Promise
1 Está tudo bem
Notas iniciais
"Quando você se vê voando nos ares, sua mente viaja, e sua alma dorme"
O carro ia ganhando velocidade gradualmente conforme a pista. Eu podia sentir o cheiro do pneu sobre o asfalto quente. As grandes montanhas bloqueavam o sinal do meu celular, me impedindo de navegar na internet. O que eu podia fazer era ouvir música. E era o que estava fazendo. A música era a única coisa que me deixa verdadeiramente feliz. Alguns dizem que tenho o dom das mãos, que na minha família significa ter mãos abilidosas para tocar. Eu gosto de violão, mas ninguém tem uma carreira promissora tocando violão, então planejo ser bióloga, marinha de preferença. Dinho, o homem de 32 anos que sempre leva minha mãe para lugares que ela precisa ir quando não tem saco para ir de ônibus, dirigia enquanto conversava com ela ao volante, não sabia o assunto, mas nos intervalos de troca de música eu conseguia captar algo, que sempre era os perigos da juventude. Isso me causava um certo desconforto. Dinho era um cara com fama de pegador, que sempre ia á baladas e pegava todas, mas minha mãe não se importava, por que ela gosta de dar chances á pessoas que se mostram irresponsáveis, as vezes isso dá certo. Não me lembro de uma vez que vi Dinho sem seus óculos escuros, ele era moreno e os óculos o deixavam mais bonito do que já era. Eu sempre ficava corada quando ele abria a porta para nós duas entrarmos no lindo carro esportivo prata. Minha mãe estava no banco do passageiro pela falta de espaço atrás, e batucava os dedos no apoio de braço da porta, enquanto escutava a música sertaneja que tocava baixinho no carro. Desta vez íamos para Petrópolis, e para isso teríamos que passar pela Serra. Eu não gostava de lá, meus ouvidos sempre tampavam pela pressão de milhões de toneladas das montanhas de cada lado da pista. Tive que aumentar várias vezes o volume da música para superar a surdez que aumentava a cada minuto naquela prisão de pedras. Ao meu lado no banco de trás tinha uma caixa de isopor cheia de guaranás. Ficar sentada durante muito tempo doía minhas costas, então me encostei na caixa, colocando meu cotovelo apoiado nela e a mão apoiando a cabeça. E ali eu fechei os olhos, me deliciando com a posição confortável e a música que eu mais gostava. She looks so perfect da banda 5 seconds Of Summer. Era linda e elétrica, as batidas e a guitarra hipnotizava qualquer um que escutava, e me imaginava tocando aquela guitarra. Deve ser mágico. Meu corpo estava mole e eu me sentia voando. Eu me sentia nas nuvens quando escutava ela, mas tinha algo de muito estranho naquela sensação. Abri meus olhos e vi tudo em câmera lenta. Dinho estava com as duas mãos no teto do carro acima de sua cabeça, tentando se segurar enquanto gritava algo que não consegui escutar por causa dos fones. Minha mãe se agarrava a todo custo nos lados do banco, mas suas mãos escorregavam por ele ser de couro liso. E ai que percebi que eu não estava voando, mas o carro sim. Em um momento. Um momento mais rápido que eu pudera pensar que existisse, o carro saiu da pista e agora voava para o nada. Foi tudo muito devagar, e naqueles momentos longos, eu vi o desespero no rosto do Dinho, seu olhar de puro pânico e seu óculos voando pela janela entre-aberta. Minha mãe conseguiu se segurar no apoio do banco e agora gritava mais alto que ele. Estávamos a muitos quilômetros de altura, e nossa queda seria muito longa se não tivesse um barranco irregular para cairmos rolando, destroçando tudo que via na frente, várias cambalhotas sem nenhum dó. Eu via as coisas girando, e minha cabeça latejando cada vez mais, até não aguentar mais. E como uma trégua, o carro parou. De cabeça para baixo. Meu cinto me manteve no lugar, mas tinha um enorme pedaço de vidro fincado na minha coxa e outro fincado no meu cotovelo, me causando uma dor desumana. Mas percebi que essa dor era causada pelos vários refrigerantes que se abriram e agora tinham vários pedaços enfiados em várias partes da minha barriga. O cinto rasgara e eu cai de cabeça na parte da frente do carro, quebrando meu nariz. Mas paralisei com o que vi. Eu vi minha mãe, com um pedaço despedaçado de ferragem atravessando-lhe a barriga, com sua cabeça de uma forma irregular do que deveria realmente ser, estava achatada. Seu rosto todo ensaguentado me fez tremer toda, eu tentava gritar mas minha boca nem abre. Eu costumava ver filmes de terror pesados, muito acima do que minha idade permitia, mas eu não me importava, eu não tinha medo. Mas algo naquela cena me fez chorar, chorar mais do que eu pensaria em chorar em um ano. Tentei mexer o braço para sacudir-lhe e falar para parar de fingir, e falar para mim que estava tudo bem. Mas meu braço estava preso, e no fundo eu sabia que acabou ali para ela. Os cortes doíam cada vez mais, e eu me perguntava por que estava acordada. Estaria eu morta? Virei meu rosto lentamente vendo Dinho sem um braço, com o rosto muito mais ensanguentado do que de minha mãe, as ferragens atravesando-lhe em vários lugares nas pernas e barriga, pedaços de vidros enfiados em seu rosto e pescoço. Eu arregalei os olhos, aquilo era real. Não era fantasia de filme barato dos cinemas, aquilo era uma tragédia. Soltei um gemido muito longo e alto quando um dos bancos cai sobre nós quase me esmagando, se não fosse pelos outros dois impedindo de chegar até a mim. Imaginei o que aconteceria depois daquilo. Meu pai receberia um telefonema dos bombeiros enquanto trabalhava, lhe informando que sua mulher e filha tinham morrido. Ele choraria? Realmente não sei qual seria sua reação, ele sempre foi reservado. Imaginava ele em pé em nosso funeral, jogando uma flor em cada caixão, e pensando em que rumo sua vida iria tomar dali por diante. Imaginei também a família de Dinho. Será que culpariam a gente pelo acontecido? Afinal, se não fosse por nós, ele estaria em casa bebendo e fumando seu Derbe prata. Poderia ser um enterro coletivo. Imaginei meus amigos recebendo a notícia no dia seguinte. Será que eles chorariam? Me lembrei de um momento quando eu tinha 5 anos, quando prometi a minha mãe, que se era para nós morrermos no final de nossas vidas, que morrêssemos juntas, como Romeu e Julieta. Ele apenas me olhou com ternura e colocou para dormir. Agora eu cumpriria minha promessa, de uma forma inesperada, mas cumpriria. Senti um cheiro de gasolina, e eu já sabia o que aconteceria. Fechei os olhos e sorri, me lembrando dos toques de minha mãe ao pentear os meus cabelos depois do banho. Seus beliscões quando eu fazia coisa errada. O carro pegaria fogo, sabia disso por que além de eu gostar de filmes de terror, também gostava dos de ação. E nesse gênero, sempre quando um carro solta gasolina, ele pega fogo. E o calor infernal la fora não ajudaria muito. Desejei morrer ali, agora, naquele dia. Se eu vivesse, o que eu ganharia? Eu iria viver com meu pai, no bairro que ele trabalha, onde eu não conheço ninguém. Eu quero morrer. Poderei enfim descobrir o que acontece depois da morte. Mas queria ouvir um último adeus de minha mãe. Minha última palava com ela foi "Você é insuportável". Nós brigamos naquele dia. Não direcionamos nenhuma palavra uma á outra no carro, e depois de ela pegar meu notebook eu lhe falei esta frase. Ela ficou visivelmente abalada, mas eu estava em fúria, nem liguei. Agora queria mais do que tudo poder lhe pedir desculpas, e implorar por mais uma de suas broncas. Mas seria impossível. O cheiro de gasolina ficava cada vez mais forte, e eu apertava mais os olhos fechados, esperando minha carne ser queimada pelas chamas. Dei uma última olhada em minha mãe e ela estava em um sono profundo. Eu queria morrer assim, em um profundo sono interminável, se a morte for assim, eu anseio mais por isso. Ficar nesta vida, seria insuportável. Viver com essa imagem de minha mãe morta seria meu mártira. Fechei meus olhos denovo e encostei minha cabeça em seu ombro, sem ligar por ele estar coberto de sangue. Imaginei ela estar acordada aqui comigo, viva, me oferecendo seu ombro amigo, e me aconselhando. Imaginei ela sorrindo para mim enquanto acariciava meus cabelos. Imaginei a gente chegando em nosso destino, e aproveitando a viagem o máximo que pudermos. E foi imaginando isso que uma mão me puxou para fora do carro. Rasgando meu vestido que estava preso ás ferragens, me deixando semi-nua. Resmunguei para me deixarem no colo de minha mãe, e que ela não gostaria nada de me ver sendo carregada por um estranho. Mas aquele estranho continuou correndo comigo nos braços. Eu sentia meus ossos se rompendo um a um, e meu pescoço pender para o lado. Não tinha forças para me mexer. Meu corpo formigava em cada lugar em que cacos de vidro e ferragens estavam. Minha cabeça parecia que estava sendo achatada e amassada diversas vezes, uma pressão absurda que esmagava meus miolos de dentro para fora. Até que um estrondo me deixa, por um momento, esquecer de minhas dores, e prestar atenção no súbito calor que se formava no ar. Uma onda de poeira e muitas cores avermelhadas por todos os lados. Minha visão estava turva. E minha força estava se esvaindo. Mas no meu último segundo de consciência pura, uma voz grave e rouca soou em meus ouvidos. Me causando arrepios na espinha — se eu ainda tivesse espinha. Suas poucas palavras significaram muito para mim, como se preenchesse um vazio que se instalara no meu peito.
– Está tudo bem.
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