Como se ele me conhecesse desde que eu nasci, ele fala comigo sem a menor vergonha, sem o menor constrangimento. E eu, é claro, respondo-o. Eu não sei mais o que eu faria sem ele, ele é quase parte de mim. Não entendo o que há entre nós, não mesmo. Não conversamos como colegas, mas não estamos juntos como melhores amigos. Ele me magoa, me da raiva, me deixa impressionada e ao mesmo tempo envergonhada; e ele não demonstra nada disso, acho que é por que eu, realmente, não causo nada disso à ele. E isso me deixa um pouco triste, não saber se eu consigo fazer ele sentir tudo o que eu sinto; parece que ele quer esfregar na minha cara que é melhor do que eu.

Ele não sabe que me causa tudo isso, e provavelmente nunca vai saber. Afinal, porque ele sequer olharia para mim, pensaria em se importar comigo, quando tem outras opções, outros amigos, todos eles muito mais importantes que eu?

E, principalmente, por que ele me escolheria quando tem a minha forma melhorada logo ali?

Eu sou a mais nova: a mais frágil; a mais propensa a doenças; a menor e menos importante. Ela é tudo que eu não sou, até na questão hospitalar parece ser um exemplo. Mas ela pode demonstrar isso, não tem nada a esconder. E eu que tenho que demonstrar ser forte, guardar tudo para mim? Resolvi começar a não me importar, assim não teria que demonstrar algo que não estou sentindo.

Deu certo. Eu realmente não ligo para nada, não me importo.

Então por que quando ele não me conta coisas simples — como uma simples viagem — eu me sinto não mal?