Prongs
20 Vale tudo no amor e na guerra
Notas iniciais
É verdade o que dizem sobre como o mundo fica brilhante depois que você transa com alguém. O meu mundo, naquele instante, era fantástico.
– Potter! Potter! Potter!
Com um sorriso inclinado para a multidão que gritava meu sobrenome, tentei aproveitar ao máximo da visão do terreno de Hogwarts com a minha vassoura de corrida há catorze metros do gramado do campo de Quadribol.
Vou sentir falta, falei. Mas estava orgulhoso.
– Potter! Potter! Potter!
Joguei meu punho no ar e todos da Grifinória berraram mais ainda. Era contagioso, logo notei a arquibancada da Lufa-Lufa e da Corvinal acompanhando. A Sonserina tentava gritar “Black! Black! Black”, mas nem chegava aos pés.
O irmão de Sirius voou com sua equipe da Sonserina para se reunirem no ar em suas posições iniciais. Passei voando por cada um até chegar a arquibancada da Grifinória. Sobrevoei por cima das cabeças, girei meu corpo na vassoura e toquei a mão de todo mundo que eu via pela frente. A garota do primeiro ano apaixonada pelo meu cabelo começou a berrar desesperada e eu me aproximei dela para que ela despenteasse os fios rebeldes. Quase desmaiou de alegria.
– Potter! – a voz de Madame Hooch soou alta pela multidão. Sua expressão era sempre brava e séria. – O jogo precisa começar!
Dei mais uma volta ao redor da arquibancada. De ponta cabeça na vassoura, sorri para Lily ao lado das amigas.
– Me deseja sorte, Evans?
Lily odiava atenção, mas ela estava sorrindo abertamente e sorriu ainda mais quando segurou meu rosto a sua altura e me deu um beijo de boa sorte, que levou a arquibancada da Grifinória a loucura.
Eu ia ganhar, nem que algum sonserino idiota resolvesse me derrubar daquela vassoura. Eu me recusava a perder o jogo, mesmo que Regulus fosse considerado um adversário páreo para mim. Era só mais um desafio, era meu último jogo.
– Pronto? – perguntou Madame Hooch, esforçando-se para não girar os olhos quando eu voei ao lado dela.
Finalmente me aproximei do meu time. Cada um levantou o polegar para indicar que estávamos prontos. Marlene se posicionou ao meu lado.
– Fazer bonito ou só ganhar? – perguntou sorrindo. – Você sabe, para o nosso último jogo.
– Se conseguirmos fazer os dois, bem melhor, não acha?
– Com certeza. Boa sorte, James.
– O mesmo, McKinnon.
E então a primeira gole foi arremessada para o ar.
Como de costume, o pomo de ouro demorava um pouco para aparecer em campo. Mesmo assim, os pontos das duas equipes eram feitos. Encarei a figura de Black a minha frente, sobrevoando parado com a vassoura. Ele era um bom jogador, mas não tinha o mesmo brilho que fizesse os torcedores realmente torcerem por ele. Era frio e não sorria; nada receptivo, nada carismático, nada como Sirius ou a mim. Seu rosto estava pálido, as olheiras profundas e, quando nos encaramos, tive a sensação de que ele não estava preparado para aquele jogo. Tive a sensação de que ele não tinha dormido e que a razão não fosse uma garota.
Não posso pensar nisso. Não posso lembrar que ele se ajoelhava para Você-Sabe-Quem. É meu último jogo.
O pomo de ouro ficou brincando entre nós, provocando-nos. Black notou a presença dele. Imediatamente, começamos a persegui-lo. Não me atrevia fazer gracinhas, porque ele tinha habilidade. Senti uma balaço ultrapassar minha nuca, mas não tirei os olhos do pomo. Parecia que nós dois havíamos estudado a jogada de cada um. Eu não partia para a violência, então Black não tentou me empurrar da vassoura.
Foi disputado. Por um momento, perdemos o pomo de vista, mas logo voltamos a persegui-lo. Tive a breve impressão de que ele poderia capturar o pomo, pois foi mais rápido quando esticou os braços para acabar logo com isso. Não podia deixar isso acontecer. Encostei-me a ele, ombro a ombro, para atrapalhá-lo. A velocidade era a mesma, nós estávamos quase no mesmo nível, juntos alcançando a imagem rápida do pomo de ouro.
Uma outra imagem chamou minha atenção e estava no pulso do braço esticado de Regulus. A tatuagem estava em brasa. Regulus berrou de dor, recolhendo o braço imediatamente.
Regulus apertou a tatuagem sobre o pulso com força e parou, trêmulo. Não gostei disso, não gostei que não tivesse disputa, assim capturar o pomo não tinha graça. Fiz algumas manobras esperando Regulus se recompor. Ele não se recompôs.
Ele não parecia ser o único com o mesmo problema no pulso. Mulciber tinha parado de tacar os balaços e os dois se entreolharam mesmo que estivessem distantes.
Finalmente Regulus voltou a correr com a vassoura, mas Mulciber não hesitou e diminuiu a altura da sua para sair do campo. Observei a arquibancada da Sonserina. Alguns alunos também se retiravam do local.
O que está acontecendo?
As outras arquibancadas vaiavam a saída dos sonserinos. Madame Hooch apitou, fazendo Regulus parar de voar. Todos pararam.
– O que foi que deu no seu time, Black?
– Diarreia – ele respondeu, apenas. – O jogo vai continuar.
– Você tem três jogadores a menos!
– Não preciso deles. Continue o jogo.
– Como queira.
O apito soou novamente. Mais movimentações dos times. A sonserina estava sem os batedores, então a disputa para capturar o pomo era exclusiva entre mim e o irmão mais novo de Sirius. Não quis mais enrolar, precisei acabar logo com o jogo.
O pomo de ouro esperneou entre meus dedos fechados ao redor dele.
Era meu último jogo.
E ninguém comemorou.
Nuvens cobriram o céu da manhã. Estivera ensolarado o tempo todo, por isso estranhei imediatamente. Os rostos de cada aluno e professor e jogador estavam virados para o céu, para onde uma enorme crânio brilhante situava-se em um espectro de identidade esverdeado acima das torres do castelo. Os pelos de meu braço se eriçaram.
Madame Hooch estava com o apito na boca e o deixou cair, os olhos arregalados para o crânio do céu. Desci imediatamente da vassoura, o silêncio era cortante. Era mortal.
Um a um, descemos da vassoura apoiando os pés nos gramados. Uma enorme movimentação começou a se instalar nas arquibancadas. O desespero foi crescendo gradualmente.
– O que está acontecendo? – perguntou Marlene. – O que é aquilo?
A voz de McGonagall soou pelo campo através da cabine do narrador.
– Fiquem onde estão. Não saiam das arquibancadas até que a ordem seja dada. Mil pontos serão tirados de cada casa se alguém desobedecer. Essa é uma ordem de Dumbledore.
Cadê Dumbledore?
Eu não o vi no jogo e, agora parando para lembrar, ele não esteve no café da manhã. E ele nunca perdia o dia que havia geléia.
McGonagall entrou no gramado e se aproximou de mim. Segurou meu ombro e, o mais longe possível dos outros alunos, confidenciou-me:
– Dumbledore me pediu para os Monitores Chefes cuidarem para não deixar ninguém se aproximar do castelo. Posso contar com o senhor e a srta. Evans, Potter?
– Claro – eu disse. – Professora...?
– Não faça nenhuma expressão, não quero instalar o pânico nas crianças do primeiro ano... Aquela é a Marca Negra. Você-Sabe-Quem está em Hogwarts. Não saia daqui. Fique com a Evans para cuidar dos alunos. Eu preciso... eu já volto.
Ela saiu com os outros professores, ignorando as perguntas dos meus colegas. O que está acontecendo? O que é aquilo? Por que não podemos voltar para o Castelo? Por que os professores estão nos deixando?
Tirei as proteções do meu uniforme e voei ao redor das arquibancadas, enviando apenas uma ordem:
– Todos desçam para o gramado! Agora! Precisamos ficar juntos! Lily – eu a chamei, aproximando-me de Dorcas, Alice e mais algumas garotas do primeiro ano com a vassoura na área da arquibancada em que elas estavam. – Lily, preciso que faça o feitiço de proteção ao redor do campo.
– Proteção? – a menina do primeiro ano olhou assustada.
– Dorcas, Emmeline, levem as crianças do primeiro ano para baixo – pediu Lily, sem fazer outras perguntas para mim. Dorcas ajudou as meninas do primeiro ano a descerem as arquibancadas. – Alice, precisarei que me ajude com o feitiço.
– Cadê o Frank? – perguntei. Não via Alice sem Frank desde o primeiro ano, então estranhei.
– Frank passou mal hoje de manhã e está na ala hospitalar. O que está acontecendo, James?
– Frank está no castelo? – estreitei os olhos, preocupando-me.
– Sim... O que está acontecendo, James?!
Eu não podia dizer.
– Ajude Lily com o feitiço, por favor. – Voltei-me para os outros alunos da Corvinal e da Lufa-Lufa. Os alunos da Sonserina saíram antes do jogo acabar então a deles estavam vazias – Ninguém entra e ninguém sai desse campo. Se mais alguém souber o feitiço de proteção, ajudem a Lily.
Olhei para cada um dos alunos que desceram para o gramado. Era espaçoso o suficiente para caber os alunos, mas eu tinha certeza de que ainda haveria mais alguém dentro do castelo. E se Voldemort estava com seus Comensais lá dentro... eu precisava tirá-los.
Mas como fazer isso sem saber onde eles estavam?
Aterrissei perto de Remus, Sirius e Peter, que já estavam no gramado. Nos afastamos dos olhares curiosos.
– Precisamos do Mapa do Maroto – eu disse cochichando. – E da Capa da Invisibilidade.
– Elas estão no dormitório. Eu vou buscar – disse Sirius. – Posso me transformar, ninguém vai me ver.
– Não, um cão negro pode chamar atenção e vão estranhar. Precisamos de algo discreto. Pequeno – disse Remus.
– Um roedor – eu completei, olhando de Remus para Peter. Nós três olhamos para Peter.
Ele respirou pesadamente, dando um passo para trás, mordendo o colarinho da blusa.
– Precisamos da sua ajuda, Peter. Uma missão para você.
– Para mim? – gaguejou.
– Sim, para você. A missão mais importante que um Maroto já teve. Você acha que consegue fazer?
– O q-que está acontecendo? Aquela marca...
– É Voldemort – eu disse baixinho. Eu segurei os ombros dele antes que ele grunhisse de terror. – É provável que ele esteja se reunindo com os Comensais da Morte dentro do castelo e Dumbledore está tentando cuidar disso com os professores. Mas Frank Longbottom não está aqui, e Frank tem uma garota que ele ama e está desesperada atrás dele. Nós precisamos trazê-lo para cá... ele pode estar correndo perigo e é nosso amigo. Ele e mais alguns alunos que não vieram assistir ao jogo. Eu preciso... Nós precisamos que você reúna toda a sua coragem de Grifinório agora, Wormtail. Olha pra mim, você consegue reunir?
Sirius perdeu a paciência.
– Ele não consegue – disse. – Eu vou, Prongs-
– Não – disse Peter baixinho, o maxilar rígido. – Não. Eu consigo. O que eu tenho que fazer?
Meu peito se encheu de orgulho. Tive que me conter para não abraçá-lo. Nós quatro juntamos nossas cabeças para o plano.
– Se transforme em seu animago. Precisamos que você corra até a Torre da Grifinória, entre em meu dormitório, pegue o Mapa do Maroto e a Capa da Invisibilidade. Use a Capa para ir até a ala hospitalar onde Frank está.
– E se ele não estiver por lá? – perguntou preocupado. – E se ele tentou sair...
– Por que é que foi que inventamos o Mapa do Maroto mesmo? – perguntei. – Procure-o no mapa. Procure outros alunos também. Sua missão é tirá-los do castelo. Eu faria isso, mas Dumbledore me designou outra missão que é a de cuidar dos alunos aqui... Você consegue, Wormtail?
– A-a-acho que...
– Se precisar de ajuda – eu disse –, pegue o meu espelho no criado-mudo perto da minha cama... Veremos você.
– É muita coisa – disse Peter nervoso. – Posso esquecer... posso fazer algo errado...
– Não! – disse Remus. – Lembre-se de todos os anos que nos esgueiramos... lembre-se de todos os anos que saímos de Hogwarts sem sermos vistos.
– E se você encontrar o Ranhoso por lá – disse Sirius –, lembre-se de um certo Levicorpus. Sua varinha está aí?
– Sim – Peter disse. – Tem certeza... tem certeza que devo fazer isso?
– Você quer fazer? – eu perguntei. – Se não quiser, tudo bem. Sirius pode fazer, mas você é o único com a habilidade de não ser visto...
– Eu poderia aparatar – ele sugeriu esperançoso.
– Vocês nunca leram Hogwarts, uma História – disse Remus –, não sabe que não dá pra aparatar aqui.
– Ah, é... Bom... eu vou...
– Isso aí. Concentre-se, e se transforme. Estamos vigiando.
Fizemos uma roda ao redor de Peter para ele se transformar. O rato gorducho andou por nossos pés. Hesitou um pouco, mas no segundo seguinte, saiu em disparada para fora do campo.
– Acha que foi uma idéia boa, Prongs? – perguntou Sirius preocupado.
– Peter não vai nos decepcionar.
– O que vamos fazer agora? Ficar aqui parado esperando Você-Sabe-Quem destruir tudo?
– Você-Sabe-Quem? – Michael Stebbins estava por perto quando ouviu o que Sirius falou em voz alta. – Você-Sabe-Quem está no castelo?
O tumulto começou. Ao ouvirem isso, os alunos começaram a exclamarem aterrorizados. Foi impossível contê-los. Lily se aproximou de mim com Alice e Emmeline.
– Não sei se o feitiço vai ser suficiente, o campo é enorme – disse Alice. Tentou, mas falhou, ter a voz firme. – É verdade, James, é verdade que Você-Sabe-Quem está no castelo?
– Sim, mas não se preocupe, Alice, eu enviei um dos meus melhores homens para tirar Frank de lá.
– Quem?
– Peter.
Alice se debruçou em lágrimas, desesperada.
– Eu preciso ir... eu preciso tirá-lo de lá...
– Não pode sair daqui, Lice – disse Lily com a voz calma, mas ela também estava agitada. – Ninguém pode sair. Frank sabe duelar também, ele não queria ser Auror? Então ele vai saber se defender...
– Não seja idiota, Lily – disse Alice. – Frank sozinho contra os Comensais de V-v-v-v-v-você-Sabe-Quem...
Eu sempre tinha a sensação de que Alice finalmente iria conseguir dizer o nome de Voldemort.
– Ele não está sozinho – eu apressei-me a dizer. – Os professores estão lá e Dumbledore também. Pelo que ainda sabemos, nada aconteceu ao diretor.
– Não posso ficar aqui parada – ela disse nervosa. – Não podemos...
– Podemos proteger Hogwarts – disse Lily. – Proteger aqui. Se fizermos alguma coisa errada, se formos imprudentes, colocaremos esses alunos em riscos.
Duas figuras no céu surgiram com vassouras. Usavam capas pretas e davam gargalhadas.
– Olha só isso – riu Mulciber. – Estão escondidos, parecendo formiguinhas assustadas. Não se preocupem! – ele berrou para os alunos. – O Lorde das Trevas não pretende assassinar ninguém hoje! Contanto que vocês se curvem a ele!
– Ei, Mulciber – gritou Sirius. – Nós temos uma mensagem para o seu lorde.
Eu tinha certeza que Sirius ia abaixar as calças e mostrar as nádegas, mas ele foi interrompido com um lampejo de luz forte que veio da varinha de Avery – tinha acabado de chegar com outra vassoura. Além de mais três Comensais da Morte. Estavam nos cercando, inclusive Regulus e Ranhoso.
Mas a proteção que Lily e Alice colocaram ao redor do campo teve seu efeito quando o feitiço de Avery dissolveu antes que acertasse alguém.
– Sem brincadeirinhas – disse Avery. – O Lorde das Trevas quer saber quem é que vai se ajoelhar a ele. Nós viemos buscá-los para protegê-los. Prometemos não fazer nenhum mal... mas, se vocês se rebelarem, o destino já está traçado.
Peguei minha vassoura e voei até eles.
– Bem, por que o seu precioso Lorde das Trevas não vem até aqui para dizer ele mesmo? – perguntei, sobrevoando por perto de cada um deles, displicentemente. – Aliás, acho bem estranho que ele mande vocês fazerem tudo. Estou começando a achar que o seu precioso Lorde das Trevas... não existe.
– Ele existe, Potter – disse Ranhoso. – E ele odeia engraçadinhos como você e seus preciosos marotos.
– Nós temos dementadores – disse Mulciber.
– E temos gigantes. Se o Lorde das Trevas quiser essa escola destruída, ele fará em dois tempos... e o feitiço de proteçãozinha amadora de vocês não vai durar por muito tempo.
– Uuui, nós temos dementadores – zoei. – Bem, nós temos Remus Lupin.
– Não é lua cheia hoje, Potter – disse Ranhoso. – E se acha que o seu ego é grande o suficiente para proteger esses alunos, então precisa rever algumas coisinhas.
Os comensais riram.
Eu ri ainda mais.
– Já entendi porque você se reuniu a eles, Ranhoso... Virou popular entre eles? É o queridinho do seu Lorde? Ele ajuda você a limpar suas cuecas?
Snape tirou a varinha e jogou um feitiço contra mim. Eu bloqueei o ataque. Snape se desequilibrou da vassoura quando fez aquilo. Em troca, azarei sua vassoura e ela ficou bambeando no ar. Mas eu tinha contra mim mais quatro Comensais e eles também começaram a jorrar feitiços para todos os cantos ao meu redor.
Eu era bom o suficiente na vassoura para escapar daqueles ataques. Ouvia os alunos do campo gritando coisas. O importante era que eu tirasse a atenção dos Comensais sobre eles, assim protegendo qualquer um dos alunos.
Alcancei uma rápida velocidade sabendo que estava sendo perseguido. Levei os Comensais para a Floresta Proibida. Joguei ataques contra eles também e acertei um. Esperava que fosse Avery mas estava muito veloz para reparar. Nenhum deles tinha a mesma habilidade na vassoura, então foi fácil me desviar das árvores no caminho.
No entanto, Regulus estava atrás de mim. Ele não me atacou, só me perseguiu.
Desviei-me para o lado esquerdo e me soltei da vassoura. Na queda, me transformei no cervo e caí com os cascos sobre a superfície de folhas e gravetos da floresta. Não me viu, uma vez que passou pela minha forma animago em disparada.
Eu trotei de volta para o campo de Quadribol. O céu ainda tinha a Marca Negra. A entrada do campo estava sendo interditadas por Lily, que tentava com todas as suas forças fazer Alice não sair. Elas estavam brigando quando eu me aproximei.
Não tinha achado um momento certo para voltar a ser humano. As duas pararam de brigar. Olharam para mim com expressões chocadas.
– O que...? – perguntou Alice.
Alice estava olhando tão hipnotizada para mim que não teve como argumentar mais com Lily. Ela voltou para o campo, sempre espiando-me por trás dos ombros.
Eu quis dizer “Oi, sou eu, Lily”, mas Lily de alguma forma soube disso porque se aproximou de mim, devagar. Alcançou as pontas dos dedos nos meus pelos. Tive a mesma sensação que tenho quando ela me tocava na minha forma humana. Quando ela tocou um dos meus cascos... foi como senti-la despenteando meus cabelos.
Sentindo-me seguro para voltar a ser humano, concentrei-me para isso. Lily soltou uma exclamação surpresa quando eu voltei a ser eu.
– Oi – eu sorri brilhantemente.
– Oi. – Os olhos dela estavam meio arregalados. – Então... é verdade.
– Não estava acreditando?
– É fantástico – sussurrou.
Mas depois sua expressão mudou, como se tivesse se despertado. Começou a me empurrar e me bater.
– O que você estava pensando!?
– Ai, o que... ouch, Lily!
– Não era para você sair daquele jeito!
– Eu precisava despistá-los! Fazê-los ficarem longe daqui! Ainda acham que estão me perseguindo... consegui confundi-los com uns feitiços.
– O que vamos fazer? – ela disse tirando os cabelos da testa, parecendo nervosa. – James, eu não posso ficar aqui sabendo... sabendo que Voldemort–
– Sim, precisamos agir – concordei. – Eu só preciso que Peter volte com a Capa.
Peter voltou com Frank dez minutos depois, ambos embaixo da Capa da Invisibilidade. Frank estava tossindo e espirrando, muito gripado, mas conseguiu reunir forças para abraçar Alice quando os dois se reencontraram no campo. Depois Alice deu um grande abraço em Peter, dizendo que ele era muito corajoso.
– Você conseguiu, Peter – disse Sirius aliviado. – Cara... como as coisas estão lá dentro?
– Duelos – respondeu. – Para todos os lados. Vi aurores, os professores, os fantasmas... e os Comensais da Morte... Por pouco escapamos. Frank conseguiu estuporar um deles...
Peter tirou do bolso o pergaminho do Mapa do Maroto, as mãos estavam trêmulas.
– Juro solenemente que não pretendo fazer nada de bom – falei.
– O que é isso? – Lily exclamou estupefata quando as pegadas e o mapa correram com suas tintas pelo pergaminho. – Como é que vocês conseguem esconder isso de todo mundo?
Observei o mapa. Nomes, nomes, nomes... Encontrei Voldemort e Dumbledore no mesmo aposento, juntos, e não acho que estavam batendo um papinho.
– Precisamos ajudá-los. Dumbledore não está esperando que a gente fique aqui parado! – reclamou Sirius.
– Não podemos deixar as crianças... somos mais velhos, temos que protegê-los – Lily argumentou.
– Eu tenho uma ideia.
Andei até o centro do gramado do campo. As centenas de rostos assustados, zangados, nervosos me encaravam. Pigarreei e disse:
– Voldemort está aqui e há duelos acontecendo lá dentro. Temos provas e testemunhas. Quem aqui quer sair para lutar?
Ergui a mão quando fiz a pergunta. Esperei mais alguém me imitar. Fiquei feliz que Remus, Peter, Sirius fizeram, juntamente com Lily, Marlene, Frank, Alice, Dorcas, Emmeline e mais alguns garotos da Grifinória, outras da Corvinal e da Lufa-Lufa. A maioria não levantou a mão.
– Bem, eu vou lutar – eu disse displicente. – Não vou me esconder em um campo de Quadribol enquanto nossos professores e aurores tentam proteger nossas vidas sacrificando a deles. Não vou me esconder quando na verdade eles precisam de nós lá dentro. Quem não estiver afim ou está com medo, pode ficar aqui, mas no momento em que vocês saírem de Hogwarts... não terão arquibancadas protegendo vocês. Decidam-se. Ótimo, vamos.
– James – Lily interferiu baixinho. – Não acho certo deixar as crianças lutarem... precisamos levá-los a um lugar seguro, um lugar longe daqui.
– Hogsmeade – disse Remus de repente. – Posso levá-los até o Salgueiro Lutador... a passagem secreta para Hogsmeade.
– Eu ajudo a levá-los – disse Dorcas.
– Peter, ajude-os também – eu pedi. – Você já fez um ótimo trabalho trazendo a Capa e o Mapa, não vou pedir para entrar lá dentro de novo.
Alguns alunos destemidos do primeiro ano quiseram me acompanhar para o castelo, mas não deixei. Eles precisavam entender que aquilo não era brincadeira. Eu faria a mesma coisa na idade deles, tentaria me rebelar, mas eu havia entendido que certas regras precisavam ser seguidas, porque nem sempre temos o poder todo em nossas mãos, e não podíamos nos superestimar. Aquelas crianças poderiam morrer. Aquelas crianças não teriam nenhuma chance...
Foi um alívio que não encontramos nenhum corpo ou duelo durante a caminhada até o castelo. A medida que chegávamos mais perto, eu esperava começar a ouvir os barulhos, mas fiquei estranhando que estava silencioso demais...
Ultrapassamos o jardim e fomos até o saguão de entrada. Abrimos a porta esperando encontrar tudo desarrumado, comensais para todos os lados, mas... eram somente Aurores.
Porém, no outro lado do Salão Principal, estava a reunião dos Comensais da Morte.
Quando entramos, uma voz que congelou a atmosfera e nossas extremidades, fazendo-nos parar no ato, disse:
– Então finalmente alguns de seus alunos tiveram senso e vieram até mim, Dumbledore.
Um homem estava ocupando a cadeira principal de Albus Dumbledore. Por outro lado, Dumbledore estava perto dos aurores e dos professores. O homem, que eu tinha absoluta certeza que era Voldemort, levantou-se depois que deu um suspiro.
– Desnecessários duelos. Não quero machucar seus alunos, de jeito algum, quero dar-lhes a chance de fazerem as escolhas certas. Não precisava ter chamado seus aurores, mas fico lisonjeado. Desde quando fiquei tão perigoso para você, Albus? Só estou aqui para uma visita.
Andou entre os Aurores e os Comensais e, finalmente, olhou para o meu grupo de amigos. Eram olhos vermelhos. Instintivamente, meio que me coloquei a frente de Lily, apertando a varinha com força.
– Quem vai ser o primeiro a se ajoelhar? – perguntou Voldemort.
– Eles não estão aqui para isso – disse Dumbledore em tom de conversa descontraída.
– Para que outro motivo eles estariam?
– Bem, acontece que esses são meus melhores alunos. E os mais rebeldes também.
– Interessante – disse, embora não fosse nada interessante para ele. Analisava cada um de nós. Tentei com todas as forças encarar os olhos vermelhos e a textura acinzentada de sua pele, mas... foi difícil. Ele exalava superioridade, frieza, desprezo e... medo. – Agora que mencionou, Albus, de fato estou sentindo cheiro de traição e... sangue-ruim. – Como se estivesse mandando a alguém matar uma barata do banheiro, disse aos Comensais: – Bem, mate-os.
Foram os aurores que reagiram mais rápido do que nós, mas uma luz passou de raspão pelo meu corpo, provavelmente teria me acertado se Lily não tivesse usado a varinha dela nesse momento. Não deu tempo de agradecer. Os Comensais começaram a duelar contra cada um de nós. Dois aurores caíram. Foi um momento intenso. Voldemort estava dando as costas para os duelos quando uma voz ecoou por cima dos barulhos das varinhas:
– Por que você não faz? Ou sempre tem que recorrer aos seus Comensais?
Olhei para os lados para ver de onde a voz viera e quando senti todos os olhares em mim, percebi que a voz era, na verdade, minha.
– Parem! – gritou Voldemort. Os Comensais pararam. Os feitiços cessaram.
Voldemort tirou a varinha e avançou contra mim, mas ele não me matou.
– O que disse, rapaz?
Limpei a garganta para dizer novamente. Mas Lily quem repetiu:
– Ele quis dizer que, se quiser nos eliminar, terá que fazer com suas próprias mãos.
Ele gargalhou.
– E por que eu gastaria minha preciosa magia negra em vocês? Dumbledore, vejo como influenciou seus alunos. É motivo de se orgulhar…
– De fato estou orgulhoso – ele respondeu. – Então o que vai fazer? Eles o desafiaram.
– Farei o que estão pedindo, é claro. Mas não hoje. Apenas quero meus novos Comensais da Morte fora do castelo, Dumbledore. Foi para isso que invadi sua escola. Precisarei deles.
– Deixe meus alunos em paz e pare os duelos, é o que peço em troca.
– Viu? – ele levantou os braços. – Por que tivemos que fazer toda essa bagunça quando se pode negociar?
– Porque você tem um jeito engraçado de negociar as coisas. Acredito que o corpo da professora de Estudos dos Trouxas caído no segundo andar ilustra claramente o que estou querendo dizer.
– Minhas solenes desculpas por aquele incidente, professor. É que ela fedia tanto.
Reparei que Dumbledore não estivera com sua varinha, mas dessa vez ele a tirou do bolso interno de sua veste. Voldemort ficou silenciosamente a espreita, esperando qualquer movimento dele.
– Saia do meu castelo – pediu Dumbledore educadamente depois de murmurar um encantamento. – Você e seus Comensais da Morte podem aparatar, mas não pense que vamos tornar as coisas fáceis para você nos seus próximos planos.
– Isso é uma ameaça, Dumbledore?
– Interprete da forma que quiser, Tom.
Antes de dar uma ordem gestual para seus Comensais da Morte e aparatar, Voldemort pediu friamente:
– Não me chame de Tom.
E então, desapareceu. Todos.
O salão ficou silencioso.
Dumbledore começou a dar ordens a cada um dos professores e quando se virou para nós, imediatamente começamos a fazer perguntas, nos explicarmos porque tivemos que vir até aqui, mas ele fez um gesto com a mão como que nos mandando calar a boca.
– Vocês fizeram exatamente o que eu pensei que fariam – ele disse baixinho. – Tivemos apenas uma morte... a professora de Estudo dos Trouxas nos deixou essa noite por uma infantilidade de Voldemort... e isso quer dizer apenas uma coisa.
– Que ele é um idiota? – tentou Sirius.
– Não – Dumbledore disse. – A Guerra oficialmente eclodiu. Não há para onde se esconder, e precisaremos lutar. Precisarei que terminem os N.I.E.M’s, mas quando vocês saírem de Hogwarts...
– Nós lutaremos – disse Alice meio timidamente, mas confiante. – Nós queremos lutar, não queremos ficar parados apenas esperando algo acontecer-
– Não achei que quisessem. Mas agora não posso conversar sobre isso com vocês, preciso resolver alguns assuntos... Voltem para a Sala Comunal de vocês, não são dez horas da manhã e já tivemos um dia cheio. Preciso trazer meus alunos de volta ao castelo e explicarei o que está acontecendo. Não vamos mais fingir que tudo ficará bem.
Após ouvir o próprio Dumbledore dizer aquilo, tristemente, meu batimento cardíaco ficou muito acelerado. Senti o sangue circular pelo meu corpo... era o que acontecia quando você estava sentindo medo. Olhando para meus amigos, eu não era o único com a mesma sensação.
– James – o diretor chamou quando comecei a ir embora com Lily, Sirius, Marlene, Alice e Frank. Nunca Dumbledore me chamou pelo primeiro nome. Quando me virei para ele, Dumbledore disse: – Não é todo mundo que tem a coragem de encarar Voldemort de frente, dizer o que disse e sair vivo daqui. E não é todo mundo que tem a mesma estupidez.
Não entendi se ele me elogiou ou me chamou atenção, mas de alguma forma, eu me senti lisonjeado. Sempre tive um grande respeito por ele e parecia, talvez se eu não estivesse enganado, que ele também tinha algum respeito por mim. Não me nomearia o Monitor Chefe da escola se não tivesse, se ele não confiasse em mim.
– O mesmo serve para a senhorita também, Lily. De fato, não escolheria melhores Monitores Chefes para essa escola.
Dumbledore se afastou com a professora McGonagall e os outros aurores para fora do Salão Principal. Lily pegou minha mão quando subimos as escadas para a Torre com nossos amigos. Eu estava segurando minha Capa e Sirius o Mapa do Maroto. Nós todos estávamos calados e não conversamos sobre o que estava acontecendo. Aos poucos, observávamos os alunos voltando para Hogwarts naquela manhã aterrorizante. Remus voltou com Peter e Dorcas e alguns alunos do primeiro ano. Ficamos na Sala Comunal da Grifinória juntos nos sofás e nas poltronas. Hogwarts estava tensa, fria, estranha. Não comemoramos o fato de eu ter vencido meu último jogo de Quadribol.
Talvez isso fosse o que menos importava. Mesmo assim, fiquei brincando distraído com o pomo de ouro que nunca devolvi para Madame Hooch.
Lily estava tentando acalmar as alunas do primeiro ano fazendo feitiços simples, mas belos e admiráveis. Mas quando se afastou delas, ela não foi até mim, muito menos até suas amigas. Ela saiu da Sala Comunal.
Lily gosta de espaço; deixe ter o espaço que ela precisar.
Mas não consegui. Apressei-me a segui-la e quando a vi chorando sozinha no corredor vazio, eu corri apertar meus braços ao seu redor. Nunca vi Lily chorando daquele jeito e odiei o fato de que eu não sabia o que fazer para fazê-la parar.
– Você foi um idiota, James, um completo idiota – chorava com a cabeça no meu peito –, você não deveria ter... não devia ter... o jeito que Voldemort te encarou... eu achei que ele ia... eu achei que ele ia...
– Me matar? – eu disse. – Bom, eu não deixaria. Ainda pretendo transar mais algumas vezes-
Ela me empurrou. Forte.
– Não é uma brincadeira, seu idiota! Não faça piadas sobre isso! – gritou.
– Lily...
– Não, James, você não entende! Você é um completo... Eu não tenho mais adjetivos para você, simplesmente não tenho. Você é tudo ao mesmo tempo, James, tudo.
Agarrou meu rosto e me beijou tão forte que nossos dentes se chocaram. Não consegui compreender muito bem aquilo, o jeito que ela me batia e me beijava ao mesmo tempo, com raiva de mim.
– Lily – eu me expliquei, quando nos soltamos. – Eu só fiz o que achei que era certo. E se... bem, e se correr o risco de levar umas maldições de vez em quando... bom, pelo menos estaremos lutando, como nós juramos solenemente, lembra?
– Eu sei. – Ela engoliu em seco. Eu tirei as lágrimas das maçãs de seu rosto com meus polegares. Tentei um sorriso para ela, que ela não retribuiu.
– Vem cá – eu disse, abraçando-a forte, confortavelmente. – Não fique preocupada comigo.
– Fácil pedir isso, hein? Você não é exatamente o tipo de cara que consegue ficar sem ser um insolente idiota e irritável... James, se ele tivesse feito alguma coisa...
– Acho que ele não tentaria matar um aluno na frente de Dumbledore... – eu disse, raciocinando o que poderia ter ocorrido agora. – Ou, como ele mesmo mencionou, somos inúteis demais para a maldição imperdoável dele. Ei – eu segurei o rosto dela e disse confiante: –, mas está tudo bem agora... por favor, não suporto te ver assim.
– Não está tudo bem – ela disse, tirando as lágrimas dos olhos verdes aguados com força. – Não consigo evitar pensar... no risco que estamos cometendo... a ideia de ficar sem você agora é insuportável.
– Ficaremos juntos então – eu sussurrei. – Sairemos de Hogwarts daqui um mês e ainda estaremos juntos. Você quer isso?
– Quero – ela disse decididamente. – Você quer?
– Quero – eu respondi. – Acho até que devíamos casar.
Aquilo escapou da minha boca. Dei uma risada para mostrar que eu estava sendo irônico. Eu voltei a abraçá-la e Lily encostou a cabeça em meu rosto, rindo com a minha ironia.
Franzi a testa. Lily não continuou rindo.
Nós nos entreolhamos.
– Esquece o que eu disse – falei depressa. – Eu estava só sendo irônico.
– É, eu entendi.
– A não ser que você não queira que eu seja irônico...
– Se eu não quisesse que você fosse... você não teria sido?
– Quer saber? Vamos voltar ao tempo, esquecer o que eu disse. Foi só pra descontrair.
– É. Foi uma piada.
– Porque, você sabe... o que estamos esperando acontecer? Não vejo minha vida sem você nos próximos anos. Não quero não ter você comigo. E... o que aconteceu hoje me fez pensar que eu preciso valorizar isso. De algum jeito. Se eu vou lutar nessa guerra, e eu quero lutar nessa guerra, quero também lutar ao seu lado. Se eu acabar morrendo por conta disso... quero saber que ficamos juntos... e que foi mais do que apenas... você sabe... namorados.
Cala a boca, James, você só vai piorar tudo.
Mas continuei desabafando:
– E ontem a noite eu entendi que não quero ter outra garota. Não preciso de outra, na verdade. Olha, Lily... não foi uma piada, eu não estava sendo irônico. Não acho que isso é uma piada. Você e eu. Quero sair de Hogwarts com a chance de ter você pra sempre, Lily Evans. Se isso significa colocar uma aliança no seu dedo e te fazer minha mulher, então eu quero. Eu quero casar com você. Não vou perguntar se você quer, não posso correr o risco de ouvir um “não” da sua voz hoje. Mas algum dia eu vou perguntar e juro solenemente que será apenas uma vez. Eu nunca insistiria para você passar o resto da sua vida comigo.
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa – não acreditei que ela conseguiria dizer alguma coisa naquele instante – eu apertei seu rosto com minhas mãos e dei um beijo profundo nela, grudando meus lábios aos dela fortemente. Não podia esperar uma reação agora, não podia achar que não tinha chances. E, para ser sincero, eu precisei sair dali o mais depressa possível.
Eu tinha acabado de dizer a Lily que eu queria casar com ela.
O que deu em mim?
No dormitório na madrugada, comecei a pirar. Não conseguia dormir, girando meu corpo para todos os lados, pensando quando transamos, pensando em Comensais da Morte e toda vez que eu fechava meus olhos, eu podia sentir a sensação de medo que Voldemort me transmitiu no momento em que ele me encarou. Meus amigos estavam dormindo. Peter roncava na cama ao lado. Sirius estava babando no travesseiro e Remus segurava um livro como se fosse seu bichinho de pelúcia.
– Sirius – eu chamei num cochicho ao me levantar. – Ei, Padfoot.
Comecei a chacoalhá-lo. Sirius acordou quase me dando um soco, mas ao ver minha expressão ele franziu a testa.
– Que foi?
– Eu quero casar com a Lily.
– Ah. Bem... – ele coçou os olhos. – Volte a dormir, você só está sonâmbulo.
– Não. E eu contei a ela, eu disse que queria.
– Você não me acordou para isso, Prongs – ele disse zangado, voltando a deitar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos. – Boa noite.
– Cara, me ajuda, eu posso ter estragado tudo com ela.
– Bem, falar sobre casamento costuma assustar muitas pessoas.
– Merda, Padfoot! Ela não vai querer... por que eu fui dizer aquelas
Sirius tacou o travesseiro dele na minha cara.
– Sente um pouco, James, você está nervoso. – Ele se levantou e, segurando meus ombros, me fez sentar na margem da minha cama a frente dele. – Deixe-me contar um pouco sobre as mulheres.
– Sem ofensas, peitos não vão ajudar agora.
– Deixe-me contar um pouco sobre Lily Evans – corrigiu-se. – Ontem ela enfeitiçou a maçaneta da porta do nosso dormitório só para transar com você. Acho que isso prova alguma coisa, não?
– Então não estraguei tudo?
– Pelo que conheci um pouco sobre a Evans nesses anos, não é um cara dizendo que quer ter ela pra vida inteira que vai assustá-la. E desde quando ouvir um não dela tem impedido você de conseguir o que quer, Prongs?
Olhei para Sirius. Se havia alguém que eu sentia falta nesse mundo era meu pai, e meu pai provavelmente diria a mesma coisa que ele disse.
– Valeu, Padfoot – eu disse. – Acho que está certo.
– Quando não estou? – ele deu uma batida fraquinha nas minhas costas. – Agora... se interromper meu sonho com a goleira das Harpias mais uma vez só para me contar que você quer casar com alguém-
– Goleira das Harpias? – ergui as sobrancelhas. – Desde quando você sonha com as Harpias?
– Er, eu disse Harpias? Quis dizer Magpies.
– E você estava sonhando com o goleiro, então?
Sirius fez uma careta.
– Aquela goleira é gostosa, Prongs, não me culpe.
– Harpias é o time da Marlene. Aquela coisa de imitar James & Lily foi só uma desculpa para você fazer o que quer fazer com ela, que é ser o namorado dela. Não é?
– Estamos parecendo menininhas fofocando sobre nossas vidas amorosas. Quando foi que paramos de falar sobre peitos e bundas ou ver aquelas revistas?
– Nunca paramos. Mas lembra quando meu pai viu a gente vendo aquela revista trouxa? Ele disse que um dia iríamos amar alguém. Eu não tinha entendido na época, mas agora eu entendo. Você ama a Marlene?
– Essa é a diferença entre a gente, cara – ele disse baixinho. – Gosto da Marlene, ela é diferente das outras garotas, é brilhantemente sensual e linda, mas... não somos como você e a Lily. Jamais seremos, mesmo tentando imitá-los. Eu não tenho essa visão de que vou tê-la para o resto da minha vida. Acho que estamos bem do jeito que estamos. Só quero curtir a vida, cara. Curtir o momento. Carpe diem, o lema dos trouxas. Marlene tem a mesma ideia, é uma garota independente e forte, não pensamos no futuro. E, bem, a vida é curta. Com a guerra agora, podemos morrer amanhã. Eu só quero curtir o que tenho agora.
Pensei no que Sirius falou. Pensei por muito tempo, na verdade. Quando voltei pra minha cama, fechei meus olhos, mas ainda assim não consegui dormir. Queria o calor da Lily ao meu lado. Queria acordar com ela ao meu lado. Passei boa parte daquela madrugada pensando. Até cogitei em pegar o Mapa do Maroto para dar umas exploradas no castelo para me distrair. Não chamei meus amigos, precisava ficar um pouco sozinho, mas no momento em que eu abri a porta e desci as escadas, vi Lily sentada na poltrona observando o vazio.
Nós nos encaramos. Eu não disse nada, eu podia dizer algo que terminasse em “casar” e não queríamos que desastres acontecessem.
Mas ela se levantou.
Antes de avançar contra mim para me beijar profundamente, apenas disse:
– Seu idiota.
E eu soube que, quando eu estiver preparado para fazer a pergunta, eu até poderia ter a chance de ouvir um “sim” de Lily Evans.
Fale com o autor