Notas iniciais
Boa leitura

Mire bem.

Uma hora, você acertará.

É sua primeira vez.

Não fique com raiva se errar.

Uma hora, querida, você conseguirá.

A voz de meu pai ressoava em minha mente. Ele, era um arqueiro exímio. Nada mais justo que sua filha ser também. Porém, a cada dia que passava, eu me convencia que não tinha jeito para isso.

Levante o braço, menina.

Veja a pessoa que você mais odeia naquele alvo.

A pessoa que mais odeio. Me mirar naquele alvo? Acho que era algo impossível. Melhor parar de treinar por hoje. Tenho certeza que amanhã será um dia melhor. Até porque, o dia de hoje está bem nublado, e está dificultando a minha visão. Guardei o arco e a flecha. Ergui meu capuz, para ninguém me reconhecer.

Juntei minhas coisas e saí, andando de cabeça baixa. Na sociedade em que vivo, uma mulher saindo sozinha de uma floresta, era motivo de comentários. Por isso, eu era cuidadosa, pois minha família tinha que evita escândalos. Apesar de minha mãe apoiar minha decisão de ser Arqueira, eu ainda tinha que lidar com alguns comentários inoportunos.

As pessoas – principalmente da minha vila – adoram julgar as atitudes dos outros, sem ao menos saber a verdade. E, foi por conta de um desses julgamentos, que minha família desmoronou. Meu pai, era um exímio arqueiro, como eu já disse, um dos homens de confiança do rei. Porém, em uma noite fria do inverno, um homem – desconhecido – foi encontrado morto na floresta. Na floresta que meu pai costumava treinar.

O burburinho começou. O homem, um galês de índole duvidosa, tinha uma flecha cravada em seu peito. Era para matar. E, o único arqueiro da região, era o meu pai. Claro que a culpa recaiu sobre ele. Apesar de meu pai alegar inocência, a denúncia feita pela mulher do galês ao rei, tornou as palavras dele em uma mera tentativa de ser inocentado. O rei, estava descrente da culpa de meu pai, mas à pressão popular fez com que ele condenasse meu pai. Duas semanas depois, meu pai estava pendurado em praça pública, morto. Eu tinha dez anos na época.

Depois da morte de papai, a nossa vida foi de mal à pior. Perdemos a nossa única fonte de renda, e ainda fomos excluídos da sociedade, por sermos a família de um assassino. Mamãe sofreu demais, ela havia acabado de dá à luz. Ela lutou, e começou a tecer. Como ninguém me conhecia, eu passei a vender tudo o que minha mãe fazia. E assim, sobrevivemos.

Meus pais tiveram quatro filhos: Eu, a mais velha e a única menina. Os gêmeos Ian e Benjamin vieram logo depois, e por último, veio Roger. Eu fui a única a me interessar por arco e flecha. Minha mãe no início, ficou com medo e até tentou me impedir. Porém, minha força de vontade, a fez permitir. Mas, tinha uma condição: Eu não revelaria a ninguém minha identidade real. Toda vez que fosse treinar, tinha que usar com um capuz. Esconder que eu sou filha de um homem, considerado assassino, já era difícil, imagina esconder que eu estou seguindo os passos desse homem?

Por isso, quando andava pelas ruas, tomava cuidado. Sempre puxava um pouco o capuz. Eu sentia o olhar das pessoas sobre mim, mas fingia não me importar. A vila em que moro, é agitada, principalmente pela fama que produzimos incríveis tecidos. Era um pouco difícil me esconder, mas eu sempre dava um jeito. Porém, no dia de hoje, eu não contava com uma pessoa em especial. A mulher, apesar de jovem, tinha uma fama que atravessava todos os sete reinos. De cabelos loiros como o trigo, e olhar escuro, como o de um felino pronto para dar o bote. Dona da barraca de especiarias, a mulher sabia da fama de todos dessa vila – até fora dela – e usava isso como artifício para a conseguir algo. Tenho que tomar cuidado com ela. Apesar de estar sorrindo para mim, aquela mulher era extremamente falsa. Tentei passar despercebida pela sua barraca, mas a mulher tem olhos de águia.

- Senhorita! – Ela gritou, acenando para mim.

Por mais que eu quisesse ignorar, um escândalo no meio da vila era o que menos precisava agora. Relutante, eu fui até a barraca.

- Boa tarde, senhora Thompson. – Falei, calmamente. – Como vão seus filhos?

Tudo bem, isso não foi uma boa artimanha. Do jeito que a mulher gosta de falar, ficarei aqui a tarde toda. Seus olhos brilharam quando falei a palavra “filhos”. Sei que é ela é fofoqueira, mas parece amar seus filhos.

- Vão bem, minha querida. Principalmente minha filha mais velha, Valeria. Depois das notícias vindas do castelo, toda jovem dama deve estar!

Franzi o cenho. Não estava sabendo de nada, também, moro no fim do mundo.

- Que notícias? – Perguntei, curiosa.

A mulher abriu um enorme sorriso, quase pulou de alegria. O que estava havendo?

- O vidente do rei! Viu que o príncipe se casará com uma jovem do povo. Uma jovem muito bela, mas, com uma peculiaridade, incomum as mulheres: A coragem. Segundo o vidente, o amor dos dois será a primeira vista, e que juntos, eles trarão muita prosperidade ao reino.

Hum... Dessa eu não sabia. Não sei porque ela está feliz, afinal, Valeria era mais frouxa que um cachorro perdido.

- Puxa. E ele disse quem é a moça? – Apesar de não me importar com a nobreza, estava curiosa sobre essa visão.

- Não. Mas, ele disse que o príncipe saberá quem é ela. Ele disse aparecerá muitas charlatonas, mas o príncipe não irá se enganar com nenhuma delas. Ele disse que o príncipe e a tal jovem, estavam destinados a ficarem juntos, antes mesmo de nascerem.

- Santo Deus! – Exclamei.

A mulher assentiu.

- Pois é, minha querida. Só sei que o rei está louco para saber quem é a tal jovem.

Concordei com a mulher. Eu queria encerrar logo essa conversa, peguei um vidrinho de tempero e peguei algumas moedas em minha bolsa. Entreguei a mulher. Me despedir dela, e fui para entrada da vila.

Apesar de termos uma entrada direto para a floresta, seria muito suspeito se alguém me visse entrando ali sozinha. Moça solteira, na floresta, sozinha... Meu nome cairia na boca do povo. Como disse, tenho que evitar escândalos. Na entrada entrada vila, temos um caminho para a floresta, bem discreto, um pouco menos movimentado do que o outro, mas mais seguro para mim. Hora de ir para casa.

Notas finais
Até mais
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.