Prongs
29 Harry e sua primeira vassoura
Harry lia o Profeta Diário comigo todo o domingo. Ou melhor dizendo, ele o amassava. Sentado em meu colo enquanto assistíamos nossa linda Lily fazer o chá dos Potter na pia da cozinha, em seu momento trouxa, Harry observava as figuras se movendo e dava socos no papel, divertindo-se.
– Não mostre isso a ele, amor – disse Lily para mim.
– Qual o problema?
– Nunca fui muito fã do Profeta Diário. Vive mentindo. Informações ridículas e apelativas. Harry deve ter uma boa influência.
– Bem, aqui diz que finalmente a nova Ministra da Magia vai permitir o uso de Maldição Imperdoável contra os Comensais da Morte.
– Moody deve estar se divertindo.
– Reconheço essa mulher de algum lugar.
– A Ministra? Ela quem estava entre as funcionárias do Ministério quando enfrentamos Voldemort. Ela foi bem corajosa.
– Você salvou a vida dela – relembrei.
– Não foi exatamente salvar.
– Para de ser modesta – eu sorri. – Você salvou a vida de todos. Sabia disso, Harry? Sua mãe é uma heroína.
– Ma – ele balbuciou, sem tirar os olhos do jornal. – Mama.
– O que você disse? – eu perguntei quando Lily abriu o tipo de sorriso que eu só via em seu rosto no momento que Harry a chamava de mãe. – Não, você quis dizer papai. Papai.
– Ma – ele repetiu.
– Pa.
– Ma.
Fechei a cara.
– Eu sou um péssimo pai.
– Não é – ela garantiu. – Harry só me ama mais.
– Engraçadinha.
Ele se moveu inquieto em meu colo indicando que queria descer para brincar com a gata, engatinhando pelo chão da cozinha. Ele já estava tão rápido que a gata fugia assustada toda vez que ele se aproximava para agarrar o rabinho dela.
Ao longo das semanas Sirius não nos deu nenhuma notícia preocupante. Pudemos aproveitar mais tempo com as novidades do crescimento de Harry a cada semana, a cada momento. Embora ainda fosse difícil deixar de pensar que estávamos nos escondendo, havia momentos do dia que esquecíamos. Por exemplo, quando Harry aprendia novas sílabas para balbuciar o tempo inteiro ou quando ele me chamava no berço fazendo caretas e sorrindo, para que eu contasse uma história de Hogwarts.
Os olhos dele estavam ficando cada vez mais verdes, mais parecidos com Lily. Eram olhos grandões em nossa direção, expressivos e que nos fazia sorrir involuntariamente.
Ele agora mal queria saber de colo, queria é tentar engatinhar em todos os cantos da casa. Uma vez tiramos nossa atenção dele por três minutinhos para ouvir uma mensagem da Ordem, e no próximo segundo o encontramos subindo o último degrau da escada.
Ele era bem ousado quando se tratava de correr riscos. Seu maior risco era tentar ficar em pé e andar, embora ele desmoronasse sempre. Não desistia. Se machucava, percebeu que a dor ia embora e voltava a tentar fazer coisas novas.
Harry nunca ficava entediado naquela casa. Qualquer coisinha ao seu redor lhe era interessante, uma tentativa de conhecer o mundo. Não posso dizer que eu tinha a mesma disposição. Tentava o menos possível demonstrar a Lily a minha inquietação por estar parado, em casa, enquanto uma guerra ainda continuava acontecendo fora daquela porta.
Mas eu sabia a importância de protegermos o Harry. Eu não podia correr riscos desnecessários. Eu tinha essa consciência.
– Agora não, Harry – eu murmurei deitado no sofá. Eu estava de muito mau humor naquele dia. Harry começou a jogar os brinquedos, apontava e exclamava. Queria atenção, queria carinho, e eu lhe dava, mas estava difícil conseguir ficar parado.
Era bom quando tínhamos reunião da Ordem da Fênix. Tínhamos segurança o suficiente para revermos os rostos conhecidos. Estavam desgastados com a guerra, mas era reconfortante ver que ainda tínhamos todos ali ao nosso redor. Lily mostrara a Dorcas e Marlene todas as fotos que tinha tirado do Harry – ela estivera montando um álbum de família. As duas ficavam encantadas, loucas para paparicarem nosso filho. Alice compartilhou com a gente fotos de Neville, que sempre estava nos cuidados da avó quando Alice e Frank tinham urgência com a Ordem. Quando saíamos, só podíamos contar com Batilda e ela não nos decepcionava. Parecia gostar tanto do Harry como se fosse seu próprio neto e cuidava dele na nossa ausência com muita dedicação. Elogiava que Harry era um bom garoto, não lhe dava nenhum trabalho. Foi difícil no começo para Lily ficar algumas horas longe de Harry, mas era necessário; precisávamos continuar cientes do que estava acontecendo para sabermos do que protegíamos Harry.
Foi incrível rever nossos amigos naquele começo de julho e talvez merecêssemos isso. Tiramos mais uma daquelas fotos dignas de orgulho, todos, registrando mais um ano juntos. Lutando juntos. No entanto o silêncio estava constante, não tinham mais aquelas conversas calorosas. A guerra tinha conseguido tirar até mesmo o sorriso do animado Edgar Bones. Moody estava rabugento, mandando todo mundo ter vigilância e tirando a varinha do bolso a cada segundo que sentia cheiro de ameaça. Remus, apesar de não estar na época da lua cheia, tinha a expressão mais magra e mais derrotada. Não conseguia arrumar emprego de jeito algum e naquele momento já havia desistido de tal coisa. Sirius não estava encarando-o. Por alguma razão, os dois se tratavam com certa frieza. Sirius dirigia-lhe poucas palavras. Respostas curtas. Remus até tentou entender o motivo, mas os dois não se falavam como antes.
E isso afetou Peter. O fato de que não éramos mais unidos como em Hogwarts. Na mesma reunião, logo no final dela, eu o vi com a expressão aflita, as olheiras profundas como se não dormisse há dias. Estava isolado do restante do pessoal da Ordem, ninguém realmente o notava ali, então me senti na obrigação de me aproximar.
– Ei, Sirius e Remus só estão tensos – eu expliquei. – Você ta legal?
– Sim – ele disse calado. – Mais ou menos. Queria voltar para Hogwarts.
Eu sorri.
– Eu entendo, Worms. Mas agora temos uma responsabilidade maior, certo? E você está fazendo um bom trabalho.
– Só você acha.
– Bem, talvez você precise demonstrar melhor isso então.
Ele não continuou a conversar comigo. Acho que ele estava querendo chorar, por causa da expressão como me encarou. Fez um aceno breve com a cabeça e abaixou o rosto para ir embora. Ele sempre se sentiu inútil por lá, tendo a tarefa de uma coruja quando Dumbledore não podia enviar mensagens através de lareiras, patronos ou mesmo cartas. Eu esperava poder ajudá-lo... mas ultimamente estive me sentindo impotente com todo mundo.
Lily me conhecia na palma da mão. Percebeu que eu estava bem quieto e estranho, mesmo na cama, meio distraído, preocupado.
– Olha pra mim – ela pediu docemente, em cima do meu colo, cavalgando-me com seus movimentos contra o meu.
Nunca me deixava ficar distraído. Beijei seu seio, enquanto ela puxava meu cabelo com os dedos. Acho que era naquele momento que eu lembrava o maior motivo de tentar ficar em segurança. Queria ter o corpo dela no meu para sempre, dar prazer a ela para sempre. Finalizei primeiro, gozando forte quando Lily se afastou para deitar ao meu lado e me beijar no pescoço. Ela acariciou meu peito e me observou por um tempinho. Beijei sua boca sem fazer muita pressão nos lábios e envolvi um braço nela.
– Eu te amo – ela disse. – Você sabe disso.
– Sei – sorri. – Acho que você não teria feito um striptease tão sensual usando a minha camisa de Quadribol, se não me amasse.
– Aquilo foi improvisação. Percebi que andava meio entediado.
– Não é com você – eu me apressei a dizer. – Nunca estou entediado para você. Nem com o Harry.
Passei a mão no rosto.
– Só não quero ficar aqui me escondendo – eu confessei. – Quero acabar com essa sensação de que estamos sendo vigiados... eu quero levar o Harry para um jogo de Quadribol, eu quero passear com ele na rua.
– Eu entendo você. E conhecendo o seu jeito hiperativo, imagino como está sendo difícil.
– Não é difícil – eu repliquei. – Não é difícil ficar aqui só com vocês dois. Eu vou ficar bem – sorri vendo sua expressão. – Pelo menos ainda dou umas excursões com a Capa da Invisibilidade para comprar comida e brinquedos e roupas.
Mas minhas excursões ficaram fora de caminho quando Dumbledore pediu-me emprestado a Capa de Invisibilidade. Não me contou detalhes do motivo; era uma tarefa pela Ordem da Fênix. Aprendemos que ela vinha em primeiro lugar antes de qualquer outro tipo de necessidade. Além disso, ele estava cada vez mais preocupado com as movimentações dos comensais, ofereceu-se para ajudar trazendo coisas que o Harry precisava. Isso deixou Lily aflita, porque até mesmo para Dumbledore a Capa de Invisibilidade não me privaria de correr algum risco.
Fiquei um pouco irritado com ele por estar usando minha Capa, mas era um daqueles sentimentos infantis quando, por exemplo, Lily tirava um brinquedo perigoso da mão de Harry para que ele não o engolisse. Harry ficava emburrado. Mas ele não se abalava por muito tempo; no próximo minuto, já estava interessado em outro brinquedo.
Em uma noite de sábado, enquanto brincava com Harry para fazê-lo pegar fumaçinhas que saíam da ponta da varinha, Sirius aparatou diretamente no quarto.
Harry levou um susto enorme por ter visto Sirius pipocar no canto do quarto. Mas viu que era um rosto conhecido e engatinhou até o padrinho.
– Algum problema, Padfoot?
– Lily está aqui?
– Está tomando banho.
– Não vou conseguir contar a ela.
– Encontraram o esconderijo na Irlanda?
– Não – ele disse diretamente. Parecia estar tentando manter a postura, talvez para o Harry, mas eu notei, por conhecê-lo há tanto tempo, que estava bêbado. – Dessa vez não tem nada a ver com vocês. Comensais agiram essa noite e eu tenho certeza que alguém contou a Você-Sabe-Quem sobre a Ordem da Fênix! Sobre os membros dela. Cara, eu não sei, eu não sei, acho que Moony está nos traindo... ele não vem mais falar comigo, não aparece mais na sua casa, não aparece mais para dar nenhum aviso...
– Comensais agiram essa noite? – foi só o que eu ouvi. Meu coração falhou uma batida.
Parecia que Sirius estava em um pesadelo porque disse como se na manhã seguinte fosse acordar e tudo ia ficar bem:
– Os McKinnon. Todos. Até Marlene.
Só que não ia.
– Não brinca com isso, Sirius...
– Eles invadiram a casa deles essa noite. Não acreditei quando Peter me contou, então eu mesmo fui ver. Vi com meus próprios olhos. Todos. Todos, James.
– Peter te contou?
– Sim. Ele apareceu em casa, querendo ver você. Fui até a casa da Marlene só para mostrar ao Peter que não se pode acreditar em tudo o que se escuta pela frente. Mas eu vi, cara, eu vi.
A porta do meu quarto se abriu no outro lado do corredor. Sirius olhou alarmado.
– Não posso contar a Lily, não vou conseguir.
E desaparatou de novo. Harry apoiou somente os pés para tentar pegar a sombra que Sirius deixou ao aparatar, e caiu com o bumbum no chão. Ele sorria alegremente, adorava ver coisas aparecer e reaparecer.
Lily entrou no quarto, linda e cheirosa, sorrindo como sempre quando via Harry limpinho também e tentando andar. Ela se agachou a altura dele e Harry foi engatinhando até ela, rapidinho.
– Papai trocou a sua frauda?
– Si... – ele contou apontando para o canto do quarto. – Si... puf!
– Puf? – ela franziu a testa, tentando traduzir. Pela expressão corporal de Harry, ela entendeu que Sirius tinha aparatado aqui.
E então aqueles olhos verdes idênticos ao de Harry se ergueram para mim.
– Onde vamos precisar nos esconder dessa vez?
– Lily – eu disse baixinho. Sentamos no chão, para ajudar Harry a andar de um lado para o outro, de mim para Lily, e de Lily para mim. – Ele trouxe uma notícia... Comensais agiram.
Como dizer? Como dar a notícia de que uma de suas melhores amigas em Hogwarts foi assassinada com sua família?
Eu me sentei ao seu lado. Preparei-me para dar a pior notícia de todas. Mas não consegui... não consegui... Não queria fazer Lily chorar, não naquela noite, quando Harry deu seus primeiros passinhos e ela estava tão feliz por ele.
– Comensais? – e não tirava os olhos de Harry, encorajando-o.
– Sim. Lily, foram até a casa dos McKinnon essa noite.
– Marlene? – ela vacilou o sorriso, e olhou para mim ao seu lado. Harry chegou até ela, feliz e orgulhoso pelo feito de ter andado em seu colo. Debruçou-se sobre Lily para se apoiar, chamando toda a atenção possível para Lily elogiá-lo. – Você não está falando sério.
– Mae – murmurou Harry. – Que mama...
– Sinto muito, amor – eu disse.
Lily pegou Harry no colo e o levou até a cozinha lá embaixo, para preparar sua comidinha.
Ela ainda não estava chorando.
Observei-a colocar nosso filho na cadeirinha. Começou a colocar as colheradas na boca dele enquanto Harry lambuzava a mão enfiando os dedinhos no prato.
– Abre a boca, abre a boca – ela pediu abrindo a própria boca para Harry imitá-la. Ele engoliu com gosto. – Hum! Não está gostoso?
Cocei a nuca. Queria abraçá-la, o pesar chegaria em algum momento, mas agora ela só precisava dar atenção ao Harry. Ela derrubou o prato dele sem querer em seu colo. Estava quente então Harry começou a berrar. Lily, desesperada, começou a chorar com ele, pedindo desculpas, dizendo que mamãe era desastrada e que não quis machucá-lo. Imediatamente pegou a varinha para limpá-lo. A sensação foi angustiante. Nos próximos minutos, ela não conseguiu continuar dando comida a ele porque tampou a boca com a mão para abafar os choros. Harry ficou observando Lily com a expressão curiosa. Por que você está chorando, mamãe?
Eu me aproximei deles, para continuar a dar comida ao Harry. Ela não aguentou e correu para cima, chorar o tempo que fosse necessário.
– Mamãe só está triste – eu contei ao Harry que seguiu Lily com o olhar o tempo inteiro. Ele abriu a boca para receber a próxima colherada. – Ela gostava muito da amiga dela. Você ainda não vai entender.
Acho que me enganei com isso. Ele entendia.
Mesmo do corredor eu conseguia ouvir os choros de Lily, abafados pelo travesseiro. Ela estava deitada em nossa cama. Eu entrei no quarto segurando Harry, sabendo que nosso filho sempre a deixaria mais tranquila.
– Até tentei fazê-lo dormir – eu contei quando Lily enxugou os olhos depressa e se sentou na cama. – Ficou chamando você.
– Vem cá, amor. – Dessa vez ela não se referia a mim. Depositei Harry sobre nossa cama. Ela o abraçou e ele encostou seu rostinho em seu ombro. Depois, sorrindo, observei os dois pousarem a testa uma na outra. – Mamãe te ama. Papai te ama.
Ela fechou os olhos, então as lágrimas voltaram a cair. Balbuciando palavras desconexas, Harry ergueu os bracinhos e acariciou o rosto de Lily. Ou melhor dizendo, o nariz dela e a boca. Ficou movendo a mão contra a boca dela. Ela riu com o gesto e mordeu de brincadeira os seus dedos. Harry riu também.
– E o pai não ganha um abraço também? – ela perguntou.
Harry basicamente pulou em cima de mim. Eu caí de costas no colchão, porque era essa a intenção dele, de me derrubar, então gargalhava toda vez que eu caía. Brincar com um bebê como ele era fazer as mesmas coisas repetidamente e Harry não cansava, principalmente quando era algo divertido.
Eu o segurei no alto, apoiando meus pés com meias em sua barriga para ele fingir que estava voando.
– Assim ele nunca vai dormir – Lily reparou, impossível de não sorrir quando me via brincando com Harry, que não parava de fazer sons com a boca, acordado e disposto.
– Quem precisa de regras para cuidar de uma criança?
Lily pegou o livro dos Contos de Beedle, o Bardo. Acendeu a varinha em lumus. Isso despertou a atenção de Harry. Os olhos dos dois brilhavam com a claridade, idênticos, inconfundíveis. Harry observou a luz com a expressão hipnotizada e levou os dedos até a ponta da varinha de Lily para sentir a magia.
– Qual nós vamos ler hoje para você, Harry?
Ela entregou o livro. Harry folheou, sem jeito, amassando-o ao tentar virar em alguma página.
– O bruxo e o caldeirão saltitante?
Ele negou com a cabeça.
– O coração peludo do mago, então – eu disse. Pigarreei antes de fazer a dramática leitura. – Era uma vez um jovem mago rico, bonito e talentoso...
– Que não é o seu pai, porque esse mago é ruim e mal – acrescentou Lily bem seriamente para o Harry.
Ficamos lendo para o Harry até que ele se sentisse entediado e cansado para despencar de sono. Ele dormiu no ombro de Lily. Eu já estava bocejando de sono também quando ela se levantou para colocá-lo no berço.
Ela voltou para o quarto engolindo um longo suspiro. Tirou as roupas e vestiu sua camisola curta que eu havia lhe dado como presente de casados. Eu adorava ver aquelas coxas lisas e lindas e os ombros cheios de sardinhas. Mas eu sabia que ela não estava para sexo naquela noite. Nem insinuaria querer fazer.
Lily desarrumou um pouco os cabelos e tirou o colar de seu pai e de sua mãe como sempre fazia antes de se deitar. Sem trocarmos muitas palavras, ela se enfiou embaixo da coberta, deu-me um rápido beijo na boca, de boa noite, para se virar do outro lado.
Chorou a noite inteira. Encostei-me a ela, por trás, para enviar-lhe conforto. Quando os choros cessaram, eu sabia que agora ela estava apenas silenciosamente pesarosa. Finalmente, ela acabou confessando:
– Não me lembro qual foi a última coisa que eu disse a Lene.
– Garanto que foi algo que a fez sorrir – sussurrei.
– Acho que sim. Estávamos conversando sobre o Harry.
Nos próximos dias Lily passou a se dedicar ao álbum de fotografia. Era um modo de se distrair. Harry a ajudava espalhando as fotografias pelo chão da sala. Harry jogava a primeira foto que via pela frente e Lily a colava com um feitiço no álbum. Ela e Harry conversavam o tempo todo, mesmo que as palavras de Harry fossem totalmente aleatórias. Mas nós dois, de alguma forma, compreendíamos tudo o que ele dizia.
– O que você acha dessa, querido?
– Papai – ele disse apontando para a minha irresistível e inconfundível beleza daquela foto.
– Sim. Esse é o papai, o tio Remus, o padrinho Sirius e o Peter. Mais conhecido como os malfeitores de Hogwarts, os Marotos.
– Ei, você vai contar a ele sobre os Marotos? – eu me aproximei da sala.
– Não – ela sorriu. – Posso deixar o gostinho para você.
– Que bom, nada mais justo.
Enquanto montávamos o álbum juntos, eu contava para Harry sobre os Marotos.
Mesmo depois da notícia da morte dos McKinnon, Lily reconhecia que Marlene não gostaria que ela ficasse chorando toda hora. O aniversário de um aninho do Harry a deixou muito animada, mesmo sabendo que Harry mal tinha ideia de que ele estava fazendo idade. Ele ficou dormindo por um tempão no berço, demorando para acordar. Lily ficava andando de um lado para o outro.
– E se eu acordá-lo? – ela disse ansiosa.
– Isso vai ser uma maldade tremenda, querida – eu abri um sorriso. – Calma, ele não vai dormir o dia inteiro.
– Eu vou ver se ele acordou, pelo menos.
– Você verificou há cinco minutos – lembrei.
Mas para a alegria de Lily, nosso filho acordou alguns minutos depois. Estava deitado observando os passarinhos flutuarem acima do berço. Ele resmungava algumas coisinhas, mas não estava berrando.
– Feliz aniversário, Harry!
Ele viu Lily e depois me viu do outro lado. Abriu o maior bocejo de todos. Ainda estava com o rosto todo amassado. Lily entregou a ele o seu hipogrifo de pelúcia preferido, babado e mordido. Ele sentou no berço e ergueu os braços para apoiar as mãozinhas na grade. E se levantou.
– Você está tão grande – ela sorriu. – Sabia que hoje é seu aniversário? Você tem um ano agora, meu amor, um aninho.
Ela mostrou com seu dedo.
– Um aninho, Harry.
Harry abraçou o hipogrifo e caiu no berço de novo. Nós dois rimos.
– Ele ainda está morrendo de sono – comentou Lily. – Não devíamos tirá-lo do berço agora.
– Concordo. Vamos esperar para entregar a ele nosso presente depois.
Mas nós estávamos ansiosos. Não sei o que deu na gente naquele dia, mas era uma sensação que não tivemos nem mesmo quando Harry nasceu. Acho que era pelo fato de estarmos juntos depois de um ano, o fato de que ele estava crescendo. O fato de que, mesmo ali em casa, ele era tão sorridente e feliz com os pais que tinha. Fizemos o nosso melhor por ele e fomos recompensados com o seu aniversário.
– E o momento mais esperado chegou – eu disse ao entrar na sala carregando uma caixa retangular. – Foi sua mamãe quem fez o seu presente – contei.
Lily segurou as mãozinhas dele para elas baterem palmas.
– Parabéns, Harry – ela disse no ouvido dele e o beijou no rosto bem gostoso. Eu o beijei na outra bochecha, e Harry só quis saber de abrir o embrulho da caixa nos próximos três minutos. Ele não sabia o que fazer com ela.
Lily havia achado um pedaço de madeira perto do jardim. Como não era muito sensato sairmos por aí com Comensais a solta nos procurando... e a minha Capa da Invisibilidade estava ainda com Dumbledore... ela mesma teve a ideia de confeccionar o modelo de uma varinha mágica ao invés de comprá-la em uma loja de brinquedo. Ficou horas desenvolvendo a estrutura da madeira até que realmente parecesse com uma varinha do sr. Olivaras. Lily, pelo visto, era boa em tudo.
– Dizem que ninguém esquece a primeira varinha – ela sussurrou. Harry segurou a varinha e acenou em minha direção.
– Ele tentou me azarar? – eu ergui uma sobrancelha. – Ele tentou me azarar! É mesmo o meu filho.
– E tinha alguma dúvida disso?
Harry adorou sua primeira varinha. Não tirou da mão em nenhum instante, pelo menos até abrir o presente de Sirius, que foi o último. Ele basicamente largou a varinha no chão quando viu a vassourinha de corrida embaixo do embrulho, com um bilhetinho escrito por Sirius.
Para o próximo Potter!
– E foi assim que Padfoot superou a gente – riu Lily, nada abalada por Harry ter deixado os outros presentes de lado naquele instante. Eu o ajudei a se levantar e sentar na vassoura. Segurei suas costas para ele se equilibrar.
Com orgulho, eu observei meu filho sentado na vassoura. Segurou firmemente as duas mãos no cabo dela. A vassoura realmente saiu do chão uns trinta centímetro.
– Primeira regra para aprender a voar em uma vassoura – eu citei.
E Lily lembrou:
– Confiar em James Potter.
– Acho que Harry confia em mim, não confia?
– Absolutamente.
– Preparado, Harry?
Alegremente, eu o ajudei a flutuar. Harry nem olhou para baixo. Não estava com medo nenhum. Não largou a vassoura o dia inteiro. Ficou pedindo para que eu o empurrasse na vassoura a cada instante. Não se cansou nenhuma vez, e eu também não me cansei de ajudá-lo nenhuma vez. Claro que ele era desajeitado e se empolgava demais a ponto de soltar as mãos da vassoura. A primeira queda de Harry aconteceu uns dez minutos antes de Batilda chegar para dividir um bolo e suas inúmeras histórias – naquele dia ela estava contando sobre a amizade de Dumbledore com o histórico bruxo Grindelwald.
– E cá entre nós, diziam que não era só amizade, se é que vocês me entendem.
Lily estava tomando o chá nesse momento, por isso engasgou. Eu estava passando um líquido de poção no roxo que se formou na testa do Harry depois que ele caiu da vassoura, quando abafei a risada. Batilda era uma figura.
– Muitas fofocas, obviamente – continuou Batilda. – Mas não duvido. Ele nunca se casou, é claro. Por que vocês acham que ele nunca se casou? Eu não duvido dessas fofocas. Nada contra, obviamente.
– Mais chá, sra. Bagshot? – tossiu Lily.
– Muito obrigada, Lily – ela disse abanando a mão. – Apenas queria fazer uma visita para esse garotinho tão lindinho. – Olhou para Harry ao dizer com a voz de bebê. Apertou a bochecha dele. – Oh quem me dera ter um lindo filho como esse... E tem os olhos da mãe. São realmente idênticos aos seus, Lily. Mas o cabelinho é do pai. Está todo despenteado! Sem duvidas, é o bebê mais lindo que eu já conheci. Posso segurá-lo, se me permitem?
Mas Harry não queria ficar tanto tempo no colo, especialmente agora que ele tinha uma vassoura. Eu sempre dizia que ele aprendeu a voar antes de aprender a andar.
Em poucos dias, já estava se equilibrando nela, gargalhando enquanto flutuava pela casa, agora sem o apoio das minhas mãos. Não podíamos tirar os olhos dele, obviamente. Eu corria atrás o tempo todo porque parecia que Harry estava querendo fugir da gente, especialmente da hora do banho.
– Pegue ele, James! – exclamava Lily. – Não! Harry! Aí não!
– Não irá fugir de nós!
A gata miou desesperada quando Harry foi de encontro a ela, quase matando a coitadinha. Assustada, seus olhos captavam todos os movimentos da vassoura.
– Ele vai subir as escadas aí, amor! – eu avisei. Lily estava no segundo andar. Harry se surpreendeu com a presença dela e quase se desequilibrou de novo, mas Lily foi rápida o suficiente para segurá-lo a tempo de tirá-lo da vassoura.
Ele começou a fazer birra, mas Lily estava rindo quando o levamos para a banheira lhe dar um delicioso e cheiroso banho. Estava calor e o esforço dele de ficar voando o fazia suar.
– Conseguimos? – eu nem acreditei quando vi Lily tirando as roupinhas de Harry, que se esperneava para não tomar banho.
– Ssora! Sora! Sora! Queo voar!
Voar foi a primeira palavra, além de mamãe e papai, que ele aprendeu a dizer constantemente.
– Voar... mamãe...
– Banho – ela disse. – Voar não pode agora. Temos que dar um banho em você, querido. Prontinho, deixa a mamãe tirar... isso... Você adora água, não adora?
– Ele vai ser um ótimo jogador de Quadribol – eu comentei, orgulhoso. Aqueles momentos em que eu o perseguia na vassoura foram os momentos mais felizes da minha vida.
– Um jogador de Quadribol muito fedido, eca – Lily entortou o nariz para o Harry. Harry entortou o nariz, só para imitá-la. Acabou que ele sorria quando Lily sorria para ele, e não chorou mais. Harry era uma boa criança. Alguns nem acreditariam, mas ele não dava tanto trabalho em momentos como esse. Não ficava o tempo todo chorando a toa. Ele era esperto. Um garotinho forte como a mãe. Acalmava com a água ao seu redor, brincando com a varinha que ganhou de nós, e tudo o que ele precisava estava ali no banheiro. Os brinquedos, sua mãe lhe dando carinho e cuidando dele, e eu fazendo a água circular ao nosso redor com magia. Harry não era exigente, e eu o amava por isso. E por mais um bilhão de coisas que eu não sabia explicar.
Ele era muito amoroso. Aprendeu comigo, que sempre surpreendia Lily com um beijo no rosto quando ela estava menos esperando. Quando Lily o ajudou a colocar sua roupa depois do banho, muito concentrada, ele estava apoiado nela e, do nada, assim, do nada mesmo, ele deu um beijo bem no rosto dela. Foi só uma tentativa de encostar os lábios na bochecha dela quase pertinho da sua boca.
Ela ficou amavelmente surpresa com a inocência que existiu nesse gesto.
– Você é igualzinho o seu pai – ela sorriu para o Harry.
– Não é culpa dele – eu me espreguicei na cama e observei os dois. – Você é irresistível de beijar.
Eu me aproximei para beijá-la, mas Harry deu um jeito de se enfiar ali no meio. Eu gargalhei com isso.
– Ele tem ciúmes de você, querida. De novo, não posso culpá-lo.
– Os dois podem me beijar – ela permitiu, sorrindo. – Meus homens preferidos.
Beijou a bochecha de Harry e depois se inclinou para a minha boca.
– Amo vocês. Agora eu preciso tomar banho. Fica de olho nele.
– Sempre – garanti.
Mas eu era um pai divertido. Harry não ia ficar parado. Enquanto Lily tomava banho, nós brincamos mais um pouco na vassoura. Dessa vez, ele quebrou aquele vaso horroroso da Petunia. Nem deu para concertar com feitiço.
Depressa apenas joguei os cacos no lixo. Justamente no momento que Lily desceu para a sala, eu fingi que estava lendo um livrinho para ele. Harry ajudou a disfarçar, quietinho bebendo o seu leite no sofá. Era mesmo meu filho. Um ano, e já era um Maroto.
– Tem algo estranho – ela notou. Olhou ao redor para os ornamentos da casa. Estavam todos perfeitamente alinhados. – Cadê o vaso da minha irmã? Costumava ficar aqui em cima.
– Então... pode ser que o Harry tenha... talvez, só talvez... Não fica brava com ele, foi totalmente minha culpa.
– Harry James Potter. Eu sabia que tinha o melhor filho do mundo. Não via a hora de me livrar daquela coisa horrorosa.
Soltei um suspiro aliviado.
Não tínhamos visita há algum tempo, por isso nos surpreendemos que Peter tivesse aparecido alguns dias depois do aniversário de Harry. Contou que Sirius havia avisado sobre estarmos em Godric’s Hollows. Ele estava bem triste, pior do que eu o tinha visto na última reunião da Ordem. Lily achou que era por causa da Marlene.
– Quer comer alguma coisa, Wormy? – perguntou Lily, preocupada. Talvez porque Wormtail tivesse emagrecido nesses tempos, e de um jeito que não parecia saudável.
– Estou sem fome – ele disse, observando Harry por um tempo no meu colo. – Como ele está?
– Harry? Ótimo – sorri. – Ei, fala oi pro Worms.
Ele acenou a varinha.
– Não larga a varinha de jeito nenhum, não é, filho? – eu disse, orgulhoso.
Peter tentou um sorriso.
– Eu preciso ir – ele disse, levantando-se. – Obrigado pelo chá, Lily.
– Mas já vai? Por que a pressa?
– Eu apenas queria ter certeza de que estão bem. Depois do que ocorreu aos McKinnon...
– Sim – ela disse silenciosamente. – Bom... pode nos visitar quando quiser. James anda meio entediado.
– Não é verdade – eu disse. – Mas pode visitar quando quiser, Peter. Se precisar de alguma coisa...
– Certo – ele apenas disse.
Não falou mais nada, ansioso. Fez um tímido aceno para Harry, que estava ocupado demais em morder a madeira da varinha do que falar tchau para Peter. Ele definitivamente gostava mais do Sirius. Remus não tem passado para dar muita notícia, o que andava me deixando preocupado. Sirius estava desconfiando dele, mas eu achava isso impossível.
Lily aproveitou para enviar uma carta a Sirius, contando sobre as últimas novidades e de como Harry tinha adorado a vassoura. Até enviou uma foto.
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