Prongs

10 Patrono, NOMs e Sangue-Ruim


Notas iniciais
Oi gente! Sei que estou indo depressa com as postagens dos capítulos, mas não aguento! hahah Eu havia escrito vários caps antes de começar a postá-los, então não estranhem :) Esse é um dos capítulos que eu mais estava esperando escrever nessa fanfic. Espero que gostem!

Harry: Como ela foi se casar com ele? Ela o odiava!
Sirius: Não, não o odiava.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

***

Não nos encrencamos com a brincadeira que Sirius fez contra Ranhoso, mas tivemos que pagar detenções de um mês em lugares separados. Ranhoso na biblioteca, eu com McGonagall e Sirius com Hagrid na Floresta Proibida. Não tivemos muito problemas com comunicação, uma vez que Sirius roubou da casa de sua família dois pares de espelhos mágicos, que mostravam o lugar onde Sirius estava e, quando McGonagall saía para resolver alguma coisa, nós ficávamos papeando através de nossos espelhos.

Tentamos agradar Moony ao máximo como modo de nos redimirmos pelo que fizemos. Ele não ficou exatamente irado, era como se ele tivesse alguma idéia de que tentaríamos fazer algo parecido contra Ranhoso em algum momento, se ele continuasse bisbilhotando a gente.

– Só não acham que levaram o juramento do Mapa do Maroto muito a sério?

– Foi só uma brincadeira – era o que Sirius tentava convencer a todos. – Eu ia saber que Ranhoso era tão determinado para descobrir sobre você?

– E ele descobriu mesmo, ele me viu, fez as contas.

– Duvido que alguém acredite nele – eu disse. – Mesmo que conte a Evans, como é que ela acreditaria que esse rostinho tão fofo do Remus fosse capaz de ter um probleminha peludo todo mês?

– Eu já perdoei vocês. Se falar do meu rostinho fofo outra vez, Prongs...

– Alerta ruiva – Sirius cochichou.

Virei meu rosto depressa e pude admirar Evans passando por nós. Chegou a ter um momento em que essa era a parte do dia em que eu mais ansiava. Estava andando com as amigas, sorrindo, os livros contra o peito e os cabelos presos em uma trança que caía por um dos ombros. Ia passar reto, sem me notar, mas não deixei.

– Bom dia, Evans – eu disse.

Ela, Marlene e Alice olharam ao mesmo tempo, as outras duas bastante espantadas. Evans, bem indiferente.

– Potter – disse apenas e não parou para conversar. Comigo. Não parou para conversar comigo, porque quando disse alguma coisa foi para Remus. – Você melhorou, Lupin?

– Oi? – ele estava atrás de um livro quando ouviu Evans falando com ele. – Eu?

– Faltou da ronda dos monitores nessa última sexta e percebi que andou meio mal na última semana.

– Ah, me desculpe por isso. Eu estive...

– Doente, ouvi dizer, não precisa se desculpar – ela disse, compreendendo. – Bom, um dos Monitores-Chefes disse que você teria que fazer algumas horas extras. Pediu para eu avisá-lo.

– Que maldade – eu me intrometi na conversa. – Hora extra? O garoto é doente e me vêem com hora extra para cima dele.

– Eu não ligo – disse Remus depressa. – Acho que é o mais justo por fazer os outros monitores trabalharem mais do que eu. Obrigado por avisar. Er – Lily?

– Sim?

– Você, por um acaso, não falou com Dorcas, falou? Ela ainda está...

– Bem chateada – concordou. – Mas acho que é mais porque você ainda não falou com ela.

– Mas ela disse... mas ela disse... pediu para eu não procurá-la.

– Não acredite em tudo o que garotas falam quando estão nervosas – disse Lily com um sorrisinho. – O importante é resolver as coisas.

– Ora – eu abri um largo sorriso e me aproximei dela. – Então se você diz não quando eu te chamo pra sair, quer dizer que...

– Quer dizer que eu não quero sair com você. Vamos, meninas. Tchau, meninos.

Elas saíram cochichando juntinhas, Marlene dizendo em voz alta “Por que Potter fica te chamando pra sair toda hora?”. Enquanto isso, eu tive que aturar os meus amigos rindo do sofisticado fora de Evans. Mais um.

– Ela não ta afim de você, Prongs, desista – disse Sirius, abanando a cabeça. – E desde quando você troca umas ideias com Evans, Remus?

– Ah – ele deu de ombros. – Ela é legal comigo nas rondas e ela me deu uns conselhos sobre a Dorcas...

– Nós te damos conselhos! – eu disse estupefato e enciumado. – Não acredito que está aceitando conselhos de garotas.

– Sem querer desmerecer o conhecimento de vocês dois sobre peitos, mas o que Lily fala para mim tem mais sentido... quero dizer, tem mesmo me ajudado a entender...

– Então já que vocês batem um papinho sobre a Dorcas – eu disse, jogando um braço ao redor do ombro dele. – Meu grande amigo Remus... Moony, Moony... espero que tenha comentado algo sobre mim, em algum momento, não é?

– Sobre você?

– Sei lá, sobre aquela certa vez no treino que eu capturei o pomo em, tipo, dois minutos. Ou sobre como consegui melhorar em alguns feitiços... Comente também sobre aquele dia em que Sirius e eu enfrentamos um Comensal da Morte. E me conte tudo sobre a expressão dela nesse momento. Assustada? Admirada? Preocupada? Tudo, Moony.

– Mencione o abdômen também – sugeriu Sirius, sarcasticamente. – Prongs tem trabalhado bastante nele.

– Não deixe de comentar, é claro.

– Porque não vai soar nem um pouco estranho – Remus disse, girando os olhos. – Eu falando do seu abdômen.

– Vamos, Moony, só tente descobrir o que ela acha sobre mim. Ela te escuta.

– Já passamos por isso, Prongs. Ela tem sérios problemas com você azarando qualquer um que vê pela frente.

– Ela te falou isso?

– Falou.

– Quer saber, estamos parecendo um bando de garotinhas com essa conversa. Quem ta afim de uma cerveja amanteigada? – sugeriu Sirius, animado. – E dar uns amassos numas garotas mais velhas?

Olhou para mim e para Remus. Não parecíamos no pique para isso... Ele fechou a cara.

– Vou chamar o Peter, então. Vocês já foram melhores!

Claro, eu não ficava pensando na mesma garota toda a maldita hora.

E daí se saio por aí azarando alguns estudantes? É para o bem da diversão popular, desde o primeiro ano praticando as mais criativas formas de divertir as pessoas. E tem tantas azarações que os alunos sonhavam em fazer; era ótimo ser um dos pioneiros a conseguir dominar o feitiço Levicorpus com destreza.

Outro feitiço que começamos a aprender no quinto ano foi o conhecido Patrono, uma espécie de guardião que tem o grande objetivo de espantar as energias negativas e seres como Dementadores, que sugam toda a sua felicidade. Para conjurá-lo era preciso pensar na lembrança mais feliz. Mas não era fácil. Você tinha que escolher a lembrança com sabedoria, então a dificuldade para conjurá-lo ficou presente na maioria dos alunos.

O primeiro que conseguiu conjurar o Patrono, nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas depois do Natal, foi Remus. Com grande admiração, assistimos a forma quase fantasmagórica de um forte lobo prateado se formar através de um feixe de luz branca, azulada, que saiu de sua varinha. A sala ficou perplexa, era o feitiço mais bonito que conhecemos desde o primeiro ano. Pudemos sentir a presença de Moony naquele lobo e que, com ele, parecia que nada de ruim iria lhe acontecer.

Eu estava ficando meio frustrado por não conseguir. Eu tinha inúmeras lembranças felizes. Será que não eram felizes o suficiente? Por isso fui até Moony no fim da aula.

– Excelente Patrono, Moony – eu disse. – Fiquei curioso... qual sua lembrança mais feliz? Se quiser dizer, é claro.

– Bom, me concentrei bastante com essa lembrança, porque me pareceu a mais forte... vai soar um pouco brega.

– Pode dizer.

– Foi a noite que vocês descobriram sobre mim, sobre meu probleminha peludo. E não fugiram.

– Moony, você me faz chorar.

– Não conte ao Sirius. Ele vai me zoar. Que lembrança você está se concentrando?

– Por um momento pensei na primeira vez que capturei o pomo de ouro, mas não ficou dando certo. Depois pensei na primeira vez que azarei um garoto com Levicorpus, foi tão lindo. E depois... pensei na primeira vez que meu pai me levou para assistir o jogo dos Magpies... e depois pensei em Sirius e eu escapando de uma detenção com McGonagall e...

Moony estava rindo.

– Que foi?

– Não devia ser tão difícil para você conjurar o Patrono, com tantas lembranças felizes para escolher – ele disse, mas seu tom não estava de deboche. Havia um quê de inveja nele, mesmo sorrindo. – Só precisa pensar em algo que você tem certeza de que ninguém vai poder tirar de você. Se um Comensal da Morte desfigurar todas as suas lembranças, qual delas vai ficar com você, não importa como?

– Valeu, Moony – eu disse antes de deixá-lo começar a sua ronda de Monitor com Lily.

E ele me deixou pensativo. Comecei a praticar o patrono dia e noite. Se Remus conseguiu, eu também conseguiria.

Expecto Patronum – eu disse, pensando muito profundamente na noite em que eu, Sirius e Peter nos transformamos em animagos. Estava deitado na Sala Comunal naquele sábado. – Expecto Patronum...

Mas não consegui – não estive me concentrando como deveria. Na próxima semana, quando testamos mais uma vez o Patrono com a classe, vimos que aos poucos o pessoal foi adquirindo a habilidade e concentração. Suas lembranças eram bonitas, quando comentavam, e decidi me dedicar a lembranças mais profundas.

Lily conseguiu conjurar o seu patrono. Foi admirável. A presença da corça andando ao seu redor era hipnotizante. Era uma corça absolutamente linda, doce e delicada. Era Lily. Trotou pela sala e sua beleza era estonteante. Eu não senti inveja... Estava ocupado demais observando seu sorriso triunfante, orgulhoso e quase tímido, mas agradecido, quando a aplaudimos. Aplaudíamos todos que conseguiam, mas eu a aplaudi com um verdadeiro sentimento de admiração. Ela conseguiu. Tive muita curiosidade de saber qual foi sua lembrança.

– Aposto que sua lembrança mais feliz foi quando me viu pela primeira vez – eu brinquei, passando por ela.

– O mundo gira em torno do sol, sabia? Não de você. Aliás, tive um intenso desgosto quando te vi pela primeira vez. Caçoando Severus e a mim, naquele compartimento... definitivamente não foi uma lembrança feliz. Desculpe desapontá-lo.

– Sem problemas. Então qual foi sua lembrança? Ou não é da minha conta?

– Foi quando recebi minha carta de Hogwarts – contou e havia um brilho em seu olhar que eu quis observar o dia inteiro.

– Sutil, verdadeiro... por que estou tendo dificuldade? Tenho lembranças mais felizes que essa.

Ela parou de guardar os materiais na bolsa, olhando para mim muito inconformada.

– Está comparando suas lembranças com as dos outros? – ela perguntou com um certo tom de desaprovação. – Isso é... egoísta.

– O quê? Não...

– Pare de pensar em conseguir fazer o Patrono. Não é essa a utilidade dele. Não é de se mostrar para a turma, como você adora fazer, não é sobre ser o melhor dessa vez, Potter. Por isso não está conseguindo. Você tem a habilidade, só não tem a maturidade. Maturidade. Sabe o que é isso? Devia tentar um pouco, faz bem.

Tive maturidade o suficiente para me tornar um animago. Um animago que é a forma masculina do seu Patrono.

Fiz tanto esforço para não dizer isso em voz alta. Então só sorri de lado, apoiando-me na carteira:

– Aí você sairia comigo?

– Tchau, Potter – ela disse, soando bastante cansada. Pegou sua bolsa e acompanhou Marlene para fora da sala. Eu comecei a sentir meu coração disparar a cada maldito segundo que eu a via se afastando de mim. Eu queria ficar o mais perto dela, o mais perto possível. Beijá-la, se fosse preciso. E era, era muito preciso.

Eu não parava de pensar em beijá-la. Tinha algo profundamente errado comigo. Ela não me queria, por que eu precisava insistir?

Eu queria.

As proximidades dos N.O.Ms no mês de junho deixaram os alunos com diversos tipos de problemas sociais. Frank e Alice precisaram até terminar o namoro, ambos concordando veementemente que não podiam se distrair. Lily, então, era impossível chegar perto dela. Andava tão estressada, ansiosa e impaciente, com o rosto enfiado atrás de livros e livros, que eu não podia respirar perto dela que ralhava:

– Hoje não estou com o humor, Potter!

Era bem provável que nossos colegas estivessem desconfortáveis com a tranquilidade minha e de Sirius. Até Remus perdeu um pouco de sua infinita paciência quando nos viu discutindo sobre os ingredientes da cerveja amanteigada, enquanto ele se concentrava na leitura de aplicações complexas de feitiços.

Claro que chegava um período do dia que eu me via preso em uma ou duas matérias, estudando e repassando cada pergunta com Sirius, Remus e Peter no dormitório. Peter estava com sérios problemas; nervoso, indeciso, pessimista, uma vez até o ouvimos chorando na cama. Passei mais tempo ajudando Peter do que estudando para mim mesmo. Ajudando-o, fez com que eu também entendesse mais o que eu precisava saber para passar por aquela semana com o intuito de me sair muito bem.

Domingo, um dia antes do primeiro teste dos N.O.Ms, que seria Feitiços com o Professor Flitwick, passei a tarde no campo de Quadribol, espairecendo com a vassoura sobrevoando as vazias arquibancadas. Eu estava sozinho, somente eu e a vassoura e o vento. Não percebi que fiquei tanto tempo ocupando o campo quando já estava noite e as nuvens ficaram densas pelo céu, indicando a iminência de chuva.

Então capturei o pomo de ouro para ir embora.

Por alguma razão, não o devolvi para a caixa. Por ter a confiança do capitão e de Madame Hooch, eu podia abri-la quando quisesse. Mas com a condição de devolver o pomo.

Não o fiz, segurando-o na palma da mão. Sorte. Pomo de ouro me dava sorte e, no dia seguinte, eu precisaria disso. Enfiei o pomo no bolso, diminui a altura da vassoura e pulei para o gramado.

A caminho da Torre da Grifinória, me deparei com Lily e Ranhoso estudando para o teste de Feitiços juntos, no banco do corredor. Ele fazia as perguntas, ela respondia. Depois ela fazia as perguntas, ele respondia. Os dois comemoravam quando acertavam e Lily o consolava rapidamente quando Ranhoso batia o punho nas pernas, com raiva por não estar preparado cem por cento.

Devia ter deixado ele seguir aquele túnel, pensei com raiva. Ciúmes, muito ciúmes. Quis azará-lo com todas as minhas forças. Por que ela sorri para ele? As coisas que ele faz... com quem anda, aqueles sonserinos idiotas... Sem contar os rumores que ele estava doido para se juntar a Você-Sabe-Quem. Chamava-o de Lorde das Trevas, como um Comensal! E estava ao lado de Lily Evans... nascida-trouxa, como qualquer outra bruxa que ele repudiava. Por que ele não a repudiava?

Eu sabia por que.

***

– Mais cinco minutos! – anunciou o professor Flitwick e eu estava tão malditamente concentrado que ao ouvir sua voz aguda e estridente, quase derrubei o tubo de tinta da minha pena pelo susto que eu levei. O pequeno professor estava passando por entre as mesas perto da minha, as mãos atrás das costas, atento a qualquer movimento suspeito. Nesse momento, descansei a pena e verifiquei se o que eu escrevi fazia, afinal de contas, algum sentido.

Claro que fazia. Eu andava com um lobisomem todo o mês. Saberia dizer os sinais de um.

Bocejei, arrepiando os cabelos de minha nuca, esperando Flitwick se afastar para sorrir para Sirius, quatro mesa atrás de mim, uma a frente de Marlene McKinnon. Sirius levantou discretamente o polegar, indicando que também acabou de responder a mesma pergunta e terminou o teste.

Duas mesas ao lado, estava Moony. Ele não desviou os olhos do exame, estava bem absorto, mas sua testa franziu ligeiramente, e ele pareceu muito pensativo. Qual serão os sinais, Moony? Você sabe?

Peguei Peter tentando colar de Michael Stebbins da Corvinal, um dos mais sabe-tudo da nossa classe. Wormtail estava roendo as unhas como um verdadeiro roedor. Abanei a cabeça, sabendo que ele estava tendo dificuldades, mas o que se podia fazer?

Ainda teria que esperar cinco minutos para levantar, então me concentrei em um pedaço de pergaminho para rabiscá-lo. Comecei a desenhar um pomo de ouro, sentindo o calor dele no bolso da minha calça, louco para sair voando. Depois me peguei olhando para a nuca de Lily Evans, cinco mesas a frente da minha, duas ao lado de Alice. Ela estava com a mão apoiada em sua bochecha, indicando que também havia acabado de fazer os testes. Professor Flitwick voltou a se postar a frente das inúmeras mesas do Salão Principal. Eu estava acrescentando duas letras perto do pomo desenhado, quando ele basicamente gritou:

– Descansem suas penas, por favor!

Olhei para meu pergaminho. Me dei conta que tinha escrito as iniciais dela.

"L. E"

– Você também, Stebbins. Por favor, continuem sentados enquanto recolho os pergaminhos. Accio.

A cena a seguir fez o salão diminuir a tensão do exame, quando uma centena de rolos de pergaminhos derrubou o professor Flitwick no chão ao voarem até seus braços estendidos. Lily Evans e Michael Stebbins correram ajudá-lo a se levantar, segurando-o pelos cotovelos, enquanto o pessoal ria, inclusive a própria Lily, mesmo que olhasse preocupada para o professor.

Ele colocou a mão na testa, ofegante.

– Obrigado... obrigado. Muito bem, todos podem sair!

Rabisquei as letras L e E e enfiei o pergaminho no bolso, antes de me levantar rapidamente para esperar Sirius. Acompanhado de Remus, os dois se aproximaram. Saímos do saguão passando ao lado do grupo de amigas da Evans, e Sirius perguntou curioso:

– Você gostou da décima pergunta, Moony?

– Adorei – respondeu rapidamente. – Cite cinco sinais que identificam um lobisomem. Uma excelente pergunta.

– Você acha que conseguiu citar todos os sinais? – perguntei com falsa preocupação.

Estávamos próximos ao jardim ensolarado quando Remus respondeu seriamente:

– Acho que sim. Primeiro: ele está sentado na minha cadeira. Dois: ele está usando as minhas roupas. Três: o nome dele é Remus Lupin.

Sirius e eu rimos, mas Peter, que se juntou a nós no momento em que Remus disse aquilo, ainda parecia muito tenso:

– Eu citei a forma dos focinhos, as pupilas dos olhos e o rabo peludo. Mas não consegui pensar em mais nada...

Olhei para céu, impaciente.

– Como pode ser tão obtuso, Wormtail? Você anda com um lobisomem uma vez por mês.

– Fala baixo – Remus sussurrou depressa e, juntos, descemos os gramados até o lago do jardim, onde mais alunos se acomodavam para relaxarem dos estresses dos exames. Um dia a menos para contar. Agora faltavam... duas semanas, de qualquer forma.

– Bom, achei que o exame foi moleza – comentou Sirius. – Vai ser uma surpresa se eu não tirar no mínimo um “Excepcional”.

– Eu também – falei.

Procurei o pomo dentro do bolso e o retirei. Estava se debatendo em minha mão, mas continuei segurando-o até chegarmos a sombra da árvore que costumamos ficar durante os intervalos. Era um bom local para se ter a visão bastante privilegiada de Lily, que gostava de se juntar as amigas no outro lado do jardim, na beira do lago. Elas estavam rindo e retirando suas meias para ficarem descalças.

– Onde você conseguiu isso? – perguntou Sirius.

– Afanei – respondi displicente e, finalmente, soltei o pomo de minha mão.

Não deixei escapar para muito longe, mesmo assim. Capturei-o quando já estava a trinta centímetros do meu rosto. Estirei-me na grama com eles e continuei brincando, enquanto, de esguelha, observava Lily sentindo a temperatura da água para refrescar os pés na margem do lago.

Remus já estava com o livro de Transfiguração aberto mesmo que o teste fosse ocorrer no dia seguinte; Sirius tentava encontrar alguma garota interessante para flertar, e Peter estava olhando meio hipnotizado, na expectativa de me ver agarrando o pomo antes que fugisse.

Não me incomodei. Estava mais interessado em ver Lily. Nesse momento, roçava os dedos no cabelo ruivo enquanto ria de Marlene que deixou a bolsa cair no logo, sem querer, e teve que tirar as pressas, desesperada, com um feitiço para secar os livros.

Soltei o pomo, distraído. Estava quase fugindo, mas peguei imediatamente. Deve ter sido uma boa capturada, porque Peter exclamou alguma coisa animado.

– Quer guardar isso? – perguntou Sirius –, antes que Wormtail molhe as calças de excitação?

Evans não me viu em nenhum momento, então dei de ombros.

– Se estou incomodando.

Guardei o pomo novamente em meu bolso. Comecei a buscar outras pessoas com o olhar, quando Sirius disse:

– Estou entediado. Gostaria que já fosse lua cheia.

– Você gostaria – retrucou Moony por trás do livro. – Se está entediado poderia me testar. Pegue aqui...

Sirius deu uma risada quando Moony esticou o livro para ele.

– Não preciso olhar para essas bobagens, já sei tudo.

Nesse momento, vi Ranhoso guardando suas coisas na mochila. Estava em pé, sob a sombra de uma árvore isolada das outras pessoas.

– Isso vai animar você um pouco, Padfoot – falei. – Olha quem é que...

Sirius o farejou. E ficou a espreita.

– Excelente. Ranhoso.

Snape começou a passar por nós apressadamente. Mas levantamos.

Ainda estávamos tensos por ele saber o segredo de Moony e por ter bisbilhotado o Salgueiro Lutador por conta própria, porque Sirius tecnicamente nunca o obrigou a ir. Mesmo que já tivesse passado meses, sentimos saudades de confrontá-lo como nos velhos tempos.

Não parei de pensar no dia anterior quando o vi estudando com Lily.

– Tudo certo, Ranhoso? – perguntei e quem estivesse observando de longe, só pensaria que estávamos parando para um papo com ele.

Mas Ranhoso sabia o que íamos aprontar, então derrubou os livros da mochila. Nesse meio tempo, indicou que ia pegar a varinha, mas eu fui mais rápido:

Expelliarmus!

Sirius gargalhou quando a varinha de Ranhoso voou atrás de suas costas, uns quatro metros mais ou menos. E foi sua vez.

Impedimenta!

Atirou o corpo de Ranhoso ao chão quando ele foi tentar mergulhar para pegar a varinha de volta.

Alunos se aproximavam para assistir. Alguns riram, outros já pareciam mais apreensivos. Enquanto me aproximava de Ranhoso, olhei por cima dos ombros; Evans ainda estava distraída com as conversas com as amigas no lago. Não tinha visto.

– Como foi o exame, Ranhoso? – perguntei.

– Eu vi, o nariz dele estava quase encostando no pergaminho – Sirius comentou. – Vai ter manchas enormes de gordura no exame todo, não vão poder nem ler uma palavra.

Ouvimos as risadas do pessoal que estava acompanhando a cena. Guardei um sorrisinho para mim mesmo. Snape estava se debatendo, tentando se livrar da azaração, como se todo o seu corpo pesasse uma tonelada.

Espere... para ver... – arquejou me encarando com muito desprezo. – Espere... para ver!

– Esperar pra ver o quê? – Sirius franziu a testa, calmo. – Que é que você vai fazer, Ranhoso, limpar seu nariz em nós?

Depois dessa, Ranhoso começou a berrar inúmeros palavrões para cima de nós. Uma das palavras que compreendi foi Sectumsembra, mas como não estava com a varinha, não aconteceu nada comigo.

Patético.

– Lave sua boca – eu falei friamente. – Lavar!

Foi uma boa azaração. Sua boca se encheu de bolhas de sabões de tonalidades rosa. Estava engasgando, ofegando, quando a voz conhecida ecoou pelo jardim:

– Deixem ele em PAZ!

Despenteei meu cabelo depressa, quando me virei para ver Evans se aproximando.

– Tudo bem, Evans? – perguntei, amadurecido.

– Deixem ele em paz – ela repetiu e, a princípio, pareceu controlar sua raiva. Mas os olhos verdes me encaravam com visível desgosto. – Que foi que ele lhe fez?

Que foi que ele me fez? Ele fica recebendo sua atenção desde o primeiro ano, ofende qualquer bruxo que vê pela frente que não tem sangue-puro, menos você, porque você o defende, e ele se faz de vítima, para ter sua maldita atenção! E ele está apaixonado por você e é o garoto mais acabado que eu conheci em minha vida. Não tem um pingo de confiança, não tem talento, é asqueroso, ranhoso, nojento, sujo. Não sei como ele te faz sorrir! Simplesmente não sei!

Eu não disse aquelas coisas.

– Bom, é mais pelo fato de ele existir, se você me entende...

Não foi uma resposta esclarecedora, reconheço, mas divertiu o pessoal ao nosso redor. Lily continuou séria.

– Você se acha engraçado – disse baixinho, com a voz fria. – Mas você não passa de um cafajeste, tirano e arrogante, Potter. Deixe ele em paz.

– Deixo se você quiser sair comigo, Evans – eu disse depressa. – Anda, sai comigo e eu nunca mais encostarei uma varinha no Ranhoso.

– Eu não sairia com você nem que tivesse de escolher entre você e a lula-gigante.

Fiquei calado.

– Muito azar, Prongs – disse Sirius, animado. Por um momento, eu havia me esquecido de Snape, mas Sirius não, porque gritou. – OI!

Foi rápido. Um lampejo atingiu o meu rosto. Senti um pedaço de minha pele na bochecha se rasgar em um corte profundo e sangue escorreu pelo meu colarinho da veste do uniforme branco. Quando vi isso, girei meu corpo.

Levicorpus!

As risadas imediatamente aumentaram de tom, porque no segundo seguinte, Ranhoso estava pendurado de cabeça para baixo, como um morcego de pernas magrelas e brancas, as vestes caídas pelo avesso e revelando a cueca suja. Isso fez o meu dia.

Eu estava gargalhando enquanto ouvia os aplausos dos estudantes que acompanharam a cena. Sirius quase perdeu o fôlego e Peter rolava no chão. Percebi que Moony não tinha tirado a cara do livro de Transfiguração, sentado ali perto, fingindo que não estava vendo.

– Ponha ele no chão! – era a voz de Lily novamente. Jurei que ela quase deixou escapar um sorriso, mas imediatamente manteve-se séria e autoritária.

– Certamente. – Acenei a varinha, ajeitando meus óculos, e Ranhoso se embolou todo no gramado quando caiu.

Foi tentar ser engraçadinho de novo, apanhando a varinha, mas não teve chance. Sirius exclamou:

Petrificus Totalus!

Virou uma tábua.

– DEIXEM ELE EM PAZ! – dessa vez Lily gritou mesmo.

Não só isso, como também sacou sua própria varinha.

Sirius e eu nos encaramos.

Foi um momento delicado.

– Ah, Evans, não me obrigue a azarar você – eu disse seriamente.

– Então desfaça o feitiço nele!

Hesitei um pouco, ainda tenso por ela ter achado necessidade de apontar sua varinha para mim. Suspirei e murmurei o contrafeitiço. Quando Snape tentava se levantar novamente, eu disse:

– Pronto. Você tem a sorte de que Evans esteja aqui, Ranhoso...

– Não preciso da ajuda de uma Sangue-Ruim imunda como ela!

A princípio achei que não tinha escutado direito, mas ele disse exatamente aquelas palavras, porque a expressão de Lily endureceu.

– Ótimo – disse. – No futuro, não me incomodarei. E eu lavaria as cuecas se fosse você, Ranhoso.

– Peça desculpa a Evans! – berrei, ameaçadoramente com a varinha pressionada entre minha mão fechada com tanta força que achei que eu fosse parti-la ao meio.

Ela se virou contra mim, também.

– Não quero que você o obrigue a se desculpar. Você é tão ruim quanto ele.

Respirei pesadamente.

Quê? Eu nunca chamaria você de... você sabe o que!

E como ela podia me comparar a Snape dessa forma?

Quando começou a dizer, entendi que era por um motivo completamente diferente:

– Despenteando os cabelos só porque acha que é legal parecer que acabou de desmontar da vassoura, se exibindo com esse pomo idiota, andando pelos corredores e azarando qualquer um que o aborreça só porque é capaz... até surpreende que sua vassoura consiga sair do chão com o peso dessa sua cabeça cheia de estrume. Você me dá NÁUSEAS.

Girou as costas e foi embora, saindo o mais depressa possível do jardim e deixando as amigas, estupefatas, para trás.

– Evans! – gritei. Ela já estava longe. Não olhou para trás. – Ei, Evans!

Sentindo meu estômago embrulhar de um jeito desagradável, me virei para Sirius tentando soar apenas inconformado.

– Qual é o problema dela?

– Lendo nas entrelinhas, eu diria que ela acha você metido, cara.

Tentei me controlar, tentei mesmo. Mas fiquei furioso.

– Certo. Certo.

Snape fez um movimento, mas não deixei. O corpo voltou a se pendurar no ar. Aquela cueca suja apareceu de novo.

– Quem quer ver eu tirar as cuecas do Ranhoso?

Quando recebi apoio do maior número de estudantes ali, Moony interveio finalmente se levantando da grama e guardando os livros.

– James, já estou nervoso com os testes, vai mesmo me fazer devolver todo o meu café-da-manhã nesse chão?

Todos riram, mas eu não ri. Quis rir, mas minha expressão estava azeda demais para isso. Snape precisava se humilhar mais um pouco pelo que disse a Evans.

– Não vale a pena – continuou Remus baixinho para mim. Depois aumentou a voz para nossos colegas. – Muito bem, a brincadeira terminou. Voltem a fazer o que estavam fazendo ou vou tirar cinco pontos de cada um de vocês. – Ninguém se moveu. – Certo, vinte pontos.

Dessa vez, um a um foi se afastando.

– James – disse Moony. Eu ainda não abaixei minha varinha.

Ranhoso nem se dava mais ao trabalho de tentar se soltar da azaração, então fiz o que Moony pediu.

Quando Ranhoso caiu novamente na grama, recolheu sua mochila e varinha, para fugir correndo.

– Bom, isso animou meu dia – disse Sirius definitivamente, enquanto voltávamos para o castelo. – Acho que vou até retomar a matéria de Transfiguração com você, Moony. Onde vai, James?

– Devolver o pomo – falei. – Encontro vocês mais tarde.

Lily não saiu da minha cabeça até a noite, quando eu já estava no dormitório ouvindo Peter roncando.

– Se quer a verdade, Prongs – disse Sirius vendo minha expressão. Eu estava sentado na cama olhando para o nada, quando na verdade eu deveria estar relendo a matéria de Transfiguração. – Não foi muita novidade o que ela disse... sobre achar você arrogante e essas coisas. Então não sei por que ta tão chateado.

– Acho que ela me odeia mesmo.

– Ela estava zangada – disse Remus. – E, pra falar a verdade, vocês meio que pegaram pesado dessa vez...

– Você ouviu do que ele a chamou!

– Não tem desculpas para o que ele fez – concordou Remus, sério, depressa.

– Eu preciso falar com ela.

– Péssima idéia, Prongs.

– Eu não posso deixar ela achar que sou tão ruim.

Eles nunca perdiam seus tempos me impedindo de fazer algo que eu estava determinado a fazer. Não dormiria a noite, eu não podia dormir tendo a consciência de que ela me odiava. Saí do meu dormitório e desci as escadas em espiral para avançar pelo corredor até o dormitório feminino e bater na porta do dela.

Mas aparentemente eu não era o único com as mesmas intenções.

Lily, por favor! – dizia Mary Macdonalds desesperada. Mais três garotas e Frank estavam juntos, a frente da porta fechada do dormitório de Lily. – Você tem que descer... ele disse que ia dormir perto do retrato a noite inteira se você não for até lá falar com ele. E ninguém quer ter aquilo na nossa porta!

– O que está acontecendo? – eu perguntei quando Marlene gritou lá dentro: “DEIXEM A LILY EM PAZ!”

– Ranhoso insiste em falar com Lily – disse Macdonalds a mim. – Ele diz que vai ficar a noite inteira esperando se ela não descer lá fora.

– Bom – eu disse, enfurecido, buscando minha varinha embaixo do cós da minha calça de pijama. – Posso dar um jeito nisso. Expulsarei aquela barata asquerosa da porta...

Falei com a voz alta o suficiente para Lily escutar. Por isso ela abriu a porta de seu quarto. Saiu, fechando o robe noturno ao redor da cintura, e ultrapassando todo mundo para descer as escadas, sem dizer uma única palavra.

– Não está pensando em realmente ir até lá para conversar com ele, está? – eu perguntei. – Depois do que ele te chamou, você não ta pensando em...

Quando ela não disse nada, eu fiquei inconformado. Desci as escadas muito mais rápido do que ela. Estava me aproximando do Retrato, mas Lily segurou meu braço, impedindo-me.

– Não – ela disse definitivamente. – Volte para a sua cama.

– Mas...

– James! – ela disse estressada. – Isso não é da sua conta agora.

Não sei se foi porque eu a ouvi dizendo meu nome pela primeira vez, ou se foi porque ela estava segurando meu braço para me impedir de dar mais um passo... Só sei que a obedeci e guardei a varinha.

– Diga que vai azará-lo então.

– Me dê licença, Potter.

– Se ele tentar alguma coisa-

– Ele não vai tentar. Eu preciso resolver esse assunto. Por favor, não estou brincando.

Deixei que ela passasse. Mas cruzei os braços.

– Eu vou ficar aqui esperando.

Olhou-me e tinha a expressão cansada. Tão cansada que nem quis ralhar.

– Faça o que quiser.

Abriu a porta e a voz de Ranhoso soou desesperada:

– Me desculpe.

– Não estou interessada – e fechou a porta atrás de si.

As vozes eram abafadas, mas nítidas o suficiente.

Me desculpe!

Poupe seu fôlego. Eu só saí porque Mary me disse que você estava ameaçando dormir aqui.

Estava. Teria feito. Nunca quis chamar você de sangue-ruim, simplesmente me...

Escapou?

Por mais que nada daquilo fosse da conta de ninguém, era possível ouvir a discussão dos dois. Não somente eu, mas também Frank e Mary estavam por perto e nenhum dos dois voltou para a cama.

É tarde demais – dizia Lily com sua voz decidida. – Há anos dou desculpas para o que você faz. Nenhum dos meus amigos consegue entender sequer porque falo com você. Você e seus preciosos amiguinhos Comensais da Morte. – Fez-se um segundo silencioso. – Está vendo, você nem nega! Nem nega que é isso que vocês pretendem ser! Mal pode esperar para se reunir a Você-Sabe-Quem, não é? – Silêncio outra vez. – Não posso mais fingir. Você escolheu o seu caminho, eu escolhi o meu.

– Não... escute, eu não quis...

– ... me chamar de sangue-ruim? Mas você chama de sangue-ruim todos que nasceram como eu, Severus. Por que eu seria diferente?

Ela não lhe deu a chance de responder. No segundo seguinte, voltava para a Torre.

– Então, fiquei sabendo aí de uns guelrichos e... – disfarçou Frank e eu cocei a nuca no momento que Lily chegou à sala.

– Pois é, eu estava pensando a mesma coisa e...

Mas Lily só disse:

– Ele não vai mais incomodar, Mary.

E subiu as escadas.

Mary Macdonalds voltou aliviada para o seu dormitório. Não era a toa. Os amigos de Ranhoso tramaram uma brincadeira muito de mau gosto para cima dela, no semestre passado, dizendo que uma sangue-ruim teria sua morte em tal dia. Nesse tal dia, trancaram Mary em uma sala escura das masmorras, depois de raptá-la. A menina teve que passar uma semana tomando poções para acalmar os nervos, pois achou que seria assassinada. Filch conseguiu interditar a brincadeira de Mulciber antes que Mary pudesse ter um ataque cardíaco.

O restante das duas semanas de testes dos NOMs caminhou tranquila e estranhamente... bem, apesar do modo como o primeiro dia se saiu. Lily continuou passeando, frequentando as aulas, estudando, sorrindo e conversando. Ela não chorava pelos cantos; ela estava decidida. Decidida de sua escolha e que Ranhoso não faria parte dela. Ela não modificou sua vida em Hogwarts por isso.

E evitou conversar comigo durante todos os dias dos N.O.Ms porque me achava metido.

Aquelas semanas terminaram, mas os testes, pelo menos para mim, ainda não. Eu tinha que me concentrar em vencer a Taça da Grifinória contra a Corvinal ainda, e todos estavam jogando suas esperanças em mim.

Eu não tinha intenção de decepcionar ninguém.

Aquela manhã foi mais ou menos assim:

– ... E Potter sai em disparada a procura do pomo de ouro, aquele que todos chamariam de inimigo, Potter o chama de amigo e, sinceramente, parece que ele tem um jeito com aquele objeto – narrava Alison Johnson, sua voz ecoando todo o campo entre os gritos da torcida. – Parece que o pomo de ouro gosta de Potter, pela facilidade como ele o alcança... Bom, parece que o apanhador novo da Corvinal que eu esqueci o nome não quer deixar Potter receber a glória. Opa! Mas é com muito estilo que Potter inclina sua vassoura em poucos graus para despistá-lo. Eu adoro que Potter nunca precisou usar violência em seu jogo... Limpo e justo, não há um garoto mais gostos- quero dizer, habilidoso do que... Espera aí? Eu estou narrando esse jogo há mais de dez minutos. Por que será que Potter ainda não capturou o pomo? Ah, claro, está fazendo umas manobras. Essa foi ótima, Potter!

– Srta. Johnson, ainda tem outros jogadores no campo – retrucava a voz de McGonagall ao seu lado na cabine.

– E Potter quase leva um balaço na cabeça! Essa foi por pouco, Potter! E Potter está acenando para alguém da arquibancada da Grifinória. Opa, será que temos uma garota sortuda hoje? Pelos meus olhos, consigo ver que é... Não acredito, Potter está dizendo alguma coisa para ela, muito veementemente... deve ser uma pergunta... Lendo os lábios lindos desse garoto, eu acho que ele está perguntando a ela... Sai comigo, Lily Evans? E a torcida vai ao delírio! Você vai sair com James Potter, Lily Evans? Vish, parece que foi uma resposta feia... algo a ver com lulas-gigantes. Mas Potter não desanima! Voltou a participar do jogo! Sem dar a menor chance ao apanhador da Corvinal que não nos interessa... Potter se inclina em sua vassoura, olha para os lados, para a frente, observa o pomo de ouro. Estica os braços... você andou fazendo flexões, Potter?

– Srta. Johnson!

– Foi só uma pergunta, professora! Não que ele vá parar de jogar para responder... Ah, ele levantou o polegar indicando que sim. Potter anda fazendo flexões, garotas! Mais alguém reparou que ele está gostosinho? Bom, voltando ao jogo... Uau! Fantástico! Potter está fazendo mais algumas gracinhas... Isso está animando a Grifinória e deixando a Corvinal muito irritada. Ainda bem que temos batedores excelentes que impedem a cabeça do Potter voar para longe. Capture logo esse pomo, Potter, estou ficando com sede e quero comer. Ah sim, ele vai fazer isso. O apanhador adversário tentou socá-lo. Beeeh. Potter desvia, sorri (já mencionei que adoro o sorriso dele?) e... É o pomo de ouro na mão dele? É o pomo de ouro na mão dele? Sim, é o maldito pomo de ouro na mão do lindo, maravilhoso, delicioso, gostoso, James Maldito Potter! A GRIFINÓRIA VENCE A TAÇA DE QUADRIBOL! EU DISSE QUE ELA IA VENCER, EU DISSE, SEUS OTÁRIOS! CHUPEM! EU DISSE! – Pelo visto McGonagall ralhou com ela, porque sua voz nos próximos segundos ficou bastante profissional. – Senhoras e senhores, anuncio o time de Quadribol da Grifinória o time vencedor da Taça de Quadribol de 1976 da escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, cujo diretor é Albus Dumbledore. Jogadores, por favor, ao apito de Madame Hooch, desmontem suas vassouras e recebam suas medalhas, juntamente com a taça vencedora. – Voltou a se empolgar antes que McGonagall tirasse o microfone mágico dela: – JAMES, TIRA A CAMISA!

Erguer a enorme taça de Quadribol sozinho era impossível, por isso nem mesmo tentei. Naquela manhã, nosso time inteiro a ergueu e não a soltamos até que estivéssemos com ela no centro da Sala Comunal da Grifinória. Foi uma vitória excelente e se eu tivesse que fazer um Patrono nesse momento, escolheria aquele dia como a minha lembrança mais feliz. Pelo menos até aquele momento.

– Potter! Potter! Potter! – exclamavam enquanto cinco caras e Roberta Davis me carregavam pela sala. Passei por Sirius e ele estava enroscado com uma garota. Sem parar de beijá-la, ergueu o braço no ar e tocamos as mãos. Não reconheci a garota, mas também não fiquei muito tempo para descobrir quem era.

Em segundos a comemoração ficou agitada, o Salão Comunal ficou pequeno demais para quase todo mundo da Grifinória. Fiquei o tempo todo procurando quem eu queria ver naquela comemoração, mas ela não estava fácil de achar.

Nada era fácil quando envolvia Lily Evans.

Recebendo tapinhas nos ombros, abraços apertados, apertos de mãos, elogios, comecei a andar por toda a multidão até que encontrasse o cabelo ruivo que eu estava procurando. Quando a vi conversando com Alice e Frank animadamente, com as vestes da torcida e o sorriso mais lindo que eu poderia esperar ver em seu rosto – o sorriso de animação, de felicidade, de orgulho. Por mim? Pela Grifinória?

Depressa, tentei alcançá-la, mas Sirius me agarrou pelos ombros.

– Você não vai acreditar...

– Que você tropeçou sem querer na língua de Marlene McKinnon? É, acho que não acredito.

– Não, não é isso, cara... mas eu vi Prudence Cooper entrando no nosso dormitório. Peter disse que ela pediu para ver você, ela está esperando você no dormitório...

– Sirius, agora não-

– Prongs! Tem. Uma. Garota. Gostosa. Esperando. Para. Você. Comer. Ela! Olha, tem cinco camisinhas dentro do meu malão se você achar necessidade de usar mais do que as duas que eu te dei... mas tente aguentar o máximo que puder com ela, garotas gostam de caras que aguentam.

Tentei me desviar do cabeção de Sirius, que tampava toda a minha visão de Evans. Sem ouvi-lo direito, só com o pensamento de que eu precisava chegar até ela, eu disse:

– Muito legal. Eu preciso falar com...

Ele apertou a mão no meu rosto.

– Não ouviu o que eu disse? SEXO, Prongs, você vai fazer SEXO hoje.

– Lily! – eu disse, de repente, quando a vi andando em direção ao buraco da Torre da Grifinória. Ela me ouviu e olhou para mim, parando naquele espaço escuro. Sem reparar no olhar estupefato de Sirius, eu andei depressa até ela.

– Oi, Potter.

– Por que vai sair da festa? Não está se divertindo?

– Estou, sim. Com todo mundo me perguntando a cada segundo se eu estou saindo com você. Tive que ouvir Helena Jones me avisando de todos os seus problemas, como se eu mesma já não soubesse. Mas achei atencioso da parte dela então não consegui cortá-la.

Abri um sorrisinho.

– Não fui nada discreto dessa vez, não é?

– Não, definitivamente.

– Bom, estou tentando te chamar para sair de todas as formas. Quem sabe em algum momento...

Não.

– Lily. Eu sei que quando a lula-gigante está na competição não tenho a menor chance, mas...

Ela deixou escapar um som na boca.

Era um riso.

Nem ela acreditou. Não foi sarcástico, não foi debochado, foi um riso que escapou de sua boca sem nenhum consentimento de sua parte. Mas eu vi e, nesse breve instante, senti que eu podia fazer o Patrono mais poderoso do mundo.

Ela cruzou os braços, após tirar a franja do rosto e olhar para mim, ainda com a sombra do riso que soltou agora a pouco, embora voltasse a ficar séria.

– Sinceramente, não sei por que achariam ela tão ruim assim – continuei. – A lula-gigante é realmente uma difícil disputa. Quem não adora uns tentáculos esmagadores? Não conte ao Sirius – eu disse, aos cochichos. – Mas eu acho que ela é mais pegadora do que ele.

Ela nunca tentaria admitir que achou aquilo engraçado.

– Bom, se ela é tão mágica você podia sair com ela, Potter – sugeriu tranquilamente.

Disse isso enquanto saía da Torre e eu a segui pelo corredor vazio do castelo. Ela estranhou isso e perguntou quando fiquei ao seu lado:

– Negando atenção popular na festa? Essa é nova.

– Não tem graça sem você lá.

– Que legal ouvir isso. Não tem graça enroscar a língua em uma garota sem que Lily Evans veja isso. Sai daqui, já disse que nunca vou sair com você, ok?

– Só posso perguntar uma coisa... se me responder, nunca mais peço para você sair comigo.

– Ótimo, respondo qualquer coisa para você parar de me encher.

– Nas cartas que trocamos nas férias passadas...

– Você chama aquilo de cartas?

– ... você disse que conhecia os Beatles. E eu te perguntei que música você mais gostava deles, então...

Ela entendeu. Fez um suspiro – na verdade, pareceu que estava bufando –, mas por fim amenizou a expressão para finalmente responder:

Here Comes The Sun. Mas pode ser Something também.

– Hum, você é mais para o lado do George Harrison, interessante – eu comentei animado. – Quer saber a minha preferida?

– Posso adivinhar. With A Little Help From My Friends?

– With a... Então você me conhece – eu disse fingindo estar bastante emocionado por isso.

– Pode voltar para a sua festa agora, Potter. Vão perguntar onde teria ido, já que é o herói e-

– Você já foi a um show deles?

– Não – ela respondeu. – Eles se separaram alguns anos antes de eu entrar em Hogwarts.

Parei de andar bruscamente ao ouvir aquilo. Lily continuou, mas achou estranho o modo como eu parei, então ela me olhou por trás dos ombros.

– Eles se... separaram? – perguntei. – Não existem mais Beatles?

– Er – ela franziu a testa, confusa, virando-se para mim. – Você não sabia?

– Não tem mais motivos para festejar então – sentei no banco próximo a parede, triste.

– Que dramático, Potter.

– É sério.

– Olha, não acabou realmente. A banda pode ter se separado, mas... as músicas sempre vão existir. Meu Deus, eu estraguei o seu dia – ela notou preocupada e se sentou ao meu lado. – Olha, realmente achei que soubesse...

– Não, tudo bem, eu sobrevivo...

– Não é o fim do mundo, James. Além do mais, existem outras bandas... inclusive a do mundo bruxo. Você não gosta das Esquisitonas e...? Você é inacreditável. Está mesmo mal com isso.

– É só que... você não entenderia. – Olhei para ela ali ao meu lado e depois cutuquei meu cabelo. – É bem idiota.

– Que novidade isso tem de alguma coisa vindo de você? – perguntou erguendo as sobrancelhas. – Mas, hum, eu não vou caçoar se me disser.

– É que eu costumo pensar que nós somos os Beatles.

– Nós?

– Sirius, eu, Remus e Peter.

Ela tampou a boca quando começou a rir.

– Você disse que não ia caçoar!

Era impossível ficar zangado com ela, mesmo que eu tentasse.

– Não estou! Eu preciso ir, acho que devo ter tomado acidentalmente uma poção do riso... – disse, levantando-se depressa, olhando-me muito culpada com um sorriso aflito no rosto. – Olha, não é que estou caçoando, é que é fofo.

Ela tampou a boca novamente ao se ouvir dizendo aquilo.

– Você disse que é fofo?

Negou com a cabeça.

– Você me acha fofo? – eu abri um sorriso enorme.

– Tchau, Potter. Não disse nada.

E saiu depressa.

Inconformado e sentindo uma leveza estranhamente boa, como se algum peso tivesse saído do meu corpo, levantei-me e, sorrindo, voltei para a festa da Grifinória.

Senti mais tapinhas nas costas, mas não prestei atenção em muita gente. Só via o sofá a minha frente e uma imensa vontade de me jogar nele...

– Que sorriso idiota é esse? – perguntou Remus quando passei por ele e o abracei.

– Lily Evans não me odeia, cara.

– Uisque de fogo, Potter? – um colega se aproximou oferecendo a bebida.

– Não. Não quero esquecer nada hoje. Ela disse que sou fofo, Moony.

– Que bom cara – ele deu um tapinha em minhas costas, abafando a risada que queria soltar.

– Padfoot! – Ele estava passando por perto então o abracei também. – Sirius, cara, você é um irmão para mim, sabia?

– Já bebeu, Prongs?

– Peter, meu camarada – eu disse para Peter, que estava observando Mary Macdonalds cheio de expectativas, tentando criar coragem e se manter calmo. – Mary! Venha um instante. Um pouquinho só.

Segurei Peter pelos ombros enquanto Mary se aproximava de nós.

– Ótimo jogo, James!

– Obrigado, Mary, mas queria te apresentar ao meu grande amigo Peter Pettigrew.

– Eu sei quem é ele.

– Não acho que saiba. Esse garoto é determinado, Mary. Um pouco inseguro e afobado quando se trata de, bem, de tudo, mas... é um grande amigo. Eu não gostaria que você o desprezasse... ele tem seus pontos fortes uma vez que o conhece. Converse um pouco com ele. Não me decepcione, Peter.

Como costume em toda festa de comemoração, eu fiquei em pé no sofá para o grito de torcida. Mas a única coisa que eu tinha na cabeça era gritar isso:

– Lily Evans não me odeia!

Ouvi o apoio dos caras. As meninas cruzaram o braço.

E mesmo que não fosse fácil consegui-la... eu não tinha nenhuma intenção de desistir.

Notas finais
Tivemos duas partes que foram cenas dos livros. A lembrança do Snape em a Ordem da Fênix, e a outra lembrança dele, tentando se desculpar a Lily, em Relíquias da Morte. Espero que tenham gostado, tentei encaixar da melhor forma que pude para essa fanfic. (E eu sempre fiquei curiosa pra saber se o James acabou mesmo "tirando as cuecas do Ranhoso", nunca achei que Moony teria deixado o/) Até o próximo capítulo! :)