Prometida a um Assassino
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Quando eu percebi que Jacob estava bêbado, já era tarde demais. Logo ele estava deitado de barriga para baixo em cima de seu vômito, inconsciente em meio aos gritos e exclamações de nojo ao seu redor. Eu poderia muito bem pestanejar ao ver aquela situação, mas na verdade me foi incrivelmente conveniente. Com a desculpa de ter de levar meu amigo chapado de volta para casa, empurrei o idiota insistente que estava dando em cima de mim e me espremi pelo meio de várias pessoas até chegar à cena do crime. Ignorando os olhares curiosos que nos rodeavam, tentei levantá-lo sem vomitar também, o que necessitou uma enorme força de vontade.
—Você é tão linda, Amélia. – Ele disse, embriagado, enquanto eu me esforçava para arrastá-lo para longe da multidão. Suas palavras estavam atropelando umas às outras e ele mal abria a boca para falar, o que foi um alívio, devido ao seu hálito de álcool. – Eu até lhe daria um beijo se eu não estivesse coberto de vômito.
Dei uma risada com o nariz. Ele devia estar muito bêbado mesmo.
—Obrigada pela consideração. – Respondi, debochando dele. Rindo, continuei: — Se você se lembrar de ter me dito isso amanhã, vai ter que viver com o arrependimento pelo resto da vida. — Ele não respondeu. Ao menos nada que eu entendi.
Logo chamei um táxi. Nós dois morávamos no máximo à dez minutos à pé do clube, porém dez minutos é uma eternidade quando se está carregando um rapaz de um metro e setenta e cinco de altura com potencial de vomitar a qualquer momento. O veículo chegou bem à tempo, pois segundos após eu lhe ter jogado no banco de trás, Jacob adormeceu. Sentei-me ao seu lado e apoiei a sua cabeça no meu colo, ciente do risco que o meu vestido novo corria. Entre o risco de vômito nas minhas roupas e o cheiro de cigarro e maconha do taxista, eu escolheria o vômito qualquer dia.
Em menos de cinco minutos, chegamos ao meu bairro. Pedi que o taxista nos largasse na frente da minha casa, e ele logo o fez. Eu sabia muito bem o perigo que Jacob correria se chegasse em casa bêbado às três e meia da manhã, assim como o perigo que eu correria ao carregá-lo inconsciente e coberto de vômito até o seu quarto no meio da noite. Com isso, minha melhor opção era deixá-lo dormir na minha casa durante aquela noite.
Percebendo a minha dificuldade, o taxista maconheiro, um homem que aparentava ter uns quarenta anos com mais cabelos nas mãos do que na cabeça, logo se ofereceu a me ajudar a carregá-lo para dentro, o que eu aceitei prontamente, ciente de meus braços fracos. Juntos, o levamos até o meu quarto e o largamos com cuidado na minha cama, onde ele logo se acomodou em meio aos travesseiros.
Dando-lhe uma bela gorjeta, paguei o taxista e o botei para fora, tentando fazer o mínimo barulho possível. Além de Jacob, que jazia confortavelmente em cima da minha cama, minha tia também estava dormindo em seu quarto. Assim que o homem foi embora, subi para o segundo andar novamente e apanhei uma toalha que logo umedeci, retornando imediatamente ao meu quarto.
Limpei o rosto de Jacob cuidadosamente com a toalha até que estivesse razoavelmente limpo. Depois, com cuidado de não acordá-lo, retirei sua camisa suja e a joguei para longe imediatamente, enojada. O cobri com meu edredom para que não tivesse frio e logo procedi a me trocar também.
Meus pés, exaustos assim como o resto do meu corpo, exaltaram quando eu retirei os meus sapatos de salto. Checando para ter certeza de que Jacob estava desacordado, logo retirei o meu vestido de festa claustrofóbico e o troquei por uma camiseta larga extremamente confortável e shorts de dormir. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo solto, com medo de agravar ainda mais a minha dor de cabeça, e retirei o excesso da minha maquiagem com um lenço umedecido, com preguiça demais para lavar o meu rosto.
Ponderei um pouco sobre onde deveria dormir, e logo optei pelo sofá, que ficava debaixo da minha janela. Dormir ao lado de Jacob na minha cama, embora confortável durante a noite, traria enorme desconforto de manhã. Além da possibilidade de ele regurgitar em cima de mim.
Apaguei a luz do teto e acendi a do abajur, que ficava logo ao lado do sofá onde eu logo me deitei, gemendo um pouco com desconforto. Meu corpo, porém, estava cansado demais para sequer mudar de ideia e se locomover de volta para a cama, então ali fiquei.
Olhei para Jacob, dormindo tão pacificamente na minha cama, e sorri, revirando os olhos. Ele teria muito do que me agradecer de manhã, quando eu acordasse com uma câimbra nas costas e enormes olheiras. Uma mecha de seus cabelos castanhos caía por cima de seu rosto, que estava completamente sereno. Seus braços, posicionados relaxadamente por cima de seu estômago, pareciam mais definidos com a luz vinda do abajur. Seu rosto calmo me parecia estranhamente bonito, talvez devido à pequena quantidade de álcool que eu também havia ingerido. Seus cílios eram escuros, seus lábios eram vermelhos e o seu nariz era definido, mas não grotesco.
Observei a face de meu melhor amigo por mais alguns minutos, ou talvez segundos, e logo caí no sono, não dando conta de apagar a luz do abajur.
***
Quando eu acordei, percebi que estava deitada na minha cama. Abrindo os olhos com relutância ao sentir a luz do sol me cegando, procurei por Jacob. Ele logo saiu do banheiro com uma toalha jogada por cima do ombro e os cabelos úmidos.
—Bom dia. – Ele disse, de volta ao seu estado sóbrio e calmo. Passou a secar os cabelos com a toalha e eu logo me peguei olhando para o seu torso nu, mudando o meu olhar imediatamente para o chão.
—Como é que eu vim parar na cama? – Perguntei, embora já tivesse uma ideia da resposta. Ele deu um sorriso de lado enquanto dobrava a toalha, parecendo muito concentrado.
—Você achou mesmo que eu iria deixar você dormir no sofá enquanto eu durmo confortável? – Ele perguntou, num tom de brincadeira com uma pitada de agressividade. – Acordei às cinco e meia da manhã com uma enxaqueca terrível, vi você deitada no sofá e te carreguei até a cama. – Ele me olhou e eu encarei aqueles olhos castanhos de volta, olhos que me encaravam de uma maneira tão familiar, e logo me senti desarmada. – Obrigada por cuidar de mim ontem, Mel.
—É simplesmente a minha responsabilidade como sua melhor amiga. – Respondi. Um sorriso meio triste pareceu passar por sua boca, mas foi embora tão rápido quanto apareceu.
—Quando é que você vai entender que sou eu que tenho que cuidar de você? – Ele logo retrucou, rindo, enquanto se sentava na beirada da cama. – Eu sou mais velho que você, Mel, e é a minha responsabilidade te proteger.
—Você só é três anos mais velho! – Retruquei indignada, embora não surpresa. No dia em que Jacob não bancasse o irmão mais velho durão seria o dia em que o mundo viraria de cabeça para baixo.
—Não importa. – Ele respondeu muito sério, apoiando uma mão na minha perna. – Além do mais, eu tenho o dobro da sua altura.
—Como é?!
Ele riu. Seu sorriso era perfeito, seus dentes brancos e alinhados, e sua risada era contagiante. Como se em transe, comecei a rir também. Ele me olhou novamente com aquele seu olhar especial, e senti meu rosto ferver. Por que ele tinha de ser tão lindo?
—Mel... – Ele começou, hesitante, enquanto passava a mão pela minha perna de forma distraída. – Como está a tia Rose? – Arrepios percorreram o meu corpo inteiro com esta pergunta e ele logo percebeu, dirigindo um olhar preocupado para mim, sem dizer mais nada.
—Ela vai ficar bem. – Eu respondi depois do que me pareceram vários minutos. Na verdade, eu estava falando isto mais para mim do que qualquer coisa, na esperança de que se eu repetisse o suficiente, acabaria se tornando realidade. – Ela vai ficar bem.
Uma coisa que eu sempre apreciei em Jacob era o fato de ele saber exatamente quando ficar calado. Naquele momento ele não disse uma palavra sequer, somente permaneceu ali comigo, acariciando a minha perna enquanto o silêncio trazia conforto e engolfava a dor. Outra coisa que eu sempre adorei nele é a sua habilidade de dizer as coisas certas nos momentos certos; ele sabia exatamente como me fazer me sentir melhor.
—Sua tia é forte, sempre foi. Ela vai sobreviver isso... Eu sei que vai. – E essas palavras foram o suficiente.
***
Nós dois logo descemos para tomar café. Nunca fui muito esfomeada logo de manhã, mas Jacob possuía o talento de comer dois potes de cereal inteiros em menos de cinco minutos no café da manhã. O forcei a se sentar na mesa enquanto eu preparava a sua comida, o que foi quase impossível, e logo lhe trouxe um pote de cereal e um prato com ovos mexidos e bacon, que ele devorou alegremente com um copo de café com leite para acompanhar.
—Vai com calma! – O repreendi, embora estivesse rindo. – Vai ficar com dor de barriga.
—Eu tenho um estômago de aço. – Ele respondeu de boca cheia, dando tapinhas na barriga para representar.
—Depois não diga que eu não te avisei.
—Pode deixar. – Ele tomou um belo gole de seu café, seu pomo-de-Adão subindo e descendo. -Como estão os seus projetos? Já conseguiu terminar? – Ele se referia aos meus trabalhos escolares da faculdade, cujo haviam me dado uma quantidade desnecessária de estres nas últimas três semanas.
—Não... Mas estou quase lá! – Vejo a expressão de desaprovamento na face dele e logo sinto a necessidade de me explicar. – Só faltam alguns ajustes, é só. Eu acabei gastando muito tempo pesquisando, o que logo me deixou com pouco tempo para o projeto em si.
—Sobre o que era o seu projeto, afinal?
—Sobre... os gases nobres da tabela periódica. – Eu era péssima em mentir. Naturalmente, Jacob sabia muito bem quando eu estava falando a verdade e quando estava mentindo, e uma de suas sobrancelhas logo se levantou.
—Gases nobres, é? – Perguntou, desconfiado. – E desde quando você gosta de química?
—Desde agora, ué. – Uma tática que funciona muito bem é evitar que a pessoa para quem você está mentindo possa ver o seu rosto, ou pelo menos eu achei uma excelente ideia. Então, logo arranquei o prato de Jacob de perto dele e rumei para a pia o mais rápido que pude, fingindo estar realmente interessada em lavar louça. Infelizmente, ele me seguiu.
—Mel. – Ele usou seu tom sério novamente, o que me fez suspirar. Eu nunca aprendi que era impossível esconder algo deste menino. Olhei para ele com relutância, e ele estava me encarando de sobrancelhas franzidas e braços cruzados, apoiado na moldura da porta. – Sobre o que é o seu projeto?
—Sobre keyloggers. – Desisti. Parei de fingir lavar a louça e simplesmente esperei por sua reação, que foi extremamente atrasada. Ele me olhou incrédulo, e pude ver uma nota de desapontamento em seus olhos. Várias vezes ele abriu a boca para falar e nada disse, até que finalmente pareceu formular uma resposta.
—Amélia, você está mexendo com essas coisas de novo? – Seu tom não era tão repreendedor quanto era preocupado, e logo percebi que ele não estava de brincadeira pelo fato de ter me chamado pelo meu nome completo. Não o respondi, simplesmente balancei os ombros e voltei a lavar os pratos infeliz. – Você havia me prometido—prometido à sua tia—que não iria mais fazer isso!
—Eu não sou mais como antes! – Choraminguei, falando com urgência. Não suportava ver aquele olhar de desapontamento em seus olhos. – Eu não faço mais aquilo, estou só continuando minhas pesquisas! Você sempre soube como eram importantes para mim. – Estas palavras pareceram mexer com ele, pois ele baixou os olhos para o chão, aparentemente sem saber o que retrucar. Eu comemorei muito cedo, porém; ele logo continuou sua persuasão.
—Mel... Me prometa que nunca vai voltar a fazer aquilo. – Ele segurou os meus ombros e me virou na direção dele, me forçando a o olhar nos olhos. – Me prometa que isto é só pura pesquisa, como você está sugerindo. Prometa.
—Eu prometo. – Respondi, e estava falando a verdade. O que estava no meu passado continuaria lá, enterrado o mais fundo possível para que eu tivesse certeza de que eu nunca seria levada à tentação. O que eu fiz, por mais que mascarado por boas intenções, era errado, e eu nunca mais o faria.
Jacob pareceu relaxar com a minha resposta, seu olhar se tornando mais calmo imediatamente. Ele sorriu aliviado para mim e logo largou os meus ombros.
—Tá, agora sai pra lá. – Ele disse, descontraído, após alguns instantes. Me empurrou para longe da pia e logo começou a lavar a louça por mim. – Você não tem o direito de lavar os meus pratos.
—Você é impossível. – Respondi, revirando os olhos e rindo. Enxuguei as mãos no pano de prato e o assisti por alguns instantes, até me dar conta de algo. – Ah, Jacob... Já volto. Vou fazer uma ligação. – Ele não pareceu dar muita atenção, concentrado nos pratos, então usei a minha deixa para ir para o andar de cima, digitando o número telefônico o mais rápido que podia e fechando a porta do meu quarto.
Ouvi o toque algumas vezes, e logo um rapaz atendeu o telefone.
—Obrigado por ligar para o Hospital Merrywood, como posso lhe ajudar?
—Olá! Meu nome é Amélia Brooke. Eu liguei ontem à tarde para falar com o Dr. Richards. Será que ele estaria disponível agora? – Falei o mais baixo que pude sem sussurrar, para que Jacob não me ouvisse do andar de baixo. Ouvi o rapaz digitar em um teclado do outro lado da linha, e ele logo respondeu.
—Acabei de confirmar que o Dr. Richards está disponível para atender a sua ligação. Vou passar você para o escritório dele. – Ele disse, e tive de me conter para não pular de alegria. Havia ligado quase todos os dias durante uma semana inteira, e finalmente seria atendida.
—Muito obrigada! – Disse, e logo ouvi a musiquinha de espera. Esperei por minutos que me pareceram horas, mas logo alguém atendeu o telefone.
—Dr. Richards, como posso lhe ajudar?
—Olá, doutor! Meu nome é Amélia Brooke. Eu lhe enviei uns exames algum tempo atrás e você me instruiu que lhe ligasse aproximadamente uma semana depois para saber dos resultados. – Disse rapidamente, meu coração batendo rápido. Tive medo de que ele o pudesse ouvir.
—Ah, sim, Srta. Brooke. – Ele me reconheceu, e o ouvi mexer em alguns papéis rapidamente. – Dei uma olhada nos exames que você me mandou... Receio lhe informar que o caso da sua tia é mais sério do que eu imaginava. – Neste momento, o meu coração pareceu bater no meu estômago. Tentando me manter calma, esperei ele continuar. – O câncer dela está na fase dois, o que significa que está se espalhando rapidamente pelos seus órgãos. Nesta fase, sugerimos que você a traga de imediato para que possamos tratá-la e para que iniciemos o processo de quimioterapia.
Por mais que eu já esperasse por essa informação, recebê-la diretamente de um profissional foi como uma facada no coração. Tive de me apoiar na cômoda para que não desabasse no chão. Segurando as lágrimas, tentei falar com a voz mais forte o possível.
—Se me permite perguntar, doutor... Qual é uma estimativa do valor deste tratamento? – Minha voz estava trêmula, assim como o resto do meu corpo. Respirei fundo, esperando a resposta.
—Uma estimativa seria de 20 à 30 mil dólares por ano de tratamento e terapia. – Ele respondeu de forma casual. Levei o meu celular para longe do meu rosto, tapando o microfone.
20 à 30 mil dólares... Uma quantidade de dinheiro absurda que eu era incapaz de obter rápido o suficiente. Há um ano atrás, 30 mil dólares seriam fáceis de se conseguir. Agora, porém, seriam impossíveis. Senti um lágrima quente escorrer pelo meu rosto, enquanto a voz do Dr. Richards chamava por mim do meu telefone.
—Me desculpe, doutor... – Eu finalmente disse, secando as lágrimas com a parte de trás da mão. – Eu não tenho condições de obter esse tratamento no momento. Muito obrigada por tudo.
—Sim, sim, claro... – Dr. Richardson pareceu hesitante do outro lado linha, mas logo continuou. – Bem, se mudar de ideia, a nossa oferta ainda está de pé. Podemos iniciar o tratamento imediatamente, e a senhorita nos pagaria assim que pudesse.
—Muito obrigada mesmo, doutor, mas eu não me sinto confortável carregando um débito. Se algo mudar, prometo que lhe farei uma ligação. – Respondi, apertando a ponte do nariz com força, tentando acalmar a dor de cabeça que estava brotando.
—Como quiser, Srta. Brooke. Não hesite em me ligar assim que mudar de ideia. Tenha um bom dia.
—Um bom dia para o senhor também. – E desliguei, sentindo um vazio enorme dentro de mim. Aquela era a minha última esperança, por água à baixo. Num ataque de raiva, joguei o meu telefone longe.
As lágrimas haviam parado de vir. O que estava brotando no meu peito então era uma raiva descontrolada. Raiva de mim mesma por não ter conseguido um trabalho, por não ter conseguido dinheiro. Raiva do hospital capitalista por não oferecer tratamento público. Raiva do universo por escolher a pessoa mais humilde, mais gentil, mais caridosa do mundo para punir. Não era justo. Não era justo.
Antes que eu pudesse começar a esmurrar tudo ao meu redor, uma batida na porta me trouxe de volta à Terra. Nem tive tempo de abrir ou de gritar para que fosse embora e Jacob entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.
—O que houve? Mel..
—Nada! Não houve nada, Jacob! – Gritei com ele, embora eu soubesse que ele não tinha culpa do que estava acontecendo. Por outro lado, eu estava com muita raiva para discernir entre o certo e o errado.
—Calma! Mel, fique quieta. – Jacob tentou me acalmar, sentando-se ao meu lado com uma expressão alarmada e preocupada. – Sua tia ainda está dormindo... Me diga o que houve, por favor.
—30 mil dólares! – Choraminguei, deixando a raiva de lado temporariamente. Ele me olhou, confuso, me forçando a elaborar. – Aquele hospital de merda cobra 30 mil dólares para o tratamento. – Uma lágrima ameaçou cair novamente, mas desta vez eu a segurei com todas as minhas forças.
—Você conseguiu falar com o doutor? – Ele perguntou, e imediatamente pareceu entender. Logo, se aproximou de mim na cama e me puxou para um abraço, o qual eu retribuí prontamente. Assim que ele começou a passar as mãos pelos meus cabelos, a vontade de chorar veio à tona com mais força. – Vai ficar tudo bem, eu te prometo. – Ele disse baixinho no meu ouvido, e eu quase acreditei.
Jacob havia sido meu melhor amigo desde a infância, e ele esteve comigo pelos altos e baixos da minha vida. Até agora, eu havia passado por três momentos significantes, pontos extremamente baixos da minha vida, que eu tenho certeza de que eu não teria sobrevivido sem a ajuda dele. O primeiro foi a morte dos meus pais. O segundo foi o período pelo qual eu havia passado um ano atrás, no qual eu fiz coisas das quais me arrependo. O terceiro foi quando eu descobri que minha tia, a única pessoa da minha família que me sobrava, tinha câncer. Jacob esteve comigo durante todos aqueles momentos, me ajudando e me aconselhando, e eu não podia querer um amigo melhor. Ele podia não saber muito bem como organizar a sua própria vida, mas ele era ótimo com a vida dos outros.
—Não vamos falar mais sobre isso. – Ele finalmente disse, depois de minutos nos quais ficamos abraçados em silêncio. Ele levantou o meu rosto para poder me olhar melhor, e limpou as lágrimas das minhas bochechas. -Não quero lhe ver sofrer. Não pense sobre isso mais do que necessita. Sua tia precisa lhe ver forte para que ela consiga repôr suas forças também. Então, quando ela acordar eu quero que você dê o seu maior sorriso, e seja a sobrinha alegre que ela tanto ama.
—Eu não sei o que eu faria sem você, Jacob. – Eu disse, o abraçando novamente. Levantando o rosto, sorri para ele. – Você é realmente incrível. – Por um momento, pensei que ele corou com as minhas palavras. Porém, ele logo sorriu, sem graça, passando os dedos pelos cabelos enquanto se levantava da cama.
—Faz parte do meu trabalho de melhor amigo. – Ele brincou, se dirigindo até a mesinha de canto, onde ele havia deixado o seu celular. Ao encontrá-lo, porém, ele percebeu a presença de outra coisa apoiada ali.
—O que é isto? – Ele perguntou, abanando um envelope que eu logo reconheci como o convite para a festa dos Elswoods.
—Nada, só um convite para uma festa qualquer. – Respondi, sem dar muita atenção. Jacob, porém, abriu o envelope e leu a carta que estava dentro, sua expressão se tornando mais chocada a cada segundo.
—Uma festa qualquer?! – Ele repetiu, incrédulo. – Mel, isto é um convite para um baile na mansão da família Elswood!
—E daí? – Perguntei, achando a sua reação um pouco cômica. – Recebi ontem e simplesmente assumi que era algum tipo de engano.
—Engano? Tem o seu nome escrito aqui! – Ele apontou para a folha de papel. – Mel, você tem que ir nesse baile!
—Por quê? É só um baile formal, o que tem de tão interessante para mim lá? – Eu não estava com a mínima vontade de comparecer, na verdade. Nunca fui muito fã de festas, ainda mais as que são repletas de gente que eu não conheço. Para Jacob me convencer de ir na festa da noite anterior, teve que lutar muito com ajuda do seu poder da persuasão.
—Mel, você não está entendendo. – Ele se aproximou de mim, parecendo não acreditar que eu pudesse não querer ir à um evento como aquele. – Os Elswoods são podres de ricos! Imagina o que pode acontecer se você comparecer à esta festa!
—O que você está sugerindo? – Franzi as sobrancelhas, arregalando os olhos. – Você quer que eu roube deles?!
—É claro que não! – Ele riu, provavelmente me achando muito estúpida no momento. – Mel, a melhor forma de se conseguir dinheiro rápido e de forma legal é se relacionando com pessoas que já têm muito dinheiro. Pessoas poderosas, pessoas influentes. – Ele pausou para ter certeza de que eu estava acompanhando. – Além do mais, você não está curiosa para saber o porque dos Elswoods terem lhe convidado para a festa deles?
—Bem... sim. – Concordei, desistindo. Ele tinha um bom ponto. Se eu fosse, poderia conseguir alguns contatos importantes, além de satisfazer a minha curiosidade. – Está bem, eu vou. Mas só se você vier comigo!
—Acho que não. – Jacob ri, sentando-se novamente ao meu lado. – Eu não recebi nenhum convite, e não diz em lugar nenhum aqui que você deve ir acompanhada. Vou ficar satisfeito em simplesmente ouvir você me contar tudo quando voltar.
—Pode deixar. – Disse, pegando o convite da mão dele e relendo-o pela vigésima vez. – Eu não tenho nenhum vestido de gala, mas aqui diz que se eu enviar o meu R.S.V.P eles podem me mandar um para que eu possa vestir no dia da festa...
Me levantei e fui em direção à minha escrivaninha, apanhando uma caneta e uma folha de papel. Eu não fazia ideia do que escrever nesta carta, mas tinha certeza de que não podia ser tão difícil. Teria que soar como se eu estivesse honrada em ser convidada, e que estaria mais do que grata em receber um vestido para a festa. Algumas tentativas depois, finalmente consegui escrever uma carta razoável, com a ajuda de Jacob.
“Querido Sr. Byron,
Eu primeiramente gostaria de agradecer ao Sr. Elswood por me convidar à sua festa de gala. Estou realmente lisonjeada. Receio que não possuo nenhum vestido de gala apropriado, então ficaria grata de receber o que me oferecem.
Atenciosamente,
Amélia Brooke.”
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