Promise

1 Promessa.


Notas iniciais
Divirtam-se!

Eram os primeiros dias de primavera. Para onde quer que se olhe veria o colorido das flores em todo canto. O céu sempre limpo e azul, as cores tão vivas, a brisa sempre presente, o aroma das ervas para fazer chá, a relva verdinha, as crianças brincando nas ruas de Cair Parável... Sem dúvida era a estação preferida dele.

Mas nessas circunstâncias todas as cores ficavam cinza ou desbotadas. De um lado, aquela viagem era a realização de um sonho, mas de outro, ele não queria deixar Cair Parável e muito menos ela... Ela era sua melhor amiga, mas isso não impediu que seu coração puro e inocente nutrisse em relação a ela um sentimento tão puro quanto. Ele sabia que ela era especial, mas sua pouca idade o impedia de saber as dimensões de tal sentimento.

O garoto de olhos negros, que mal chegara aos 7 anos, andava tristonho pelas ruas de Cair Parável, rumo ao bosque. A mãe falecera recentemente e ele estava prestes a embarcar numa viagem pelo mar junto com seu pai na missão de descobrir e mapear o que há nas águas além das Ilhas Solitárias. Seu pai lhe explicara que a viagem poderia durar anos, anos e anos, e que talvez eles nunca voltassem a Narnia, já que não sabiam o que iam encontrar, mas que seria bom ter essa experiência. Depois da morte da mulher, o pai procurava qualquer pretexto para se ocupar por um longo tempo e esquecer a dor causada pela perda, então surgiu à proposta dessa viagem.

O capitão do navio que realizaria a missão foi encarregado pelo rei a selecionar os melhores homens para navegar e o pai foi um deles. Ele aceitou no mesmo momento, mas não tinha com quem deixar seu filho, então o garoto teria que ir com ele. Eles partiriam dali a algumas horas e o menino marcara o encontro para de manhã bem cedo, na clareira onde ele costumava brincar com ela. Uma clareira pouco conhecida que ficava perto de uma cachoeira e de uma gruta; uma clareira muito curiosa que eles descobriram por acaso e que tinha, no centro, uma elevação, como uma “colina para criança”, e, no topo dessa “colina”, eles haviam plantado uma árvore, ao lado de um poste, parecido com o Lampião, mas que nunca estava aceso.

Era para a clareira que ele estava indo. Indo se despedir dela. O menino adentrou a trilha marcada pela pedra onde estava gravado o código dele usado para indicar o caminho. Olhou em volta para ver se ninguém o observava e seguiu pelo meio do bosque, fechando a cortina de folhas de samambaias que escondia a entrada da trilha. No caminho, ele ouvia apenas o som dos pássaros e do vento balançando as árvores ao roçar suas copas, ele seguiu pela ladeira que havia ali e dobrou ao lado da outra pedra marcada com o código dela, ao fim da subida; andou mais um pouco e pode ouvir o som da cachoeira, isso indicava que ele estava chegando. Andou mais rápido, ele precisava se apressar antes que desse a hora de estar no porto para embarcar.

Não demorou muito, cinco minutos depois as árvores acabaram e ele adentrou a campina de forma oval, coberta pela relva verdinha na altura dos joelhos. Subiu mais uma vez o caminho marcado pela relva achatada, sinal de que andavam por ali com frequência. Quando foi se aproximando da árvore, finalmente pôde avistá-la.

A garotinha de 6 anos estava sentada ao pé da pequena árvore, usava um vestido azul, os cabelos sempre soltos balançavam ao vento enquanto ela permanecia de cabeça baixa, brincando com as próprias mãos. Não demorou para ela perceber que ele se aproximava. A menina ergueu os belos olhos azuis claro na direção dele, ao vê-lo, seus lábios vermelhos formaram um sorriso doce revelando os branquinhos dentes de leite. Ela se pôs de pé.

- Você demorou. – falou ela, ainda sorrindo.

- Desculpe – pediu ele. – Eu estava procurando uma coisa.

- Meu pai disse que você vai viajar... – disse a menina, o sorriso se desfazendo. O garoto olhou para o chão.

- Eu vou para o mar com meu pai...

- Quando você vai voltar?

- Eu não sei. Papai disse que a viagem pode levar anos e anos... E talvez nós nem voltemos, não sabemos o que vamos encontrar por lá...

A menina baixou o olhar triste para a relva.

- Não quero que você vá. – sussurrou ela.

- Também não quero ir, mas papai não tem com quem me deixar e, além disso, ele não quer ficar longe de mim...

- Mas e se você não voltar? – os olhinhos azuis dela encaravam os negros dele, aflitos.

O menino sorriu, pegando as mãos dela.

- Vamos fazer um acordo? – perguntou ele de forma animada, fazendo-a sorrir.

- Que acordo? – os olhinhos agora estavam curiosos.

- Eu prometo que volto, mas em troca você me promete outra coisa.

- O que?

- Quando eu voltar... – ele adquiriu um tom acanhado. – Você se casa comigo.

Isso pareceu assustá-la por um momento, mas logo ela sorriu.

- Mas só se você prometer voltar! – alertou. Ele sorriu.

- Eu prometo. – garantiu. O menino soltou as mãos dela e levou-as a própria nuca, onde abriu o fecho da correntinha que trazia no pescoço, escondida dentro da camisa verde. Era uma correntinha fina e dourada cujo pingente era uma pequena pedra vermelha em forma de coração. – Esse colar era da minha mãe – continuou o menino. – E agora ele vai ficar com você, vai ser o símbolo da nossa promessa. – ela virou de costas para ele, puxando todo o cabelo por cima de um dos ombros para que ele pudesse fechar o colar em seu pescoço alvo. O sorriso voltou aos lábios da menina.

- É lindo. – disse ela.

- Agora eu tenho que ir. – falou ele.

- Espere... Quero que fique com uma coisa também. – retirou o anel de ouro de um dos pequenos dedos e entregou-o ao menino. – Vai ser o símbolo da nossa promessa, não se esqueça!

- Eu não vou esquecer. – ele garantiu. As duas crianças trocaram um abraço apertado.

- Vou sentir saudades, veja se não demora! – falou ela.

- Vou voltar assim que for possível. Você me espera? – perguntou ele olhando ansiosamente nos olhos inocentes e doces da menina.

- Claro que sim! – ela sorriu animadamente.

- Agora eu tenho mesmo que ir. Até a volta, Ana. – chamou-a pelo apelido.

- Até a volta.

Então ele voltou pelo caminho que viera, agora correndo, provavelmente estava atrasado e ouviria uma bronca de seu pai, mas não importava. Ela o esperaria e era isso o que importava. Enquanto ele se afastava, a menina foi para o outro lado da campina, através de um atalho que descobrira para voltar a cidade e apressou-se para chegar ao cais antes do navio zarpar.

Ele correu, correu até chegar ao porto cheio de gente. Com um pouco de dificuldade, ele atravessou a multidão rumo à rampa que levava ao navio, a maioria dos marinheiros já haviam embarcado, apenas o pai dele continuava em terra, aguardando sua chegada, o menino correu para o lado do pai e ambos embarcaram no navio, a rampa foi retirada, as velas estavam a postos e o vento começou a afastá-los da costa. Da beira do navio, o menino olhava para a multidão que acenava, procurando alguém. Ele sorriu quando viu a menina varar a multidão, parando ao lado do pai, na primeira fila, ele sorriu para ela que retribuiu e acenou, recebendo o aceno dela de volta.

A garotinha que prometera esperá-lo, acenando do cais para ele, à medida que o navio se afastava. Como previsto, a viagem durou anos e durante todo esse tempo, era essa a ultima lembrança que ele tinha dela.

Notas finais
Que tal? Reviews!
Beijokas!!