srta. Weasley. Meu único negócio é o prazer.

— Estou disposta a lhe oferecer cinco mil libras.

Harry tossiu. Não era comum que o pegassem desprevenido.

Cinco mil libras? Uma fortuna, sem dúvida.

Seria o fim da pressão dos credores. E, mais importante, evitaria a dolorosa necessidade de buscar a caridade do tio. Mas tal fortuna teria um preço.

Ele cruzou os braços e encarou a jovem.

— Muito bem, Srta. Weasley, tem minha atenção.

Ela não parecia entusiasmada com sua rendição.

— Não acha melhor conduzirmos essa conversa em um lugar menos movimentado?

Harry hesitou.

Ficar sozinho com uma donzela era o caminho mais rápido para o desastre. Um grito, e seria arrastado para o altar antes que pudesse correr.

No entanto, estava curioso. Se essa era só mais uma donzela tentando arrastá-lo para o casamento, certamente era mais original. Além do mais, era astuto demais para se deixar pegar por qualquer armadilha, mesmo que inteligente.

— Sua ideia tem algum mérito — ele concordou com um sorriso debochado. — É possível saber quando alguém se esconde atrás de uma urna para ouvir conversas particulares.

Ela corou novamente.

— Exatamente — concordou.

— Passemos ao jardim, então? — ele ofereceu o braço. Gina hesitou por um momento antes de aceita-lo.

Rony afastou-se. Ficaria esperando no jardim para evitar surpresas desagradáveis.

Em silêncio, Harry conduziu a intrigante jovem para fora do salão. Sabia que seria alvo de fofocas maldosas no dia seguinte, mas não se incomodava com isso. Enfrentava a maledicência da sociedade há anos.

Do balcão, ele seguiu pela escada encurva até alcançar a relativa privacidade do jardim. Lá ele parou.

— Bem, minha querida, essa é toda a privacidade que podemos ousar buscar.

— Ah, sim... — Gina soltou o braço do cavalheiro e agitou as mãos no ar, como se não soubesse o que fazer com elas antes de cruzá-las diante do corpo. — Sabe que já fomos apresentados antes de hoje?

Harry ergueu as sobrancelhas numa reação incrédula. Era apresentado a dezenas de debutantes em todos os bailes. Quem poderia esperar que lembrasse todas?

— Nesse caso, espero que me desculpe, Srta. Weasley. Lamento profundamente se a ofendo com minha lastimável memória.

Ela sorriu numa surpreendente demonstração de humor.

— Não mencionei nosso encontro anterior para provocar um pedido de desculpas, Sr. Potter. Desejava apenas revelar meu dilema.

— Dilema?

— Não é o primeiro cavalheiro a esquecer que fomos apresentados. Francamente, nenhum homem se lembra de mim. Nem mesmo o nome. Ou, se lembram, não poupam esforços para esquecer.

— Deve estar enganada.

— Oh, não, sou uma mulher prática. Sei que tenho idade demais e beleza de menos. Alguns podem até me chamar de feia. Pior, nunca desenvolvi esse charme tolo que os cavalheiros parecem apreciar. Não rio, não flerto e não faço caretas bobas. Sou franca e prefiro a honestidade ao flerte.

Harry estava surpreso com sua honestidade brutal.

Que outra mulher teria a coragem de confessar a própria falta de charme? Especialmente para um cavalheiro solteiro. Ou ela era a mais original donzela que já havia conhecido, ou era maluca.

Intrigado, ele estudou a figura esguia e estranha. Pela primeira vez, notou os lábios carnudos e as linhas puras e firmes de seus traços. Não, ela jamais seria considerada uma beldade, mas havia uma dose de charme que o tempo não delapidaria.

— Entendo.

— Minha esperança era poder superar a falta de atrativos pela fortuna. Afinal, o dinheiro tem seu charme, é inegável.

— Deseja ser pedida em casamento... por seu dinheiro?

— Como disse, sou prática. Pode imaginar algum cavalheiro caindo de amores por mim?

Harry engoliu a resposta negativa que quase brotou de seus lábios. A Srta. Weasley não era apenas mais uma debutante inquieta. Jamais aceitaria as mentiras superficiais que compunham as conversas habituais na sociedade.

Não era uma beldade. Não era exuberante. Mesmo assim, ela era claramente inteligente e excêntrica, o que significava que nunca seria tediosa.

E aquela boca carnuda e sensual...

Lábios que, sem dúvida, daria prazer infinito a um cavalheiro com paciência suficiente para inicia-la nas delícias da paixão.

— Quem pode antever o que trará o futuro? — ele arriscou.

— Não tenho paciência para esperar por tão improvável evento. Quero me casar enquanto ainda posso ter filhos. Por isso pedi para lhe falar.

Harry se sentiu perturbado. Havia uma evidente determinação no olhar dela. Estava diante de uma mulher com uma missão. E, no momento, ele era o caminho.

— Decidiu comprar um marido e pensou em mim?

— Sim.

Era ultrajante! Ela decidira compra-lo depois de ouvir sua confissão sobre a miséria iminente? Ou presumia que todo homem tinha seu preço?

— Suponho que devo sentir-me lisonjeado, senhorita, mas, para ser franco, não estou desesperado o bastante para pôr-me a preço. Não me casarei com você, minha cara. Seja qual for o tamanho de sua fortuna.

Ela riu. Um riso inesperado e franco que iluminou seus traços, conferindo aos olhos uma encantadora astúcia.

— Oh, não! Não quero me casar, Sr. Potter.

— Não?

— É certo que não. O que tenho em mente é um marido bondoso e confortável que se contente com a vida em minha propriedade em Surrey. Alguém que partilhe meu interesse pelos negócios e, espero, seja amigo e companheiro. Não quero um...

— Um o quê?

— Um patife.

A declaração o pôs em seu lugar. Harry não sabia se devia estar aliviado ou ofendido. Só sabia que essa criatura o intrigava.

— Lamento se não estou de posse de toda a minha perspicácia, minha cara, mas... Se não me quer para marido, então, por que me procurou?

— Porque sou excluída. Não consigo dançar nos bailes e nenhum cavalheiro conversa comigo.

— Entendo.

— Desde que cheguei em Londres, tenho sido relegada aos cantos escuros e colocada ao lado de cavalheiros idosos nos jantares. Sendo assim, torna-se impossível encontrar um cavalheiro que me queira por esposa.

— Falta de sorte, certamente. Mas vai acabar encontrando um cavalheiro que a queira.

— Como, exatamente? Pelo que tenho notado, não há destino pior do que ser visto na companhia de uma excluída. Sou como uma praga.

— Uma praga?

— Evitada a qualquer custo. Suponho que minha falta de popularidade instigue o temor de contágio nos cavalheiros.

Ele riu.

— Agora está exagerando.

— Infelizmente, não. Até agora, só fui abordada por um homem que está tão desesperado por dinheiro que teria se casado com o próprio demônio, e por um cavalheiro que poderia ser meu avô. Todos os outros fingem que eu não existo.

Harry estudou o rosto pequeno e sombrio. Era óbvio que sua viagem a Londres resultava em um terrível desapontamento. Mesmo assim, ela não se entregava ao desespero. Não havia lágrimas ou melancolia.

Apenas aquele inconfundível ar de determinação.

— E que serviço acredita que posso prestar?

— Gostaria de fingir... um flerte.

— Como?

— Notei que é o principal convidado de todas as festas.

— Uma posição inútil, posso garantir, minha cara.

— Inútil? Não creio. Se for visto conversando com uma dama ou convidando-a para dançar, logo ela será assediada por um exército de cavalheiros interessados em seguir seus passos.

— Acho que está superestimando meu poder.

— De maneira nenhuma. Ontem à noite foi visto levando a Srta. Patil para jantar, e ela foi cercada por pretendentes ao retornar ao salão de baile.

Harry era delicado demais para apontar que a Srta. Patil era muito mais bonita que a pobre Srta. Weasley e uma consumada especialista na arte do flerte.

— Não pode estar pensando que flertar comigo vai transformá-la no sucesso da temporada!

Ela sorriu, como se pudesse perceber a incredulidade que ele tentava disfarçar.

— Não sou tola. Minha única esperança é deixar as sombras por tempo suficiente para descobrir um cavalheiro a quem eu possa respeitar o suficiente para me casar. Minha riqueza servirá de atrativo.

— Poderia respeitar um cavalheiro que aceitasse desposá-la por sua fortuna?

— Não é incomum que pessoas se casem tendo por base a necessidade, em vez de afeto. Minha mãe, por exemplo, era filha de aristocratas que enfrentaram dificuldade em um dado momento. O casamento foi proposto por meu avô para restaurar as finanças da família, embora meu pai fosse um comerciante.

— Sim, eu sei que tais casamentos não são incomuns, mas nunca pensei que uma jovem pudesse se contentar com isso.

Um sorriso saudoso iluminou seu olhar.

— Meus pais não se casaram por amor, mas surgiu entre eles uma profunda amizade que os uniu até o fim de suas vidas. Na verdade, creio que o respeito mútuo foi mais importante e duradouro do que qualquer atração passageira que pudesse ter existido. E necessário, considerando...

— Considerando o quê?

— Bem, deve imaginar que a diferença entre suas classes sociais dificultava a aceitação do casal. Meu pai não era bem-vindo entre a aristocracia, e minha mãe causava desconforto entre os comerciantes amigos de meu pai. Foi... difícil, para dizer o mínimo. E mesmo assim, eles foram felizes. E é isso que desejo ter.

Harry se sentia perturbado. As palavras da Srta. Weasley soavam muito próximas de sua realidade. O isolamento. A soli­dão. O medo de não haver no mundo um lugar ao qual pudesse se integrar.

De repente ele percebeu que, diferente dele, essa mulher havia escolhido seu caminho e estava disposta a tudo para alcançar o objetivo.

Uma inesperada onda de inveja o atingiu com impacto assus­tador.

Era um absurdo.

Essa pobre criatura enfrentava um terrível fracasso social. Ela mesma admitira ser uma excluída. Tanto, que era forçada a ig­nóbil posição de comprar um marido.

E, no entanto...

No entanto, havia coragem em seu plano. Ela não admitia que o fracasso roubasse seus sonhos. Em vez de voltar para casa der­rotada, como teriam feito muitas jovens, simplesmente havia con­siderado a questão e decidido seguir um caminho ousado.

Teria ele a mesma coragem? Enfrentava os problemas em sua vida com espírito tão admirável? O simples fato de evitar res­ponder tais questões o deixava incomodado.

— Srta. Weasley, respeito sua abordagem lógica do casa­mento, mas receio não poder participar de seu projeto.

— Por que não?

— Sempre segui a política estrita de nunca me envolver com debutantes. Elas representam uma complicação que prefiro evitar. Se for visto fazendo a corte, toda a Londres vai presumir que a estou assediando por seu dinheiro.

— Sim, suponho que tenha razão. Ninguém seria tolo a ponto de acreditar que sou um flerte desejável.

— É muito direta, não? — Harry comentou rindo. Ela também sorriu.

— Sim, creio que sou. Como você, prefiro evitar compli­cações. Infelizmente, esse traço não é muito admirado em uma mulher.

— Imagino que não — ele concordou, aceitando com relutân­cia a ridícula e indesejada onda de compaixão pela Srta. Weasley. O que ela faria se não pudesse contar com sua ajuda? Voltaria para casa? Ou, pior, procuraria outro cavalheiro que poderia tirar proveito de sua evidente ingenuidade? — Está mesmo decidida a levar esse seu plano adiante?

— Pretendo me casar ainda nessa temporada, Sr. Potter. Não suportaria outra temporada em Londres. Prefiro enfrentar as galés. Se para isso tenho de lhe dar cinco mil libras para me tornar notável aos olhos de outros homens solteiros, que seja.

— Não há nenhuma garantia de que minha suposta atenção resulte na oportunidade que procura.

Aquele sorriso que parecia iluminá-la de dentro para fora res­surgiu de repente.

— Todo investimento é um jogo. Estou disposta a arriscar.

— Você é uma mulher única, Srta. Weasley.

— Isso quer dizer que aceita minha proposta?

Harry fez uma pausa.

Devia dizer não.

Não temia realmente ser rotulado um caçador de fortunas. Essa era apenas uma desculpa conveniente. Afinal, não havia vergonha em escolher uma esposa que levaria riqueza à família. Era o que se esperava de qualquer cavalheiro, mesmo que a delicadeza con­denasse a menção de tão aborrecida questão.

E vivia um momento de grande necessidade. Mesmo assim, era cauteloso demais para aceitar suas palavras como verdade incontestável.

Uma jovem donzela era sempre um problema.

Casamento.

— Vou considerá-la — concedeu.

—Obrigada. Bem, agora devo voltar, antes que minha ausên­cia seja percebida.

Ela se retirou com passos apressados. Harry sorriu ao vê-la se afastar. A jovem se movia com a graça de um menino de estábulo. E, no entanto...

Apesar da falta de elegância e beleza, havia algo nela. Uma vibração de espírito, uma pureza de propósito... e uma paixão pela vida que, um cavalheiro experiente sabia, ecoaria em sua alcova.

Ah, sim. Ela não seria passiva. Não era do tipo que fechava os olhos para suportar as carícias de um homem. Ela seria uma mulher entusiasmada que retribuiria em igual medida o prazer que recebesse.

— Uma proposta muito intrigante — comentou uma voz atrás dele.

Harry se virou e viu Rony apoiado em um arco de treliça.

— Ouviu tudo?

Negligente, ele removeu uma pétala de rosa da manga do ca­saco.

— É claro que sim.

— E o que pensa?

— Cinco mil libras podem proporcionar uma certa medida de conforto.

— Desde que a Srta. Weasley seja confiável...

— Tem motivos para crer que ela está mentindo?

— Não. Nenhum. Mas depois de ter sido perseguido por don­zelas desesperadas e mães aflitas por quase dez anos, aprendi a ser cauteloso.

— Muito sensato — Rony concordou com um sorriso bem-humorado.

— Prefiro assegurar-me de que a Srta. Weasley é realmente quem afirma ser.

— Ah, e como pretende obter essa certeza?

— Eu? Não, meu caro Rony. Você.

— Eu?

— Se a Srta. Weasley guarda algum segredo, você é o homem certo para desvendá-lo.

— Harry, estou absolutamente mortificado! O que um almo­fadinha como eu poderia descobrir?

Harry riu. O amigo era o mais ardiloso espião que a Inglaterra já havia produzido.

— Não tenho dúvida de que pode descobrir o tamanho de seu calçado e sua cor preferida em menos de uma hora. O que quero saber, no entanto, é se sua fortuna é tão grande quanto ela afirma ser, se há algum escândalo em seu passado, e se ela confidenciou às amigas o desejo de ter-me como marido.

— Acredita que tudo isso pode ser uma armadilha?

Esse era o problema. Não sabia o que pensar.

A Srta. Weasley não se enquadrava em moldes reconhecíveis.

Era ousada, inteligente e capaz de assumir o comando de sua vida. Ela também havia conseguido despertar uma certa compai­xão dentro dele, um sentimento que não sabia ao certo se queria reconhecer. Seria tolice não tomar todas as precauções cabíveis.

— Não seria a primeira armadilha com que me deparo.

— Mais alguma coisa?

— Sim — Harry decidiu de repente. — Quero um segredo.

— Um... segredo?

— Meu amigo, já me conhece o suficiente para saber que nunca faço uma aposta sem ter na mão a carta mais alta. Quero ter um meio de controlar a Srta. Weasley, caso ela se mostre indigna da minha confiança.

Rony riu.

— É mesmo dono de uma mente diabólica, Harry. Não é de estranhar que eu goste tanto de você.

*****

Não desmaiaria.

Colocando um pé na frente do outro, Ginevra Weasley percorreu toda a distância do jardim até a entrada do salão e da porta até o canto escondido onde havia uma cadeira vazia.

Sentia os olhares curiosos que a seguiam e tentava manter os traços ilegíveis. Infelizmente, não podia fazer nada para conter o rubor, o tremor nos joelhos e as batidas desenfreadas do coração. Ou o medo de ter se exposto ao ridículo.

Por outro lado, e se havia se exposto? Não teria sido a primeira vez. Desde sua chegada a Londres, havia derrubado ponche no colo do míope lorde Mundungo, que beliscara seu traseiro, e quase mutilara o Sr. Fenwick durante sua única valsa.

Não. Derrubar ponche em um cavalheiro ou pisar no pé de um parceiro de dança não se comparava a oferecer uma fortuna em troca do uso da habilidade de flerte de um cobiçado solteiro.

Oh, Deus! O que fizera?

Felizmente, não teve tempo para refletir sobre o assunto, pois uma mulher com enormes cachos castanhos sentou-se a seu lado e bateu em seu braço com um leque.

— Ora, ora, sua danadinha!

Gina sorriu. A Srta. Hermione Granger era sua única amiga em Londres.

Diferente das outras, Hermione não se incomodava com o escárnio das belas debutantes nos salões. Aceitava seu papel de relegada com um bom humor que amenizava a frustração de Gina.

Não fosse por Hermione, Gina já teria voltado a Surrey.

— Boa noite, Mione.

— Não se faça de inocente. Quero saber o que está tramando, menina travessa!

— Não sei do que está falando.

— Ginevra Weasley! Todo o salão está cochichando sobre seu encontro com o delicioso Harry.

Gina corou. Como nunca havia sido objeto de comentários, não sabia com que rapidez as fofocas se espalhavam.

— Eu... nada tenho a dizer.

— Ah, por favor! Deixou o salão pelo braço do Sr. Potter? É verdade o que dizem?

— Sim.

— Por quê?

— O que estão dizendo?

— Ah, alguma tolice sobre você ter se atirado aos pés dele. O cavalheiro foi forçado a retirá-la do salão para evitar uma cena desagradável.

— Ah, bem... Não é inteiramente absurdo — ela admitiu sor­rindo.

— O quê?

— Eu o abordei e pedi para falar com ele.

— Gina, você é impagável! Nunca pensei que possuísse tal audácia.

— Nem eu. — E não revelaria que sua atitude havia sido provocada pelo acaso. Se não houvesse passado por aquele local naquele momento, se não houvesse escutado a conversa entre os dois cavalheiros, jamais teria tido essa ideia.

Mas não podia revelar as dificuldades financeiras do cavalhei­ro. Nem a uma amiga.

— O que disse a ele? — Hermione indagou curiosa.

— Isso deve ficar entre nós.

— Ora, e a quem eu contaria? Minha tia tem o cérebro de um sapo, e você é minha única amiga. Ah, sim, devo considerar o infinito batalhão de admiradores que me segue pelos salões, mas...

Gina riu.

— Muito bem. Ofereci uma proposta ao Sr. Potter.

— Gina!

— Foi uma proposta de negócios!

— Ah... Bem, sabia que era bom demais para ser verdade. Sempre os negócios. Que tipo de proposta fez ao homem? Minas de carvão? Seda? Especiarias?

— Eu ofereci a ele cinco mil libras por uma farsa. Um falso flerte comigo.

Silêncio.

Era a primeira vez que Gina via Hermione sem ação.

— Você fez... o quê?

— Estou farta de ser relegada aos cantos e tratada como se tivesse uma doença contagiosa. Jamais encontrarei um marido, a menos que possa circular entre os cavalheiros. Eu precisava fazer alguma coisa. Foi uma medida... desesperada.

— Ah, agora entendo. As atenções do mais notório patife de Londres certamente a poriam no centro de todas as conversas. Brilhante. Absolutamente brilhante!

— Foi o que pensei quando o procurei. Mas, agora...

— Ele aceitou?

— Prometeu considerar o assunto.

— Gina, você é brilhante. E ele? Como é o famoso Harry? Como ele era?

Apesar da tensão do momento, ou por causa dela, havia regis­trado cada detalhe do homem conhecido como Harry. Não só por sua beleza viril, mas pela aura de perigo que o cercava. Sentira-se agitada, arfante. Não havia paz naqueles olhos esverdeados e profundos. Era como se a frustração o atormentasse.

— Ah, ele é... bonito e charmoso, como dizem.

— Isso eu já sei.

— Ele é... inteligente e menos vaidoso do que eu esperava.

— E sedutor?

Um tremor sacudiu Gina.

Saber que ele jamais se interessaria por ela não era suficiente para impedir as traiçoeiras reações de seu corpo. Pensar naquelas mãos acariciando sua pele fazia ferver o sangue em suas veias.

— Oh, sim, ele é muito sedutor.

Hermione a encarou intrigada.

— Há algo que está escondendo de mim, não é?

— Há algo... perigoso nele.

— Naturalmente! Todo conquistador bem-sucedido é delicio­samente perigoso. É isso que faz pulsar o coração feminino.

— Não é só uma ameaça à inocência, embora não duvide de sua capacidade de seduzir.

— Teme que ele tenha natureza violenta?

— Não. É mais... Não sei. É uma sensação de inquietude, como se ele possuísse angústias profundas e sombrias. Duvido que ele seja realmente feliz por baixo daquela aparência charmosa.

— Ah! Como ele poderia ser infeliz? O cavalheiro é rico, tem posição e poder na sociedade...

Gina decidiu não divulgar o que havia descoberto sobre Harry. Seria uma invasão à privacidade que ele preferia manter escondida do mundo.

— Talvez eu esteja enganada — disse. — Afinal, só nos fa­lamos por alguns momentos.

— Ele tentou beijá-la?

Gina riu.

— Não. Apesar do luar e da beleza do jardim, o cavalheiro não se deixou dominar pela paixão. Surpreendente, não?

Hermione registrou o tom irônico.

— Talvez ele seja alérgico a rosas — sugeriu.

— É claro. E havia a brisa, também.

— Ah, sim, nada é pior que a brisa para refrear o ardor de um homem.

— De fato.

— Gina, querida, estou orgulhosa de você. Rebelou-se de ma­neira gloriosa.

— Você é maluca, Mione. Comportei-me com a mais reprová­vel ausência de propriedade!

— Não. Assumiu o comando da situação. A sociedade a rele­gou a uma posição de ridículo, mas você se recusou a aceitar o severo julgamento. Em vez disso, decidiu usar a absurda vaidade dessas pessoas a seu favor. Se Harry a reconhecer como uma mulher digna de sua atenção, todos a idolatrarão. Você será uma campeã para todas as jovens humilhadas, ridicularizadas e ex­cluídas.

— Que absurdo! Sou apenas uma mulher desesperada o bas­tante para tentar qualquer tolice. E ainda não sei se ele vai con­cordar com minha proposta.

Houve uma certa comoção no salão, e Hermione olhou para a porta do balcão, por onde dois cavalheiros entravam.

— Ah, aí vem ele. E lorde Ronald, também.

Gina se recusou a olhar para a figura elegante de Harry. Já era suficiente a sociedade pensar que o assediara. Por isso ela estudou o cavalheiro que o acompanhava.

— Um homem estranho... — murmurou, notando a casaca cor-de-rosa e a calça bordo.

— Sem dúvida. Ele é... único.

— Hermione!

— O que é?

— Está suspirando por lorde Ronald!

— Ah, eu... Bem, suspeito de que lorde Ronald não seja essa criatura fútil que quer parecer.

— Por que diz isso?

— Já o vi espreitando atrás de vasos e móveis.

— Espreitando?

— Normalmente, ele finge estar ajeitando a fivela do sapato ou até dormindo em um canto, mas sei que tenta ouvir o que dizem as pessoas que o cercam.

Parecia absurdo.

Por que um lorde se comportaria de maneira tão reprovável? Hermione devia estar enganada. Ou não?

— Por Deus!

— O que é?

— Lorde Ronald estava com o Sr. Potter quando o procu­rei. Fiquei tão nervosa, que não dei muita atenção a ele.

— Ele é perfeitamente capaz de desaparecer quando quer.

— Sim. E agora retorna ao salão com o Sr. Potter.

— Teme que ele possa ter ouvido sua conversa?

— É possível. Maldição! E se ele comentar meu plano ridícu­lo? Estarei inteiramente arruinada.

— É mais provável que ele tente fazer chantagem. Sabe-se que o homem não tem um níquel.

— Que maravilha!

— Acalme-se, Gina. Eu cuido de lorde Ronald.

— Realmente? E como pretende cuidar dele?

— Bem, teremos de ser mais astutas que ele.

— Mais... astutas?

— Não se preocupe, Gina. Vou pensar em alguma coisa para manter esse bisbilhoteiro fora dos seus assuntos. Sempre quis medir minha perspicácia. Essa será uma boa oportunidade.

Gina nunca vira a amiga tão animada antes.

— Creio que perdeu o juízo.

— Não. Estou apenas entediada. Seria capaz de jogar dados com o diabo para ocupar o tempo.

Contra a própria vontade, Gina olhou para Harry e sentiu um arrepio. Uma premonição?

Ou simples luxúria? Era impossível dizer.

— Creio que jogar dados com o diabo é precisamente o que vamos fazer.

*****

Várias horas mais tarde, Harry deixou a enfumaçada sala de jogos.

Do outro lado do salão, ele viu a figura esguia da Srta. Weasley sentada sozinha. Nada em sua atitude serena sugeria insa­tisfação ou infelicidade, a menos que se notasse a maneira como ela apertava o leque. Harry, no entanto, tinha uma estranha sen­sação. Podia sentir sua frustração de maneira quase física.

Um grupo de rapazes passou por ela sem ao menos cumpri­mentá-la.

Quantas vezes havia feito o mesmo? Duas ou três dúzias, talvez?

Uma estranha culpa o acometeu.

Qual era o problema com ele?

Nunca notava donzelas casadoiras.

Sim, havia dançado e jantado com algumas delas, pois conhe­cia seus deveres com os anfitriões, mas nunca mais de uma vez. A persistência poderia sugerir interesse.

Mas não havia como negar um certo desconforto diante da imagem da Srta. Weasley sozinha, observando os casais que deslizavam pela pista.

Maldição. Ela valia duas dúzias das mocinhas risonhas e tolas que dançavam neste salão. E, para um cavalheiro que apreciava mais a inteligência do que a beleza, também era mais desejável.

Seus olhos estudaram o perfil fino, a boca carnuda e a pele acetinada. Um apreciador de curvas exuberantes não se interes­saria por ela, certamente. Mas sua imaginação experiente era ca­paz de julgar com precisão como os seios firmes e delicados se encaixariam em suas mãos.

— Ah, Harry, espero que tenha tido sorte esta noite — co­mentou Rony, aproximando-se de maneira silenciosa.

Harry compôs a expressão naquela máscara de indiferença habitual. Não queria revelar seu interesse por uma inocente donzela.

— Digamos que a sorte ignorou-me.

Ganhara mais do que perdera, mas o lucro não alimentaria um rato.

— Uma verdadeira dama... — Rony comentou.

— Pensei que houvesse se esquivado dos braços de sua amante.

— Confesso que tive essa intenção, mas o encontro foi neces­sário. Tive de romper com Lilá.

— Realmente?

— Foi inevitável, se você me entende. Ela decidiu romper a ligação com o embaixador francês, e...

— Por Deus, essa é uma boa notícia!

— Boa? Que utilidade ela poderá ter, se não terá mais como me informar sobre quando o embaixador estará ausente para que eu possa ler sua correspondência em paz?

— Que horror! Ela revela quando se deitará com o homem para que você possa ir à casa dele ler sua correspondência?

— Tem sido um arranjo muito produtivo.

Harry estava chocado, mas admirava a audácia do amigo.

— Bem, suponho que seja lamentável que tenha acabado, en­tão. Mas a mulher possuía outros atrativos, certamente?

— Os mais comuns. Receio ter alcançado a idade em que se quer mais que um corpo pago.

O eco da insatisfação de Rony se fez ouvir na alma de Harry. Mas ele o calou rapidamente.

Não. Apreciava suas belas cortesãs. Que cavalheiro de bom senso não as apreciaria? Eram lindas, bem treinadas nas artes da sedução e, melhor de tudo, inteligentes o bastante para não inco­modarem um cavalheiro que necessitava de paz.

Se às vezes se descobria mordendo a língua para não responder com rispidez às conversas superficiais, ou descobrindo encontrar uma amante com quem pudesse partilhar mais que rápidos en­contros carnais, tudo era apenas um reflexo de seus problemas atuais.

Não tinha nada a ver com solidão. Ou com o constante sen­timento de estar sempre procurando alguma coisa além de seu alcance.

— Se você diz... — respondeu, tentando afetar desinteresse.

Rony encarou-o e sorriu.

— Em breve entenderá o que digo.

— Duvido, meu bom amigo. A propósito, não tem outras de­lícias a que se entregar nessa noite tão agradável?

— Várias, mas fui rudemente coagido a buscar informações sobre a Srta. Weasley.

— Está dizendo que já tem os dados? Tão depressa?

— Não duvide da minha capacidade.

— Capacidade? Dom sobrenatural, se obteve informações tão depressa.

— Meus talentos são ilimitados, meu caro.

— Suponho que sim. O que descobriu?

— Para começar, busquei garantias de que a Srta. Weasley é realmente uma herdeira considerável.

— De que porte?

— Dizem que sua fortuna está em torno de cem mil libras.

— Por Deus!

— E há também uma propriedade em Surrey que não foi in­cluída nessa soma.

— Uma herdeira, realmente.

A fortuna da jovem era ainda maior do que aquela que havia esperado herdar do conde de Falsdale. Muito maior. Era incrível que algum jovem cavalheiro ainda não a houvesse reclamado co­mo esposa. Seriam todos tão vaidosos e superficiais?

— E não há nenhum escândalo — Rony continuou. — Para ser honesto, as pessoas nem a conhecem. Não falam sobre ela.

— Uma típica excluída.

— Sim.

— Encontrou alguma amiga dela?

— Aparentemente, ela só tem uma amiga: a Srta. Granger, e ela desapareceu antes que pudesse me aproximar.

— Pena...

— Falarei com essa jovem antes de a semana terminar.

— Nesse caso, tudo que temos é seu segredo sombrio.

— Não faço milagres, Harry. Preciso de tempo para obter essa informação.

— Não muito tempo.

— Quer dizer que vai aceitar a proposta?

Um formigamento que podia ser de antecipação percorreu seu corpo. Não sabia quando havia tomado a decisão. Ou por que, exatamente se dispunha a aceitar tão audaciosa proposta. Tudo que sabia era que não podia dar as costas para a oferta da Srta. Weasley.

E isso o inquietava.

— Como poderia recusar? — murmurou, olhando para a mu­lher que havia conseguido fazer o que nenhuma outra jamais fizera.

Despertar seu interesse.

Notas finais
E aí, o que acharam?
Os capítulos vão ser grandinhos assim mesmo, o que mostra que tem muita coisa para acontecer ainda, e garanto que são só coisas bem legais.
Como eu já expliquei, essa fic NÃO É MINHA. Na verdade ela é um livro que eu adaptei, troquei os nomes dos personagens desses livros para os personagens da série Harry Potter.
Somente no final da fic falarei o nome do livro e da autora.
Não deixem de comentar, eu queria muito saber a opinião de vocês, sério.
Um beijo!